PERGUNTE E RESPONDEREMOS 516/junho 2005

Teologia

Relendo a história:

 

"OS HOMENS VIVERIAM MELHOR SEM CRENÇAS RELIGIOSAS"

(em VEJA)

 

Em síntese: A Religião ou ligação do homem com Deus é elemento essencial na formação e na vivência da pessoa humana, que foi feita para o Infinito e não repousa enquanto não se volta para ele. Há, porém, concepções religiosas errôneas que deturpam o comportamento humano e não podem ser tidas como paradigma para se avaliar a Religião.

*   *   *

A revista VEJA, edição de 23/06/04, publica as respostas de importantes personalidades a cem questões da atualidade. Nesse contexto encontram-se afirmações sobre o papel da Religião na história da humanidade, que merecem especial atenção. Pelo quê vão abaixo transcritas para ser comentadas.

 

1. As declarações em foco

Eis os segmentos da pesquisa que nos interessam:

44. por que as religiões, tidas como elementos de comunhão com deus, acabam sendo fatores de divisão entre os povos da terra? As religiões pregam a comunhão dentro dos próprios limites. E promovem a separação em relação às demais religiões. É claro que as pessoas também se dividem em torno de crenças políticas e ideológicas. Mas, quando tratamos de crenças políticas, podemos ao menos discuti-las. Com a religião não é assim. Por definição, a religião é baseada na fé. Você apenas diz: "Eu acredito porque acredito". E logo surgem aqueles que acrescentam: "Se você acredita em algo diferente, então vou matá-lo".

45. o instinto de preservação não deveria impedir que as pessoas se matassem por razões como as religiosas? Sim, mas porque os homens-bomba acreditam que irão para o paraíso - e porque a vida deles geralmente é miserável - o suicídio se torna um comportamento racional. Se pudéssemos abolir a religião ou convencer as pessoas de que suas religiões são ilusões, provavelmente não teríamos mais atentados suicidas.

37. o fanatismo pode ser considerado a principal raiz daameaça terrorista no mundo atual? Pode. O terror prospera nas sociedades com muita pobreza e injustiça, mas o grande mal é o fanatismo. O fanático é, essencialmente, alguém que deseja impor sua crença aos outros, não importa como. A religião enseja uma forma de fanatismo, mas não é a única. Tenho visto fanáticos de muitos tipos e cores: vegetarianos capazes de devorar vivos aqueles que comem carne ou antitabagistas que fariam o mesmo com um fumante. Conheço ainda pacifistas que dariam um tiro na cabeça de alguém que ousasse defender diante deles outro meio que não a paz para resolver conflitos. É possível achar o fanatismo mesmo nas sociedades mais ricas e informadas.

Tais afirmações sugerem algumas reflexões.

 

2. Comentando...

Distinguiremos a Religião como tal e as caricaturas da Religião.

2.1. A Religião como tal

Religião é a re-ligação do homem com Deus, o Infinito, o Absoluto. Todo ser humano tem a sede do Transcendental, pois tudo o que lhe ocorre no mundo visível é exíguo demais para ele. Auscultando-se a si mesmo, o homem procura no Além a resposta para seus anseios. Essa procura não é cega nem meramente emocional, mas é uma atividade do intelecto, a mais nobre de todas, ou a que mais corresponde à dignidade humana.

Mas não seria essa procura uma ilusão? Haverá, de fato, um Infinito ou Absoluto que lhe responda? - Sim, existe, pois se trata de um anseio congênito ou natural, não dependente do tipo de educação ou de cultura do indivíduo. Assim como existe a luz que corresponde aos anseios do olho, existe o som que responde aos anseios do ouvido, existe o ar que responde aos do pulmão, assim também existe o Absoluto ou Deus, que corresponde aos desejos mais profundos e genuínos do ser humano. Caso não exista, o homem vem a ser um absurdo colocado no mundo harmonioso; seria o ser mais nobre e mais desastrado, porque sua demanda mais íntima seria um clamor sem resposta, cercado de binômios harmoniosos.

O encontro com Deus na Religião tem produzido frutos valiosos para a história da humanidade: coíbe os vícios e impele à prática das virtudes. É a Religião que incute a dignidade de todo ser humano, especialmente a da mulher, rejeita a escravatura, estimula no combate contra o mal moral... Por isto não é válido dizer que a humanidade sem religião viveria melhor; basta considerar o mundo atual: afastando-se de Deus, é cada vez mais inquieto e desorientado. Sem Religião, o homem contemporâneo se desmantela, como bem observava Carl Gustav Jung:

"Entre todos os meus doentes na segunda metade da vida, isto é, tendo mais de trinta e cinco anos, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse constituído pela questão de sua atitude religiosa. Todos, em última instância, estavam doentes por ter perdido aquilo que uma religião viva sempre deu a seus adeptos, e nenhum se curou realmente sem recuperar a atitude religiosa que lhe fosse própria".

Acontece, porém, que tudo o que é humano está sujeito a distorções. Também a Religião, como será dito a seguir.

2.2. Caricaturas da Religião

Consideraremos três modalidades de deformação: 2,2.1. Fanatismo

A palavra "fanatismo" vem do latim fanum, templo. Fanaticus, para os romanos, era o indivíduo relacionado com o fanum ou templo; aos poucos o vocábulo passou a designar o sacerdote que praticava a adivinhação e proferia oráculos em transe e excitação nervosa. Assim foram designados os indivíduos frenéticos, excêntricos, dados a teatralidade...

Na linguagem cristã, fanáticas eram as pessoas furiosamente inflamadas por suas idéias. No século XVI os anabatistas foram tidos como fanáticos; chefiados por Thomas Münzer, empreenderam a revolta dos camponeses em 1525, pretendendo instaurar o Reino de Deus sobre a terra mediante o extermínio dos "ímpios".

No século XVII os Quakers (os que estremeciam) foram chamados "fanáticos" por causa de suas manifestações de delírio frenético. Atualmente pode-se dizer que dois traços caracterizam o indivíduo fanático.

a)  a convicção de que é inspirado ou por um ser superior ou por sua própria genialidade, de modo que ele tem certeza de estar professando a verdade;

b)  a firme vontade de impor suas sentenças, removendo todos os obstáculos que se lhe oponham.

Estes dois traços definem o fanatismo, principalmente em matéria religiosa, mas também na área da política, ... A Religião é assim desfigurada, pois o fanático é cego, deixando que o intelecto seja sufocado pelas emoções - o que é contrário à autêntica Religião.

É de notar que o fanatismo também é chamado Fundamentalismo. Principalmente nos Estados Unidos tem atuado: em 1918 a World Christian Fundamental Association (Associação Mundial Cristã Fundamentalista) pleiteou junto ao Parlamento a condenação da teoria evolucionista assim como a censura aos professores que não ensinassem ter sido o profeta Jonas tragado por uma baleia.

O fundamentalismo se atém unicamente à letra do texto bíblico, ignorando os gêneros literários respectivos. Além disto, professa seis proposições tidas como fundamentais: a inspiração verbal da Bíblia, a realidade dos milagres, o nascimento virginal de Jesus, a Divindade de Cristo, o reino milenar antes do fim dos tempos, a eternidade do inferno.

Compreende-se que tal atitude predisponha a conflitos indevidamente atribuídos à Religião como tal.

2.2.2.  Religião e Nacionalismo

Para muitos povos, a Religião é parte integrante da sua identidade nacional, de modo que o senso patriótico leva não raro a entrar em luta aparentemente religiosa, mas fortemente inspirada por razões nacionalistas. Seja citado o caso dos árabes, para muitos dos quais ser árabe e ser muçulmano são qualificações inseparáveis uma da outra.

2.2.3.  Regime de Cristandade

A Idade Média viveu o regime de Cristandade, segundo o qual toda a população desde o rei até o servo da gleba professava e vivia a fé cristã. Os valores espirituais eram altamente estimados, a tal ponto que era considerada criminosa a pessoa que os lesasse. Este modo de ver também suscitou conflitos que os próprios sábios (São Francisco, São Tomás de Aquino, São Boaventura...) legitimaram. Sejam assim explicadas a Inquisição (a qual aliás sempre foi um tribunal eclesiástico e régio) e as Cruzadas.

 

3. Conclusão

Em conclusão observamos:

1) Inegavelmente cometeram-se erros em nome da Religião. Esses erros

a)  em parte foram cometidos por efeito de paixões desregradas, às quais está sujeito todo ser humano;

b)  em grande parte foram cometidos de boa fé, com a consciência tranquila, julgando estar procedendo por santo zelo devido aos valores espirituais. O clima de Cristandade dificultava a percepção de valores fora do Cristianismo;

c)  em parte foram suscitados pela ingerência do poder régio e de interesses políticos em questões religiosas. O Estado sempre deu grande atenção à Religião favorecendo-a (a seu modo) ou perseguindo-a, ciente (o Estado) do poder das convicções religiosas aptas a levar o fiel a atitudes heróicas. A utilização da Religião com finalidades políticas foi mais e mais evidente com o passar do tempo; tenham-se em vista os processos contra os Templários e contra Joana dArc; especialmente a Inquisição Espanhola foi instrumento eficiente nas mãos do poder régio.

2. Feitas estas ponderações, deve-se dizer que a Religião é fator altamente construtivo dos indivíduos e da sociedade. Querer retirar a Religião significa achatar o ser humano, pois ele foi feito de tal modo que o homem não basta a si mesmo.

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