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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 528 – junho 2006

Sensacionalismo:

 

O EVANGELHO DE JUDAS

 

Em síntese: Foi recentemente publicada a tradução inglesa de um texto copta dito "Evangelho de Judas", que tenta reabilitar Judas: este não terá traído Jesus, mas terá executado ordem divina, que lhe mandava entregar Jesus para a salvação do mundo. - Esta tese é de origem gnóstica, não cristã. A tradição cristã, que procede diretamente dos Apóstolos, vê em Judas um traidor, que se enforcou arrependido (?) por volta de 30 e não pode ser o autor de um Evangelho escrito por volta de 150.

 

Nas imediações da Semana Santa de 2006 a imprensa noticiou um fato referente a Judas Iscariotes, que agitou o público. Vai a seguir, relatado e comentado.

 

1. O fato sensacional

 

No dia 6/4/06 os meios de comunicação anunciaram a publicação da tradução inglesa de um texto copta (língua dos antigos egípcios) dito "Evangelho de Judas", que inocenta Judas; este terá sido um dos discípulos mais chegados a Jesus, que haverá cumprido ordem divina entregando Jesus para a salvação da humanidade. Judas seria o único discípulo que conhecia a verdadeira identidade de Jesus; só fez o que o Pai do céu e Jesus lhe pediram.

 

A notícia causou estranheza, sugerindo a alguns a idéia de que estaria abalada a clássica fé cristã.

Na verdade, a notícia não tem tal alcance, como se depreenderá dos comentários seguintes.

 

2. Comentando...

 

Procederemos em duas etapas.

 

2.1. O documento

 

Na década de 1970 foi descoberto em Beni Masar (Egito) um manuscrito de 31 páginas escrito em língua copta com o título de "Evangelho de Judas". Foi traduzido para o inglês e publicado no início de 2006. O manuscrito era propriedade da National Geographic, em 2000 foi adquirido pela Fundação suiça Maecenas Foundation for Ancient Art, que iniciou a sua tradução. Acreditam os peritos que a National Geographic tenha pago cerca de US$ 1 milhão pelos direitos de publicação.

 

O autógrafo, que se perdeu, deve datar de 150 aproximadamente; só resta uma cópia em língua copta, provavelmente traduzida do original grego. Segundo o teste do Carbono 14, esse exemplar copta deve datar do ano 300 aproximadamente.

 

2.2. Valor do texto

 

O documento em foco pertence ao acervo de apócrifos de origem não cristã, ou seja, de origem gnóstica, dualista (a matéria seria má, o espírito bom). Os gnósticos disseminaram suas idéias mediante uma bibliografia de estilo aparentemente bíblico, mas posterior à literatura canônica, que data do século I. São obras que começavam a se propagar no século II.

 

Para compreender melhor o Evangelho de Judas, é oportuno lembrar que o gnosticismo valorizava a gnose (o conhecimento) como meio que possibilita ao ser humano escapar do cárcere do corpo e elevar-se ao espaço celestial. Ora em Jesus quem estava encarcerada era a Divindade; daí a necessidade de promover a libertação da Divindade presa no corpo de Jesus,... promovê-la mediante a morte de Jesus; ora Judas a promoveu entregando o Senhor aos seus adversários, obedecendo aliás a uma ordem do Pai Celeste. Assim Judas Iscariotes, em vez de merecer antipatia, merece a gratidão dos cristãos. Ele foi o mais iluminado dos Apóstolos. É de notar que, segundo o Evangelho em pauta, Jesus diz a Judas: "Tu superarás a todos eles. E sacrificarás o homem que me abriga".

 

Verifica-se, porém, que a justificativa para o procedimento de Judas está baseada em concepção gnóstica dualista, que não era compartilhada pelos judeus nem pelos cristãos (também não por Judas). Aliás tal concepção não resiste ao crivo da razão; esta ensina que nada há que seja ontologicamente mau ou mau por sua essência; o corpo humano não é cárcere, mas criatura de Deus bom, que espelha sua sabedoria na perfeição do corpo humano.

 

Ademais a autêntica tradição cristã, que começa com Jesus e os Apóstolos, sempre viu em Judas um traidor; cf. Mt 26, 14-16.48; At 1,15-20. Com isto não queremos condenar o infeliz discípulo ao inferno; só Deus sabe quais terão sido os sentimentos de Judas antes de morrer.

 

Também não se deve crer que Judas foi por Deus predestinado ao pecado e, por isto, agiu sem culpa. Deus não impele a criatura ao pecado, mas dá-lhe sempre a graça para resistir à tentação (cf. 1Cor 10,13). Deus não retira do homem a liberdade que Ele lhe deu para dignificar a criatura.

 

Ademais, ainda para explicar o surto do Evangelho de Judas, faz-se mister salientar que no Egito antigo existiam correntes religiosas que se compraziam em exaltar personagens e figuras bíblicos tidos como indignos. Assim os Cainitas prestavam culto a Caim, o fratricida, assassino de Abel. Assim também os Ofitas cultuavam a Serpente (ophis em grego), símbolo do tentador que levou os primeiros pais ao pecado. Nesta linha de idéias estaria o autor do apócrifo Evangelho de Judas.

 

Mais: não se diga que a Igreja ocultou os documentos apócrifos e outros que vêm causando celeuma quando trazidos à tona por pesquisadores. - Na verdade, a Igreja não é, nem foi, proprietária dos apócrifos do Egito nem de outros papiros guardados em segredo porque revolveriam toda a história das origens do Cristianismo. A Igreja não tem medo da verdade; antes, deseja que ela seja mais e mais conhecida.

 

Não existe monopólio de documentos antigos em favor da Igreja ou de outros interessados; compra-os ou adquire-os quem tem meios para tanto.

 

É importante ainda observar quanto segue.

 

3. Na própria literatura apócrifa o traidor

 

Merece ser realçado o fato de que a própria literatura apócrifa apresenta Judas também como traidor; ele aparece assim no acervo mesmo dos documentos coptas que inocentam Judas. Para evidenciá-lo, sejam citados os dois seguintes textos publicados por Lincoln Ramos em sua obra EVANGELHOS APÓCRIFOS; Ed. Vozes, p. 189 e p. 196 respectivamente:

 

Judas e sua mulher

 

V. 1. Apanhamos este homem, quando roubava aquilo que todos os dias se depositava na bolsa. Levava-o à sua mulher, frustrando desse modo os pobres. Todas as vezes que voltava a sua casa, levando nas mãos as somas roubadas, ela costumava alegrar-se com o que ele fazia.

Constatamos também que algumas vezes - deixando de seguir a malícia de seus olhos e sua insaciabilidade - voltava para casa sem ter roubado; ela, então, zombava dele.

 

V. 2. Chegou a tal ponto que um dia em que ele ficou em sua casa, aquela mulher, em sua insaciabilidade e perversão, sugeriu-lhe um ato criminoso e terrível. Disse-lhe: "Eis que os judeus perseguem o teu Mestre. Entrega-o, portanto, a eles. Eles te darão muito dinheiro, que guardaremos em casa para viver".

 

V. 3. Aceitando a sugestão da mulher, o infeliz levantou-se e levou sua alma às sombras do Amenti. Como Adão escutou sua mulher a ponto de desprezar a glória do paraíso e, por isso, a morte dominou sobre ele e sobre sua descendência, assim também Judas escutou sua mulher e procedeu de modo contrário às leis do céu e da terra, indo, em conseqüência, acabar no lugar de prantos e gemidos.

Procurou os judeus e contratou entregar seu Senhor por trinta pesos de prata (1). E eles lhe deram a quantia.

 

(1) Trinta pesos de prata. Cf. Mt 26, 14-15; 27, 3-10, onde a expressão é "moedas", em vez de "pesos". Designa o "sido" (Xeque!), que corresponde a cerca de 12 gramas.

 

Cumpriu-se assim a palavra que fora escrita: "Eles receberam os trinta pesos de prata como preço daquele que é precioso".

 

A traição de Judas

 

I. 1. Quando o diabo entrou nele, o apóstolo Judas saiu e correu à procura dos sumos sacerdotes.

Disse: "Que me dareis, se eu vo-lo entregar?"

Deram-lhe trinta pesos de prata (2).

 

I. 2. A mulher de Judas tinha em sua casa o filho de José de Arimatéia, para criá-lo.

No dia em que o infeliz Judas recebeu as trinta moedas de prata e as levou para casa, o menino não quis mais alimentar-se.

José dirigiu-se ao aposento da mulher de Judas... José chegou aflito por causa de seu filho.

Quando o menino viu o pai, embora tivesse apenas sete meses, gritou: "Vem, meu pai, e tira-me das mãos desta mulher, que é uma fera selvagem. À hora nona de ontem (3) , receberam o preço do sangue do justo".

Ouvindo Isso, o pai o levou consigo.

 

I. 3. Saiu também Judas; apanhou ([1])... e outras pessoas do rei. Prenderam Jesus e o levaram ao procurador. Disse-lhes Pilatos: "Que quereis que eu lhe faça?" Responderam-lhe: "Crucifica-o!"

 

I. 4. Quando chegaram ao lugar onde devia ser crucificado, tiraram-lhe as vestes... Trançaram uma coroa de espinhos e a colocaram sobre sua cabeça. Na mão direita puseram-lhe uma vara. Junto com ele crucificaram dois ladrões: um à direita, outro à esquerda, ficando ele no meio.

Levantou os olhos ao céu e disse:

"Meu Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem".

E eles o escarneciam.

 

Parece assim comprovada a inconsistência da tese do Evangelho de Judas.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



(1) Apanhou. A lacuna pode ser preenchida por "chefes judeus" ou "soldados".

(2) Pesos. Ver nota 78 da Primeira Parte.

(3) Hora nona de ontem. Corresponde às 3 horas da tarde. Como o dia terminava às 6 da tarde (12a hora), o "ontem" pode corresponder ao nosso "hoje".

 


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