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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 504 – junho 2004

Debate:

 

"PODE-SE CRER EM MILAGRES?"

por Klaus Berger

 

Em síntese: O autor considera as várias objeções que se levantam contra a possibilidade de milagres; rejeita o que ele chama "a interpretação fundamentalista ou literal" dos respectivos relatos evangélicos e adota o conceito de "vivência mítico-mística", ou seja, o milagre como experiência subjetiva da ação de Deus. Na verdade, a Igreja não faz questão de proclamar milagres, mas ela verifica que ocorrem fatos reais e objetivos que a ciência não explica, produzidos como resposta de Deus às preces de seus fiéis.

 

Klaus Berger é professor de Teologia do Novo Testamento na Faculdade de Teologia Evangélica da Universidade de Heidelberg. Entregou ao público um livro intitulado "Pode-se crer em milagres?" ([1]), que debate com erudição o assunto, mas deixa a desejar no tocante à clareza da exposição, como se perceberá a seguir.

 

1. O pensamento do autor

Após discutir longamente a temática, o autor propõe sua tese que ele chama "o terceiro caminho":

 

"Resumo: o terceiro caminho

Não tomamos os milagres (no sentido fundamentalista) ao pé da letra, como um acidente que acontece na rua, e que observamos da janela. Porém, não são tampouco espiritualizados ou moralizados. Seguimos um caminho diferente: embora o resultado de um milagre muitas vezes tenha sido um fato sólido, a própria maneira como esse resultado se realizou não podia ser explicada mecanicamente, ou fisicamente, ou no sentido de uma causalidade. Em vez disso reconstruímos um terceiro caminho, o de uma percepção e de uma vivência mítico-mística.

 

A essa forma de percepção corresponde uma determinada Idéia a respeito do corpo humano. O corpo não é uma máquina 'dura' ('sólida'), e sim a maneira como o ser humano existe, um 'sistema' sensível e complexo" (p. 142).

 

Com outras palavras: Klaus Berger rejeita a clássica interpretação do milagre como sinal objetivo, reconhecível por qualquer observador, mas não nega o milagre, que ele entende como experiência subjetiva da intervenção de Deus na história dos homens. O sentido da palavra "mítico" é explanado às p. 58-68 do livro como percepção subjetiva.

Explicitando seu pensamento, diz o autor:

 

"Milagres são sinais de que Deus está agindo e intervindo diretamente no mundo" (p. 87).

"O milagre é sinal que acompanha a pregação" (p. 77).

 

Apesar de sua atitude reservada, o autor parece crer na realidade da ressurreição de Jesus e de outros mortos:

 

"Em contraste com a ressurreição de alguns mortos operada por Jesus, a sua ressurreição é a libertação definitiva da morte. As pessoas ressuscitadas por Jesus voltaram a morrer... Na ressurreição do próprio Jesus não foi diferente" (p. 138).

 

2. Refletindo...

 

O autor parece negar e afirmar, ao mesmo tempo a realidade do milagre. Revela-se piedoso (protestante?), conhecedor e respeitador da Liturgia da Igreja, mas pouco dado à clareza; o que se manifesta no seu estilo pesado e complexo.

 

A Igreja não é fundamentalista. Ela não se fecha à descoberta de gêneros literários que levam a deixar de lado a interpretação literal do texto bíblico. Ela sabe, porém, que o sentido literal goza de prioridade enquanto não se prova a existência de uma metáfora. Daí a crença em Jesus taumaturgo; objetivamente falando, não se vê por que não aceitar o sentido literal dos relatos de milagre nos Evangelhos. De resto é de crer que Jesus realizou feitos que impressionaram profundamente o povo, de tal modo que, apesar do fracasso de sua morte, os discípulos puderam reacender sua fé no Mestre após a ressurreição.

 

Para que uma ação extraordinária seja considerada milagre segundo a Teologia católica, requer-se o cumprimento de três condições:

 

1) trate-se de um fato real, histórico;

2) não explicável pela ciência contemporânea ao fato; ([2])

3) ocorrido em contexto de piedade e honestidade digno de Deus. O milagre é sempre um sinal de Deus, que quer falar aos homens de maneira mais penetrante e significativa.

 

Pergunta-se ainda:

 

3. O milagre é possível?

 

A possibilidade do milagre se evidencia pelo fato de que Deus não está limitado pelas leis da natureza que Ele criou; por isto pode intervir na atividade das criaturas não somente como causa primeira e universal, mas também como causa particular, que substitui a ação das criaturas. Tais intervenções de Deus são raras e não alteram a ordem geral da natureza como tal. Aliás, elas devem ter sempre um propósito ou uma razão de ser adequada e de relevo, pois Deus não faz exceções às leis naturais apenas para ostentar sua onipotência; por conseguinte, cada milagre tem sempre a dupla finalidade de promover a glória externa de Deus e o aperfeiçoamento da criatura; assim os milagres geralmente ocorrem ou para revelar aos homens uma verdade salutar ou para evidenciar a santidade de um(a) servo(a) de Deus, estímulo de vida reta e heróica para os demais homens.

 

Dirá alguém: mas que significa "fugir à ordem natural ou normal dos acontecimentos?" Hoje em dia os cientistas discutem a respeito de determinismo ou indeterminismo das leis da natureza. Pelo fato de um fenômeno escapar ao curso comum das leis naturais, pode-se logo dizer que resulta de uma intervenção extraordinária de Deus? Este é o ponto mais nevrálgico de toda a temática que estamos abordando.

 

Em resposta devemos distinguir o plano físico e o metafísico.

 

No plano físico, as ciências contemporâneas ensinam que o determinismo dos fenômenos macrofísicos não é senão o resultado de um sem número de reações microfísicas e que cada uma dessas reações é indeterminada. É a repetição constante dos mesmos fenômenos macrofísicos que permite estabelecer leis físicas; estas são praticamente tão estáveis que se pode falar de determinismo absoluto dos fenômenos naturais. - Os cientistas assim falam sua linguagem, suficiente para o bom entendimento dos pesquisadores entre si.

 

O plano metafísico vai mais a fundo e afirma o determinismo de cada fenômeno. Sim, afirma que todo ser contingente deve ter sua explicação ou sua causa adequada ou sua razão suficiente. Não se pode dizer que qualquer causa produz qualquer efeito; cada causa tem sua capacidade de agir bem definida e produz efeitos correspondentes e definidos, desde que não seja perturbada em seu agir. Daí o determinismo das leis da natureza, que nem sempre pode ser averiguado, pois fatores estranhos podem interferir no agir das causas naturais. - Os físicos não entram na metafísica; por isto não pretendem negar o determinismo metafísico.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Ed. Loyola, São Paulo 2003, 130 x 205 mm, 143 pp.

[2] Indagará alguém: mas por que basta que a ciência contemporânea ao fato tido como milagroso não possa explicar tal fato? Não seria mais lógico afirmar que o milagre é um acontecimento que a ciência jamais, nem daqui a cinqüenta ou cem anos, poderá explicar? - Não. Se o essencial do milagre consistisse em ser sinal maravilhoso ou portentoso, poder-se-ia incluir em seu conceito a cláusula de "inexplicável mesmo em época futura". Como, porém, o milagre é, antes do mais, um sinal... sinal de Deus que fala aos homens em determinado contexto da história, basta que nesse preciso contexto os homens não tenham explicação natural para o portento nem entrevejam alguma pista para chegar à elucidação científica do fato. Se não há realmente nenhuma explicação ou sombra de explicação no momento e se o quadro dentro do qual o fenômeno se produziu é digno de Deus, pode-se crer que o Senhor aí tenha proferido sua palavra mais enfática que é o milagre.


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