PERGUNTE E RESPONDEREMOS 491 – maio 2003

 

COMO OS IRMÃOS SEPARADOS ILUDEM OS FIÉIS CATÓLICOS

 

A Redação de PR recebeu de um fiel católico a mensagem abaixo, redigida para fundamentar a tese de que São Pedro não foi o primeiro Papa:

 

"Até pelo menos o ano de 150, Lino figura na lista da Tradição como tendo sido o primeiro bispo de Roma. A partir da segunda metade do século II é que a Igreja começa a considerá-lo como sucessor de Pedro, como vemos nos trabalhos de S. Ireneu (+202) e Eusébio de Cesaréia (+331)".

 

1. Quem lê esta notícia, pode julgar que, antes de 150, havia algumas listas de bispos de Roma começando por Lino e não por São Pedro. Ora olhando com olhar crítico, perguntamos: Que listas são essas? Quais os seus autores? Como são identificadas? - Ninguém poderá responder a tais interrogações porque as mencionadas listas não existiram. O objetante que as cita, mal sabia o que estava afirmando. Por isto de passagem seja dito aos católicos: não aceitem citações ou referências vagas, genéricas, não documentadas... como são muitas vezes as que os protestantes apresentam aos católicos, movidos por preconceitos cegos.

 

2. Sobre São Lino o que se pode apurar é o seguinte:

 

É citado no Liber Pontificalis, coletânea de biografias papais que vão de São Pedro até Adriano II (867-872). Nessa obra Lino aparece como auxiliar de Pedro, que lhe prescreveu exortasse as mulheres a não comparecer à igreja sem véu... Morreu mártir e foi sepultado no Vaticano junto ao túmulo de São Pedro.

 

Lino é citado outrossim no Martirológio (catálogo de mártires) Romano. Uma tradição, tida como espúria, lhe atribui a redação do apócrifo "Atos de Pedro".

 

3. O irmão protestante diz que "somente na segunda metade do século II a Igreja começou a considerar Lino como sucessor de Pedro".

 

Observamos: o objetante se refere à segunda metade do século II porque foi então que S. Ireneu escreveu o texto transcrito mais adiante. Antes de Ireneu não há testemunhos tão claros porque se conservou pouca coisa da literatura cristã dos primeiros decênios; os escritores cristãos, premidos pela perseguição, tinham em vista defender a fé cristã e reconfortar os fiéis ameaçados pelos pagãos. Mais: o testemunho de Santo Ireneu não tem caráter de uma construção teológica forjada pela Igreja para fundamentar o primado de Pedro, mas é simplesmente parte de uma apologia da fé frente aos gnósticos; à estes quer S. Ireneu mostrar a origem apostólica da fé; a doutrina promana de Cristo através dos Apóstolos, cuja sucessão em Roma o Bispo de Lião (Gália) expõe. No caso não é a Igreja oficial que fala, mas um apologista da província gálica.

 

O testemunho de Ireneu é fidedigno: Lino recebeu do apóstolo Pedro o encargo de Bispo de Roma, função que ele exerceu de 68 a 79 aproximadamente.

 

Eis o significativo texto de Santo Ireneu, que percorre a história desde Pedro até Eleutério (75-189):

 

"É com esta igreja (de Roma), em razão de sua mais poderosa autoridade de fundação, que deve necessariamente concordar toda igreja, isto é, que devem concordar os fiéis procedentes de qualquer parte, ela, na qual, sempre, por meio daqueles que procedem de toda parte, conservou a Tradição que vem dos Apóstolos.

 

Depois de ter assim fundado e edificado a Igreja, os bem-aventurados Apóstolos transmitiram a Lino o cargo do episcopado; deste Lino faz menção Paulo nas suas cartas a Timóteo. Anacleto lhe sucede. Depois, em terceiro lugar a partir dos Apóstolos, é a Clemente que cabe o episcopado. Ele tinha visto os próprios Apóstolos, estivera em relação com eles; sua pregação ressoava-lhe aos ouvidos; sua Tradição estava presente ainda aos seus olhos. Aliás, ele não estava só; havia em sua época muitos homens instruídos pelos Apóstolos. Ao tempo desse Clemente, pois, uma dissensão grave ocorreu entre os irmãos de Corinto; a Igreja de Roma dirigiu então aos coríntios um escrito muito importante para reconciliá-los na paz, reanimar sua fé e anunciar-lhes a Tradição que tinha recebido recentemente dos Apóstolos: um só Deus Onipotente, Criador do céu e da terra, que modelou o homem, produziu o dilúvio, chamou a Abraão, fez sair seu povo do Egito, falou a Moisés, estabeleceu o regime da Lei, enviou os Profetas, preparou o fogo para o diabo e seus anjos.

 

Que esse Deus seja anunciado pelas Igrejas como sendo também o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, todos os que quiserem podem verificar segundo o mesmo documento. Podem assim conhecer a Tradição apostólica da Igreja, pois tal carta é mais antiga que os fautores dos erros atuais, os quais inventam mentirosamente outro Deus superior ao Demiurgo, ao Criador de nosso universo.

 

A Clemente sucede Evaristo; a Evaristo, Alexandre; em seguida, em sexto lugar a partir dos Apóstolos, é instituído Sixto; depois Telésforo, também glorioso por seu martírio; depois Higino, Pio, Aniceto; Sotero, sucessor de Aniceto e agora Eleutério detém o episcopado, em 12o lugar a partir dos Apóstolos.

 

É nesta ordem e sucessão que a Tradição dada à Igreja desde os Apóstolos, e a pregação da verdade, chegaram até nós. E está aí uma prova muito completa de que é única e sempre a mesma, a fé vivificadora que, na Igreja desde os Apóstolos, se conservou até o dia de hoje e foi transmitida na verdade.

 

Pode-se dizer que este texto versa sobre os critérios da ortodoxia; quer expor aos gnósticos a condição indispensável para que determinada doutrina seja tida como autêntica: requer-se que esteja em consonância com a fé professada pela comunidade de Roma. Esta é padrão e primacial, pois é duplamente apostólica, já que nela pregaram e morreram os Apóstolos Pedro e Paulo. É deles, instruídos por Cristo, que provém a reta fé através dos seus sucessores claramente reconhecidos.

 

Estes precisos dados de história dissipam as alegações vagas e inconsistentes dos irmãos separados.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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