O Super Homem

 

Durante os dias do Carnaval, tive ocasião de reler o magnífico trabalho de Maritain, no seu livro "Théonas", sobre o Super Homem. Não vá ninguém pensar que se trata do mito Nietzschiano da nova espécie, para a qual evolve a humanidade atual. Pobre humanidade! Será que evolve, realmente? Ou, pelo contrário, há involução, em vez de evolução?! — Que significa Carnaval? Maritain refere-se a outro tipo de Super Homem, ao qual alude Aristóteles, bem diferente de Nietzsche. O filósofo alemão se deixou fascinar pela força, não quis ver no homem o que nele existe de especificamente humano: sua inteligência, que vale infinitamente mais que a sua "vontade de potência".

 

O filósofo grego já estudara, na aurora da civilização aquilo que, especificando o ser humano, o eleva acima de todo o mundo. O super humanismo de Nietzsche pretendeu mudar a espécie humana. O de Aristóteles se verifica dentro da nossa própria natureza específica.

 

Para Nietzsche, o Super Homem é algo a que o homem terá de chegar em vista do determinismo cego das leis naturais.

 

Para Aristóteles, é um programa traçado a cada ser humano que quiser viver sua vida em toda plenitude. É pela contemplação da verdade, pela integração na verdade, que o homem se eleva e engrandece. Por isto, diz Maritain: "O Super Homem, segundo Aristóteles, é o sábio, que especula sobre as coisas eternas".

 

A ORDEM

 

E explica a doutrina do Filósofo. O que há de especificamente humano no homem, o que o diferencia do bruto, é a inteligência. "Aquilo pelo qual o homem é mais verdadeiramente homem, é a inteligência, que é nele coisa divina, pela qual ele participa da natureza dos espíritos. E, entretanto, viver da vida contemplativa é viver segundo o modo dos espíritos puros, enquanto que viver de vida voluptuosa, é viver segundo o modo bestial, e viver de vida ativa e social é viver segundo o modo humano, secundum hominem".

 

"Sendo assim, o programa de vida mais perfeito para o homem, será a vida segundo o espírito. É a própria natureza humana que solicita o homem para este super humanismo. Assim, o esforço para o heroísmo, a esperança de exceder as condições de vida humana, têm sua raiz na própria natureza do homem, e é trair a natureza humana, persuadir aos homens de somente saber as coisas humanas, aos mortais de somente saber as coisas mortais; é ao imortal e ao divino que é preciso tender. Assim, o sábio, permanecendo verdadeiramente humano, vive de uma vida melhor que a humana".

 

Aristóteles, sem as luzes da Revelação Cristã, não soube aprofundar o verdadeiro conceito do sábio. Ficou simplesmente extasiado ante a sabedoria da inteligência. Só o cristianismo mostrou que há outra espécie de sabedoria, escondida aos olhos dos homens, ou mesmo considerada loucura pelos homens, mas que brilha aos olhos de Deus. É a sabedoria dos Santos. São os verdadeiros super homens. São os que se elevaram ante a humanidade inteira.

 

Rendamos, entretanto, homenagens ao grande filósofo grego, que, nos primórdios da civilização, já havia estabelecido a verdadeira hierarquia de valores. Já mostrara qual o programa mais digno de ser seguido por um animal racional.

 

É pena que, num século que se diz civilizado, tão poucos sejam os que compreendem esta doutrina do Estargirita. O que vemos é o mais triste dos infra-humanismos, principalmente nestes dias de volúpia carnavalesca. Será de desejar que o progresso das ciências da matéria, que constitui o título de nobreza do nosso século, seja acompanhado de igual avanço nas ciências do espírito, a fim de que possa o gênero humano compreender melhor a razão de ser da sua passagem pela Terra.

 

Pe. TEOFANES BARROS

(Maceió, 15 de fevereiro de 1953).


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