PERGUNTE E RESPONDEREMOS 520 – outubro 2005

Um livro bem sucedido:

 

GESTOS E SÍMBOLOS

por José Aldazabal

 

Em síntese: O autor mostra a importância dos símbolos, especialmente na Liturgia. Esta é celebrada por seres psicossomáticos, aos quais é natural exprimir-se não só pela palavra, mas também pela linguagem corpórea das mãos, do olhar, do caminhar, do trajar-se... O livro analisa o significado de vários símbolos e gestos da Liturgia, descortinando aos olhos do leitor um pouco do Além manifestado pelo aquém.

 

O Pe. José Aldazabal é salesiano. Presidente do Centro de Pastoral Litúrgica de Barcelona e Diretor das revista PHASE e MISSA DOMINICAL. Apresenta ao público um livro original intitulado "Gestos e Símbolos" ([1]), em que estuda o valor dos símbolos, especialmente na Liturgia. Eis como sintetiza seu pensamento:

 

"O racional e o discursivo têm grande importância em nosso culto, ao passo que o visual e a expressão corporal significam muito menos. É evidente que a palavra é o argumento final que empregamos para expressar nossas idéias, mas isto não basta para uma celebração que deve atingir o homem em seu todo" (p. 13).

 

Após oportunas considerações sobre símbolos em geral, o autor passa a considerar a variedade de símbolos que integram a Liturgia católica e que muitas vezes são celebrados rotineiramente. Desse conjunto reproduziremos o que o autor expõe sobre a linguagem das mãos (pp. 103-109).

 

A LINGUAGEM DAS MÃOS

 

As mãos falam

 

As mãos são uma autêntica expressão do mais íntimo do homem, pois representam admirável fusão da matéria e do espírito. Em geral todo cidadão entende a linguagem das mãos

que se estendem para pedir;

que ameaçam;

que mandam parar o trânsito; que saúdam;

que se levantam com o punho cerrado;

que fazem o V da vitória com os dedos;

que seguram em silêncio a mão da pessoa amada;

que se estendem abertas para o amigo;

que oferecem um presente;

que esboçam no ar uma despedida...

 

O gesto de mão não apenas indica uma disposição interior, mas, de certo modo, realiza esse sentimento íntimo. A mão assim entendida é instrumento que torna presente aos outros o que vai na alma do sujeito.

 

Também na oração se efetua essa função instrumental da mão, o cristão ora não só com palavras, mas também com as mãos.

 

Tenham-se em vista os seguintes casos assim delineados por Aldazabal:

 

"a) Os braços abertos e levantados foram desde sempre uma das posturas mais típicas do homem orante.

 

São o símbolo de um espírito voltado para o alto, de todo um ser que tende para Deus: 'Assim, eu te bendirei enquanto durar minha vida, e ao teu nome levantarei as mãos" (SI 63[62], 5). 'Que minha prece seja o incenso diante de ti, e minhas mãos erguidas, a oferenda da tarde' (SI 141[140], 2).

 

Braços elevados, mãos que tendem para o alto são todo um discurso, ainda que digam poucas palavras. Podem ser um grito de angústia e súplica, ou uma expressão de louvor e gratidão.

 

Os Santos Padres gostavam de comparar essa atitude do orante com a de Cristo na Cruz. E este, por sua vez, era visto como já prefigurado na famosa cena de Moisés, orando intensamente a Deus em favor de seu povo que lutava contra Amaleq (Ex 17): quando conseguia manter seus braços levantados, Israel era o mais forte. Figura expressiva de um Cristo que intercede pela humanidade na Cruz e consegue para todos a nova Aliança. A pessoa que ora com os braços abertos e levantados é vista nesta mesma perspectiva: (se colocares um homem com suas mãos estendidas, terás a figura da cruz: Tertuliano, Nat. 1,12, 7).

 

A primeira Oração da Reconciliação fala de Cristo na Cruz: 'antes que seus braços estendidos delineassem entre o céu e a terra o sinal indelével de tua Aliança...'.

 

b) As palmas das mãos voltadas para cima: essa é a postura que se costuma encontrar em muitas imagens antigas do orante.

 

Mãos abertas, que pedem, que reconhecem sua própria pobreza, que esperam, que mostram sua receptividade diante do dom de Deus.

 

Mãos abertas: o contrário do punho violento ou das mãos fechadas do egoísmo.

 

Um cristão que se aproxima para comungar e recebe o Pão da Vida com a mão estendida, 'fazendo da mão esquerda trono para a direita, como se esta fosse receber um rei', como são Cirilo de Jerusalém descrevia o rito já no século IV, está imprimindo em seu gesto um simbolismo de fé muito expressivo.

 

c) As mãos unidas: palma contra palma, ou então com os dedos entrelaçados. É uma postura que, aparentemente, não era conhecida nos primeiros séculos e que pode ter sido introduzida por influência das culturas germânicas, muito embora no Oriente seja também muito conhecida.

 

É a atitude do recolhimento, da meditação, da paz. O gesto de alguém que se concentra em algo. que interioriza seus sentimentos de fé. A postura de mãos em paz, não-ativas, não-distraídas com outras ocupações enquanto a pessoa ora diante de Deus.

 

A postura das mãos pode, evidentemente, representar somente algo exterior, sem que corresponda à atitude interior. Seria merecedora da queixa de Deus: 'De que me serve a multidão dos vossos sacrifícios?... não os quero mais. Quando estendeis as mãos, cubro os olhos, podeis multiplicar as orações, não as escuto' (Is 1, 11.15).

É a sintonia entre a atitude da alma e a das mãos que pode expressar em plenitude os sentimentos de um cristão em oração: 'Quero, portanto, que os homens orem em toda parte, erguendo para o céu mãos santas' (1Tm 2, 8)" (pp. 104-6)...

 

Em conclusão escreve o autor:

 

"A liturgia também passa pelas mãos.

Mãos que dão, que oferecem, que recebem, que mostram, que pedem, que se elevam para Deus, que se estendem ao irmão, que traçam o sinal-da-cruz...

 

É bom que haja simplicidade, sobriedade e gravidade na celebração. Todavia, não é bom que as mãos permaneçam como que atrofiadas e inexpressivas. Não é preciso chegar ao êxtase e à teatralidade. Mas também não é próprio da celebração cristã que deixemos tudo por conta das palavras e não saibamos utilizar - sobretudo os ministros - a linguagem corporal" (p. 109).

 

O Pe. Aldazabal desenvolve suas idéias considerando o

 

 

RECEBER A COMUNHÃO NA MÃO

Eis como se exprime o autor:

 

A mão como trono

 

Durante vários séculos, a comunidade cristã manteve com naturalidade o costume de receber o Pão eucarístico na mão.

 

Existem numerosos testemunhos de diversas regiões da Igreja (África, Oriente, Espanha, Roma, Milão...) Como o depoimento de Tertuliano, em seu tratado sobre a idolatria, no qual se queixa de que alguns possam, com a mesma mão, receber o Senhor e, imediatamente, aproximarse dos ídolos; ele comenta que tais mãos "são dignas de ser cortadas".

 

O mais famoso desses testemunhos é o documento de são Cirilo de Jerusalém, no século IV, que em sua Catequese sobre a Eucaristia nos descreve como os cristãos se aproximavam da comunhão:

 

"Quando te aproximares para receber o Corpo do Senhor, não te aproximes com as palmas das mãos estendidas nem com os dedos separados, mas fazendo de tua mão esquerda como um trono para tua direita, onde o Rei irá sentar-se. Com a cavidade da mão recebe o Corpo de Cristo e responde: Amém..."

 

As pinturas e relevos da época refletem, naturalmente, esse costume de receber a comunhão na mão estendida.

 

A mudança para a boca

 

Pouco a pouco, e por diversas razões, mudou a sensibilidade do povo cristão quanto ao modo de comungar.

A passagem de um modo para outro, passando a receber o Corpo do Senhor na boca, não se efetuou por decreto nem de maneira uniforme. Em alguns lugares, no decorrer dos séculos VII-VIII já se começou a pensar que era melhor que as mulheres não recebessem a comunhão diretamente na mão, mas que usassem um pano limpo sobre ela. Outros estenderam rapidamente a nova praxe também aos homens. Por fim (e não começando precisamente por Roma), foi-se generalizando o costume de depositar a partícula consagrada do Pão diretamente na boca.

 

Os motivos de tal mudança não são fáceis de comprovar concretamente, porque nem mesmo foram uniformes nas diversas regiões.

 

Entre outras razões, seja mencionado o propósito de evitara profanação da Eucaristia por parte de comungantes despreparados.

 

Vários concílios regionais do século IX já estabeleciam como normativo que os leigos não pudessem tocar com suas mãos o Corpo do Senhor: assim foi nos de Paris (829), Córdoba (839), Rouen (878) etc.

 

Em Roma, a nova modalidade da comunhão na boca começou por volta do século X (Ordo Romanus X, do ano 915).

 

Recuperação da prática antiga

 

Com o ensejo da reforma litúrgica conciliar, foi crescendo o desejo de que os fiéis pudessem receber a comunhão na mão, restaurando assim o velho costume.

 

Partindo de Roma, em fins de 1968 fez-se uma consulta ao Episcopado de todo o mundo, da qual resultou que mais de um terço dos bispos viam a possibilidade com bons olhos. Diante da falta de unanimidade -os outros dois terços poderiam continuar com a comunhão na boca -, surgiu em 1969 a Instrução "Memoriale Domini". que, mantendo a vigência da comunhão na boca, estabelecia o caminho a seguir: naquelas regiões em que o Episcopado julgasse conveniente por mais de dois terços de seus votos, poder-se-ia deixar aos fiéis a liberdade de receber a comunhão na mão, salvando sempre a dignidade do sacramento e a oportuna catequese da mudança.

 

Assim, muitos Episcopados - agora já em maior proporção favorável - foram pedindo e obtendo essa faculdade. O da Espanha, por exemplo, pediu-a oficialmente em fins de 1975 e recebeu a resposta afirmativa em fevereiro de 1976. Isso sucedeu, por certo, depois de um período -demasiado longo - em que a indecisão própria, assim como a dianteira tomada por outros países vizinhos, engendrou não pouca tensão nas comunidades da Espanha.

 

O decreto de concessão deixava todos os bispos em liberdade para introduzir ou não, em suas respectivas dioceses, o novo modo de comungar.

 

Os que preferem a comunhão na mão. alegam que expressa mais claramente a dignidade do cristão leigo: pelo Batismo, todos fazemos parte do povo sacerdotal, somos todos filhos e irmãos na família da Igreja.

 

O sentido da mão estendida que recebe

 

Nossas mãos possuem evidentemente uma grande força expressiva. Em muitas ocasiões, convertem-se em nossa linguagem mais eloqüente, juntamente com o olhar. Mãos como sinal de atividade, de trabalho, de fraternidade. Mãos consagradas de sacerdote. Mãos que se lavam antes da Eucaristia como sinal de purificação Interior. Mãos que se elevam, vazias, para o céu em gesto de oração. Mãos que oferecem ou que recebem. Tudo isso nos fala de mãos que se convertem em um retrato simbólico das atitudes interiores. Alguém disse que a mão é a inteligência que se fez carne.

 

Dirigir-se à comunhão com a mão aberta tem por fim representar plasticamente uma atitude de humildade, de espera, de pobreza, de disponibilidade, de acolhida, de confiança. Diante de Deus, nossa postura é a daquele que pede e recebe confiantemente. E a comunhão do Corpo de Cristo é o melhor dom gratuito que recebemos por meio do ministério da Igreja. Essa mão estendida fala claramente de nossa fé e de nossa postura interior de comunhão.

 

As duas mãos abertas e ativas: a esquerda, recebendo, e a direita, primeiro apoiando a esquerda, e em seguida tomando pessoalmente o Corpo do Senhor: duas mãos que podem ser sinais eloqüentes de um respeito, de uma acolhida, de um "altar pessoal" que formamos, agradecidos ao Senhor que se nos dá como alimento salvífico.

 

Todavia, existe um aspecto que realmente vale a pena salientar: não é a mesma coisa "pegar" a comunhão com a mão e "recebê-la" do ministro. Receber os dons da Eucaristia, o Corpo e o Sangue de Cristo, das mãos do ministro (o presidente ou seus ajudantes) expressa muito melhor a mediação da Igreja. Não somos nós que tomamos os sacramentos, mas os recebemos de e por e na Igreja. A comunhão não deve transformar-se em um self-service, mas em uma celebração expressiva não só do sentido pessoal do dom, mas também de sua dimensão comunitária.

 

Mais: não se podem esquecer as lições da história, que ensina ter havido irreverência e profanação. A Comunhão seja dada na mão tão somente de pessoas preparadas, que comunguem na frente do ministro e tomem todo o cuidado para não deixar cair no chão algum fragmento do pão consagrado.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Tradução de Alda da Anunciação Machado, Ed. Loyola, São Paulo, 2001, 160x 230 mm, 300 pp.


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