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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 380 – Janeiro 1994

Em candente discussão:

 

O PECADO: O QUE DIZER?

 

por Xavier Thévenot

Em síntese: O livro de X. Thévenot considera o tema "pecado" à luz das ciências modernas: psicologia, sociologia, epistemologia e também... Teologia. Todavia o enfoque teológico, que é o principal (pois o pecado é tema integrante da Revelação bíblica e da Tradição cristã), é assaz apagado; em conseqüência, o leitor é colocado diante de ponderações de ordem meramente natural, especialmente de índole psicanalítica, que passam ao largo do autêntico sentido de pecado e podem deixar o leitor confuso e perplexo. O tema "pecado", para um cristão, é, antes do mais, assunto que a luz da fé esclarece devidamente, pois a noção de pecado supõe o conceito de Deus... e de Deus como se revelou aos homens nas Escrituras Sagradas.

 

Xavier Thévenot, Professor de Teologia Moral na França, publicou o texto de quatro conferências proferidas sobre o pecado em 1980-81 ([1]) . Aborda um tema hoje em dia muito estudado e debatido. Procura penetrar na noção de pecado mediante concepções de psicanálise, que tendem a relativizar o conceito. As suas explanações são, por vezes, complicadas: dizem e não dizem, afirmam e negam... de modo que o leitor, desejoso de clareza sobre o assunto, pode terminar a leitura do livro sem saber o que é o pecado e quando ocorre. Sem dúvida, a Teologia Moral pode-se beneficiar pelos subsídios que a psicologia e a psicanálise lhe fornecem, mas é necessário que o teólogo tenha a coragem de dizer que o preto é preto e o branco branco; leve em conta possíveis matizes, sim, mas não se furte a dizer as coisas com a lucidez e a nitidez que um bom professor deve ter e transmitir, em vez de querer suavizar e empalidecer coisas graves, a fim de "tranqüilizar" os leitores pela anestesia mental e a confusão de idéias.

 

Nas páginas seguintes, exporemos o conteúdo do livro, ao que acrescentaremos alguns comentários.

 

1. O LIVRO

 

1.1. A Teologia do Pecado

 

O capítulo I ("A Teologia na Conjuntura Atual), pp. 7-26, após observações preliminares, apresenta a evolução do sentido do pecado e suas causas. Xavier Thévenot registra então o fato de que muitas pessoas em nossos dias não sabem mais o que é pecado ("em confissão eu não consigo mais achar os meus pecados"); muito menos ainda, falam de pecado mortal; antigamente a concepção de pecado era individual, ao passo que atualmente as pessoas tendem a falar tão somente de pecado coletivo; outrora o pecado era tido como ofensa a Deus, enquanto hoje é ofensa ao homem... registra o autor do livro.

 

E quais as causas da evolução, segundo Thévenot?

 

1)    O impacto dos marxismos. As idéias de Marx concebem a Moral como subproduto de determinada estrutura econômica; em conseqüência, o pecado é considerado infração de normas ditadas pelo capitalismo; tais normas terão insistido demasiadamente sobre as culpas sexuais e posto de lado as infrações da justiça social. Ora quem aceita a ideologia marxista, rebela-se contra o clássico conceito de pecado.

 

2)    As correntes psicanalíticas. Tendem a explicar as desordens do comportamento humano não como desatinos no plano moral, mas como expressões de problemas latentes no inconsciente do indivíduo. Ademais a psicanálise freudiana põe em xeque a existência da liberdade e da responsabilidade humanas. Donde o apagamento do conceito de pecado.

 

3)    A epistemologia contemporânea. Todo ato humano tem vários efeitos, "uns bons, outros maus". É o que torna ambígua a moralidade do agir humano, segundo Thévenot. Cita-se como exemplo a greve dos operários na Polônia em 1980: teve o mérito de ativar a resistência do povo oprimido, que mais tarde chegaria a se libertar do marxismo, mas, ao mesmo tempo, abalou a economia do país e aumentou o risco de invasão da Polônia pelas tropas soviéticas. Por isto torna-se difícil dizer se um ato é bom ou mau; pode-se apenas afirmar que preponderaram as suas conseqüências boas ou más.

 

4)   A sociologia mostra que existe entre os homens uma solidariedade e interdependência em escala planetária. Em conseqüência, torna-se difícil determinar com exatidão as responsabilidades de cada indivíduo ou de cada grupo. Por exemplo, ajudar um país subdesenvolvido governado por um ditador sanguinário é obra boa ou má? Alguns dirão: obra boa, porque alivia a miséria do povo; outros dirão que é obra má, porque corrobora o governo desse ditador. Além disto, a influência dos meios de comunicação, a insistência sobre liberdade e democracia e a existência da incredulidade no mundo contribuem para lançar a confusão e o ceticismo sobre a noção de pecado.

 

5)   A Teologia terá também colaborado para atenuar a idéia de pecado. Com efeito; hoje em dia enfatiza-se menos a imagem do Pai legislador do que a do Espírito que liberta, diz Thévenot. Ademais o afã de construir um mundo novo sócio-econômico-político dá a crer que pecado é a recusa de cooperação social (é descriação) e não tanto uma ofensa a Deus.

 

As observações de Thévenot ficam aqui registradas sem comentários. Voltaremos a elas na segunda parte deste artigo.

 

1.2. O Pecado Original

 

Thévenot apresenta, a seguir, no capítulo II "um pecado modelo, ou seja, o pecado de Adão e Eva" (pp. 27-53), servindo-se de instrumentos deduzidos da psicanálise" (p. 27). — Este capítulo é falho, porque o autor parece ignorar as leis de interpretação de um texto antigo, como é o texto de Gn 2, 1-3,24. Ensina a boa hermenêutica que o primeiro cuidado do intérprete há de ser a consulta do texto original a fim de se entender o que o autor (hebreu, no caso) queria dizer; é preciso, pois, investigar os expressionismos e as metáforas utilizadas pelo escritor hebraico, procurar saber o que tais e tais locuções podiam significar para ele, e daí deduzir o significado ou a mensagem do texto. — Ora Thévenot passa ao largo dessa tarefa delicada; aborda o texto a partir de premissas que não são filológicas nem historiográficas, mas derivadas das categorias de pensamento de Freud, Lacan, Melanie Klein... Conseqüentemente, afirma que "Deus castrou o homem em seu desejo de tudo saber, de tudo dominar. A salvação da pessoa humana está na proibição da gnose, quer dizer, na proibição da onisciência" (p. 40).

 

A morte que, conforme Gn 2,17, é punição da culpa dos primeiros pais, vem entendida do seguinte modo (que, reconheçamo-lo, não é de fácil compreensão):

 

"A vida, a verdadeira vida, só é possível para o homem no respeito da privação, das mediações do não conhecimento total do bem e do mal. Se este respeito não existe, então, por necessidade interna, a morte da pessoa que deseja está no fim do caminho" (p. 40).

 

O pecado é descrito ainda nos seguintes termos:

 

"A atividade criadora de Deus... faz surgir não um mundo supranatural, mas um mundo onde o homem assume o poder sobre o cosmo pelas mediações do trabalho e da linguagem, onde as diferenças entre as árvores permitidas e as árvores proibidas, entre Deus e as criaturas, entre o homem e a mulher são reconhecidas dentro da fé na palavra proibidora do Criador, onde, enfim, é possível conhecer momentos alegres de união íntima, sem regredir ao mundo natural de onde o homem surgiu. A narrativa da transgressão vai fazer perceber o quanto o pecado do homem traz uma profunda desestruturação deste equilíbrio vital por uma espécie de descriacão" (p. 41).

 

Visto que o texto de Gn 2-3 foi calorosamente estudado e debatido na Tradição cristã, suscitando várias intervenções do magistério da Igreja, Thévenot deveria ter levado em conta outrossim o teor dos debates dos séculos IV-VI (pelagianismo e semipelagianismo, relações entre natureza e graça), do século XVI (pensamento luterano e calvinista), dos séculos XVIIl/XVIII (baianismo e jansenismo). Ignorar tais fatos ou o aprofundamento realizado à luz da fé cristã por ocasião das várias controvérsias, é falha de interpretação, de mais a mais que o texto pertence estritamente ao âmbito da Escritura Sagrada e da fé.

 

Após tratar do pecado dos primeiros pais (pecado original originante), o autor considera o pecado original originado ou como se acha nos descendentes dos primeiros pais. — Com razão afirma que não se trata de um pecado propriamente dito, pois a criança, ao nascer, não comete um ato de ruptura com Deus. Então que seria o pecado original originado, ou o pecado atribuído à criança quando nasce?

 

Apoiando-se em Schoonenberg e outros teólogos, Thévenot julga que "consiste na impossibilidade, do homem, de orientar a sua existência por uma opção fundamental conforme o desígnio de Deus" (p. 52). Com outras palavras: cada ser humano nasce numa complexa rede de relações sociais, rede na qual o pecado ganhou corpo, tornando-se "o pecado do mundo" (Jo 1,30; 1Jo 5,19). Este mundo no qual cada ser humano está mergulhado, dificulta a todo homem a orientação espontânea em direção do Criador (cf. p. 53). Seria isto o pecado original originado; afetaria o mundo primeiramente e, indiretamente, os descendentes dos primeiros pais.

 

1.3. Interpretação cristã do pecado

 

O capítulo III do livro tem o título acima (pp. 57-94). Entre outras coisas, Thévenot afirma que

 

    o pecado é um insulto ao Senhor, Esposo da Igreja, um insulto ao Deus-Amor (p. 63);

    o pecado só pode ser devidamente entendido se considerado à luz da Revelação do Antigo e do Novo Testamento, Revelação que nos fala do amor de Deus;

    o nosso conhecimento do pecado nunca é completo (p. 63). Desconhecemos a profundidade da nossa responsabilidade (p. 67). Além disto, não somos capazes de distinguir, com precisão, o que é devido aos nossos condicionamentos e o que decorre da nossa liberdade (p. 69);

    o pecado propriamente dito é somente o pecado mortal ou o pecado que muda a opção radical ou fundamental por Deus. Ora na grande maioria das faltas cometidas contra a vontade de Deus o homem não pretende desviar-se de Deus radicalmente; só procura o prazer ou o fruto proibido, mas tenciona manter a orientação geral da sua vida voltada para Deus; disto se segue que é raro o pecado mortal ou o pecado propriamente dito; desta maneira chega-se à conclusão de que entre os cristãos há poucos pecados (o que é muito "consolador"):

 

"Um cristão que sente que a 'fina ponta de sua vontade' — como diziam os místicos — está enraizada em Deus, percebe que a globalidade de sua vida, em sua opção fundamental, está em coerência com o Evangelho; um tal cristão pode se questionar, com razão, se as 'quedas' freqüentes num ponto preciso de sua vida, ponto onde ele se verifica fraco, são, verdadeiramente, recusas graves do amor de Deus. Neste caso ele poderá, às vezes, adquirir a certeza moral de que seus erros são fraquezas e não pecados; porque finalmente sua liberdade profunda não está aí verdadeiramente empenhada. Na verdade, pecar 'mortalmente' não é tão freqüente, em razão do amor vivificante de Deus, que 'trabalha' uma pessoa cuja opção fundamental é boa. Penso, então, que os pecados mortais na vida de um cristão que reza, que está em ligação com a Igreja e que se esforça em amar, são provavelmente bastante raros" (p. 71).

 

Logo depois de afirmar isto, o autor refere-se à Exortação "Persona Humana" da Congregação para a Doutrina da Fé (29/12/1975): este documento afirma que não é necessário romper fundamentalmente com Deus para que haja pecado mortal; basta um ato particular ou isolado que contradiga voluntariamente à Lei de Deus em matéria grave (masturbação, homossexualismo, relações pré-matrimoniais...) para que haja pecado mortal; conseqüentemente o pecado mortal não é tão raro; ele existe mesmo na vida de uma pessoa orientada para Deus em suas linhas fundamentais. Thévenot, ciente desta doutrina da Igreja, cita o texto de "Persona Humana" no 10, mas interpreta-o a seu modo, como se percebe abaixo:

 

"Este documento lembra, com razão, que, se é 'a opção fundamental que define, em última instância, a disposição moral da pessoa, ela pode ser totalmente modificada por ações particulares, e isto seria preparado, como acontece com freqüência, por ações anteriores mais superficiais. Seja como for, não é verdade que um único destes atos particulares não pode ser suficiente para que aí haja pecado mortal' (...) 'o homem peca então mortalmente, segundo este documento, não apenas quando sua ação procede do desprezo direto do amor de Deus e do próximo, mas ainda quando ele faz, consciente e livremente, por qualquer motivo que seja, uma escolha cujo objeto é gravemente desordenado'. Desta forma, este texto nos lembra que são atos tão importantes em nossa vida que podem comprometer radicalmente a opção fundamental e ser sinais de sua transformação" (pp. 71 s).

 

Como se vê, Thévenot pretende manter sua posição, supondo que um ato isolado gravemente pecaminoso rompe a opção fundamental do cristão por Deus. Ora podemos lembrar a Thévenot que alguém pode praticar um relacionamento sexual pré-matrimonial ou extra-matrimonial sem querer romper com Deus ou sem retratar a sua opção fundamental. Aliás, é este o caso de muitas e muitas pessoas que praticam a genitalidade antes do casamento ou em adultério. A Igreja ensina, com toda a Tradição anterior, que tais práticas constituem pecado mortal, mesmo que o pecador queira continuar a servir a Deus pelo teor geral de sua vida.

 

As últimas páginas do livro (74-94) têm por título: "Os Sinais da Existência do Pecado e sua Ambigüidade". Detêm-se em querer demonstrar que dificilmente alguém pode reconhecer seus pecados, pois nenhum sintoma de pecado (transgressão, desvio, sofrimento, conteúdo objetivo do ato, remorso) está isento de ambigüidades, conforme Thévenot. Este final da obra pode deixar o leitor perplexo e confuso, pois o livro acaba sendo mais um repertório de críticas e distinções sutis do que a expressão da doutrina da fé tal como a professa a Igreja Católica.

 

Passemos, pois, a um comentário mais sistemático da obra, que deixa o leitor um tanto desconcertado ao ver tantas explanações que não ousam afirmar ou negar claramente o que abordam.

 

2. REFLETINDO..

 

Três pontos merecem especial atenção.

 

2.1. A noção de pecado evoluiu?

 

a) O conceito de pecado como tal não evoluiu nem podia evoluir. Pecado é, numa palavra, um Não dito a Deus. Para que haja pecado propriamente dito, requerem-se três condições: 1) haja matéria grave (homicídio, adultério, aberração sexual...); 2) haja conhecimento de causa ou consciência de que o ato é pecaminoso; 3) haja vontade deliberada de o cometer. Quando ocorrem estes três componentes, o pecado é grave ou mortal (pois tira a vida da graça); quando a matéria é leve, o pecado é leve ou venial.

 

Quando falta o conhecimento de causa ou a vontade deliberada, não há pecado propriamente dito ou não há pecado formal; há, sim, uma ação que em si é pecaminosa (pecado material), mas que não é imputável ao sujeito que a comete. A pessoa só é responsável por aquilo que faz, na proporção em que tem conhecimento de causa e vontade deliberada. Os atos cometidos sem vontade deliberada não são imputáveis ao sujeito; é o que acontece quando um sonâmbulo danifica coisas alheias durante o sono: comete atos maus (em si pecaminosos), mas não imputáveis, porque o sonâmbulo age sem saber nem querer.

 

b)   O que evoluiu em Teologia Moral, não é o conceito de pecado; é a utilização do conhecimento da psicologia humana. Antigamente julgava-se que qualquer ato mau era pecado formal; só se levava em conta a materialidade do ato ou o ato como tal (ver o pecado material de Jonatas em 1Sm 14, 23b-30.43-45)1. Em nossos tempos, dado o progresso da psicologia das profundidades, sabe-se que muitos atos maus são cometidos sem pleno ou sem algum conhecimento de causa ou sem vontade plenamente deliberada; muitas pessoas são obcecadas ou nervosas a tal ponto que agem inadvertidamente; em tais casos, o seu pecado é atenuado ou mesmo nulo; pode ser pecado meramente material, não formal.

 

c)   Hoje em dia também se leva em conta o fato de que muitas pessoas são subliminarmente induzidas ao mal pela propaganda comercial, pelos muitos exemplos apresentados nos meios de comunicação social (novelas, filmes...), pela educação desvirtuada que recebem... Tornam-se menos responsáveis, porque "manipuladas" pelo ambiente em que vivem. Só Deus pode ler o fundo das consciências e discernir aí o grau de responsabilidade das pessoas que cometem erros morais.

 

Verdade é que todo indivíduo tem severa obrigação de se informar claramente a respeito do bem e do mal em matéria ética; há os que negligenciam essa pesquisa, e, por isto, cometem o mal sem saber claramente que estão cometendo o mal, mas nem por isto são inocentes, pois na raiz da sua ignorância há um desleixo culposo. Há outras pessoas que não conseguem esclarecer-se ou nem desconfiam de estar procedendo mal; tais pessoas não têm culpa, porque agem por ignorância não culpada.

 

Eis o texto de 1Sm 14, 23b-30. 43-45, que vem ao caso:

 

"O combate se estendeu até além de Bet-Horon. Como o povo de Israel se achasse naquele dia já exausto, Saul proferiu sobre o povo esta imprecação: 'Maldito seja o homem que comer alguma coisa antes de terminar o dia, antes que eu me tenha vingado de meus inimigos'. E ninguém de todo o povo provou qualquer alimento.

Ora, havia em pleno campo um favo de mel. O povo chegava ao lugar em que estava o favo de mel, o mel escorrendo, mas ninguém o tocava com a mão e o levava à boca, porque o povo temia o juramento que fora feito.

Entretanto Jônatas não tinha tido conhecimento do juramento a que seu pai havia obrigado todo o povo. Levantou a vara que tinha consigo, espetou-a no favo e, com a mão, saboreou o mel, e logo a sua visão melhorou. Mas alguém do grupo, vendo-o, lhe disse: Teu pai impôs este juramento ao povo: Maldito seja o homem que comer alguma coisa hoje'.' Jonatas respondeu: 'Meu pai cometeu o maior erro da terral Vede como eu tenho os olhos mais claros por ter provado um pouco deste mel. Quanto mais se todo o povo tivesse comido livremente dos despojos que tomou dos seus inimigos. Não teria sido muito maior a derrota dos filisteus?'

 

Então Saul disse a Jonatas: 'Conta-me o que fizeste'. Jonatas respondeu: 'Eu somente provei um pouco de mel com a ponta da vara que tinha na mão. Estou pronto para morrer'. Saul replicou: 'Que Deus me faça este mal e me ajunte ainda este outro, se tu não morreres, Jonatas'.'. Todavia o povo disse a Saul: 'Jonatas, aquele que alcançou esta grande vitória em Israel, vai morrer? De maneira alguma! Tão certo como vive o Senhor, não cairá um só cabelo da sua cabeça, porque foi com Deus que ele fez hoje o que fez'.' Assim o povo resgatou Jonatas, e ele não morreu".

 

Este texto é muito interessante, porque, de um lado, mostra como Saul quis levar em conta e punir o pecado material cometido por Jonatas, ou seja, o pecado cometido sem conhecimento de que era um ato mau. De outro lado, o povo compreendeu que só são imputáveis e passíveis de sanção os atos em que a pessoa se empenha toda, com conhecimento de causa e vontade deliberada (tais são os pecados formais). Por isto o povo eximiu Jonatas da punição que seu pai lhe queria infligir.

 

2.2. A "epistemologia" do pecado

 

Pode haver pecados que redundem em benefício para o próximo, como seria o furto cometido para ajudar uma pessoa pobre. Nem por isto tais fatos deixam de ser pecaminosos. O fim não justifica os meios. De modo geral, os eventuais efeitos bons de um ato mau não tornam esse ato bom.

 

Pode haver reciprocamente atos bons, que acarretem efeitos maus. Pode ser o caso de uma aula de biologia dada segundo o programa de uma escola bem orientada; tal aula, ministrada com dignidade, pode despertar no educando curiosidade e desejos moralmente maus. Nem por isto a aula foi pecaminosa. — Dizemos isto em atenção a uma passagem do livro de X. Thévenot, que afirma:

 

"De um ato considerado bom, surgem sempre atos bons e maus. E, de um ato considerado mau, surgem também atos bons e maus. Esta tomada de consciência da ambigüidade de nossos atos torna de pronto mais difícil o discernimento que permite saber se é o bem ou o mal que predomina. Na realidade, o julgamento de bondade ou maldade de um ato será sempre um julgamento de predominâncias. Assim, quando digo: esta conduta é boa ou esta conduta é má, faço uma abreviação de linguagem. Para ser totalmente exato, seria preciso dizer: esta conduta faz surgir elementos predominantemente bons ou humanizadores, ou, ao contrário, elementos predominantemente alienantes ou desumanizadores. É então desejável assumir plenamente a ambigüidade em nossas vidas. Agir moralmente é, inevitavelmente, se 'macular', porque a ação é sempre ambígua" (pp. 21s).

 

O relativismo que essas frases incutem é desorientador e falso. Baseia-se na mera consideração dos fenômenos ou do que aparece, sem levar em conta que, por baixo de todo fenômeno, há sempre uma essência (assim, por exemplo, a água gelada pode ter efeitos ambíguos ou contraditórios, pois faz bem a uns e mal a outros, mas é sempre a mesma água, com a mesma essência bem definida: H2O). De modo análogo, a moralidade de um ato humano não é julgada pelos seus efeitos ([2]), mas à luz de três fatores, que passamos a expor sob o item seguinte:

 

2.3. Como determinar a moralidade do ato humano?

 

São três os elementos que devem ser levados em conta para que se possa dizer que determinado ato é bom ou mau: 1) o objeto do ato; 2) a finalidade de quem age; 3) as circunstâncias dentro das quais é praticada a ação.

 

2.3.1.          O Objeto

 

O objeto do ato humano é a matéria sobre a qual versa esse ato: o amor ao próximo, a oração..., que a Lei de Deus recomenda; o desrespeito à propriedade alheia, que a Lei de Deus condena... Há, pois, atos que, por seu objeto mesmo, são bons ou maus. Há outros atos que, considerados em si, são moralmente indiferentes: o comer, o dormir, o passear...

 

Ora a moralidade do ato humano é definida primeira e basicamente pelo objeto moral desse ato (ou pelo objeto colocado sob a luz da Lei de Deus); por exemplo, o adultério tem como objeto a violação da fidelidade conjugal; esta torna o adultério intrinsecamente mau, quaisquer que sejam as intenções e as circunstâncias daqueles que o cometem.

 

2.3.2. A Finalidade de quem age

 

A finalidade pode ser entendida como aquilo que move alguém a praticar determinado ato; é o bem (ou o mal) que a pessoa tem em vista ao agir; chama-se então "a finalidade do sujeito operante". Distingue-se da finalidade imanente que existe no próprio ato ("finalidade da obra"). Assim, por exemplo, dar esmola é ato que tem uma finalidade intrínseca ou imanente: aliviar os pobres. Mas posso praticar esse ato para me enaltecer vaidosamente; neste caso a finalidade do sujeito operante não coincide com a da obra. Outro exemplo: alguém pode comer para conservar a saúde (finalidade da obra), mas pode também comer para satisfazer à gula, prejudicando a saúde (finalidade do sujeito operante). Vê-se, pois, que a finalidade do sujeito operante influi na moralidade dos seus atos.

 

2.3.3. As Circunstâncias do Ato

 

As circunstâncias são os fatores que contornam (circum-stant) o ato humano; podem ter repercussão na moralidade do mesmo. Dizem respeito ou ao objeto do ato ou ao sujeito que age, ou ao desenrolar do ato. Enumeram-se sete circunstâncias capazes de modificar a moralidade: quem, o quê, onde, com que meios, por quê, como, quando. Examinemos cada qual de per si.

 

Quem refere-se ao sujeito do ato: à sua profissão, à sua idade, ao cargo que exerce... Assim, por exemplo, a injúria cometida por um adulto sadio é muito mais grave do que aquela cometida por uma criança ou por um doente mental; um professor que dê maus exemplos aos seus alunos, tem mais responsabilidade do que um funcionário da administração... Uma pessoa semi-adormecida tem menos responsabilidade que uma pessoa lúcida e consciente.

 

O quê refere-se às particularidades do objeto do ato: a ofensa cometida por um filho contra seus pais é mais grave do que se a cometesse contra outras pessoas; roubar um objeto sagrado (cálice, por exemplo) é mais grave do que roubar outro objeto. Furtar algo de uma pessoa pobre é mais grave do que furtar o mesmo de um proprietário rico.

 

Onde refere-se ao lugar em que o ato é praticado: difamar alguém perante uma assembléia é diferente de difamar em conversa com um amigo. Matar alguém no recinto de uma igreja é diverso de matar na praça pública.

 

Com que meios diz respeito aos recursos aplicados por quem age. Fazer a guerra com armas atômicas é algo de especialmente grave; ajudar o próximo com dinheiro roubado é diferente (em mau sentido) de ajudar com recursos próprios.

 

Por que refere-se à intenção de quem age (finalidade do sujeito). Pode modificar, por completo, a moralidade do ato; tenha-se em vista ocaso de quem dá esmola para ajudar o próximo e o de quem a dá unicamente para ter seu nome elogiado.

 

Como diz respeito à maneira de agir: obter um favor legítimo em contexto de fingimento e mentira muda a moralidade de um ato que poderia ser moralmente bom.

 

Quando designa o tempo em que se realiza um ato: trabalharem domingo, para o cristão, não é o mesmo que trabalharem dia útil; conceber ódio momentâneo não é o mesmo que alimentar ódio duradouro.

 

Como se vê, há circunstâncias agravantes e circunstâncias atenuantes; por exemplo, quem rouba dinheiro, fere a justiça; quem rouba um objeto sagrado, lesa não somente a justiça, mas também a virtude da religião. Há também circunstâncias que mudam a moralidade de um ato (ajudar o próximo é, em si, louvável; torna-se censurável, se feito exclusivamente por vaidade). Além, disto, existem circunstâncias meramente físicas, que são indiferentes à moralidade; assim , via de regra, pode-se dizer que tanto faz roubar na segunda como na terça-feira — A importância das circunstâncias é tal que a Igreja ensina que, no sacramento da Penitência, o cristão deve confessar os seus pecados e também as circunstâncias que mudam a espécie dos mesmos.

 

Em alguns casos, é difícil a alguém definir exatamente os fatores que integram determinado ato. Não se pode identificar um ato humano como se identifica um ser físico. Em tais circunstâncias, a pessoa deve entregar a Deus o julgamento da sua conduta e acautelar-se contra futuras insídias do mal sorrateiro.

 

2.4. E o pecado dos primeiros pais?

 

X. Thévenot dedica todo o capítulo II do seu livro ao tema "Pecado Original". Tal matéria só pode ser devidamente abordada à luz da fé. Ora esta ensina o seguinte:

 

2.4.1. Elevação à filiação divina

 

Os primeiros homens, logo no início de sua existência, foram elevados ao estado dito "de justiça original", ou seja, foram enriquecidos por dons que os elevavam ao estado de graça ou à ordem sobrenatural ([3]) . Tais dons eram:

 

a)   a graça santificante, que tornava os primeiros homens filhos de Deus em sentido muito denso, aptos a viver em comunhão e intimidade com Deus;

 

b)   os dons preternaturais ou dons que aperfeiçoavam a natureza humana:

 

    a imortalidade ou a isenção de morte violenta e arrebatadora como ela é hoje; o fim de vida terrestre do homem seria suave transição para a glória; ver Gn 2,17;3,19;

    a impassibilidade ou a ausência de dores geralmente precursoras da morte; cf. Gn 3,16-19;

    a integridade ou a imunidade de cobiças desregradas, que tornam o homem contraditório (vê o que é melhor, e realiza o que é pior; cf. Rm 7, 15-19). Ver Gn 2,25; 3,7.21;

— a ciência moral infusa, para que pudesse agir responsavelmente perante o desígnio de Deus.

 

É de notar que tais dons não implicavam beleza física para os primeiros homens. Eram realidades latentes no íntimo do ser humano; só transpareceriam no físico se os primeiros pais se mostrassem fiéis ao desígnio de Deus.

 

2.4.2. A transgressão

 

Os dons de Deus aos primeiros homens deveriam ser confirmados pela conduta dos primeiros pais ou pelo Sim do homem. Daí a história da árvore da ciência do bem e do mal. Esta é símbolo[4] de um modelo de vida a que o homem se devia submeter pelo fato mesmo de estar elevado a uma dignidade superior; já não competia ao homem ditar as normas racionais, "prudenciais", do seu comportamento, mas, feito filho de Deus em grau especial, devia viver conforme as normas da nova ordem de coisas a que pertencia. É isto que vem simbolizado pelo preceito de não comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal. O homem devia dar o seu assentimento ao dom de Deus, comportando-se não como autônomo, mas como teônomo.

 

Todavia os primeiros pais rejeitaram o modelo divino por orgulho. Com efeito; o tentador (sob forma de serpente é designado o demônio em Gn 3,1) sugeriu aos primeiros pais que, se transgredissem a ordem de Deus, seriam como Deus, árbitros do bem e do mal. A soberba humana foi assim bajulada e cedeu à mentira.

 

2.4.3. Fato histórico

 

A fé cristã professa que a desobediência dos primeiros pais elevados ao estado de justiça original foi um acontecimento real, histórico, que condicionou a subseqüente história da humanidade. O fato de estar o relato de Gn 3 marcado por uma linguagem simbolista não pode ser invocado para se negar a historicidade da queda original. É o que afirma João Paulo 11:

 

"Na descrição do pecado, trata-se de um evento primordial, isto é, de um fato que, segundo a Revelação, teve lugar no início da história da humanidade" (Catequese de 10/9/1986, n? 11).

 

2.4.4. Conseqüências

 

1) A falta dos primeiros pais é chamada pecado original originante. Teve conseqüências graves e duradouras.

Com efeito. Os primeiros pais perderam os dons gratuitos que receberam logo depois de criados. Isto quer dizer que

 

    a morte passou a ser o que ela naturalmente é: arranco violento, que contraria profundamente o instinto de conservação da pessoa;

    os impulsos ou instintos sensíveis não se harmonizaram sempre com a razão, mas antecipam-se desordenadamente aos critérios do raciocínio, provocando o que se chama "a cobiça desregrada";

    o ser humano sofre os choques dolorosos e embates naturais, decorrentes da fragilidade da sua natureza;

    o homem é obnubilado em seu entendimento das coisas de Deus. Este é invisível, ao passo que as criaturas são coloridas, sonoras e mais atraentes para os sentidos.

 

2)          Despojados dos dons iniciais, os primeiros pais só puderam gerar prole carente, também ela, da justiça original. Ora essa carência é o que se chama pecado original originada. Não é pecado propriamente dito da parte da criança, mas é conseqüência do pecado dos primeiros pais. Deus não é injusto ao permitir que a criança nasça despojada da graça, pois a graça é gratuita; ademais toda criança é naturalmente solidária com seus genitores; recebe o que estes têm, e não recebe o que estes não possuem.

 

O Concílio de Trento afirma que o pecado dos primeiros pais se transmite por geração. Isto não significa que o ato de gerar seja pecaminoso, mas, apenas, que é o veículo pelo qual se transmite a natureza humana destituída da graça e dos dons preternatural.

 

Por conseguinte, o pecado original na criança não implica culpa da criança, mas resulta da solidariedade dos pequeninos com os seus antepassados, especialmente com os primeiros pais. Consiste na ausência da justiça original, que tem por conseqüência o desencadeamento das paixões e cobiças desordenadas.

 

Vê-se, pois, que o tema do pecado original originante e originado não é assunto de livre discussão na Igreja; não está subordinado aos pareceres de teólogos e pesquisadores, mas é objeto de definições por parte dos magistério ordinário e extraordinário da Igreja.

 

A propósito veja PR 365/1992, pp. 450-455 (Catequeses do Papa João Paulo II sobre o assunto).

 

Em suma, o livro de X. Thévenot, por mais que tencione esclarecer a noção de pecado, contribui para torná-la confusa, a tal ponto que se corrobora no leitor a impressão errônea, já existente em muitos cristãos (como nota o próprio autor), de que o pecado é coisa vaga, talvez mesmo rara. Isto não somente contradiz à doutrina da fé, mas também prejudica o próprio leitor, pois é inegável a existência de males morais em nossos dias (e outrora). É mais reto e sadio reconhecer os males ou os pecados e fazer que a sociedade assuma a responsabilidade dos mesmos (na medida em que isto lhe toca) e procure coibi-los..., mais sadio do que atenuar "simpaticamente" a realidade do pecado que pesa sobre o mundo de hoje, empalidecendo assim as respectivas responsabilidades.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] O Pecado. O que dizer? - Edições Paulinas, São Paulo 1993, 130 x 200 mm, 94 pp.

[2] Está claro que os efeitos maus de determinado ato podem agravar a malícia desse ato. Assim a mentira é sempre pecaminosa; todavia é especialmente grave e pecaminosa quando prejudica o próximo. O roubo é sempre mau; contudo é mais grave, quando deixa o próximo na penúria.

[3] Sobrenatural, no caso, não significa extraordinário ou maravilhoso, mas designa a riqueza espiritual de que eram dotados os primeiros pais.

[4] As literaturas e a arte antigas atestam que, para os povos primitivos, a árvore e a vegetação tinham, não raro, o valor de símbolo religioso. Tenhamos em vista a ambrósia e o néctar dos deuses nas mitologias. Ainda hoje certas tribos primitivas julgam que produtos vegetais (folhos, frutas...) dão união com a Divindade. A crença na eficácia do Santo Daime da Amazônia é um espécimen desse modo de pensar.


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Claudio Maria

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