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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 369 – fevereiro 1993

Sempre muito em foco:

 

Nostradamus: Uma Nova Imagem

 

Em síntese: O escritor James Randi, estudioso de fenômenos paranormais, publicou recentemente o livro The Mask of Nostradamus (Charles Scribnefs Sons, New York). Após ter pesquisado, durante anos, os escritos de Nostradamus e os lugares em que nasceu e viveu o "profeta", Randi desmascara muitas de suas 'profecias": mostra que os intérpretes freqüentemente violentam o texto, trocando, tirando ou acrescentando letras ao mesmo, a fim de associar os quartetos de Nostradamus a fatos da história posterior ao século XVI, em que viveu o vidente". Randi põe em evidência o caráter obscuro das Centúrias, que, na verdade, não têm sentido aos olhos de quem as investiga em profundidade; a sua linguagem, mista de provençal, francês, latim., ou nada significa ou tudo pode significar, de acordo com as premissas dos intérpretes.

 

Michel de Nostre-Dame ou Nostradamus está sempre em foco; é talvez o "profeta" mais popular e acreditado nos países de cultura ocidental. Muito se tem escrito a respeito dele. Ultimamente apareceu o estudo The Mask of Nostradamus (a Máscara de Nostradamus) de James Randi ([1]). Este autor é tido como The amazing Randi (o atraente Randi); é ilusionista profissional e um dos fundadores do CSICOP, Comitê Americano para o Estudo Científico das Alegações de Fenômenos Paranormais; entre outros feitos, James Randi propôs explicações que desmistificam Uri Geller e quantos fazem artes semelhantes, entortando colheres, garfos e outros utensílios.

 

A bibliografia concernente a Nostradamus é muito vasta. Nota-se, porém, que os relatos biográficos incluem lendas numerosas relativas a tal personagem. Procuram interpretar as Centúrias ou as quadrinhas do "profeta" - o que só é possível mediante artifícios sutis, visto que o texto, escrito em linguagem arcaica e mista do século XVI, se apresenta muito obscuro ao intérprete. Por isto, ao lado dos que dizem saber ler Nostradamus, há os que afirmam que Nostradamus se enganou ou que é inútil procurar entendê-lo, pois os seus versos não têm sentido.

 

James Randi não se mostra hostil a Nostradamus. Estudou durante vários anos as suas Centúrias; esteve em Saint-Rémy-de-Provence, onde Miguel de Nostradamus nasceu e passou os seus primeiros dezesseis anos de vida. As suas pesquisas levaram-no finalmente a dizer que Nostradamus não foi um profeta, mas quis evocar recordações do passado entre outros devaneios de sua fantasia.

 

A seguir, apresentaremos alguns dados biográficos e bibliográficos de Nostradamus, após o quê examinaremos de mais perto o livro de James Randi, autor que bem conhece o mundo do maravilhoso.

 

A propósito de Nostradamus já publicamos um artigo em PR 269/1983, pp. 325-342. Em tal artigo foram comparados entre si os comentadores de Nostradamus: Erika Cheetham (As Profecias de Nostradamus, Ed. Nova Fronteira, 1977) e Henry C. Roberts (As verdadeiras e completas Profecias de Nostradamus, Ed. Itatiaia, Belo Horizonte 1981). Ver também PR 217/1978, pp. 22-35.

 

1. Dados biográficos

 

As biografias de Nostradamus mesclam história e lenda (como, aliás, sói acontecer com os grandes adivinhos do passado). Procuraremos abaixo apresentar o que se possa dizer de seguro a respeito.

 

Miguel Nostradamus nasceu de família judia, da tribo de Issacar, em Saint-Rémy (Provença, França) na quinta-feira 14 de dezembro de 1503, aproximadamente às 12 horas (*). Os seus ancestrais, bons conhecedores de medicina e matemática, se haviam tornado cristãos por efeito de um decreto do rei Luís XI (1461 -83), que ameaçava os judeus não batizados de confiscação dos bens; em conseqüência, os avós paternos tomaram o sobrenome "Nostre-Dame" ([2]) (Nostradamus, em latim vulgar), enquanto os avós maternos adotaram o apelativo de "Saint-Rémy", nome do lugar em que habitavam.

 

* O primeiro biógrafo de Nostradamus foi seu discípulo Jean-Aimes de Chavigny, que publicou a biografia do vidente em 1594. - Note-se a indicação precisa do dia e da hora em que nasceu Nostradamus; era necessária para que se pudesse definir o horóscopo do "profeta ".

 

O jovem Miguel foi primeiramente formado por seus avós, que lhe ensinaram a matemática (naquela época, inseparável da astrologia), como também a mediana e a farmacêutica. Muito jovem, pois, aprendeu a manejar o astrolábio (3), a contemplar as estrelas e a ler os "destinos" dos homens nas conjunções dos astros. Após a iniciação, o jovem foi para Montpellier, onde se doutorou em medicina aos 26 anos de idade.

 

3) Nostradamus usava também um recipiente cheio de água, que o observador ficava olhando até que a água se tornasse turva e as perspectivas do futuro ali se desenhassem. Nostradamus se colocava, com uma vara na mão, no meio de um círculo mágico, chamado limbo, junto ao astrolábio; falava-lhe então a voz de Branco, filho de Apolo, que aparecia em meio ao fogo, como julgava o "profeta".

 

Terminados os estudos, viajou pela Provença e o Languedoc; esteve na Itália (Milão, Gênova, Veneza). Entrou em contato com Júlio Scaliger, filósofo e humanista famoso, que o convidou para morar em sua casa, na cidade de Agen. Ali casou-se e teve dois filhos. Praticava a medicina com grande êxito- o que lhe granjeou fama e numerosa clientela. Sobreveio, porém, a peste, que, entre outras vítimas, fez perecer a sua mulher e seus filhos - o que prejudicou enormemente a sua reputação. Deixou Agen, e, triste, retirou-se para a Abadia de Orval no Luxemburgo, onde escreveu as primeiras "profecias".

 

Por volta de 1554, reaparece em Marselha, onde contribui para debelar uma epidemia. Pouco depois, faz o mesmo em Lyon, recuperando assim o seu prestigio.

 

Estabeleceu-se finalmente em Salon-de-Crau, onde se casou de novo, vindo a ter sete filhos. Passou todo o resto da vida a estudar e escrever, interessando-se grandemente pelo ocultismo. Em 1550, começou a redigir um conjunto de "profecias", que, agrupadas em cem estrofes de quatro versos cada uma, foram chamadas "Centúrias". Deixou dez Centúrias; não se sabe por que a Centúria VII não foi completada. Os versos estão redigidos em linguagem obscura e hermética, que resulta da mescla de francês, provençal (4), italiano, grego e latim.

 

4) Língua falada na Provença, Sul da França.

 

O jovem rei Carlos IX, que em 1563 foi declarado de maior idade, em 1564 nomeou Nostradamus médico e conselheiro seu. Isto teve pouca significação, pois nessa época o "profeta" estava já idoso e cansado.

 

Por fim, Nostradamus faleceu aos 2 de julho de 1566. Terá predito o dia da sua morte, quando já consumido por artrite e gota. Foi sepultado na igreja dos Cordeliers e depois trasladado para a de S. Lourenço, em Salon, onde ainda se pode ver o seguinte epitáfio:

 

"Aqui repousam os restos de Miguel de Nostradamus, o único, na opinião de todos os mortais, cuja pena, quase divina, foi digna de transmitir, conforme o movimento dos astros, os acontecimentos que se darão no mundo inteiro".

 

O povo, porém, recusou-se a crer que o profeta morrera. Antes passou a afirmar que se encerrara em seu túmulo com uma lâmpada, papel, tinta e livros, e que ameaçava de morte quem tivesse a ousadia de abrir o sepulcro. Esta crença supersticiosa parece ter aproveitado aos exploradores, que publicaram subseqüentes edições das Centúrias contendo "profecias" adaptadas aos acontecimentos posteriores à morte de Nostradamus.

 

Tal era a fama de que gozava Nostradamus que, após a sua morte, muitas lendas se foram acumulando em torno de sua pessoa, a fim de mais o aureolar. Entre outras, é particularmente interessante a seguinte: Catarina de Médici permaneceu estéril durante onze anos após o casamento com Henrique de Orléans, o que lhe causava enorme pesar, fazendo-lhe temer o repúdio por parte do marido; Nostradamus teria posto termo a essa situação angustiosa, receitando para a rainha o remédio apto a combater a esterilidade: "Urina de carneiro misturada com sangue de lebre; pata esquerda de doninha temperada com vinagre forte; chifre de veado pulverizado e misturado com esterco de vaca e leite de jumento". Por efeito desta medicação, Catarina teria tido dez filhos! Acontece, porém, que neste relato há evidente anacronismo, que depõe contra a sua veracidade: Catarina casou-se com Henrique em 1533 e teve seu primeiro filho, o futuro rei Francisco II, em 1544. Ora nesta data Nostradamus ainda não era conhecido nem se instalara em Salon.

 

Vejamos agora algo sobre os escritos que Nostradamus legou à humanidade.

 

2. Os escritos

 

Além das Centúrias, são atribuídos a Nostradamus os "Presságios" e as "Predições". Os "Presságios" constam de 141 quartetos, dos quais cada um corresponde a um mês, desde 1555 a 1567.0 quarteto da morte de Nostradamus corresponde a novembro de 1567, embora o desenlace se tenha dado a 2 de julho de 1566. Não se sabe exatamente quando foram escritos; apareceram pela primeira vez em 1568. Quanto às "Predições", há sérias dúvidas sobre a autoria das mesmas; constam de 5"8 sextilhas, que, como alguns comentam, correspondem ao séc. XVII; parecem ter sido compiladas das memórias de Nostradamus por seu discípulo Vincent Seus de Beaucaire e publicadas em 1605.

 

As Centúrias tornaram-se instrumento utilizado por muitos peritos para orientar e dirigir os acontecimentos da história em momentos difíceis. Assim em 1649 os inimigos do Cardeal Mazarino, na França, achando que este exercia demasiada influência na corte francesa, publicaram uma edição das Centúrias, que dataram de 1568 e na qual inseriram evidentes referências ao Cardeal.

 

Como quer que seja, os críticos em nossos dias julgam poder apresentar ao público uma edição autêntica das Centúrias de Nostradamus.

 

Todavia a leitura atenta dos textos de Nostradamus dá a ver que se trata de "profecias" extremamente obscuras, suscetíveis de mais de uma interpretação em virtude do seu estilo lacônico e por estarem redigidas em provençal do séc. XVI enxertado de outras línguas. Além disto, os comentadores, para descobrir o sentido de certas palavras do texto, têm que deslocar as respectivas letras, de modo que Rapis significaria Paris, Nercaf designaria a França, Chypre equivaleria a Henryc... Quanto aos comentários dos estudiosos, não raro violentam o texto do "profeta", ou, se não o violentam, parecem arbitrários, podendo ser substituídos por outros tão "válidos" quanto os do comentarista. Ademais é de notar que os comentadores de Nostradamus, desejando ler nos seus textos acontecimentos da história mundial, combinam entre si as quadras tiradas de diversas Centúrias, como se, distantes uma das outras, descrevessem todas o mesmo evento (aliás, dizem os comentadores que Nostradamus mesmo espalhou suas profecias sem ordem cronológica nem lógica para que a censura do século XVI não o punisse).

 

Passemos agora a

 

3. O Comentário de James Randi

 

Como dito, James Randi, após anos de estudo de Nostradamus e após visita à terra natal do "profeta", julga que este, em muitas Centúrias tidas como proféticas, não quis senão aludir a recordações de sua infância. Mais genericamente, Randi se mostra cético em relação ao "gênio profético" do famoso mestre. - Eis alguns espécimes do comentário de J. Randi:

 

1) Centúria V, quarteto no 57:

 

Eis o que se lê no texto original:

 

"Istra du Mont Gaulsier et Aventine Qui par le trou advertira l'Armée Entre deux Roes sera prins le butin De Sext, Mausol faillir la renommée".

 

Segundo Erika Cheetham, o texto deve ser assim traduzido:

 

"Aparecerá vindo de Montgaulfier e do monte Aventino alguém que, por um buraco, avisará os exércitos. O espólio será tomado entre duas rochas. O renome do Sexto extingue o celibato". (obra citada, p. 224)

 

Os intérpretes (1) costumam ver nestes versos o anúncio da invenção do aeróstato dito "Montgolfière" por causa do nome de seus inventores:

 

Erika Cheetham, por exemplo, assim explica o quarteto:

"O BALÃO DE MONTGOLFIER E A BATALHA DE FLEURUS, 1794

O balão de ar quente foi inventado pelos irmãos Montgolfier em 1738, e foi usado por uma patrulha de reconhecimento na batalha de Fleurus, em 1794. A vitória francesa em Fleurus foi decisiva na primeira fase da coalizão das guerras revolucionárias que abriram caminho para o ataque de Roma e do Aventino. A palavra mansol é derivada de manens solus - aquele que se mantém só. Em outras quadras, Nostradamus se refere aos monges e frades como les seuls. Sext, abreviatura de Sextus, é Pio VI, que foi capturado por Napoleão, e o único, desde o tempo de Nostradamus, excluindo o papa atual, que teve este número. Pelo tratado de Tolentino, em 1797, o papa ficou privado de muitas de suas terras, as rochas, sobre as quais baseava o seu poder" (obra citada, p. 224).

Para mostrar quão frágil é o comentário de E. Cheetham, transcrevemos o de Henry C. Roberts:

"Os montes Gaulsier e Aventino, duas das sete eolnas de Roma, são aqui usados por Nostradamus simbolicamente. A estrofe parece referir-se a velhas lutas envolvendo tanto o exército como a Igreja, durante as quais um traidor permite que o exército se apodere de parte da riqueza da Igreja" (obra citada, p. 141).

 

Jacques Etienne (+ 1799) e Joseph Michel (+ 1810) de Montgolfier. Um dos mais famosos seguidores de Nostradamus, V. lonescu, assim fundamenta a interpretação:

 

O primeiro verso "Istra du Mont Gaulsier et Aventine" deve ser traduzido por "Etienne de Montgaufier Aerostati avus", ou seja, "Etienne de Montgaufier, antepassado do aeróstato". - Como se vê, para chegar a tal leitura, lonescu introduziu no verso letras que não se encontram no texto de Nostradamus e tirou outras, revirando a frase, lonescu também trocou o s do original Gaulsier por um f (Gaufier). É certo que a antiga tipografia escrevia o s como se fosse um f sem o seu traço transversal; o f só tinha este traço horizontal quando ocorria no fim de uma palavra. De resto, o nome dos cientistas em pauta é Montgolfier, e não Montgaufier; foi com seu irmão Joseph que Etienne se tornou o inventor, e não o antepassado (ancestral), avus, do aeróstato (movido a ar quente).

 

Baseado na sua interpretação, lonescu afirma ao leitor que Nostradamus previu a utilização do aeróstato (montgolfière) na batalha de Fleurus (1794) e por ocasião do tratado de Tolentino (1797), que entregou Avinhão à França após a morte do Papa Pio VI.

 

Ora James Randi, tendo visitado a região natal (Glanum, segundo a nomenclatura latina) de Nostradamus, verificou que é um antigo lugar de acampamento das tropas romanas; julgou poder afirmar que o quarteto de Nostradamus em foco se refere a esse lugar, sem mistério algum. De fato, há ali um monte dito Gaussier (Mont Gaulsier, no quarteto). O buraco existe numa rocha das colinas locais; servia de guarida a sentinelas desde o tempo dos romanos. O pico das Duas Rochas, chamado "Les Deux Rocs", é contíguo ao Monte Gaussier. O Mausol é um monumento em ruínas, considerado como o mausoléu de um romano chamado Sextus; daí a referência a SEX no quarteto, pois o mausoléu traz uma inscrição que começa pelas letras SEX, ficando as demais letras ilegíveis. Ademais, há um pequeno mosteiro na região, dito "de Saint Paul de Mousole". O monte mencionado no quarteto é o pico Galserius ou Gauserius dos documentos romanos.

 

James Randi recorda a visita feita a Glanum e escreve:

 

"Perto de Mausole, percebi claramente na rocha duas grandes aberturas (buracos) através das quais se via o céu azul.. Tendo chegado com dificuldade ao cume da rocha, logo compreendi o autêntico sentido do quarteto. Tendo entrado na maior das duas aberturas (buracos), vi aos meus pés não somente toda a cidade de Saint-Rémy-de-Provence, mas também o Mausole e as ruinas de Glanum. À minha esquerda um caminho levava para a estada romana proveniente do Sul. Tal era o lugar ideal para uma sentinela encarregada de alertar a tropa romana conta qualquer avanço do inimigo pela estrada; acenderia fogo ou utilizaria outro sinaL ..

Em certas pesquisas, há momentos que podemos qualificar de deliciosos. Eu sabia que estava no lugar mesmo onde Michel de Notre-Dame se encontrara muitas vezes; eu percebia que ele não resistira, 36 anos mais tarde, ao desejo de evocar por escrito as suas impressões de adolescente" (citado no artigo de Science et Vie, pp. 70 e 17).

 

2) Centúria V, quarteto 27:

 

Eis o texto original:

 

"Salon, Mausol, Tarascon, de Sex, Larc, Où est debout encor la Pyramide, Viendront livrer le Prince Denamark, Rachat honny au temple d'Artemide".

 

Segundo E. Cheetham, assim se traduz o texto:

"Salon, Mansol, Tarascon, o arco de Sex,

Onde as pirâmides continuam de pé;

Virão libertar o príncipe da Dinamarca,

Um resgate vergonhoso no templo de Ártemis".

(obra citada, p. 173)

 

Este texto é muito obscuro. Assim o comenta Cheetham:

 

"A primeira linha é muito confusa e trata de St Rémy, onde nasceu Nostradamus, e onde existem dois grandes monumentos históricos: um mausoléu com a inscrição SEX L. M. JVI LEI C. F. PARENTIBUS SUIS, e, próximo a ele, um grande arco triunfal. Mansol é grafia errada de Mausolo, um mosteiro (priorado) fora de St Rémy. O difícil é unir todas estas informações à Dinamarca. A palavra pode ser um dos mais bem ocultos anagramas (1) de Nostradamus, que eu não consigo decifrar" (ibd.).

 

Henry Roberts assim pensa:

"As cidades provincianas aqui mencionadas, assim como os arcos, são ruínas de antigos monumentos triunfais erguidos pelos romanos. Artemisa é um dos nomes de Diana" (obra citada p. 107).

 

(1) Anagrama é palavra ou frase formada pela transposição das letras de outra palavra ou frase. Exemplos: Belisa (de Isabel); Arima (de Maria), Avalor(de Álvaro)... (Nota do redator).

 

Ora James Randi chamou a atenção para as quatro primeiras palavras do primeiro verso: Mausol e Sex estão também no quarteto 57 da Centúria V; Salon é Salon-de-Provence, em que Nostradamus viveu desde 1547. Tarascon é uma das cidades da Provença, onde o "profeta" tratou das vítimas da peste. Por conseguinte, diz James Randi, este quarteto volta-se para a infância e para os primeiros anos da carreira médica de Nostradamus!

 

3) Centúria IX, quarteto 20:

 

Eis o texto original:

 

"De nurt viendra par la forest de Reines Deux pars vaurtrote Herne la pierre blanche, Le moine noir en gris dedans Varennes Esleu cap, cause tempête feu, sang tranche".

 

De acordo com E. Cheetham, o texto se traduz do seguinte modo:

 

"Pela noite virão através da floresta de Reins Dois companheiros por um caminho circular; A ranha, a pedra branca, o rei-monge, vestido de cinza em Varennes,

O eleito capet causa tempestade, fogo e fatias sangrentas".

(obra citada, p. 350)

 

E. Cheetham julga que o quarteto se refere à fuga de Luís XVI para Varennes em 1791:

 

"A FUGA DE LUÍS XVI PARA VARENNES EM 1791

O casal real, Luís XVI e sua esposa, Maria Antonieta, viajaram à noite, pela floresta de Reins, tendo conseguido escapar das Tulherias por uma porta secreta do apartamento da rainha. Eles se perderam no caminho e escolheram uma estrada das piores (vautorp. 'Pedra branca' ê com certeza uma referência ao caso do colar de diamantes que demoliu a frágil popularidade que Maria Antonieta tinha perante o povo francês. Pode também referir-se ao fato contado por sua aia, ou seja, que os cabelos da rainha embranqueceram da note para o dia, e ao fato de que ela usava normalmente vestidos brancos. O rei estava usando uma veste simples cinzenta (talvez a palavra monge se refira à sua anterior impotência), quando entraram em Varennes. Ele era um Capet, um rei eleito, o primeiro que teve a França e, como declara Nostradamus, foi a causa da revolução e do derramamento de sangue. Tranche é um verbo que significa cortar em fatias, que é exatamente o que faz a guilhotina."

(obra citada, pp. 350s)

 

Roberts assim comenta:

 

"Em Varennes, Luís XVI, disfarçado com um burel de monge, foi descoberto e preso, quando tentava fugir dos revolucionários' (obra citada, p. 242).

 

Ora James Randi faz as seguintes ponderações:

 

Primeiramente observe-se a maneira como os comentadores chegam à conclusão exposta:

Forest. segundo os mesmos, seria um derivado de Fores, porta. Na verdade, Luis XVI e Maria Antonieta deixaram o Palácio das Tulherias por uma porta não vigiada por sentinela. Pars é lido como se fosse part, palavra que em francês arcaico designa um dos cônjuges (marido ou esposa). Vaultorte é palavra que os comentadores decompõem em duas: vaulx, vales e torte, tortuosa. Herne seria um anagrama: substituindo-se o h por um ¡ e fazendo-se um deslocamento de letras, tem-se o vocábulo reine, rainha. Moine significaria só (mono* em grego). Noir seria outro anagrama, designando o rei (roi, em francês). Cap seria o mesmo que Capet, nome da dinastia reinante. Esleu deveria ser lido como se fosse élu. Tranche designaria a lâmina da guilhotina, que cortou os pescoços de Luís XVI e Maria Antonieta. Pierre blanche significaria que a rainha estava vestida de branco, ao passo que o rei estava de cinzento.

 

James Randi julga que todos esses artifícios são demais sutis e requintados para poder merecer crédito. Quem tritura um texto em direções diversas, acaba descobrindo nele o que deseja descobrir. Aliás Randi mostra que as interpretações dos comentadores são não somente sutis, mas também falsas. Com efeito; a estrada percorrida pelos monarcas fugitivos não era tortuosa; era o melhor itinerário para chegar a Montmédy, onde o rei encontraria tropas fiéis ao trono. Maria Antonieta não estava vestida de branco, mas de cinzento com uma capa preta. Luís XVI certamente não era o monarca eleito, mas o rei herdeiro de sua dinastia.

 

Ademais o fato de um homem vestido de cinzento fazer uma viagem à noite é coisa que ocorre muito freqüentemente: houve, e haverá numerosos casos deste tipo na história da humanidade. A referência do quarteto não é suficiente para dizer que Nostradamus tinha em vista um grande acontecimento da história da França. Além disto, o nome de Varennes pode designar 26 localidades na França, segundo a pesquisa instituída por Randi; há mesmo quem aponte 32 localidades de nome Verennes na França, sem contar as que se chamam Varesnes (cf. Dictionnaire des Communes, Editions Lavauzelle). Donde se vê que é arbitrário dizer que a cidade Varennes de Nostradamus é aquela mesma para onde quiseram fugir Luís XVI e Maria Antonieta.

 

4) Centúria I, quarteto 35:

 

Eis o texto original de Nostradamus, tido como uma das profecias mais claras e significativas do mestre:

 

"Le lyon jeune le vieux surmontera En champ bellique par singulier duelle; Dan caige d'or les yeux lui creuera Deux clases une, puis mourir, mort cruelle".

 

Segundo E. Cheetham, tal deve ser a tradução:

"O leão jovem suplantará o mais velho,

No campo de combate e numa única batalha;

Ele cravará seus olhos na gaiola de ouro deles;

Duas feridas em uma, depois morrerá de morte cruel".

(obra citada, p. 36)

 

A interpretação dada por E. Cheetham, com a qual concorda Charles Roberts, é a seguinte:

 

"A MORTE DE HENRIQUE II, 10 DE JULHO, 1559

Esta quadra foi compreendida na França ainda durante a vida de Nostradamus. Seus versos fizeram com que Catarina de Medíeis o chamasse para interpretá-los pessoalmente para ela. O profeta italiano Luc Gauric tinha avisado Henrique II de que o começo e o fim de seu reinado seriam marcados por duelos. O primeiro aconteceu logo após sua coroação. Parece portanto estranho que o rei não tomasse mais cuidado nos torneios com os quais se comemoraram os casamentos de sua irmã Elisabeth com Filipe II da Espanha, e de Margarida, sua filha, com o duque de Savoia no verão de 1559. Durante as festividades, que duraram três dias, o rei tomou parte nas competições na rua Sto Antônio. Foi vitorioso nos primeiros dois dias, mas no terceiro competiu com Montgomery, capitão da guarda escocesa. Henrique não conseguiu desmontar seu adversário, e insistiu em continuar a peleja. Na terceira tentativa, conseguiram quebrar as lanças, mas Montgomery não retirou sua lança a tempo e o toco estilhaçado furou o elmo dourado do rei e penetrou em sua cabeça logo acima do olha Alguns comentam que ele teve uma segunda ferida na garganta. O fim de Henrique foi, na verdade, cruel, tendo ele sofrido por dez dias de intensa agonia até que a morte o levou. Montgomery era sete anos mais jovem que Henrique, que morreu aos quarenta anos. Henrique usou algumas vezes o leão como emblema. A palavra classes nesta quadra deve ser compreendida como originária do grego klasis, quebra, fratura, em vez do latim classis, grupo". (obra citada, p. 36).

 

James Randi observa:

 

A diferença de idade entre os dois contendentes em esgrima não era senão de poucos anos, o que não justificaria o emprego dos termos "velho" e "jovem". Mais: Henrique II não morreu num campo de batalha (en champ bellique), mas num torneio que se poderia hoje considerar torneio ou competição esportiva. Ainda: a expressão "caige d'or" (gaiola de ouro) não tem cabimento no contexto de um torneio de esgrima, pois os escudos e os cascos (mesmo os dos reis) não eram de ouro, metal insuficientemente resistente aos golpes de tal torneio. O leão (lyon) nunca foi o emblema dos reis da França; galo ou flor de lírio teriam sido símbolos mais próximos da realidade. Por fim, na última linha do quarteto aparece o vocábulo classes, que os comentadores querem derivar do grego klasis (quebra, ferimento); se esta interpretação fosse correta, Nostradamus, além de conhecer o latim, teria conhecido o grego - o que não aconteceu; no vocabulário latino classes designa frota naval além de significar grupo - o que levaria a pensar que o quarteto alude a um combate naval e não a um torneio de esgrima.

 

Além dos quatro espécimes de exegese dos textos de Nostradamus, James Randi aponta outros quartetos violentados pelos comentadores do "profeta". Estes tomam a liberdade de trocar, tirar ou acrescentar letras do texto do "profeta" a fim de chegar às conclusões que eles querem atribuir a Nostradamus. Por isto também se verifica que os comentadores do "vidente" não concordam entre si; o mesmo quarteto lhes sugere duas ou mais interpretações, porque, mais do que o teor do texto, é a imaginação do intérprete que fala.

 

Em conclusão: mais uma vez se pode verificar quanto é falso querer deduzir de Nostradamus oráculos proféticos. Observa-se, porém, que o público é propenso a dar crédito aos intérpretes, porque o ser humano no seu íntimo é interessado por respostas ou soluções mágicas ou mirabolantes; sem ter consciência disto, "o público gosta de ser enganado", como observavam os antigos romanos: vulgus vult decipi.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 



1 Editado por Charles Scribner's Sons, New York, provavelmente em 1991 ou 1992, pois as notas que temos deste livro foram extraídas do artigo de Michel Rouzé e Igor Ziegler, 'Le vrai Visage de Nostradamus", da revista "Science et Vie" ne 900 (setembro de 1992), pp. 66-70 e 167-168.

[2] Nossa Senhora


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Por que o evangélico crê na Bíblia se não crê no testemunho e na autoridade divina da Igreja Apostólica que definiu e autenticou a Bíblia?
Claudio Maria

Católicos Online