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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 543/setembro 2007

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Constante problema:

"O CRISTÃO E A DOR"

por Richard Gräf([1])

Em síntese: Richard Gräf publica homilias proferidas durante a se­gunda guerra mundial (1939-1945) e depois, sob o impacto dos sofrimentos causados pelo estado de guerra. Serão, a seguir, apresentados os mais belos trechos deste livro: o amor de Deus e o sofrimento, a justiça divina, a expiação, a oração e a dor...

*   *   *

Richard Gräf é um sacerdote alemão que proferiu homilias sobre o sofrimento humano durante a segunda guerra mundial (1939-1945) e depois; sob o impacto do sofrimento, descobriu profundas verdades, que serão explanadas nas páginas seguintes.

 

1. Amor e justiça de Deus

O problema da dor é de certo o maior e o mais grave dos que se apresentam ao homem. "Quem não vencer a dor, não vencerá a vida" (p. 5)

Não obstante, na raiz de cada um de nós, como na origem da criação, há um ato de amor divino.

Com efeito; Deus é amor. E, assim como o sol não pode reter em si todo o seu calor e fulgor... assim também Deus não pode ocultar a sua plenitude de amor... É exatamente essa sua exuberância de amor que o levou a criar.

Em virtude desse amor Deus não abandona o homem pecador, mas sacrifica o próprio Filho não somente pela humanidade em geral, mas por cada um de nós. Ele a ninguém esquece.

Se Deus é amor, como falar de um "Deus justiceiro"? - Na verdade, quando Deus permite que o homem acarrete sobre si o castigo do pecado ou quando o põe à prova, Ele o faz para corrigir e prevenir. Seja lembrada a advertência de Hb 12, 3-10: o filho bem-amado é corrigido e castigado pelo pai, para que aprenda os bons costumes; o filho bastardo, pelo qual o pai não se interessa, é que é deixado solto. O amor verdadeiro não pode responder sempre "Sim"; quando necessário, tem de saber dizer "Não". Deus quer e quererá sempre o bem do homem. É São Paulo quem observa: "Se a minha carta vos causou dor... não me arrependo disso... Agora alegro-me não por ter-vos entristecido, mas porque a vossa tristeza vos levou à penitência" (2Cor 7, 8s).

Pergunta-se então: se Deus é perfeito, porque não criou um mundo em que não houvesse mal algum? - Em resposta dir-se-á: o mal não é um ser, mas é a ausência de um ser devido (assim a cegueira no homem é um mal, porque ele foi feito para ter olhos, mas a cegueira na pedra não é um mal, porque a pedra não foi feita para ter olhos). A causa dessa lacuna que é o mal, não pode ser Deus (que nunca age de maneira imperfeita), mas é a criatura, que, limitada como é, está sempre ameaçada de falhar; uma criatura que não possa falhar, é impossível; só existiria se Deus interviesse constantemente para evitar as quedas da(s) sua(s) criatura(s). É impossível existir uma criatura infalível por si mesma.

"É o amor, e não a justiça, que leva Deus a chamar-vos para tomar parte na dor do seu Filho; e, quanto maior é o sofrimento, maior é a prova de misericórdia. Estas palavras não são uma consolação barata; são a verdade em toda a sua plenitude" (p. 35).

"Tudo o que Deus faz, está certo. Quem observa apenas o lado superficial, nunca poderá compreender esta verdade: a vida é uma breve passagem, um breve período de provação... Como pode alguém compreender a alegria do semeador se não conhece a alegria da colheita? A dor e a felicidade estão tão interligadas como a semeadura e a colheita. Deus destinou-nos a um papel no teatro do mundo sem nos consultar, mas fê-lo com sábia ponderação e não ao acaso" (p. 35).

 

2. Alegria na dor

"Deus criou-nos para a alegria e a felicidade... O pecado dos nossos primeiros pais trouxe, porém, ao mundo... o sofrimento..., mas a natureza humana continua como dantes, feita para a alegria... Para a maioria dos homens a dor física apaga a alegria no coração; por isto Deus já se satisfaz quando aceitamos os padecimentos com paciência e resignação. Mas seria muito bom que conseguíssemos receber todo sofrimento com alegria". Deus ama a quem dá com alegria (2Cor 9, 7).

Isto não significa que devamos procurar a dor. A salvação não está na dor em si. Não podemos procurar a santificação através da dor, como fazem os faquires indianos. Na véspera de sua Paixão, o Senhor Jesus quis comunicar aos discípulos a sua alegria divina: "Disse-vos estas coisas (a alegoria da videira) para que a minha alegria esteja em vós, e vossa alegria seja plena" (Jo 15, 11).

Temos de proceder com decisão e não recuar covarde e dolorosamente perante qualquer sacrifício que de nós seja exigido, ou perante cada obstáculo que se levante á nossa natureza" (pp. 95-99).

 

3. O sofrimento e a oração

A oração é a atividade mais elevada do homem porque é união com Deus. A miséria ensina a rezar... Quanto maior for a miséria, mais urgente será a necessidade de pedirmos auxílio... Todas as nossas orações serão ouvidas, se tiverem por fim a glória de Deus, a salvação da nossa alma ou a dos outros. Mas, quando pedimos a Deus que nos alivie o sofrimento, não temos a mínima idéia do que é bom para nós. O que às vezes julgamos que é para o nosso bem é para o mal e o que julgamos que nos prejudica, só nos faz bem! "Se estiverdes doentes, não prescrevais ao médico o remédio que vos faz bem" (S. Agostinho).

Eis três casos significativos que a Bíblia nos aponta:

Satanás pediu a Deus a autorização para tentar Jó; o Maligno queria mostrar a Deus que os santos só lhe são fiéis enquanto o Senhor os abençoa e enriquece. Deus permitiu a Satanás que maltratasse Jó; este permaneceu fiel a Deus, de modo que Satanás, sem o prever, cavou a sua própria derrota e foi altamente recompensado (Jo 1, 11; 2, 5; 42, 10).

No Novo Testamento o Senhor não atendeu às súplicas de seu grande Apóstolo Paulo, que rogou três vezes fosse libertado de um espinho na carne, um mensageiro de Satanás que o esbofeteava; respondeu-lhe o Senhor: "Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta por completo o meu poder"; daí dizer o Apóstolo: "Quanto mais fraco me sinto, então é que sou forte" (2Cor 12, 7-10).

As duas irmãs Marta e Maria enviaram mensageiros a Jesus, dizendo: "Senhor, aquele que tu amas (Lázaro) está doente"; Jesus não se pôs imediatamente a caminho como esperavam as duas irmãs, mas esperou quatro dias: Lázaro morreu - o que muito entristeceu as irmãs. Somente depois de morto Lázaro, Jesus se fez presente para o ressuscitar "para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja glorificado" (Jo 11, 1-44). Jesus demorou, mas fez mais do que as irmãs esperavam.

Pode-se citar ainda o caso de Jesus, que pediu ao Pai que o isentasse do cálice da Paixão, mas que não foi atendido nesta proposta, porque o Pai lhe tinha reservado muito mais do que a dispensa de morte violenta; Jesus morreu na Cruz, mas ressuscitou e tornou-se o Senhor dos vivos e dos mortos.

Assim também a nós, o Senhor faz esperar, e durante muito tempo: "Até quando, Senhor, clamarei e não me escutareis?" (Hab 1, 2). Ouvir-nos-á quando chegar a hora (Is 49, 8; 2Cor 6, 2). Por vezes deixa que sintamos as ameaças de um naufrágio, mas nunca permite que nos afoguemos (Mt 14, 28-32).

Como é difícil esperar! Somos impacientes e queremos tudo imediatamente... Mais difícil ainda é esperar sob o fardo da cruz, quando nada mais podemos fazer. Mas é então que as almas se purificam, muito mais do que através de uma imensa atividade. Saber esperar é a arte da vida, a arte da santificação, porque esperar serenamente quando as dores nos afligem exige mais energia, mais força de vontade do que para agir (pp. 111-118).

 

4. A dor que faz crescer

Ser grande nas coisas grandes não é difícil, porque nos atrai a grandeza da missão, mas sê-lo nas pequenas coisas, isso sim, é verdadeira grandeza e verdadeira santidade. É este caminho pequeno e obscuro da fidelidade no cumprimento dos deveres cotidianos que conduz à santidade.

Em muitos homens Deus tem de remover o entulho antes de começar a edificar. Para a salvação de alguns, torna-se mesmo necessário que não tenham êxitos externos, apesar da sua boa vontade. São aqueles que se têm em grande conta, que se julgam superiores, capazes de beber o cálice com o Senhor (Mc 10, 38s), de O acompanhar até a prisão e a morte. Os êxitos visíveis tornam-nos ainda mais vaidosos e eles se afastam cada vez mais de Deus. Alguns precisam de ficar cegos para começar a ver: "Para mim foi bom que me humilhasses, Senhor" (SI 118, 71). A derrota externa é muitas vezes condição fundamental para a edificação interior" (p. 91-93).

 

5. Expiação

Expiação é um ato inspirado pelo amor, que renova a comunhão com Deus violada pelo pecado. Cada um(a) deve fazê-lo, tendo em vista os seus pecados próprios, mas também pode fazê-lo em vista dos pecados alheios. Cristo deixou-nos o exemplo da expiação em favor da humanidade; diz São Paulo: "Ele me amou e se entregou por mim" (Gl 2, 20). Por isto o Apóstolo podia afirmar: "Alegro-me nos sofrimentos que suporto por vós" (Cl 1, 24). Ora o cristão é chamado a participar da expiação prestada por Cristo; como fazem os Santos em geral. Existe, sim, entre nós, humanos, uma comunhão ou solidariedade que nos torna responsáveis pelo bem do próximo. Diz textualmente o Pe. Gräf:

"Considerado isoladamente, cada ser humano constitui um universo mais rico e mais valioso aos olhos de Deus do que todo o resto da criação, mas é, ao mesmo tempo, um membro da humanidade... Assim como numa tapeçaria são muitos fios que formam o todo, assim também nós, humanos, estamos reunidos num conjunto... Na vida civil, exercemos uma profissão que está condicionada pelo interesse comum. O mesmo acontece no plano sobrenatural, o cristão tem um papel e uma missão que implica uma responsabilidade perante o todo pecaminoso ou virtuoso; todo ato humano se reflete nos outros. Disse-o aliás o próprio São Paulo: "Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro recebe glória, todos os membros se regozijam com ele" (1Cor 12, 26).

É freqüente ouvir dizer que os tempos são maus. Mas será justo falar assim? Acaso não brilha sempre o mesmo sol, não sopram os mesmos ventos... O mal não está na terra, no mar, no ar ou no fogo. O mal está em nós. Não são os maus tempos que fazem os homens maus, mas, bem ao contrário, são os homens maus que fazem os maus tempos. Tornem-se homens bons e os tempos serão outros (pp. 53-56).

Este artigo não é mais do que uma coletânea de reflexões e afirmações do Pe. Ricardo Graf em seu livro "O cristão e a dor", cujas páginas transcritas são indicadas no decorrer da explanação.



[1] Ed. Quadrante, São Paulo 2007, 134pp.

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#0•A93•C34   2011-12-16 19:19:47 - Convidado/[email protected]
Parabéns pelo artigo, fantástico.

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