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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 388 – setembro 1994

Testemunho eloqüente:

 

ACOMPANHANDO UM JOVEM AIDÉTICO

 

Em síntese: Eis o testemunho de uma apóstola dos doentes, que narra os seus encontros com um aidético. A princípio, revoltado contra tudo, reconciliou-se com Deus, voltando a usar o crucifixo que ele anteriormente trazia pendente ao pescoço. — Morreu sereno, embora não tenha recebido os sacramentos finais. Esse fim de vida tranqüilo, após atitude de revolta e desânimo, se deve à paciência zelosa e às orações assíduas de A.G., que soube comportar-se com o rapaz de modo delicado e caridoso.

 

A AIDS é um maiores flagelos de nosso tempo, causando certa retração do público em geral. Todavia existem pessoas dedicadas que não se furtam ao trato caridoso e benévolo de seus irmãos sofredores. Entre elas seja mencionada uma anônima agente da Pastoral dos Enfermos (aumoniè-re d'hôpital) na França, que deixou por escrito o testemunho de sua experiência com um jovem aidético. Este depoimento foi publicado pela revista Vie Chrétienne, no 385, abril de 1994, pp. 4-7. Merece ser divulgado, pois, em meio às tragédias que afetam a nossa sociedade, põe em relevo luz e amor voltados para a desgraça alheia. Ei-lo em tradução portuguesa.

 

I. O TESTEMUNHO

 

"Acompanho pacientes em fase terminal, mas prefiro dizer que acompanho os doentes para os fazer viver do melhor modo possível até o fim.

 

Existe entre nós um Serviço que acompanha tão somente os enfermos atingidos por AIDS, assim como os drogados e os que tentaram o suicídio. Foi precisamente nesse Departamento que eu tive de intervir para acompanhar um doente aidético.

 

Esse acompanhamento durou cinco semanas. A pedido do médico, eu fui ter junto a um rapaz que chamarei Patrick, de trinta e dois anos de idade. O médico dissera-me: 'Minha senhora, ele necessita de ser ouvido muito particularmente'. As palavras 'muito particularmente' me perturbaram um pouco. Que significavam no caso? Perguntei então: 'Doutor, que entende o Sr. por escuta muito particular?' Respondeu-me:'Creio que ele tem uma fé muito vaga; ele procura algo'. Passei pela capela para criar o vazio em mim, rogar ao Espírito Santo e fui ter à cabeceira desse enfermo.

 

Viera do Sul. Fazia questão de guardar um certo incógnito; a família não estava a par da sua doença. Fiquei sabendo que somente sua irmã lhe conhecia o estado de saúde. Por conseguinte, ao entrar no quarto, eu não conhecia esse senhor, e quase nada havia no seu fichário. Logo colocou-me ele à vontade, pois foi o primeiro a falar, perguntando: 'Sabe a Sra. de que mal eu sofro?' Respondi afirmativamente: 'Você sabe que tenho acesso aos fichários médicos para poder ajudar os pacientes, mas estou obrigada ao segredo profissional. Não se preocupe portanto'.

 

Após o primeiro contato, logo senti em Patrick uma enorme revolta interior, mal expressa e desajeitada. Ele não sabia como havia de me pedir ajuda. Também não sabia como eu ia aceitar e acolher o seu pedido; ele mo disse mais tarde. Acrescentou logo que ele me conhecia mediante o pessoal de enfermagem. Minha visita foi abreviada por um chamado, mas, antes que eu deixasse o quarto, ele não quis deixar de me dizer: 'Até amanhã'.

 

No dia seguinte, encontrei um rapaz totalmente prostrado, apagado, ausente. Apesar de tudo, respondeu ao meu 'Bom dia' e pediu-me que me sentasse. Fez-se um silêncio total entre nós. Ele tomou mesmo o cuidado de virar a cabeça para não mais me ver. Uma atitude silenciosa de acolhimento não era coisa fácil. Podem imaginar a minha angústia. Eu sentia em mim uma força intensa que me levava a dizer-lhe algo; eu queria ir depressa demais, mas, ao mesmo tempo, eu dizia no fundo de mim mesma: 'Vai devagar. Tu queres conseguir que ele exista com o seu passado, no pleno respeito à sua pessoa; tu o queres reconciliar com a vida, então vai devagar'. Na verdade, não houve abertura alguma. Todavia a sua chaga estava bem presente. Vivemos esse silêncio durante uns dez dias. Cada dia dizia-me ele:'Até amanhã'.

 

E esse amanhã chegou. Num domingo em que eu estava de serviço, levando a Comunhão a outros doentes, o médico veio dizer-me que Patrick queria ver-me. O enfermo acolheu-me dizendo: 'Este é um dia belo para vocês, hoje; é domingo'. Respondi-lhe: 'Com efeito; tenho a alegria de distribuir a Comunhão a alguns doentes do Departamento em que você está'.

 

Nesse momento uma descarga de agressividade, de maldade, de grosseria caiu sobre mim. Ele me falou, aos gritos, da sua revolta, do seu sofrimento, da sua dor e, a seguir, dos seus pesares, a tal ponto que uma enfermeira veio, através da porta semi-aberta, perguntar se eu precisava de ajuda. Eu tentava manter-me tão calma quanto possível e rezava, rezava. Acabou dizendo-me: 'Como é que a Sra. quer que me sinta à vontade em meio a toda essa turbulência?'. Acrescentou com mais calma: 'A Sra. sabe, o silêncio era apenas um modo de testá-la. Eu julgava que a Sra. fosse fazer um discurso moralizante, que fosse dizer-me que eu causaria pesar à minha família no dia em que soubesse que sofro de AIDS...' e assim por diante. Após alguns minutos de silêncio, ele retomou: 'Que terá acontecido para que hoje eu precise de lhe gritar meu sofrimento e minha revolta?'.

 

Nesse momento, ousei dizer-lhe que, desde o nosso primeiro encontro, eu rezava por ele e que o Senhor acabara de nos dar um sinal da sua presença em meio a nós. Então ele me pediu que me retirasse, porque ele estava cansado.

 

No dia seguinte, ele solicitou-me que apanhasse a sua corrente e a sua cruz que estavam em sua bolsa. Eu o fiz imediatamente. Perguntei-lhe: 'Por que não as traz mais consigo?'. Respondeu-me que havia muito tempo que estavam em sua sacola porque ele não se sentia digno de as trazer; aquele dia, porém, era, para ele, um momento de reconciliação com o Senhor, algo de muito simples que ele queria realizar na intimidade. Seguiu-se uma partilha de reminiscências: falou-me do seu passado, fora escoteiro... mas misturava as coisas; e, para ele, tudo era negativo. Eu tentei mostrar-lhe o lado positivo da sua vida, pois ele fizera coisas magníficas. Isto durou bastante tempo; devo dizer que fui a primeira a me cansar, e disse-lhe simplesmente: 'Podemos interromper esta conversa, estou cansada, mas antes vamos rezar com palavras que saem do meu coração'.

 

Diariamente durante semanas caminhamos assim. Tranqüilamente, sempre seguindo as suas perguntas. Eu nunca me quis antecipar; chegamos a falar da morte, da morte dele. Ele não tinha medo de morrer; ele queria saber como ia morrer e se ia sofrer. Em dado momento, ele me disse: 'Que é que eu serei diante de Deus após a vida de malandro que eu levei? Como isto me angustia!'. Esta interrogação me deu a ocasião de dizer-lhe que esse Deus de amor e misericórdia estava muito perto dele nesse momento, pois o gesto de voltar a usar a cruz desde o dia do seu retorno equivalia a um Sim dito ao Senhor. Chorou muito, segurou-me a mão e abraçou-me.

 

No dia seguinte de manhã, a enfermeira acolheu-me dizendo-me: 'Então, vai ao encontro marcado amoroso:'. Passei por um sobressalto; ela continuou: 'Imagine, Senhora G., que Patrick nos chamou ontem à noite, a todas, e nos disse que estava bem melhor desde que se sentia enfim amado como tal'. Na verdade, era um encontro amoroso para mim.

 

Caminhávamos devagar; falamos dos sacramentos, do padre, um pouco desordenadamente. Nunca eu me despedia dele sem uma invocação à Virgem e uma oração.

 

Naquela noite, ele me disse: 'A Ave-Maria não se canta?' — 'Se você quer, eu a cantarei'.

 

Quanto mais eu me adiantava nesse acompanhamento, tanto mais estava em paz, pois eu sabia que o Senhor nos antecedia, e que em cada um dos nossos encontros Ele estava presente; Ele me possibilitava acolher os irmãos como eles eram, mesmo que eu tivesse a impressão de estar marcando o passo ou até de estar voltando atrás. Eu queria, acima de tudo, respeitar a marcha do irmão.

 

Deixando-o naquele sábado, senti algo que não pude explicar; era um pressentimento autêntico, pois, de noite, o Departamento me chamou dizendo-me que Patrick me desejava.

 

Encontrei-o meio-sentado em seu leito, em paz, sorrindo. Entrei nesse quarto com angústia e medo, dizendo: 'Senhor, que hei de fazer ou de dizer?'. Logo, porém, ele me interpelou: 'Eu não queria ir embora sem lhe dizer Obrigado'. Tomei-o pela mão e perguntei-lhe se eu podia ir chamar uma das enfermeiras que se haviam ocupado especialmente com ele, pois ela precisava de lhe dizer, ela também, quanto ela o amava. Respondeu-me ele: 'Não; não quero que ela me veja na agonia'. Com efeito; em poucas horas, o seu físico se degradara terrivelmente. Para ele, eu era uma estranha ao mundo médico e isto o incomodava menos.

 

E, com um olhar cheio de luz, radiante, ele me pediu que cantasse, dessa vez, o Magnificat. Eu tinha sempre a mão dele na minha; em dado momento, senti que ele a apertava mais forte do que de costume, e foi o fim.

 

Sim; eu chorei... de alegria também. Agradeci ao Senhor as maravilhas que Ele tinha realizado no coração de seu filho, e a ocasião de encontrar Patrick.

 

Foi esta uma façanha que marcou profundamente o Serviço. Eu teria gostado de que ele participasse mais; mas creio que, antes do mais, era preciso preservar a intimidade e a vontade desse paciente. O fim foi, para mim, rápido demais; fiquei ainda ansiosa...; teria desejado uma Comunhão, uma Unção dos Enfermos, como sugeria a nossa formação; mas o Senhor decidiu de outro modo. Fiz a dura experiência de minha pobreza; senti-me, muitas vezes, despreparada, mas creio que a oração foi, para mim, um sustento inestimável.

 

A.G,

Agente de Pastoral de Hospital"

 

 

II. COMENTANDO. . .

 

Este depoimento chama a atenção sobre quatro pontos:

 

1)  a delicadeza respeitosa da Sra. A.G., que deixou o jovem à vontade para que se manifestasse como quisesse e quando quisesse. Não o tendo incitado a falar, facilitou-lhe a abertura espontânea para Deus.

 

2)   A carência, de afeto e carinho experimentada pelo jovem paciente; sentiu-se reviver ou melhorar depois que alguém lhe mostrou benevolência. Às vezes, mais importante do que a técnica e sua aparelhagem é, para o enfermo, a mão que o segura em sinal de solidariedade amiga.

 

3)  A fé pode vir à tona e revigorar-se em presença dos sinais do amor de Deus. Infelizmente o enfermo não chegou a receber os sacramentos finais, mas deu provas de procurar sinceramente a Deus no termo da vida; estava arrependido e tentou unir-se a Cristo mediante a imagem do Crucifixo. Só Deus sabe o que vai no íntimo dos homens em fase terminal; pode ser que esse enfermo tenha feito tudo o que sabia e podia fazer para se reconciliar com Deus nos últimos momentos de sua existência terrestre. O Senhor o terá recebido em seu regaço de amor.

 

4)  Parece que mais de quinze milhões de pessoas no mundo estão afetadas por AIDS. São cinco mil aproximadamente os casos detectados cada dia. Esta realidade constitui um desafio não somente para os médicos e agentes da saúde, mas também para os cristãos comprometidos, pois o problema não é de ordem meramente medicinal, mas é também, na maioria dos casos, moral. Não se pode silenciar o fato de que a AIDS se prende, muitas vezes, aos desvios e abusos sexuais. Só a revisão da escala dos valores à luz da fé pode pôr um dique ao progresso da moléstia.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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