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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 388 – setembro 1994

Deseducação sexual:

 

UM JOGO PELA VIDA

 

por Cl. Mesquita e B. Salgueiro

 

Em síntese: Está sendo utilizado nas escolas da rede oficiai do Estado do Rio de Janeiro um manual de pretensa preservação contra a AIDS, patrocinado pelo BANERJ, apoiado pela Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro e financiado por duas instituições estrangeiras. É livro de realismo vulgar, que descreve a cópula sexual e os perigos de contrair AIDS nessa ocasião, sem apresentar alguma escala de valores nem o sentido da sexualidade humana.

 

Em réplica a esse texto vai, a seguir, publicado, em tradução brasileira, um artigo de D. Jacques Fihey, Bispo de Coutances, que aponta a castidade ou o amor conjugal fiel como única defesa segura do organismo contra o flagelo da AIDS.

 

Está sendo distribuído na rede escolar oficial do Estado do Rio de Janeiro um manual intitulado "Um Jogo pela Vida. Tudo que você nunca pensou sobre AIDS e que nós gostaríamos que você soubesse". É obra de Cláudio Mesquita (textos) e Bia Salgueiro (desenhos) com a colaboração de Marco Py (pesquisa biomédica) e Sheila Gliosci (revisão). A edição de 410.000 exemplares foi financiada por instituições estrangeiras: ABF/Estocolmo e Public Welfare Foundation, Ins. A obra conta com o apoio da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro e com o patrocínio do Banco do Estado do Rio de Janeiro (BANERJ). Como responsável pela edição, consta a ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS), Rio de Janeiro 1992.

 

O texto é redigido em estilo simples, usando o jargão popular ou mesmo vulgar; mostra com realismo a maneira como funcionam o aparelho genital masculino e o feminino, procurando assim evidenciar como se pode contrair a AIDS mediante a cópula sexual. A conclusão de toda a explanação é a recomendação do uso do preservativo como se fosse a garantia de "sexo seguro". Nenhuma norma ética é aí proposta, nenhuma escala de valores, nenhuma apreciação do sentido da sexualidade e da genitalidade... O leitor acaba tendo a impressão de que o uso da genitalidade em qualquer idade é um imperativo ao qual não se pode ou não se deve resistir; o que importa, é tomar as cautelas para não contrair as moléstias que daí provenham.(1) Ora isto não é educar, mas, sim, deseducar; é reduzir o ser humano a seus impulsos naturais, desregrados que sejam, sem a mínima intenção de formar o caráter ou a personalidade mediante o despertar de bons hábitos. Tal desserviço prestado à juventude brasileira tem o patrocínio e o apoio das autoridades governamentais e de instituições estrangeiras que financiaram a vultosa edição de 410.000 exemplares!

 

1 “Todos os seres humanos transam de uma forma ou de outra e há muitos milênios. Porém, neste momento transar pode ser muito arriscado, se não conhecemos os cuidados que devem ser tomados para anular os riscos. E são bem poucos e muito simples. Nenhum carinho ou beijo passa AIDS. Nem mesmo o beijo na boca” (p. 16).

 

A juventude é assim explorada e ludibriada, pois a própria imprensa tem noticiado repetidamente que os preservativos são falhos, porque porosos e suscetíveis de rebentar durante a cópula sexual. Ver a propósito PR 384/1994, pp. 225-229.

 

Muitas vozes sensatas se têm levantado contra a recomendação de preservativos. Nestas páginas vem reproduzido em tradução portuguesa o artigo,de D. Jacques Fihey, Bispo de Coutances (França), publicado no Boletim Diocesano de Coutances, no 9, de 4/5/1994.

 

1. "LUTAR CONTRA A AIDS"

 

Ouço, muitas vezes, críticas à posição da Igreja Católica relativa à AIDS; raramente, porém, essas críticas procedem de um conhecimento exato do que é essa doença. Eis, por conseguinte, o que penso.

 

Para lutar contra a AIDS, é preciso agredir o essencial. A sexualidade é uma realidade humana fundamental dotada de sentido profundo; todo ser humano, religioso ou não, compreende que não se pode fazer qualquer coisa neste setor. A Bíblia diz aos fiéis que Deus criou o homem à sua imagem, homem e mulher Ele os criou. Isto quer dizer que a doação mútua e o compromisso de amor do homem e da mulher, vividos muito especialmente na relação sexual, exprime algo da realidade de Deus, que é amor. Por isto, interessado, com a Igreja, em guardar o valor fundamental da sexualidade humana, creio que o homem é afetado por tudo o que diz respeito à sexualidade; a humanização do homem se faz ou desfaz, em proporções significativas, de acordo com a maneira como a pessoa vive a sua sexualidade. Isto é tão verídico que, cada vez que o homem dissocia um do outro sexualidade e compromisso de amor, ele se destrói; a pornografia, a prostituição degradam homens e mulheres; degradam a humanidade. Eis por que protesto quando se reduz a luta contra a AIDS ao uso de preservativos. Isto quer dizer concretamente que os homens julgam quase inevitável, muito natural, que as pessoas tenham relações sexuais com muitos parceiros; só importaria o uso de preservativos.

 

Antes de falar do preservativo, é preciso falar, principalmente aos jovens, a respeito do sentido da sexualidade; é preciso dizer-lhes que a fidelidade, num casal, é humanizante e construtiva. Para todos aqueles que vivem essa fidelidade, o preservativo não tem utilidade, ao menos se nenhum dos dois é portador de HIV. Somente os preconceitos impedem de ver, e talvez de dizer, que a fidelidade é uma das vias para lutar contra a AIDS. Os jovens valem muito mais do que aquilo que se imagina quando só se lhes fala de preservativos. João Paulo II disse aos jovens de Uganda que o laço sexual da castidade é a única maneira segura e virtuosa de pôr fim a essa praga trágica que é a AIDS; ele não lhes falou de preservativo, contrariamente ao que pensam as pessoas que criticam a posição do Papa.

 

Da mesma forma, a questão do preservativo (na medida em que seja de confiança) só se coloca para aqueles que o querem ou para aqueles que não sabem viver a fidelidade, para aqueles que têm encontros sexuais com parceiros múltiplos. A esses não digo que eles têm razão; ao contrário, creio que destroem pouco a pouco em si mesmos algo de muito belo... A um comportamento que não se pode aprovar, não queiram acrescentar um risco grave. Seria avolumar a falta.

 

Um jovem dizia-me, um dia, para justificar o recurso aos preservativos: 'Quando o fogo começa a arder, é preciso urgentemente apagar o incêndio'. É verdade; é preciso apagar o incêndio, mas é preciso também evitar as causas do incêndio e não acumular matéria inflamável na casa que queima. Ora tenho a impressão de que, apregoando o preservativo, os homens vão acumulando matérias inflamáveis. Assim são implicitamente estimuladas as relações sexuais múltiplas, precisamente esse fator que causa a difusão da AIDS".

 

2. REFLETINDO.. .

 

O texto de D. Jacques Fihey é simples e claro. Diz-nos que, se queremos combater a AIDS, devemos ir ao ponto essencial da luta: Ora este se acha na sexualidade humana — algo de grande e digno que faz parte da nobreza do ser humano. Quando se banaliza a sexualidade, banaliza-se a própria pessoa humana. Ora a recomendação de preservativos é implicitamente o abono do sexo livre ou do libertinismo sexual ou, ainda, da degradação do homem. Favorecendo as múltiplas relações sexuais sem parâmetro, o preservativo, em vez de combater, fomenta a AIDS e sua propagação.

 

A única maneira de combater eficazmente o flagelo é, como disse João Paulo II, a castidade ou o uso do sexo dentro dos referenciais instituídos pela natureza (= pelo Criador), ou seja, dentro da vida conjugal vivida em amor e fidelidade.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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