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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 347, abril 1991

Heroísmo oculto:

 

Um Padre na Sibéria

 

Em síntese: O frade sacerdote franciscano lituano Pe. Frei Paulo Bitautas, com vinte e oito anos de idade, recém-ordenado, pediu aos Superiores que o enviassem para Novosibirsk na Sibéria, onde se sentia chamado a exercer sua missão. Apesar do descrédito dos Superiores, Frei Paulo recebeu a autorização solicitada e dirigiu-se para seu campo de trabalho. A princípio encontrou uma população amedrontada pelas represálias que a Polícia fazia a cidadãos religiosos. Mas a disponibilidade e o bom ânimo do padre tranqüilizaram os fiéis e os indiferentes, que aos poucos se foram agrupando na pequena igreja da Imaculada Conceição, construída pouco antes pela população católica da cidade (população descendente de poloneses e alemães exilados). O padre foi cativando mais e mais os habitantes, fazendo a ponte entre a parte operária e a parte intelectual ou acadêmica da cidade. Chegou mesmo a ser convidado para lecionar História da Igreja na Akademgorodok, centro universitário que produziu dirigentes importantes para a URSS. A irradiação do trabalho do padre ultrapassou a cidade de Novosibirsk e seus arredores, estendendo-se a cidades e aldeias mais distantes, onde o missionário encontrava camponeses oriundos de famílias alemãs católicas à espera de sua obra apostólica.

A perestroika instaurada pelo Governo Gorbachev tem facilitado o trabalho de Frei Paulo, que hoje é um testemunho vivo de fé heróica e ardente zelo pastoral para o clero e os fiéis católicos do mundo inteiro.

 

Nos últimos dezoito meses, têm vindo à tona numerosos casos de heroísmo de cristãos ocultos sob a pressão de regimes marxistas. O conhecimento de tais figuras corajosas beneficia o mundo e, de modo especial, os demais cristãos. Os que têm a graça de usufruir de liberdade, correm o risco da acomodação, que há de ser sempre sacudida pelo testemunho de coragem e coerência dos irmãos perseguidos.

 

Entre os muitos vultos notáveis que têm vindo à luz, está o do Pe. Saulius ou Pavel Bitautas, lituano, único sacerdote católico da Sibéria, que em Novosibirsk serve a uma paróquia, cuja vitalidade e irradiação se fazem sentir à distância. Eis alguns dos dados que lhe concernem.

 

1. A conquista da Sibéria pelos russos

 

Em 1581 o czar Ivã o Terrível enviou à Sibéria, para conquistá-la, o Comandante Geral dos cossacos (1), o Atamano Ermak Timofeevic. Este partiu de Moscou com as suas tropas, após receber a bênção do Imperador. Morreu quatro anos depois numa batalha contra o exército tártaro-mongol. Estava, porém, consolidada a posição avançada dos russos na terra siberiana, cheia de lendas e mitos.

 

O escritor russo Alexandre Radiscev, o Dissidente, condenado em 1790 pelo regime czarista ao exílio na Sibéria, testemunhou que "aquele continente era um grande depósito de riquezas naturais e assumiria um lugar importante na história da economia mundial". Eis, porém, que a Sibéria se tornou sinónimo de terra de exílio e gulag (campo de concentração).

 

Após o Atamano Ermak e suas tropas, dirigiram-se para a Sibéria caravanas de camponeses que fugiam da escravidão e procuravam além dos montes Urais o novo Eldorado, onde começariam vida nova, sem vexames nem miséria. Poucos, porém, chegaram ao destino: milhares morreram seja por causa da inclemência do trajeto, seja por causa dos ataques dos tártaros e mongóis, decididos a repelir o avanço dos colonizadores. Foram esses camponeses aventureiros que abriram as primeiras estradas, e fundaram os mais antigos povoados na Sibéria, onde também construíram as igrejas mais vetustas. Quem visita Zasciversk, à margem do rio Indighirka, na calota polar, encontra aí uma igrejinha de madeira construída em 1700 por um mestre marceneiro, cujo nome ficou desconhecido.

 

A Sibéria se estende por 10.000 km2, desde os montes Urais até a costa do Pacífico e desde as estepes do Kazaquistão até os gelos do mar Ártico. Leningrado na Rússia está mais perto de Boston (USA) do que de Vladivostok (Sibéria, litoral do Pacífico). O clima é muito duro (podendo chegar a 60° abaixo de zero); as condições de vida muito incomodas e a necessidade de espírito aventureiro forjaram uma estirpe de homens especialmente tenazes, os sibiriaki. Altos e fortes, de olhos azuis e cabelos louros, os sibiriaki são conhecidos pelo seu vigor físico e a sua coragem. Por isto durante a segunda guerra mundial (1939-45) foram expostos às frentes de batalha mais perigosas e às situações mais precárias.

 

Os cossacos são camponeses russos que colonizaram regiões da Ucrânia a partir do século XVI. A princípio nômades e dados a pilhagem, desenvolveram grandes aptidões militares, celebrizando-se principalmente como exímios cavaleiros. Estabeleceram-se em comunidades autônomas com governo próprio, cujo chefe eleito recebia o nome de Ataman ou Ketman.

 

Já os czares e depois os comunistas enviaram para a Sibéria os seus adversários políticos e os criminosos, condenados a explorar as riquezas naturais do país em proveito do Governo; tornaram-se poderosa mão-de-obra gratuita. Após a revolução polonesa de 1830 foram mandados para a Sibéria mais 20.000 polacos (soldados e oficiais, mulheres e crianças, nobres e sacerdotes). Foram estes deportados poloneses que consolidaram o Catolicismo além dos montes Urais.

 

2. A cidade de Novosibirsk

 

Novosibirsk, colocada em plena Ásia, é uma cidade de dois milhões e meio de habitantes, o terceiro centro industrial da URSS, e sede de prestigiosa Academia de Ciências (Akademgorodok). Respira um clima europeu — mais talvez do que Moscou e Leningrado — por causa dos muitos núcleos de alemães e poloneses deportados para lá nos tempos do Czar e de Stalin.

 

A cidade não oferece beleza natural; foi construída como ponta avançada da tecnologia, há cerca de cem anos, as margens do rio Ob, que se dirige para o Mar Ártico.

 

O clima aí varia dos 40° abaixo de zero no inverno (de novembro a maio) aos 30° acima no verão. O grande número de usinas e fábricas torna aí o ar pouco sadio. O mundo da cultura e da ciência tem seu quarteirão próprio, quase uma cidade separada, que toma o nome de "Cidadela Acadêmica (Akademgorodok)". Nesta há pontos verdes, com pequenos bosques, e alamedas que atravessam o conjunto universitário, numa imitação pálida dos análogos complexos americanos e europeus. Aí se realizam Congressos científicos, dando ressonância aos de Moscou e Leningrado e promovendo intercâmbio com as grandes cidades dos outros continentes. A cidade operária lhe fica ao lado, como um paralelo, sem que uma e outra se encontrem amistosa ou fraternalmente.

 

Pois bem. Estes dois.mundos, há alguns anos, passaram a se relacionar entre si de maneira totalmente inesperada, ou seja, mediante um jovem padre lituano, de trinta e dois anos de idade, membro da Ordem de São Bernardino de Sena, que celebra a Missa numa capela da periferia de Novosibirsk, voltada para uma estrada de terra e pedra, dita "Segunda Aldeia da Paz".

 

3. O Padre Pavel Bitautas: trabalho pastoral

 

Nascido em Telsciai (perto de Vilna), de um casal de camponeses lituanos, Pavel tem quatro irmãos. Conheceu São Francisco de Assis mediante um livro que a avó materna tinha junto à cama, sobre a mesa de cabeceira; entusiasmou-se pelo ideal franciscano. Um dia foi à cidade de Kretinga, sobre o Mar Báltico, ver as ruínas de enorme convento franciscano; mais impressionado ainda, decidiu tornar-se frade de um ramo franciscano sob o patrocínio de São Bernardino de Sena.

 

Pediu aos Superiores autorização para ir trabalhar na Sibéria, onde um grupo de católicos vivia sem sacerdote. Esses fiéis em 1985 obtiveram licença do Governo para construir uma igreja. Ora sessenta dias depois de ordenado sacerdote, Frei Paulo chegava a Novosibirsk em 1986, com 28 anos de idade.

 

A comunidade católica em mutirão construíra a sua igreja no espaço de três meses. A princípio eram poucos alemães, mas com o tempo juntaram-se-lhes poloneses e até russos, em maioria jovens. A sua igrejinha, dedicada à Virgem Imaculada, era o último reduto católico na URSS oriental, distando 3.000 km de Moscou e mais de 7.000 km de Vladivostok, o posto avançado siberiano sobre o Oceano Pacífico. Em Vladivostok está sepultado o último bispo da remota diocese da Sibéria, Mons. Karol Sliwonski, falecido no cárcere em janeiro de 1931.

 

O sacerdote antecessor de Frei Paulo em Novosibirsk fora o Pe. Joseph Swidnizki, preso sob a acusação de fazer propaganda religiosa. Durante dois anos a comunidade católica local se empenhou por ter um novo pároco; viajaram à Lituânia e escreveram petições às autoridades. Mas somente após a ascensão de Mikhail Gorbachev ao ápice do Governo soviético foi possível obterem resposta favorável. — Daí a construção da igrejinha e a chegada de Frei Paulo àquela região.

 

A princípio os fiéis se intimidaram por ir à igreja, pois se recordavam das represálias anteriormente sofridas: o Pe. Joseph fora encarcerado pouco antes do Natal de 1984; o processo no começo de 1985 fora doloroso, pois envolvera um por um dos paroquianos chamados a depor contra o sacerdote; a Polícia visitara cada casa de família dos que freqüentavam as assembléias de culto; a era staliniana ainda estava muito viva na memória daquela gente. Todavia o sorriso, a serenidade e a gentileza de Frei Paulo foram tranqüilizando os habitantes de Novosibirsk; além do quê, a política religiosa do Governo Soviético foi-se modificando: a Polícia pareceu esquecer aqueles cidadãos religiosos, a sua igreja e o jovem frade que de túnica (a única túnica da Sibéria) circulava pelas ruas, passava diante da estátua de Lênin, entrava nas casas de família e até nas escolas, onde os professores o convidavam para explicar aos alunos os mistérios da vida eterna. Muitos cidadãos curiosos, às vezes com malevolência, às vezes simpatizantes, olhavam o frade tranqüilo a passar pelas ruas para fazer suas visitas, suas compras, seus encontros... Assim aos poucos Frei Paulo, com muita naturalidade, foi conquistando o respeito e a estima não só dos católicos, mas de muitos intelectuais ditos ateus, que o chamavam e ouviam com atenção. O que a todos impressionava, era a disponibilidade de Frei Paulo e a sua prontidão para enfrentar, com as pessoas locais, os problemas que os atormentavam. Não somente os católicos, mas também os ortodoxos e os protestantes (não raro jovens), o procuravam assiduamente.

 

Narra Anna Vicini que, tendo encontrado Frei Paulo certa vez nas ruas de Novosibirsk, sentiu a necessidade de manifestar-lhe a surpresa de vê-lo tão jovem "exilado" em lugar tão distante dos seus e desacreditado. Perguntou-lhe então:

"Foram os seus Superiores que o mandaram para cá ou foi o Sr. que espontaneamente quis vir?"

 

O frade fitou-a com sorriso e olhar profundos, como quem tinha uma densa história e grande paixão, e respondeu-lhe:

 

"Fui eu que solicitei vir para cá logo depôs da ordenação há quatro anos. Não encontrei muita compreensão da parte dos Superiores, descrentes de se poder fazer algo de positivo nesta região. , . Alegavam: é um país sem perspectivas,. . . uma terra abandonada por Deus e pelos homens... É assim que pensa a maioria dos católicos em nosso país (Lituânia). .. Por isto não é por acaso que sou o único sacerdote em toda a Sibéria".

 

Percebia-se que o zelo missionário inflamava o coração daquele frade, que deixara seu torrão natal à distância de 4.000 km![1] A sua pequena paróquia ia-se dilatando de modo a atingir a cidade inteira.

 

Com efeito. Até 1990 Frei Paulo desenvolveu intensa ação pastoral, que foi multiplicando os núcleos de fiéis desejosos do atendimento do sacerdote. Assim um novo tipo de preocupações aflorou entre os cristãos locais: "A messe é muita, mas os operários são poucos" (Mt 9,37; Lc 10,2).

 

Além de servir à comunidade de Novosibirsk, Frei Paulo visita regularmente mais de trinta comunidades católicas esparsas por toda a Sibéria, desde Irkutsk (nas regiões do Ataj e de Kemerovo) até Tomsk (a 300 km de distância de Novosibirsk), onde o sacerdote vai todas as semanas para celebrar a Missa na igreja que a comunidade local conseguiu arrancar às autoridades e que foi reinaugurada num domingo de Páscoa. Muitas vezes trata-se de aldeias perdidas na estepe da Sibéria, nas quais imperam os costumes camponeses e onde sobrevivem populações de língua e nacionalidade alemãs (os chamados "alemães do Volga", deportados para lá por Stalin). Durante quarenta anos as famílias patriarcais foram passando a fé católica de pais para filhos sem ter contato algum com missionários ou ministros do culto.

 

Quando Frei Paulo chega a esses povoados, toda a população se mobiliza: muitos e muitos vão procurá-lo para contar-lhe as novidades e ânsias numa linguagem singular, feita de Idioma russo e dialeto alemão do século passado. Os trabalhos são suspensos; arma-se um altar ao ar livre; homens e mulheres se aprestam a ornamentá-lo com flores e velas. O padre atende às confissões; depois começa a S. Missa, no decorrer da qual celebra os batizados e os casamentos. Os fiéis se apinham em torno do altar, respondem em alemão à Liturgia eucarística e escutam avidamente a pregação do padre, que procura desenvolver um mínimo de catequese. Comentou ele certa vez, ao voltar de ônibus para a sua sede:

 

"Essa gente é mais pura e mais sincera do que as populações urbanas; têm um coração talvez maior do que os jovens universitários de Novosibirsk, mas precisam enormemente de formação e de trabalho pastoral, pois o seu Cristianismo corre o risco de tornar-se superstição ou de ser apagado pela ignorância".

 

A intensa vida apostólica de Frei Paulo explica que certa vez tenha chegado à sua casa um outro jovem sacerdote católico, Pe. José, proveniente de Pavlodar (a 500 km de distância, na república do Kazaquistão); vinha por um dia, a fim de conversar com o colega franciscano e pedir-lhe conselho.

 

A casa canônica (residência) de Frei Paulo, minúscula como é, recebe livros de várias procedências: alguns em russo, impressos no estrangeiro, outros em outros idiomas, acompanhados de cartas de amigos que de longe conhecem e apoiam o missionário.

 

Aliás, a Igreja da Imaculada Conceição e a residência de Frei Paulo fazem contraste com as construções que lhes ficam próximas. São limpas e bem arrumadas; a igreja tem seu campanário de dois metros de altura, encabeçado por uma cruz lituana ("trouxe-a comigo da minha terra", diz o padre); tem também sua gruta de Lourdes ornada de flores (quando possível). A casa do padre é franqueada aos paroquianos, que entram e saem em movimento intenso, seja para arrumar os livros da Biblioteca (há uma única estante, mas com livros catalogados segundo as normas precisas da Biblioteconomia), seja para arrumar as plantas, as trepadeiras (que crescem pelas paredes), seja para preparar os alimentos na cozinha. . . Todos lá se sentem em sua casa. O padre se regozija com isto, porque tem consciência de que assim se cria uma autêntica comunidade, enriquecida pela participação e a contribuição de cada um dos seus membros.

 

Aos sábados e domingos o movimento na casa do padre é mais intenso, pois comparecem adultos, jovens e crianças para encontros, debates e catequese. Os mais entusiasmados são os jovens, que descobrem um ideal, uma família espiritual e uma vocação. Tal é o testemunho de Statasa, jovem professora de Sociologia:

 

"Frei Paulo veio ao encontro de cada um de nós, e este encontro significou para cada um a resposta às perguntas mais profundas da vida. Ele começou a nos mostrar que éramos chamados a dar o mesmo testemunho de fé também entre nós (no lar e fora do lar) e a assumir a responsabilidade de atender aos 'novatos' que vinham pela primeira vez. Assim nasceu uma amizade, que se vai aprofundando cada vez mais".

 

Junto à paróquia constituiu-se um Centro cultural chamado "O Deus Vivo", que reúne jovens católicos, ortodoxos e protestantes, desejosos de crescer juntos e imprimir um novo colorido à história do seu país.

 

As perspectivas se dilatam sempre mais: se aventou a possibilidade de fundar uma escola, escola livre gerenciada pela paróquia, e de criar uma revista em colaboração com a Academia de Ciências, além de uma Editora.

 

Em meio a todas essas atividades bem sucedidas. Frei Paulo sofreu algumas surpresas pouco agradáveis:

Certa vez, quando em horas tardias voltava de um giro pelas comunidades católicas vizinhas, às quais ministrara os sacramentos, o padre encontrou uma carta do Reitor do Seminário de Kaunas (Lituânia), que lhe descrevia as grandes necessidades da Igreja naquele país e lhe perguntava por quanto tempo ainda tencionava permanecer na Sibéria. .. Em outra ocasião o missionário recebeu o telefonema de um sacerdote ancião de Dzambul (no Kazaquistão, confins com a Mongólia): em vez de lhe anunciar a sua próxima chegada (como prometido), comunicava-lhe que estava doente, imobilizado, à espera da visita de Frei Paulo, "nem que fosse por 24 horas apenas"!

 

Bem dizia o Santo Cura d'Ars que "o sacerdote é um homem devorado pelos homens"! Tal é o caso do heróico missionário Frei Paulo Bitautas, solicitado para os mais diversos setores de atividade.

Após este breve relato da vida pastoral do padre de Novosibirsk, é importante registrar sua ação junto aos intelectuais, oficialmente ateus na URSS.

 

4. Junto aos intelectuais: depoimentos

 

4.1. A entrada na Universidade

 

No âmbito de sua paróquia, Frei Paulo ministrava cursos de História do Cristianismo e da Igreja, dissertava sobre a importância do fator religioso na cultura e na tradição russas. . . Visto que eram temas de interesse interdisciplinar, atraíram número crescente de estudantes e professores universitários. . . Disto resultaram convites para que o padre fosse fazer palestras de índole religiosa em instituições do Estado. . . e finalmente surgiu a idéia de abrir um curso de História da Igreja para os estudantes das Faculdades de Humanidades. Tal projeto tornou-se concreto, de tal modo que, a partir de novembro de 1989, Frei Paulo ocupou uma cátedra na Academia, lecionando para 280 estudantes universitários. Além disto, foi convidado para participar de um Simpósio promovido pelo Senado Acadêmico sobre o tema muito atual: possível renascimento de uma filosofia leiga e espiritual na União Soviética.

 

Frei Paulo conta como se iniciou o seu relacionamento direto com os acadêmicos de Novosibirsk:

 

"O meu primeiro contato deu-se com um sociólogo da Estônia que trabalhava na Akademgorodok. Ele me apresentou alguns de seus colegas, que começaram a freqüentar a igreja. Depois não mais apareceram por um longo período de tempo. Um dia então fui ter com eles, e o diálogo recomeçou com mais intensidade do que antes. Entrementes também os estudantes começaram a interessar-se, visto que uma professora havia pedido o Batismo e o seu marido, diretor da mesma escola em que ela ensinava, fora visitar a igreja com todos os seus alunos. A seguir, talvez por curiosidade ou talvez porque nunca recusei coisa alguma a ninguém, espalhou-se a fama... e desde novembro ensino História da Igreja a 280 universitários, que fazem o doutorado em Ciências Humanas e serão professores".

 

Disse ainda Frei Paulo:

 

"Há pouco fui convidado para ensinar também no Conservatório.

Aceitei e, em troca, encontrei uma organista disposta a vir todos os sábados e domingos para tocar nas funções religiosas da igreja".

 

Merece especial atenção este aspecto do ministério sacerdotal do missionário: a Akademgorodok foi a escola de muitos dos grandes dirigentes da URSS, inclusive de vários conselheiros do presidente Gorbachev. O ambiente siberiano, distante do burburinho e das paixões dos grandes centros urbanos da URSS, oferece condições especiais para aprofundar certos temas que seriam proibidos em outras sedes universitárias. Aliás, é de notar que o siberiano é homem severo, endurecido na luta contra a austeridade do clima (1) e das distâncias e muito marcado pelas recordações dos deportados e colonos sofridos que do Ocidente foram mandados para a Sibéria: estes fatores predispõem a pessoa à reflexão séria, desiludida de sonhos e mitos ideológicos.

 

4.2. Depoimentos

 

Os depoimentos de pessoas que contactaram Frei Paulo em Novosibirsk (dentro e fora da Universidade), referem-se à afabilidade do frade, sempre disposto a compartilhar os anseios e problemas dos fiéis e dos não crentes. Eis alguns desses testemunhos:

 

a) O professor Klimentij Samochvalov observa que tal facilidade de trato não se encontra no clero ortodoxo: os presbíteros ortodoxos limitam seu ministério à celebração da Liturgia; fora desta, quase não há relacionamento entre o pope ([2]) e os fiéis; em conseqüência, estes não têm oportunidade de abertura e aconselhamento; para muitos, o fato é consumado, e resignam-se a tanto. Por isto, a atitude amiga e fraterna de Frei Paulo impressionou de modo especial. Afirma, portanto, o Prof. Samochvalov:

 

"Se eu não tivesse tido a oportunidade de tal aproximação pessoal, nunca me teria chegado à religião. . . Recebi o Batismo no ano passado, com cinqüenta anos de idade. O Evangelho, eu o tinha lido; tivera mesmo a possibilidade de ler textos proibidos ao comum dos cidadãos, em virtude das minhas funções. A minha procura foi longa e aprofundada. Fiquei fascinado pelo papel da Igreja Católica na sociedade, visto que nunca se aliou ao poder; ao contrário. . .  Em alguns países ela foi o centro de aglutinação, o ponto de referência da oposição; basta pensar na Polônia. Esta atitude da Igreja na sociedade satisfez-me a consciência, dissipou minhas dúvidas; hoje sou ufano de pertencer-lhe. Além do mais, vejo que muitos intelectuais, logo que a conhecem melhor, são por ela atraídos, de modo a dificilmente afastar-se dela. Isto acontece em nosso país. Quem o teria imaginado?"

 

O Prof. Samochvalov refere-se, em seu depoimento, à diferença existente entre os cristãos do Oriente e os do Ocidente; aqueles foram mais propensos ao cesaropapismo, deixando que os Imperadores dominassem os Bispos e a vida da Igreja (tenha-se em vista Constantino e seus sucessores, especialmente Justiniano I nos séculos IV/VI). Ao contrário no Ocidente os Bispos sempre foram mais independentes do Imperador; tenha-se em vista S. Ambrósio (+393), que excomungou Teodósio Imperador; o Papa Gregório VII lutou contra Henrique IV, fautor da simonia e da investidura leiga; excomungou-o em 1076. A Igreja no Ocidente quis sempre manter sua liberdade frente ao poder civil, em vez de se lhe aliar facilmente, como proclamam sumariamente alguns críticos.

 

b)  Marina Seminova, em seu depoimento, concorda com o Prof. Samochvalov e diz que principalmente os jovens sentem a necessidade de dialogar e de exprimir seus sentimentos. Depois que passam a conhecer a Igreja, freqüentam-na com prazer e aos sábados de noite lá ficam até horas adiantadas da noite a debater suas questões; sabem que a Igreja da Imaculada não tem horários rígidos para abrir e fechar as portas; está quase sempre aberta e não exige dos seus freqüentadores carteira de identidade religiosa ou filosófica.

 

c)  Interessante é também o testemunho de Serghei Dolgorukov, Professor universitário assistente. Disse que, antes de conhecer Frei Paulo, era ateu, como a maioria dos seus colegas, pois o ateísmo era a filosofia imposta pelo sistema vigente. Uma vez entrara numa igreja ortodoxa, mas os seus ritos pareceram-lhe distantes ou pouco penetrantes; por conseguinte, não se interessou pela fé. Outra vez, porém, à noite passou pela Igreja da Imaculada sem a intenção de nela entrar; todavia, ao ver que lá havia outros jovens, que debatiam problemas, entrou e participou das discussões; sentiu-se atingido em seu íntimo, de modo que, através de leituras e conversas, chegou à fé.

 

d)  Marina Tararykina, professora de escola primária, também deu seu testemunho. Observou que seu marido era ateu, mas respeitava a fé da esposa; "com efeito, vivemos em regime de perestroika, que permite a livre circulação de idéias; além do quê, o fato de que sou religiosa e católica, não prejudica a sua carreira, como teria acontecido poucos anos atrás".

 

e)  Oleg Leonov, estudante universitário, declarou que uma das coisas mais molestas são os colegas que o acusam de se ter convertido ao Catolicismo para poder fugir para o Ocidente: "É preciso que eu lhes dê a compreender que vim para cá porque na Igreja Ortodoxa não havia ninguém que tivesse a paciência de responder às minhas perguntas".

 

f) Dmitrij Zverev, estudante de dezesseis anos, conta a sua experiência pessoal:

Seus pais estão matriculados no Partido Comunista, de modo que repudiam a conversão do seu filho ao Catolicismo. Não o olham mais de frente, e o diálogo se reduziu ao mínimo. Embora seja o filho único, não merece atenção nem da sua mãe. Dmitrij não procura convencê-los nem discute com eles. Apenas espera que um dia o compreendam, pois Deus mesmo lhes tocará o coração. Não pensa em retroceder, pois isto significaria um recuo espiritual para a aridez da mente, da qual só a religião o pôde redimir.

 

g) Julia Vilievna Lichaciova, bibliotecária da Universidade local, observou que muita coisa mudou nos dois últimos anos, de modo que os fiéis estão muito mais livres. Os comunistas se mostram abertos ao diálogo, falam de um novo humanismo e de liberdade religiosa, . . . embora ainda guardem alguns resquícios da ideologia marxista.

 

Em suma, verifica-se uma grande demanda de valores transcendentais na URSS, demanda especialmente aguda na Sibéria, onde as pessoas lançam perguntas prementes sobre o futuro do país, atormentado por orientações diversas da parte dos dirigentes políticos.

 

Certamente Frei Paulo, ao deixar o seu torrão natal, não imaginava que irradiação teria a sua missão na Sibéria. O Senhor quis recompensar a sua fé, o seu zelo missionário e o seu entusiasmo juvenil. — A consciência de que existem tais heróis da fé e do amor em nossos dias é altamente reconfortante. Possa a façanha do jovem franciscano suscitar a veia do heroísmo de muitos outros fiéis católicos — clérigos e leigos — para assumirem seu dever de evangelização em nossos tempos! Diz o Concílio do Vaticano II:

 

"Nasce a Igreja com a missão de expandir o reino de Cristo por sobre a terra, para a glória de Deus Pai, tornando os homens todos participantes da redenção salutar e orientando de fato através deles o mundo inteiro para Cristo. Todo esforço do Corpo Místico que persiga tal escopo, receba o nome de apostolado. Exerce-o a Igreja através de todos os seus membros, embora de modos diversos. Pois a vocação cristã é, por sua natureza, também vocação para o apostolado. Como no organismo de um corpo vivo, nenhum membro se comporta de maneira meramente passiva, mas unido à vida do corpo, também compartilha a sua operosidade, da mesma forma no Corpo de Cristo, que é a Igreja, todo o Corpo, segundo a atividade destinada a cada membro, produz o engrandecimento do Corpo (cf. Ef 4,16). Tão grande é neste Corpo a conexão e a coesão dos membros que o membro que não trabalha para o aumento do Corpo segundo a sua medida, deve considerar-se inútil para a Igreja e para si mesmo" (Decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o Apostolado dos Leigos, n°2).

 

Na confecção deste artigo foram utilizados os documentários seguintes:

Maddaloni, Vincenzo, Un Francescano nell’ Akademgorodok, em JESUS, dezembro de 1990, pp. 64-69.

Vicini, Anna, II Prete di Novosibirsk, em Litterae Communionis (CL), outubro de 1990, pp. 41-44.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt

 



[1] Ver Anna Vicini, II prete di Novosibirsk, em Litterae Communionis, CL. outubro de 1990, pp. 41-44.

[2] Nome proveniente do russo e, originariamente, do grego. Significa o sacerdote de rito oriental. Os cristãos orientais, em grande parte, são separados da Igreja Católica ou cismáticos. Dá-se-lhes o nome de "ortodoxos".

1 A mudança de clima em Novosibirsk assemelha-se ao vai-e-vem das marés: ora uma tempestade de neve, ora uma nuvem de mosquitos, ora uma chuva torrencial fazem que o siberiano de Novosibirsk esteja sempre de alerta.


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