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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 402/Novembro 1995

Mundo Atual

Declaração revolucionária:

"A VIDA HUMANA NÃO É MAIS SAGRADA"

(Maurizio Mori)

 

Em síntese: O Prof. Maurizio Mori, filósofo italiano, declarou no Brasil que a vida humana já não pode ser considerada como algo de sagrado; mais importante do que a sacralidade seria a qualidade de vida. Conseqüentemente, ao indivíduo e aos profissionais da saúde competiria dizer se uma vida vale a pena de ser vivida ou não; eutanásia e aborto estariam assim legitimados.

 

 O artigo presente defende a vida como dom de Deus, que o homem é capaz de criar e de manter à vontade; ele o recebe para bem o administrar; ninguém tem o direito de dispor da vida humana. Em particular, a ninguém é lícito definir se tal ou tal ser humano pode ou deve viver ou morrer; a história demonstra que muitas pessoas, aparentemente condenadas a uma vida desgraçada, se tornaram heróicos vultos da humanidade. Isto se explica pelo fato de que a grandeza de alguém não está em sua corporeidade apenas, mas está principalmente em seus dotes espirituais, que podem e devem ser cultivados mesmo nos casos de deficientes físicos.

* * *

Em meados de junho pp. esteve no Brasil (São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro) o Prof. Maurizio Mori, filósofo italiano, que se tem dedicado a questões de Genética, embora não seja médico nem biólogo; escreveu o livro "La Fecondazione Artificiale", que muito influenciou a discussão do assunto na Itália. Fez declarações publicadas no jornal do Conselho Federal de Medicina (junho 1995, pp. 8s), que merecem atenção e comentários.

1. A PROBLEMÁTICA

O Prof. Maurizio Mori nasceu em Gemona no ano de 1951 e reside em Gemona. Tornou-se um dos principais adversários políticos e intelectuais da Igreja Católica na Itália. Dirige o Centro per la Ricerca e la Formazione in Politica ed Ética (Centro de Pesquisa e Formação em Política e Ética), ao qual deu o título de Politeia em Milão. É também editor da revista "Bioética Rivista Interdisciplinare", e diretor da Sociedade Mundial de Bioética. Já escreveu mais de uma dezena de livros.

A entrevista concedida ao jornal atrás mencionado declarava, em síntese, que a vida humana já não pode ser tida como sagrada. Mais importante do que a sacralidade da vida seria a qualidade da vida. Diz Maurizio Mori textualmente:

"No fim do segundo milênio, a vida já não é sagrada e as pessoas passaram a ter pleno direito de decidir sobre o seu corpo e a sua saúde".

Como pode acontecer que um paciente fique impossibilitado de decidir por si mesmo o que os médicos devem fazer do seu corpo, "ele nomeia algumas pessoas que decidirão por ele". Assim se justificaria a eutanásia.

Semelhante raciocínio serve para legitimar o aborto; desde que os adultos prevejam que o nascituro levará existência infeliz, têm o direito de o matar:

"O aborto é um dos problemas centrais da Bioética. Aliás, é um dos grandes problemas cuja discussão propiciou o nascimento da Bioética... Nos Estados Unidos, nos anos 70, iniciou-se uma discussão sobre a moralidade do aborto... Então se disse que é um direito da mulher ter acesso ao aborto. É um direito moralmente justo".

Tais considerações sugerem algumas reflexões.

 

2. COMENTANDO...

2.1.  Decidir sobre o Direito de Viver

A vida é algo que o homem não cria; ele não a dá a si mesmo, mas a tem como dádiva do Criador,... dádiva que na Terra lhe escapa sem que ele o possa impedir. É isto que faz a sacralidade da vida humana. A ninguém toca o direito de decidir sobre a própria vida, como se o homem fosse o senhor da mesma. Muito menos toca a alguém decidir sobre a vida de outrem, definindo quem poderá viver e quem deverá morrer pelo aborto ou a eutanásia. Os critérios de "vida feliz" são muito ilusórios e pessoais, de modo que não é lícito ao homem dizer: "Tal vida infeliz não merece ser vivida"; a experiência mostra que pessoas tidas como "desgraçadas" porque cegas, surdas e mudas, foram grandes heroínas da humanidade, deixando à posteridade um patrimônio moral e cultural de grande valor. É o que passamos a examinar.

2.2.  Grandes Vultos da História

Tenham-se em vista, entre outros, os quatro casos seguintes:

1) Helen Adams Keller (1880-1968), escritora e conferencista norteamericana, foi cega, surda e muda. Tornou-se um símbolo de tenacidade na superação das próprias deficiências. Orientada por Anne Sullivan a partir de 1887, aprendeu a ler, escrever e falar pelo tato e por sinais da mão, diplomando-se com louvor no Radcliffe College de Cambridge em 1904. Escreveu "A História da minha Vida" (1903) e "O Diário de Helen Keller" (1938). Ver artigo precedente neste fascículo.

2)  Marie Heurtin ff 1921), cega, surda e muda, submetida a educação especializada, pôde granjear cultura e tornar-se útil à sociedade.

3)  Marta Obrecht, também cega, surda e muda, foi educada pacientemente por pessoas especializadas. Em 1910 entregava-se aos afazeres de dona de casa, à datilografia, à costura (à máquina) e a outros misteres técnicos.

4)  Ana Maria Poyet tornou-se cega e surda com a idade de três meses.- Não obstante, seu pai foi-lhe educando o tato, de modo que pôde conhecer e exprimir muitas noções. Um sopro sobre a mão significava pai, dois sopros mãe, três sopros avós. Aos sábados, quando o pai, simples trabalhador, voltava à casa, levando o salário da semana, a menina apalpava as moedas respectivas e, reconhecendo-lhes o valor, manifestava a sua alegria.

Estes quatro casos (aos quais outros se poderiam acrescentar) significam que no ser humano existe um princípio de vida que transcende a matéria ou a corporeidade. Em conseqüência, quando os bens materiais desfalecem, esse princípio sabe encontrar em sua riqueza e profundidade devidamente cultivadas meios de suprir essa deficiência e desenvolver suas potencialidades. Isto quer dizer ainda que o valor da vida humana não se pode aquilatar unicamente pela posse de bens materiais nem mesmo apenas pelo gozo de saúde física. Há pessoas que, carentes de tais bens, encontraram sua auto-realização cultivando outros valores espirituais: inteligência, força de vontade, talentos da personalidade.

Eis por que não pode ser tido como válido o direito de condenar alguém à morte sob alegação de que tal pessoa é deficiente e, por isto, será necessariamente infeliz. Tal "compaixão" pode estar mesclada do desejo de remover um incômodo encargo para parentes e amigos..., o incômodo de cuidar de um(a) deficiente físico(a).

Sobre o aborto em particular não resta dúvida de que é um homicídio, que a título nenhum pode ser justificado. Ver os dois artigos sobre o assunto nesta mesna revista (402).

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