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Uma hipótese ousada:

 

“SÃO JOSÉ: A PERSONIFICAÇÃO DO PAI”

por Leonardo Boff

 

Em síntese: Leonardo Boff propõe a união hipostática (união pessoal) de São José com o Pai Eterno à semelhança do que ocorreu entre Deus Filho e a humanidade assumida em Maria Virgem e terá ocorrido entre o Espírito Santo e Maria SSma (segundo Boff) - Esta hipótese não tem cabimento na teologia católica, pois o mistério da Encarnação é singular; tem por finalidade suscitar um novo Adão, que resgate o primeiro Adão, réu de desobediência ao preceito divino.

*   *   *

Leonardo (cujo nome civil é Genézio) Boff entrega ao público mais um de seus livros: "São José: A Personificação do Pai", em que reivindica para São José a união hipostática com o Pai Eterno, paralela à união ocorrente entre Deus Filho e a humanidade de Jesus.

A seguir, proporemos o pensamento de Boff, ao qual serão acrescentadas algumas observações críticas.

1. O pensamento de Boff

Após considerações sobre o Evangelho e a Tradição no tocante a São José, L. Boff passa à parte especulativa do seu trabalho mediante raciocínios discutíveis, que afirmam que São José gozava de tal união com Deus Pai semelhante à que Jesus tinha com Deus Filho.

Visto que tal união se chama tecnicamente "união hipostática", convém perguntar: que seria a união hipostática?

Hypóstasis em grego significa "subsistência pessoal", donde se segue que união hipostática significa o Divino e o humano unidos entre si num só sujeito, ou num só eu.

Foi o que se deu em Jesus; nele havia um só eu (Divino) com todo o potencial divino e todo o potencial humano.

Ora em 1979, Boff afirmava que Maria está unida ao Espírito Santo em união hipostática([1]). Em 2004, estende o privilégio a São José nos termos acima citados. Assim a família humana - Jesus, Maria e José -copia a família divina.

Esta tese, L. Boff encontra-a nos escritos de um franciscano - Frei Schumaker - que Leonardo endossa. Eis as principais passagens que explanam a tese:

«Em razão de nosso tema, interessa-nos o manuscrito 'Josefologia - o Pai personificado'. Antes de tudo sustenta que há três humanações divinas ( hipóstases); a primeira por encarnação - Jesus, Deus Filho: a segunda por corporificação - Maria, Deus Mãe (Espírito Santo); a terceira por incorporação - José, Deus Pai. Em seguida, apresenta sua josefologia. Trata-se antes de um insight do que de um resultado de árdua reflexão teológica, como estamos tentando fazer. Mas há um elemento extremamente fecundo em sua intuição: resgatar a arquitetônica e a coerência entre as verdades de fé. Citemos os principais tópicos de sua josefologia:

Interfusão de josefologia com patriologia. José é Deus Pai humanado, incorporado. É a sua Sabedoria e Discrição externas, incorporadas no seu substituto na terra, no encargo de chefe da Sagrada Família. É a paternidade divina compartilhada do Pai Supremo [...]. Os três (Jesus, Maria e José) viviam na doce paz do amor divino, mas também uma persistente e cruciante hipertensão espiritual, pois em face da lei eram hereges rompendo com as tradições mais caras ao povo eleito...

Conclui com esta interpelação direta a São José: 'José, você deixará de ser mera figura decorativa do presépio. A sua 'protodulia' ainda será mesmo ADORAÇÃO'. A ladainha a São José que propõe, com 24 invocações, supera em longe, na nossa opinião, a ladainha oficial, excessiva nos superlativos, quase indigna do humilde artesão de Nazaré», (pp. 144s).

Mais adiante escreve L. Boff:

«A aliança chegou à sua culminância na descida do Espírito Santo sobre Maria e do Filho sobre Jesus. Agora, Deus deixa sua transcendência e entra na mais profunda imanência humana. Ele sai de si, se oferece à acolhida humana e se faz humano. Tal evento bem-aventurado é mais que aliança: é mútua comunhão, é identificação com o outro, respeitando as diferenças. José não podia ficar de fora dessa vontade encarnatória e personatizadora de Deus. O Pai invisível se torna visível nele. José bem poderia dizer, como disse Jesus: "O Pai está em mim e eu estou no Pai [...]. Eu e o Pai somos uma coisa só" (Jo 10, 38; 14, 11; 10, 30)» (PP. 153s).

Destas palavras se depreende que São José é um outro Jesus. Chega ao auge de seus devaneios.

2. Que dizer?

Proporemos seis reflexões.

1)   Leonardo Boff atualmente interessado em ecologia e sociologia parece ter esquecido os princípios de Teologia que outrora ele aprendeu. É oportuno lembrar que a Encarnação não é simplesmente uma doação de Deus aos homens, mas foi o recurso que a Sabedoria Divina concebeu para dar remédio ao gênero humano afetado pelo pecado. Deus Filho fez-se um novo Adão, que prestou ao Pai do céu o preito de obediência e amor que o primeiro Adão lhe recusou. A recapitulação ou recirculação assim foi feita uma vez por todas. O segundo Adão foi por amor até a morte para resgatar o primeiro Adão, que por desamor foi até a morte.

2)   Convinha que Deus Filho desempenhasse a função de encarnar-se, pois Ele assim nos fez participar da sua filiação divina a fim de levar ao Pai os irmãos configurados ao Primogênito (ver Rm 8, 29).

3)   L. Boff parece confundir efusão da Divindade sobre uma criatura e união hipostática. Donde a pergunta: que é união hipostática? - É a união de duas naturezas em uma só pessoa ou a união do Divino e do humano num só Eu (divino). Isto só se realiza em Jesus; pela encarnação Deus Filho, sem perder algo da Divindade, assumiu todo o potencial da natureza humana (corpo, alma com suas faculdades), de modo que se pode dizer: "Deus Filho (feito homem) nasceu de Maria Virgem, padeceu e morreu.

Ora, se Maria estivesse hipostaticamente unida ao Espírito Santo, ela não teria eu humano e se poderia dizer: "O Espírito Santo (feito mulher) gerou Jesus Cristo". No caso da pretensa personificação do Pai Celeste, dir-se-ia: "O Pai (feito homem) foi carpinteiro em Nazaré" - o que é despropositado. O que houve em Maria e José foi uma especial efusão da graça divina. A união hipostática não é um acréscimo dado a um(a) Santo(a), mas é o constitutivo da personalidade do(a) Santo(a). Como dito, isto só aconteceu em Jesus, chamado a ser o segundo Adão: natureza humana (de vivente racional) completa, cujo eu era divino ou o de Deus Filho.

4)   É inadequado conceber a família humana como cópia da SS. Trindade. Com efeito, na família humana há três pessoas (pai, mãe e filho) que convergem para uma certa unidade moral ou afetiva, ao passo que na SS. Trindade há uma unidade substancial (ontológica) que se afirma em três pessoas ou três hipóstases.

5)   L. Boff apela para a Exortação Apostólica de João Paulo II "Redemptoris Custos", onde se lê: "Foi assumida a paternidade humana de Jesus" (n. 21); cf. p. 200. A propósito observe-se:

- o Papa não diz que foi assumido o ser constitutivo de São José, mas apenas a função de pai;

-"foi assumida" no caso significa "foi elevada, dignificada...". Dizer que a realidade humana de José "pertencia também ao Pai" é vago e insuficiente para fundamentar a tese da união hipostática; cf. p. 202.

6) L. Boff usa de linguagem que talvez se imponha a quem o lê pela primeira vez, mas que não resiste ao crivo da precisão teológica. O linguajar de Boff é muitas vezes vago e impreciso. Pode impressionar pelo aparato bibliográfico em que se apóia, mas é inconsistente aos olhos de quem o analisa.

O próprio título da obra é inconsistente. Com efeito, "personificar" significa, segundo o linguajar português cotidiano, "fazer pessoa". Ora pode-se dizer que Deus Pai se fez pessoa? Não é Ele Pessoa Divina desde toda a eternidade?

Queira L. Boff rever as posições que tem assumido nos últimos tempos! Já não são as da fé católica.

 

Dom Estêvão Bettencourt



[1] Ver L. Boff, O Rosto Materno de Deus. Petrópolis 1979. Analisado em PR 236/1979, pp. 311ss.


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