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INTRODUÇÃO A MATEUS

 

Mateus (nome talvez abreviado de Matadas) exercia, antes de seu chamamento ao apostolado, a profissão de cobrador de impostos, profissão, já de per si, detestada por todos, que se tornava ainda mais antipática ao povo judeu por favorecer, tal cobrança, a dominação romana. Os publicanos, os cobradores de impostos, eram considerados como pecadores públicos.

 

Mateus estava sentado à sua banca de trabalho quando foi chamado por Jesus. Levantou-se logo e o seguiu, dando adeus ao mundo com um banquete oferecido a Jesus e aos próprios colegas de profissão, "publicanos e pecadores" (Mt 9,9-10). Nas passagens paralelas de Marcos (2,14) e Lucas (2,27), por delicada consideração, é ele chamado Levi, outro nome seu, segundo um costume freqüente entre os hebreus.

 

A partir de então entra a fazer parte do colégio dos doze, sem que nada de importante o pusesse em evidência. No catálogo dos apóstolos é colocado invariavelmente junto a Tomé, ao qual, por sentimento de humildade, se pospõe no seu Evangelho, lembrando o seu ofício de publicano.

 

Depois da ascensão de Jesus, ficou algum tempo na Palestina, evangelizando seus compatriotas. A que regiões tenha depois levado a luz da fé, que ele confirma com seu sangue (se a Arábia, a Etiópia, a Pérsia ou a região dos partos), não nos foi transmitido com certeza.

 

Em ordem cronológica, S. Mateus é o primeiro evangelista, conforme resulta da tradição. Pelo testemunho de Papias (95,165), bispo de Hierápolis na Frigia, sabe-se que escreveu em aramaico "ta lógia kyriaká", mas esta expressão, segundo o pensamento do próprio Papias, quando fala do Evangelho de S. Marcos, compreende não só os discursos, como também os fatos da vida de Jesus. Mateus não escreveu, portanto, uma simples coletânea dos discursos de Jesus, como afirmam, sem razão, alguns críticos, mas escreveu o "Evangelho do Senhor".

 

O texto aramaico não chegou até nós, pois perdeu-se, quiçá, nas agitações e destruições devidas à guerra do ano 70. Cedo, porém, desde os primeiros anos do cristianismo, fêz-se a redação, ou melhor, a versão grega do Evangelho deMateus, sem, contudo, podermos saber qual o seu autor; talvez o próprio apóstolo. Com efeito, a tradição atribui-lhe também unanimemente o texto grego; pelo menos quanto à essência, é plenamente idêntico ao texto aramaico. Os Padres apostólicos citam-no sempre, desde o início, como texto sagrado e inspirado, à semelhança das outras Escrituras, e foi unicamente sobre ele que se fizeram todas as versões.

 

Pelo que se deduz da tradição e do exame interno, Mateus escreveu o seu Evangelho na Palestina, destinando-o aos judeus convertidos e em geral aos seus compatriotas. A tese que visa a demonstrar é que Jesus é o filho de Davi, prometido e esperado, o Messias, ou melhor, o verdadeiro Filho de Deus. Provar a messianidade, a divindade de Jesus Cristo, constitui, portanto, a finalidade do primeiro evangelista. E o faz não tanto referindo os milagres de Jesus, quanto fazendo notar nele a realização das antigas profecias e insistindo nas provas que Jesus deu de sua divindade.

 

Não se pode estabelecer com certeza a data da composição do primeiro Evangelho. Pode-se, sem temor algum de errar, estabelecer o termo inferior, abaixo do qual certamente não foi escrito. De fato, conforme o testemunho unânime e constante da tradição (não faz exceção a voz ambígua de Clemente Alexandrino) o Evangelho de Mateus deve ter sido o primeiro a ser escrito, por isso, antes do de Lucas, cuja composição, como se verá, não pode nem deve ser posposta ao ano 63 d. C. Quanto ao termo superior, as opiniões são divergentes: muitos dão--Ihe por data de composição o ano 50 ou mesmo antes. Deve-se, contudo, dizer que é falsa a afirmação dos racionalistas, segundo os quais teria sido escrito após o ano 70.

 

O quadro seguinte do Evangelho de S. Mateus colocará sob nossas vistas toda a sua estrutura.

I parte - História da infância de Jesus Cristo. (1-2).

Genealogia de Jesus (1,1-17). Seu nascimento virginal (1,18-25). Adoração dos magos (2,1-12). Fuga para o Egito (2,13-18). Volta a Nazaré (2,19-23).

II parte - Vida pública de Jesus Cristo (3-25).

1. Preparação para a vida pública (3,1-4,11). Pregação de João Batista (3,1-12). Batismo de Jesus (3,13-17). Tentação no deserto (4,1-11).

2. Ministério de Jesus na Galileia (4,12-18,35). Jesus doutor e promul-gador da nova lei (4,12-7,29). Jesus operador de milagres (8,1-9,34). Jesus mestre dos apóstolos (9,35-10,42). Jesus recrimina os fariseus (11-12). Expõe, com parábolas, o reino de Deus (13). Confirma a fé dos discípulos com novos milagres e fustiga a inveja dos fariseus (14,1-16,12). Promete a Pedro o primado (16,13-20), prediz sua paixão (16,21-28), transfigura-se no monte (17, 1,13) e dá instruções diversas aos apóstolos (17,14-18,35).

3. Ministério na Judeia (19,25). Viagem a Jerusalém (19-20). Entrada triunfal na cidade santa e purificação do templo (21,1-17). Jesus manifesta e censura os vícios dos fariseus e dos saduceus (21,18-23.39). Prediz a destruição de Jerusalém e o fim do mundo (24-25).

 

III parte - Vida dolorosa e vida gloriosa (26-28).

Preparação para a paixão (26,1-46). Paixão e morte de Jesus (26,47-27,66). Ressurreição, aparição de Jesus ressuscitado, missão dos apóstolos (28).

 

Aqui vem, no entanto, a propósito notarmos alguma coisa sobre a chamada "questão sinótica". Os três primeiros Evangelhos assemelham-se mais entre si e distinguemse do quarto, segundo João, na narração da vida pública de Jesus, principalmente de três modos: estendem-se mais difusamente sobre o ministério na Galileia e regiões limítrofes; para eles Jesus vai a Jerusalém uma só vez, pouco antes da paixão; referem os fatos e os discursos de Jesus em proporções quase iguais. Em João, ao contrário, predomina o ministério exercido em Jerusalém, para onde se vê Jesus dirigir-se pelo menos cinco vezes, e os discursos preponderam sobre os fatos. Além disso, os três primeiros nos referem muitas vezes os mesmos fatos na mesma ordem e até mesmo com idênticas palavras. Esta particularidade mereceu-lhes dos críticos a denominação de "Evangelhos sinóticos". A tamanha semelhança correspondem, porém, de outra parte, divergências assaz notáveis, que dão a cada um dos Evangelhos a fisionomia própria. De tudo isso o leitor encontrará confirmação com uma leitura atenta e comparativa dos sinóticos ou mesmo depois que com eles se familiarizar. Trata-se agora de explicar, ao mesmo tempo, semelhanças e disse-melhanças com uma sentença harmônica sobre a origem dos Evangelhos e relações mútuas. Ê a chamada "questão sinótica". Há dois séculos apresentaram-se várias e discordantes soluções, sem ter-se chegado a uma sentença comumente aceita. A seguinte, que leva em conta todos os dados do problema, inclusive os testemunhos históricos dos santos Padres, vai-se firmando sempre mais nos meios católicos.

 

Ao Evangelho escrito precedeu o Evangelho pregado, por um período de cerca de vinte anos, durante os quais a vida de Jesus, exposta nas instruções ou catequeses dos apóstolos, foi assumindo, pela escolha e organização do material, um esquema determinado e uniformemente repetido. Formou-se deste modo uma tradição oral, que serviu de base aos escritores. Com essa tradição, confirmada, enriquecida pela própria experiência pessoal, Mateus compôs o seu Evangelho em aramaico. Transplantado para Roma por S. Pedro, que já na Palestina fora o seu mais eficaz formador, esse esquema de catequese oral foi literalmente consignado por S. Marcos, em língua grega. Nessa mesma Roma, pelos anos 60-61, senão antes, S. Lucas deve ter conhecido bem esse Evangelho grego, e serviu-se dele para escrever o seu elaborado, para o qual consultou fontes orais e escritas (Lc 1,1-4). Tendo-se propagado not Oriente de língua grega o Evangelho de S. Marcos, dele se serviu também aquele que, qualquer que tenha sido (veja acima), traduziu para o grego o Evangelho aramaico de S. Mateus, dando-nos, deste modo, o texto canónico do primeiro de nossos Evangelhos. Resta explicar, para dar uma razão de todos os acordos e desacordos, as coincidências, mesmo verbais, entre Mateus e Lucas, nas passagens em que Marcos nada tem que lhes corresponda. Para essas, não parecendo verossímil que Lucas tenha conhecido Mateus em grego (pense-se, por exemplo, na história da infância e na genealogia de Jesus, tão diversas nos respectivos Evangelhos), autores católicos são inclinados a postular uma fonte comum escrita.


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