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NOVO TESTAMENTO


Passando do Antigo para o Novo Testamento, principalmente se o lermos na ordem tradicional do texto, não teremos a sensação de mudar de ambiente. Sua primeira página (Mt 1,1) apresenta-nos um quadro genealógico à maneira dos que, tão freqüentemente, encontramos nos livros históricos do Antigo Testamento. Uma genealogia que começa com Abraão, antepassado-cabeça do povo hebreu. Logo depois (Lc 3,23-38), outra cadeia genealógica se nos apresenta, a qual nos faz remontar até ao primeiro homem, esse Adão sobre o qual um capítulo inicial do Antigo Testamento chamou a nossa atenção. Teatro dos acontecimentos são as regiões, cidades e campos da Palestina. Vive-se num mundo judaico, entre instituições e recordações da lei antiga. As personagens dessa nova história falam-nos numa linguagem característica, à qual nos haviam habituado as páginas dos livros sagrados precedentes.

 

Não mudou o ambiente, mas outro é o ar que se respira. O espetáculo dum povo, duma nação singular, que no Antigo Testamento concentrava a atenção e o interesse do leitor, alarga-se aqui e restringe-se a um só tempo, sob aspectos diversos. De um lado, o objeto das promessas divinas, a salvação que nelas se anuncia, uma vez derrubadas todas as barreiras entre os povos, já não se restringe a uma pequena parte da humanidade, mas estende-se a todas as nações da terra. Por outro lado, a mensagem divina dirige-se diretamente a todos os povos, e cada qual, por si mesmo, aproximasse da nova aliança, assume-Ihe pessoalmente as obrigações e usufrui-lhe os privilégios. A lei divina já não é escrita em tábuas de pedra, mas é impressa no coração do homem e, deste modo, torna-se ao mesmo tempo, mais humana, mais suave e mais eficaz. Ê um arauto da antiga aliança que, nestes termos, nos delineia a essência e nos dita, por primeiro, o nome do "Novo Testamento" ("Nova Aliança": Jer 31, 31-34).

 

A religião torna-se, assim, mais íntima, mais espiritual. No Novo Testamento já não ouvimos falar de conquistas e de reinos terrenos, mas anuncia-se-nos um reino de Deus que está dentro de nós (Lc 17,21; Rom 14,17). No Antigo Testamento, o horizonte humano restringia-se ao círculo da existência terrena e da vida ultraterrena não temos senão raras e vagas notícias. No Novo, ao invés, o espírito alça-se continuamente para o céu, e as promessas melhores e as mais fortes aspirações têm por objeto a vida futura. Na vida terrena, com o salmista (SI 38,13), o hebreu piedoso professava ser "adventício (hóspede) junto de Deus" e, por afeição ao seu Deus, pedia para ficar aí o mais possível. Os crentes do Novo Testamento sentem-se "exilados do Senhor" e anelam por "exilar-se do corpo" e chegar à pátria (2Cor 5, 6-8), para dar o eterno abraço ao Pai celeste. Característico é o título, que Deus tem, de "Adonai" (Senhor) no Antigo Testamento, e de "Pai" no Novo, onde a primeira e mais comum oração inicia-se com a suave invocação: "Pai nosso, que estás nos céus" (Mt 6,9).

 

Respira-se um ar mais puro, mais suave, porque somos levados mais para o alto, para o cimo do monte sagrado. O valor do homem está inteiramente nas virtudes morais, e para as próprias virtudes é proposto o ideal mais sublime (Mt 5,21-48). Temos no Novo Testamento a plenitude da revelação e a perfeição da moral. Tangível, sem dúvida, no Antigo Testamento um progresso da doutrina revelada, uma purificação da espiritualidade religiosa, um melhoramento correspondente dos costumes. Esta linha de elevação progressiva, realizada por especial providência de Deus, sobretudo por meio dos profetas, alcança o seu termo, tocando o vértice, no Novo Testamento. Sazonou aqui o fruto que se vinha preparando na florescência esplêndida das antigas Escrituras, o que vem dar ao Novo Testamento, com relação ao Antigo, uma superioridade de valor, para a nossa formação espiritual, que está em razão inversa da respectiva extensão do texto escrito e dos tempos abrangidos.

 

O Novo Testamento compõe-se, no cânon completo e definitivo de 27 escritos distintos: 5 livros históricos (os quatro Evangelhos e os Atos dos Apóstolos), 21 Epístolas de diversos apóstolos e 1 livro de índole profética, o Apocalipse. Tomados em conjunto, formam, em extensão, um quinto de toda a Bíblia e um quarto apenas do Antigo Testamento. Como espaço de tempo abrangem, quando muito, cerca de um século: desde o nascimento de Jesus Nazareno (5 a.C.) até à morte do seu mais novo amado discípulo (cerca do ano 100 d.C.). Era o primeiro e o mais feliz dos séculos daquela longa pax romana, que, irmanando sob o cetro de um único monarca a imensa bacia mediterrânea, facilitava providencialmente a propagação da Boa-nova, pregada, primeiramente, num canto das fronteiras orientais do vastíssimo império. Nesse variado organismo de tão numerosos povos de origens e línguas diversas, uma língua sobressaía-se sobre as demais como a língua da cultura e ainda como a mais conhecida e difundida nas relações comerciais: a língua grega. E foi precisamente nessa língua universal que foram escritos e transmitidos até nós todos os livros do Novo Testamento (exceção apenas do Evangelho de S. Mateus).

 

É um grego fácil, claro, temperado pelo uso da linguagem falada, adequado à inteligência até das camadas mais humildes da sociedade, às quais era dirigida, com certa predileção, a nova mensagem da salvação evangélica. Nessa roupagem popular, os escritos neotestamentários difundiram-se rapidamente pelo Oriente inteiro, bem como pelo Ocidente, o mais das vezes escritos em papiros (cf. 2Jo 12), matéria vulgar e de baixo preço, que facilmente se rasgava e muito depressa se estragava. Por esta razão, somente fragmentos nos chegaram das cópias dos três primeiros séculos, preciosos, sem dúvida, como testemunhos da autenticidade daquelas veneráveis páginas. Do IV século em diante (antigüidade esta que, no caso, é de grande valor), generalizando-se o uso do pergaminho ou pele de carneiro, matéria muito mais sólida e resistente, chegaram até nós cópias inteiras, não só de cada um dos escritos, mas também do Novo Testamento inteiro.

 

Com a difusão e a multiplicação das cópias, o texto, como acontece com as coisas humanas, sofreu, pelas mãos dos copistas, alterações de diversas espécies, que lhe ofuscaram a pureza primitiva, sem, todavia, prejudicar-lhe a substância. Surgiram, assim, tipos diversos de texto, com discrepâncias de códices, como lamentava, já no seu tempo (pelo ano 383), S. Jerônimo, o qual, emendando a antiga versão latina, com o auxílio de bons e antigos manuscritos gregos, reproduziu, na sua Vulgata, especialmente nos Evangelhos, o texto sagrado até bem próximo da pureza original, e nesse estado passou ao uso da Igreja latina. No império bizantino, prevaleceu, na idade média, um tipo de texto, no qual a união de leituras diversas, a conformação dos textos paralelos, o amaciamento das asperezas ou dificuldades, o brilho da língua fundiram-se numa composição temperada e descolorida, capaz de satisfazer as exigências de um público ávido de um alimento espiritual fácil, de preferência à precisão exegética. Dos manuscritos tardios dessa época esse texto obscuro passou à imprensa do século XIV e dominou durante três séculos nos estudos bíblicos, contrapondo-se ao teor mais vetusto e austero da Vulgata latina. Daquele texto traduziram-se os Livros Sagrados nas línguas modernas com as versões do século XVI, de protestantes e de católicos.

 

Conhecendo, depois, os doutos os manuscritos mais antigos, sobretudo o Vaticano 1209 (B), apareceu logo a superioridade do texto aí contido, e o texto bizantino, já pomposamente proclamado "texto aceito por todos" (textus ab omnibus receptus), começou a perder o crédito, até que na segunda metade do século XIX foi definitivamente afastado não só das edições críticas, como também das manuais e escolásticas. Críticos de grande renome, depois de longos e severos estudos, seguindo vias diversas, concordaram em aprovar um texto sensivelmente igual, tanto próximo dos mais antigos manuscritos e da Vulgata, distante do texto outrora em vigor. Graças aos progressos da crítica moderna, podemos dar hoje o texto genuíno dos Evangelhos e dos escritos apostólicos, e não somente quanto à substância, como também quanto aos pormenores.

Cronologia

Os escritos neotestamentários abrangem, como foi dito, um século apenas. Embora seja tão breve o espaço, a cronologia dos fatos nos apresenta, por falta de dados suficientes e precisos, dificuldades e incertezas. Daí a grande variedade de opiniões entre os estudiosos. As datas que, para utilidade dos leitores, apresentamos, são as mais comumente admitidas, tendo, porém, valor apenas aproximativo. Como ponto de partida, no uso da era vulgar ou cristã, enquanto o ano 1 deveria ser o do nascimento de Jesus, cumpre dizer, de fato, que, por causa de um erro inicial de cálculo cometido pelo primeiro que introduziu essa era no cômputo das datas (o monge Dionísio, o Pequeno, no ano 525; cf. Migne, Patrologia latina, 67, 497-502), deve-se transportar aquele memorável e fundamental acontecimento para alguns anos atrás. Com efeito, consta, com certeza, do Evangelho (Mt 2,1-15; Lc 1,5), que Jesus nasceu antes da morte de Herodes, o Grande, que caiu (como podemos deduzir por vários fios da história profana) no início de abril do ano 750 de Roma, que corresponde ao antes da era vulgar. Colocamos o nascimento de Jesus Cristo no ano anterior (assinalado — 5), embora permanecendo incerto quantos meses se passaram desde o seu nascimento até à morte do tirano. Outro caso grave de incerteza é a duração da vida pública de Jesus. A opinião que mais respeita os dados do texto evangélico é a que a fixa em dois anos e alguns meses. A esta atemo-nos, também nós, no seguinte quadro:

 

ANO

- 5. Nascimento de Jesus Cristo (Mt 2,1; Lc 2,1-7).

+ 8. Jesus perdido e encontrado no templo aos 12 anos (Lc 2,41-51).

28. Pregação de S. João Batista (Lc 3,1-3). Batismo de Jesus e início de sua vida pública (Mt 3,13-4, 17 e paralelos).

30. Paixão, morte e ressurreição de Jesus; com a descida do Espírito Santo começa a pregação dos apóstolos e constitui-se a Igreja primitiva.

34. Martírio de Sto. Estêvão. Conversão de Saulo (S. Paulo).

37. S. Paulo, fugindo de Damasco, faz sua primeira visita a Jerusalém, hóspede de S. Pedro (At 9,23-28; Gál 1,18). S. Pedro evangeliza a Judéia e a Samaria; acolhe na Igreja os gentios convertidos (At 9,31-11,18). Cristandade de Antioquia.

43. Martírio de S. Tiago. S. Pedro, libertado do cárcere, "dirige-se para outro lugar (At 12,1-17), provavelmente para Roma. Dispersão dos apóstolos por toda a terra.

45. Primeira viagem apostólica de S. Paulo (At 13,1-14,25).

50. Concílio dos apóstolos em Jerusalém; decreto para os convertidos do gentilismo (At 15,1-31).

50-52. Segunda viagem apostólica de S. Paulo, através da Ásia Menor, pela Acaia da Macedônia e da Grécia (At 15,36-18,22). Suas Epístolas aos fiéis de Tessalônica.

53-57. Terceira viagem apostólica de S. Paulo, pela Ásia Menor e pela Macedônia (At 18,23-21,2). As grandes Epístolas aos coríntios e aos romanos.

57-59. S. Paulo prisioneiro em Cesaréia da Palestina (At 21,17-26,32).

60-62. S. Paulo preso em Roma (At 27,1-28,30); Epístolas do cativeiro (Col, Ef, Flp, Fim). S. Tiago, o Menor, é morto em Jerusalém.

63-66. Últimas viagens apostólicas de S. Paulo. Epístolas pastorais.

67. Martírio de S. Pedro e de S. Paulo em Roma.

c. 90. S. João evangelista é exilado, por causa da fé, para a ilha de Patmos, onde escreve o Apocalipse (Apoc 1,9-11).

c. 100. S. João morre em Éfeso, depois de escrever o seu Evangelho e suas três Epístolas canônicas. Encerramento da idade apostólica e dos tempos bíblicos.


 


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