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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 371 – abril 1993

Prática Cristã

Questão discutida:

O RISO NAS TRADIÇÕES ANTIGAS E MEDIEVAIS

 

Em síntese: Existe na tradição ascética cristã uma certa aversão ao riso, aversão derivada: 1) da experiência dos sábios pré-cristãos, que verificavam como o riso frívolo ou leviano pode ser deletério; 2) derivada também da mensagem bíblica, na qual o Eclesiastes deprecia o riso e o Evangelho nunca narra que Jesus tenha rido. Os autores cristãos que, baseados em tais episódios, condenam o riso, são, por vezes, peremptórios, parecendo não admitir exceção; há, porém, aqueles que têm em mira rejeitar apenas o riso excessivo e fútil. Outros pensadores cristãos dados à Filosofia recordavam com Aristóteles que o riso é próprio e típico do ser humano; por conseguinte, não pode ser coisa má em si.

 

Em conclusão, pode-se dizer que o riso é algo de natural no homem, e só há de ser condenado quando despropositado e contrário a outros valores.

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O romance "O Nome da Rosa" de Umberto Eco trouxe à tona um tema delicado e outrora muito candente: o significado do riso. O romance tem por eixo central a biblioteca de um mosteiro medieval, na qual se encontra um livro do filósofo grego Aristóteles (+322 a.C), que qualifica o riso como distintivo do ser humano em relação aos irracionais. Acontece, porém, que os monges, fazendo eco a outra tradição (pré-cristã e cristã) baniam o riso de seus mosteiros como sendo algo de todo inconveniente; Cristo mesmo não o teria praticado; daí o conflito que U. Eco supõe ter havido no mosteiro. No romance, o Visitador (Inquisidor) Guilherme de Baskerville responde a Jorge de Burgos que o riso é propriedade da natureza humana; por isto nada impede que Cristo tenha rido. Ver PR 275/1984, pp. 330-340 e 303/1987, pp. 367-372.

U. Eco lança assim a questão do riso na Filosofia grega e na Tradição cristã, questão que passamos a examinar atentamente, percorrendo os argumentos contrários e favoráveis ao riso.

 

1. CONTRA O RISO

1.1. Gregos e latinos pré-cristãos

Entre os autores clássicos encontram-se restrições ao riso.

Platão (+347 a.C.) afirma que é sinal de nobreza de ânimo regido pela razão o fato de alguém nunca ser sobrepujado pelo riso. Conseqüentemente adverte que não devem ser aceitos pelo povo homens de responsabilidade que se deixam arrastar pelo riso; muito menos serão reconhecidos deuses dados ao riso; cf. República III 388b.

 

No século 11 d.C. Claudius Aelianus observava que nem Anaxágoras (+ 428 a.C), filósofo pré-socrático, nem Aristomenes, herói de Atenas que no século VII a.C. venceu Esparta, jamais riram. Plínio, autor romano, acrescentava a essa lista Crassus Dives (+53 a.C), cônsul romano bem sucedido na guerra. São Jerônimo (+421), porém, observava que Crassus riu ao menos uma vez (Contra Rufinum I XXX 32).

 

Em suma, para pensadores gregos e latinos diversos, tanto os homens dignos quanto os deuses deviam estar acima do hábito de rir.

 

Passemos agora à Tradição bíblica.

 

1.2. No Antigo Testamento

 

Saltam aos olhos os textos do Eclesiastes, severo e pessimista, autor do século IV a.C:

Ecl 7,3ss: "Mais vale o desgosto do que o riso... o coração dos sábios está na casa em luto; o coração dos insensatos está na casa em festa".

Ecl 2,2: "Do riso eu disse: 'Tolice!' e da alegria: 'Para que serve?' ".

Ecl 1,18 sugere a pergunta: Como rir? Visto que "muita sabedoria, muito desgosto; quanto mais conhecimento, tanto mais sofrimento".

Acontece, porém, que o autor reconhece haver "um tempo para rir e um tempo para chorar" (Ecl 3,4).

Em Gn 18,9-15 Sara é censurada pelo Senhor Deus por ter rido; ... riu incrédula, ao imaginar que na sua idade avançada ainda teria um filho.

Todavia não falta no Antigo Testamento a referência ao riso sadio, decorrente dos benefícios de Deus. Assim, por exemplo, conforme o SI 126, 2, os exilados que voltaram da Babilônia no século VI a.C, riam de alegria. O filho prometido a Abraão e Sara em idade anciã recebeu o nome de Isaque, filho do riso, nome que Sara assim justificou: "Deus me deu motivo de riso; todos os que o souberem, rirão comigo" (Gn 21,6).

Por conseguinte, pode-se dizer que o Antigo Testamento condena o riso vazio, mas reconhece a legitimidade do riso alegre provocado pelas dádivas de Deus.

 

1.3. No Novo Testamento

 

Os escritores do Novo Testamento pouco se referem ao riso.

Lembram, sim, que o riso leviano nesta vida pode ser pe: nhor de decepção na outra, como também o pranto agora pode preparar o riso futuro:

Lc 6,25 e 21: "Ai de vós, que agora rides, porque conhecereis o luto e as lágrimas.

Bem-aventurados vós que agora chorais, porque haveis de rir"

S. Tiago exorta os pecadores "a chorar, transformando o riso em luto, a fim de poderem regozijar-se no futuro"; cf. Tg 4, 9.

 

Há também alusão ao riso escarnecedor, como ocorreu em casa de Jairo, onde Jesus ressuscitou uma menina:

Mc 5,39ss: "Disse Jesus: 'A criança não morreu; está dormindo'. E caçoavam dele".

Como se vê, o Novo Testamento é sóbrio a respeito da temática. Condena o riso malvado e vazio, como fazem os autores do Antigo Testamento.

 

Consideremos agora a Tradição cristã.

1.4. Os escritos patrísticos e medievais

É freqüente encontrar aí a censura ao riso de maneira geral.

Assim S. Basílio (+379), Bispo de Cesaréia, na Capadócia:

"O cristão deve, em tudo, ultrapassar a justiça ditada pela Lei de Moisés, e nunca jurar nem mentir. Não deve falar mal; não deve fazer violência nem combate... não deve ceder a gracejos; não deve rir nem tolerar brincadeiras" (Epístola 22).

O riso é, muitas vezes, tido como sinal de leviandade, ao passo que, segundo S. Ambrósio (+397), as lágrimas são sinal de espírito de penitência. Em conseqüência, quem muito tiver chorado seus pecados nesta vida, será salvo na vindoura (De Paenitentia II 6).

 

São João Crisóstomo (+407), Bispo de Constantinopla, queixava-se da dificuldade de impedir o riso dos fiéis durante a celebração da Liturgia. Quanto mais, dizia ele, o monge não deve abster-se de riso, ele que tem a incumbência de prantear os pecados do mundo e estar crucificado para o mundo! Em parte alguma lemos que Cristo tenha rido; só chorou... sobre Jerusalém e sobre Lázaro. Cf. In Hebraeos XV 8. Alusão a Lc 19, 41 e Jo 11, 35.

Todavia o mesmo São João Crisóstomo admitia que o riso nos proporciona um certo alívio e reergue os corações abatidos; pode exprimir a nossa alegria de rever um amigo desde muito desaparecido; cf. In Hebraeos XV 9.

Os escritos dos próprios monges insistem muito mais sobre a rejeição do riso. Tinham, aliás, seus antecedentes no monaquismo judaico; com efeito, no mosteiro de Qumran (a N. O. do Mar Morto) o Manual de Disciplina prescrevia que o monge que risse com espalhafato, devia ser punido por trinta dias.

 

Nas biografias dos Padres do Deserto lêem-se episódios que exprimem a mesma mentalidade. Eis alguns:

 

"Um ancião viu um irmão que estava a rir, e disse-lhe: havemos de dar contas de nossas obras ao Senhor do céu e da terra, e tu ainda ousas rir?" (De Vitis Patrum III 23).

 

"Certa vez, um dos irmãos, à mesa, pôs-se a rir. Então o abade João prorrompeu em lágrimas e perguntou: 'Que julgais que esse irmão traz em seu coração, pois ele ri quando deveria chorar?' " (ibid. VIII 6).

 

A Regra de São Bento é muito explícita, ao dizer:

 

"Quanto às brincadeiras e às palavras ociosas que provocam riso, condenamo-las em todos os lugares a uma eterna clausura; para tais palavras não permitimos ao discípulo abrir a boca" (RB 6, 8).

"O décimo grau da humildade consiste em que o monge não seja fácil e pronto ao riso, porque está escrito: 'O estulto eleva a sua voz, quando ri' (Eclo 21, 23)" (RB 7, 59).

Verdade é que algumas Regras monásticas antigas parecem condenar apenas o riso imoderado. Assim a Regula Pauli et Stephani (século VI) diz que as brincadeiras e o riso ¡moderado muitas vezes suscitam litígios entre os irmãos; por isto o riso descontrolado é desedificante e pode até abrir entrada ao Maligno.

No século V a Regula SS. Patrum Serapionis, Macharii, Pafnutii et alterius Macharii prescreve que todo monge vencido pelo riso deva ser punido por um período de duas semanas.

Pode-se-iam citar ainda outros testemunhos avessos ao riso, principalmente entre os monges. Deixando-os de lado por nada acrescentarem aos que transcrevemos, voltemo-nos para um dos argumentos que corroboraram a Tradição cristã contrária ao riso: o exemplo de Cristo.

 

1.5. O Retrato de Cristo

Parece que São João Crisóstomo (+407) foi o primeiro entre os escritores cristãos a observar que Jesus nunca riu, conforme os Evangelhos.

No Ocidente esta concepção aparece sob a pena de vários autores monásticos do século V ao século XIV. Encontrou sua expressão mais significativa numa famosa Carta a Lêntulo, devida a um autor anônimo medieval, que quer passar por testemunha ocular e assim descreve a figura humana de Jesus:

"Apareceu nestes tempos, e ainda existe, um homem (se é lícito considerá-lo homem) de grande virtude, chamado Jesus Cristo. É tido pelos povos como profeta da verdade; os seus discípulos chamam-no Filho de Deus; ressuscita mortos e cura todas as doenças. Ê homem de estatura elevada, moderado e respeitável. Tem semblante venerável, cabelos da cor de avelã não plenamente madura, quase lisos até os ouvidos, crespos dos ouvidos para baixo, um tanto brilhantes, caindo sobre os ombros. A cabeleira se reparte no meio de sua cabeça, como é costume entre os Nazarenos. A sua testa é lisa e muito serena, as faces sem ruga. Nenhuma falha traz no nariz e na boca. Tem barba densa, da cor dos cabelos, não longa, levemente bifurcada na altura do queixo. Seu olhar é simples e maduro; os olhos são claros e esverdeados. Quando repreende, é terrível; quando admoesta, é manso e amável; é alegre, ao mesmo tempo que sério. Chorou algumas vezes, mas nunca riu. Tem estatura bem ereta, as mãos e os braços bem configurados. É ponderado ao falar, sóbrio, modesto, de tal modo que o Profeta bem pôde dizer: 'É o mais belo dos filhos dos homens'".

 

Tal documento é apócrifo ou espúrio. Procede da pena de um cristão que desejava parafrasear o salmo 45, 3 citado no fim do texto.

 

Na verdade, não temos testemunhos fidedignos que descrevam o semblante humano de Jesus. Como se compreende, a Tradição cristã, desejosa de suprir tal lacuna, esmerou-se em descrever a presumida harmonia física do Senhor. Quanto ao riso, é certo que o Evangelho jamais o atribui a Jesus; é de notar, porém, que os evangelistas não tinham em mira escrever uma biografia de Jesus ou um relato completo de seus dizeres e gestos; por isto não é lícito deduzir do texto escrito do Evangelho que Jesus nunca riu. É bem possível que seus contemporâneos nunca o tenham visto rir, mas a narração dos evangelistas não é suficiente fundamento para tal suposição.

 

Examinemos agora o outro aspecto da questão.

 

2. O RISO COMO PRÓPRIO DO SER HUMANO

 

Ao lado da tradição teológica e ascética que acabamos de mencionar, os cristãos antigos e medievais conheceram a tradição filosófica menos avessa ao riso, embora não tão influente quanto a primeira.

 

Aristóteles (+322 a.C), como dito, ensinava que o homem, sendo um vivente racional, é naturalmente dotado da faculdade de rir. Esta não pertence à essência do homem, mas decorre da mesma, como algo de próprio, diferenciando-o de qualquer outro ser. Em conseqüência, pode-se dizer: "Todo homem é capaz de rir" e "Todo ser capaz de rir é homem".

Esta noção passou para as gerações posteriores efoi professada por Quintiliano (+69 d.C), orador romano, Porfírio (+305 d.C), lósofo neoplatônico, Luciano de Samosata (+190 d.C), poeta satírico e sofista greco-sírio... Entre os cristãos, foi assumida por Anicio Boécio (+524), comentador de Porfírio, que a transmitiu aos medievais nos seguintes termos:

 

"É próprio do homem aquilo que a todo homem, somente ao homem e sempre lhe ocorre, como é a faculdade de rir. Menos adequadamente dizemos que a racionalidade é própria do homem ... Menos adequadamente, porque ela é comum aos homens e aos deuses" (In Isagogen Porphyrii Commenta V 4).

 

Sem dúvida, para que o homem seja considerado homem, não é necessário que ria, mas sim que ele possa rir.

 

Esta verdade temperou a severidade de muitos mestres que proscreviam o riso na Idade Média. Existe uma santa hilaritas (hilaridade), que é o contrário do ser tristonho e que deve caracterizar o cristão. Ser alegre não coincide necessariamente com o riso freqüente e espalhafatoso. A consciência do pecado deve, sim, levar o cristão à contrição dolorida, mas esta própria dor contrita há de se lhe tornar motivo de alegria, pois arrepender-se dos pecados é fruto da graça de Deus dada ao homem. Diz S. Agostinho: "Doleat peccator de peccato suo, et de dolore gaudeat. — Que o pecador se condoa do seu pecado, e alegre-se por sua dor".

 

Aliás, os medievais souberam ser alegres e, fora dos mosteiros, não recusaram o riso. Riam de alegria, de surpresa e também ... de escárnio (tenhamos em vista os autos teatrais da Idade Média). O espécime mais típico do homem medieval é o cavaleiro ufano e impetuoso, que não conhecia medo e enfrentava os perigos com ânimo alegre e sorridente; tal é o testemunho de Ph. Ménard:

 

"O riso mais freqüente — e talvez o mais típico da epopéia — é o riso impetuoso e ufano do guerreiro que não se deixa espantar nem pelos perigos nem pelas ameaças" (Le rire et le souri-re dans le román courtois en France au Moyen Age 1150-1250, Genève 1969, p. 34).


3. CONCLUSÃO

 

A leitura da documentação antiga e medieval atinente ao riso deixa perceber uma certa tensão entre o conceito filosófico de riso e a noção cristã de penitência. Os monges não negaram o riso como valor próprio do homem, mas foram impressionados pelos abusos do riso frívolo e agitador de ambientes; ademais julgaram que o riso não tem sentido numa vida penitente; o penitente aguarda a vida definitiva para gozar tranqüila e alegremente dos bens celestes.

Há, porém, certa ambigüidade nas proibições de riso que nos são transmitidas; trata-se de banir o riso como tal e peremptoriamente? Ou quer-se coibir apenas o riso vazio e deletério? A primeira interpretação parece autêntica em muitos casos, mas pode-se crer que a segunda representa a corrente preponderante entre os monges e os mestres da Tradição cristã.

Este artigo muito deve ao de Irven M. Resnick: Risus Monasticus. Laughter and medieval Monastic Culture, em: Revue Bénédictine 97 (1987) No 1 e 2, pp. 91-100.

Dom Estêvão Bettencourt

 


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