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INTRODUÇÃO ÀS LAMENTAÇÕES

A tomada de Jerusalém, com o séquito de todas as suas dolorosas conseqüências, predita e depois descrita no livro de Jeremias, não deixou de produzir no coração dos judeus piedosos a mais viva dor e o mais acerbo pranto. Os sentimentos excitados por esse terrível golpe na parte mais eleita da nação estão refletidos nas Lamentações, chamadas também em grego "Trenos" (= cantos fúnebres), pequeno livro que, pela afinidade de matéria, nas Bíblias cristãs se acha unido ao livro de Jeremias.

Compõe-se de cinco carmes elegíacos, usualmente considerados e citados como outros tantos capítulos duma só obra literária. Além da matéria, têm em comum uma estrutura poética peculiar. No hebraico são todos alfabéticos, isto é, regulados pela ordem e pelo número das letras do alfabeto, mas de maneira diversa. Os quatro primeiros são também acrósticos. As iniciais de cada verso poético formam um alfabeto completo e ordenado, como em diversos salmos e na última seção dos Provérbios (Prov. 31,10-31).

Essa estrutura artificial, que não se percebe na nossa tradução, limita todos os carmes e influi no andamento do pensamento. Inútil, portanto, esperar um desenvolvimento lógico do tema; o poeta desafoga os seus afetos segundo lhe são sugeridos pelo coração dominado pela comoção, ou conforme o alfabeto lhe desperta uma idéia. Inexiste, entretanto, de carme para carme, ou no mesmo carme, aquela desordem por muitos lamentada. Não raro uma interpretação mais exata ou uma leitura correta do texto remove a causa de queixas. Os cinco carmes — ou elegias, como os chamaremos, com termo apropriado, — deploram a tremenda catástrofe nacional, cada uma sob um aspecto diferente. Na primeira, o motivo principal ê a perda dos bens morais: independência, glória, poderio, e o aviltamento da nação; na segunda, pranteiam-se as ruínas materiais e o massacre de vidas humanas na tomada da cidade; na terceira, põe-se e se resolve o problema religioso: como permitiu Deus tão grande esfacelamento? que mais esperar dele? como a salvação pode estar num sincero arrependimento e na reforma dos costumes?; na quarta deploram-se os males sofridos por todas as classes da sociedade judaica e as culpas dos principais responsáveis; a quinta, enfim, é um súplica que descreve a escravidão que se seguiu à derrota, e se destina a mover o Senhor à compaixão, e conclui com um suspiro de confiança no porvir. Também na estrutura de cada elegia não falta certa ordem e harmonia entre as diversas partes.

As cinco elegias são dum só autor? Quem foi ele? A questão é muito discutida e tem sido resolvida em diversos sentidos pelos autores modernos. A antigüidade, quer cristã quer judaica, atribui-as todas a Jeremias de quem nos é formalmente atestado que compôs lamentações ou cantos fúnebres por ocasião da morte de Josias, que não devem, entretanto, ser confundidas com estas elegias. Teríamos aqui uma coletânea de carmes independentes entre si, embora semelhantes, análoga à dos salmos graduais no Saltério (SI 120-134).

Podemos aceitar, portanto, que as Lamentações tenham autores diferentes e desconhecidos. Todas, porém, devem ser reconhecidas como igualmente inspiradas por Deus, porque fizeram sempre e sem contestação, parte do cânon das Sagradas Escrituras, tanto na Sinagoga judaica, como na Igreja cristã, embora nas listas dos Livros sagrados, como também no decreto do Concílio Tridentino, na maioria das vezes não sejam especificadamente nomeadas, porque subentendidas e compreendidas com o livro de Jeremias. Esta sua qualidade eminente de Escritura inspirada faz com que a nossa ignorância acerca dos seus autores humanos nada tolha ao seu valor religioso, como palavra de Deus que ê, do mesmo modo que nada tolhe à sua beleza poética, ao seu valor literário, que não é de forma alguma comum.

 

Bíblia Vulgata Ed.36


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