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INTRODUÇÃO A ISAÍAS


Nas Bíblias de língua hebraica e lati­na, o livro de Isaías costuma figurar em primeiro lugar na série dos livros profé­ticos. Não tanto por ser o mais antigo entre os Profetas Maiores ou por ser o livro ao qual empresta o nome um dos mais extensos, mas sobretudo porque ex­cede a todos os outros pela quantidade e grandiosidade dos vaticínios messiâni­cos.

Julga-se que o profeta Isaías tenha nascido em Jerusalém, de família nobre, pois encontramo-lo continuamente em contato com a corte e com pessoas in­fluentes do reino. Era casado e tinha pelo menos dois filhos, aos quais deu nomes proféticos (7,3;8,3), como, aliás, era o seu próprio nome, cujo signifi­cado é "Javé salva". No ano 738 foi chamado ao ministério profético me­diante uma célebre visão (cap. 6), que teve imensa repercussão na teologia e na liturgia. A partir de então vemo-lo ao lado dos reis de Judá, Acaz e Ezequias, animando-os na dura crise que atra­vessava a nação, assegurando-lhes a pro­teção divina em virtude das promessas feitas a Davi. Após o ano 700 perde­mo-lo de vista.

Relativamente às condições políticas, morais e religiosas de Jerusalém e de Judá nos tempos de Isaías, temos notí­cias abundantes em 2Rs 15-20 e 2Crôn 26-32, além das reflexões do presente livro. O longo e benéfico reinado de Azarias ou Ozias (cf. 2Rs 15,1), que tão grandemente favoreceu a agricultu­ra e o comércio no reino, trouxe com a prosperidade também o luxo e a des­preocupação, fatores de corrupção e conseqüentes desventuras. As baixas ca­madas populacionais eram descuidadas, oprimidas pelos ricos e potentados. A prática da religião exteriorizava-se em numerosos atos públicos de culto, em funções litúrgicas, mas era destituída de sincero sentimento interior e de vida moral correspondente. Pior ainda, ao lado da legítima religião monoteísta, do javismo puro, vicejavam práticas abo­minadas pela lei, e até mesmo atos de idolatria, especialmente depois que o crescente poderio assírio prestigiou os cultos babilônicos, favorecendo-lhes a penetração entre as populações palestinenses. O reinado de Ezequias promo­veu uma ação enérgica e salutar contra essas aberrações. Mas as suas sábias re­formas não tiveram grande duração nem penetraram totalmente na socieda­de judaica. Durante o reinado de seu degenerado filho e sucessor, Manasses, grassou mais do que nunca a corrupção na religião e nos costumes. À propagação do mal opôs-se em vão a voz enér­gica dos profetas; não eram atendidos. Chaga tão maligna só podia ser curada com um tratamento radical. E eis os profetas, especialmente Isaías, a anun­ciar os castigos divinos, que se sucede­riam implacáveis, até quase o aniquila* mento da nação culpada. Mas do terrí­vel cadinho sairá um pequeno resto, completamente purificado, germe sagra­do de um povo novo. E a nação res­surgida e transformada gozará de paz sem fim e de bem-estar invejável. Esta, em linhas gerais, a mensagem do profeta.

Instrumento da catástrofe, humana­mente tão terrível, mas ao mesmo tem­po, por disposição divina, tão salutar, devia ser o poderoso monarca do vizi­nho setentrião, primeiro o assírio, de­pois o babilônico. Contra a ameaçadora arrancada do temível colosso ergue-se o Egito, seja para defender a própria in­dependência, seja pela saudosa ambi­ção de dominar, como outrora, a Pa­lestina e parte da Síria. Espremidos en­tre os dois poderosos contendores, os pequenos estados do Oriente Próximo viam-se na contingência de se arranja­rem como podiam. Daí a formação, particularmente em Jerusalém, de dois partidos opostos, um propenso a nego­ciar com a Assíria, outro a formar com a oposição encabeçada pelo Egito. Isaías, em nome de Deus, pregava a neutrali­dade, combatia toda a esperança fun­damentada nos homens e incitava a pôr toda a confiança em Javé, fundador e protetor da nação. A esta política, ao mesmo tempo prudente e corajosa na­quelas circunstâncias, o profeta anima­va o rei Ezequias, mesmo depois que, com a queda do reino de Efraim (que­da da Samaria em 721 a.C.) o perigo para o reino de Judá, menor e mais fra­co, apresentava-se mais ameaçador. Gra­ças a essa política, o pequeno reino saiu ainda incólume da tempestade (701 a.C), naufragando em novo embate so­mente após mais de um século (587).

 

Bíblia Vulgata Ed.36


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