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INTRODUÇÃO À SABEDORIA


 


Entre todos os livros didáticos do Antigo Testamento, o presente traz por excelência o título de Sabedoria porque canta mais longamente e com acentos mais sublimes do que qualquer outro o elogio da verdadeira sabedoria, que tem por objeto a verdadeira religião e a virtude, mas o seu princípio no próprio Deus. Este conceito liga, como fio de ouro, numa maravilhosa unidade, as variedades notáveis das cinco partes, sensivelmente iguais, que compõem o livro.

 

1- Admoestação a praticar a justiça e a religião, e como motivo para assim agir, a oposição entre a sorte final dos bons e dos maus, prêmio dos justos e castigo dos ímpios na vida futura (1-5).

2-     Elogio da Sabedoria pelas suas qualidades intrínsecas e pelos bens que proporciona ao espírito humano. Fala Salomão (6-9).

3-     Qualidades da Sabedoria patenteadas na história sagrada; bens que a Sabedoria trouxe aos patriarcas desde Adão até Moisés (10-12).

4-     Origem, insensatez e imoralidade da idolatria (13-15): animismo (13,1--9); fetichismo (13,10-14,11); divinização de homens (14,12-20); corrupção profunda (14,21-31); a religião de Israel e o politeísmo egípcio (15).

 

Ao tomar e desenvolver o seu argumento, o autor sagrado teve por finalidade imediata confirmar na fé e na prática da santa religião os judeus do Egito, sustentá-los nas opressões, que por causa dela deviam sofrer, e preservá-los da sedução, que sobre eles podia exercer a brilhante civilização pagã sob a dinastia grega dos Ptolomeus.

 

Com efeito, não pode haver dúvidas de que o livro foi escrito primitivamente em grego, idioma usado pelos judeus do Egito, especialmente em Alexandria, nos últimos séculos que precedem a era vulgar. Nota-se nele não só o colorido grego da língua e do estilo, mas também o reflexo das escolas filosóficas e dos costumes da douta Grécia pagã.

 

Estes reflexos indicam aproximadamente a época em que viveu o autor, fá que no seu tempo (como se releva de 2,10-3,4; 5,1) os judeus tinham que sofrer bastante, quer da parte dos pagãos, quer dos seus correligionários apóstatas, podemos precisar esta época um pouco melhor. Ê historicamente fundado o fato de que nos reinados de Ptolomeu Alexandre (106-88 a.C.) e Ptolomeu Dionísio (80-52 a.C.) tiveram lugar no Egito sublevações populares contra os judeus.

O livro, portanto, deve ter sido escrito entre os anos 100 e 50 a, C.

 

Autores houve que pretenderam baixar a idade até à época romana (30 a. C.) e na antigüidade algum escritor, segundo S. Jerônimo (Praef. aos liv. de Salom.), atribuiu-o a Fílon hebreu (cerca de 20 a. C. — 40 d. C.). Mas o livro da Sabedoria versa com demasiada insistência e predileção sobre fatos e costumes especificamente egípcios, para se poder referi-los a povos e soberanos cuja sede não se achava no Egito. Além disso não se pode afirmar que os romanos houvessem "tiranizado o povo de Deus" (15,14) antes de Vespasiano e de Tito (70 d. C.). Também as doutrinas e o estilo diferem notavelmente dos de Fílon. Pode-se, isto sim, colocar o autor do presente livro entre os primeiros e mais ilustres mestres daquela escola judaica de Alexandria, da qual Fílon foi mais tarde o astro mais luminoso.

 

Verdade é que nos cc. 7-9 o autor fala e escreve como se fora Salomão, rei de Israel, que reinou em Jerusalém no séc. X a. C. (cf. lRs 3,5-12) e por isso nos códices gregos o livro tem ordinariamente o título de Sabedoria de Salomão. Mas isto é um inócuo artifício literário empregado nas antigas literaturas, uma espécie de prosopopéia, visando a dar ao discurso maior atração e eficácia, tomando para tanto o tom de insigne personagem antiga.

 

Este artifício humano nada tira à autoridade divina do livro, isto é, à sua inspiração, que é assegurada não só pelo magistério da Igreja, mas também pelo uso que do presente livro fizeram os autores do Novo Testamento, os quais, se o não citaram nominalmente, apropriaram-se de pensamentos e construções que lhe são próprios. Confrontem-se por exemplo, principalmente, Sab 12. 12-22 com Rom 9,19-23; Sab 9,15 com 2Cor 5,4; Sab 3,5-6 com lPdr 1,6-7; Sab 7,25-26 com Hebr 1,3; Sab 7 em geral com Jo 1.


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Claudio Maria

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