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INTRODUÇÃO AOS PROVÉRBIOS


Entre os hebreus, como em todas as nações, eram correntes os provérbios vulgares, patrimônio comum da sabedoria popular. Por exemplo: "Dos maliciosos procede a malícia" (1Sam 24,14) ou: "Tal mãe, tal filha" (Ez 16,44). Bem superior a este gênero popular eleva-se o provérbio douto, o "masar5 dos sábios, fruto da reflexão, digamos, filosófica. Ê uma sentença breve e conceituosa que, sob forma sutil e freqüentemente figurada, dita ensinamentos úteis para a vida. Sua origem e nome parece ter sido a semelhança ou comparação (tal o sentido primitivo da palavra "masal"; exemplos: 26,1-2), passada, portanto, para o sentido de comparação ou semelhança abreviada (p. ex., 25,25-26) para a antítese (10,1-5) e, enfim, para o dito sentencioso em geral. Na sua expressão mais pura, consta de duas frases ou hemistíquios paralelos, o segundo dos quais corresponde ao primeiro numa das diversas maneiras de paralelismo poético. É a forma com que se expressava comumente a filosofia elementar e prática dos hebreus, conhecida com o nome de "Sabedoria". Os escritos em que foi consignada formam a literatura propriamente sapiencial, que podemos chamar de poesia gnómica.

Composto em grande parte desses ditos, em forma de masal, é deles que toma nome o presente livro dos Provérbios. O argumento e a finalidade estão claramente expostos nos versos iniciais (1,1-6).

Observando-se com atenção, notar-se-á sem dificuldade que o fundo ou corpo do livro é formado por duas coleções de sentenças salomônicas (10,1-22, 16 e 25-29), às quais os capítulos 1-9 servem de introdução e que as outras coleções menores constituem, às vezes, como que apêndices. Esta a razão por que o livro, tomando o nome do autor principal, é chamado, no título (1,1), e com ele na linguagem eclesiástica, Provérbios (ou sentenças) de Salomão.

Este breve esboço pode dar uma idéia da riqueza e da variedade que este livro apresenta sob o duplo aspecto da matéria e da forma. Pode-se dizer que à vida toda da antiga sociedade israelita é passada revista, analisada, julgada segundo uma moral toda impregnada de bom senso e praticidade. As fontes desta moral são a experiência e a religião. Da experiência, mestra da vida, o autor sagrado tira lições práticas, ou recolhe simplesmente os fatos (20,4). A religião, ainda que não seja sistematicamente exposta, quer nos seus fundamentos dogmáticos, quer nas suas práticas cultuais (em geral os Provérbios não querem ser uma exposição sistemática da moral, mas sim ditames práticos), todavia é sempre pressuposta, ou, é posta como base de toda a moral (1,7;9,10; 14,2 etc.) e declarada fonte de toda a verdadeira felicidade (14,26-27; 15,16). Muitas e muitas vezes são inculcados nesta obra os grandes fundamentos de uma moral íntima, forte e convicta, como, p. ex., a de que Deus tudo vê (5,21; 15,3-11), tudo toma em consideração até os mais recônditos sentimentos do coração (16,2; 17,3), tudo governa (20,12-24;22,2;29,13) e tudo pode (19,21;21, 30); que longe de Deus não pode haver bem (15,29), que entregar-se a ele é encontrar a força, a sabedoria, a alegria (3,5; 16,20; 18,10 etc). Quanta eficácia na simplicidade da expressão do motivo tão freqüentemente repetido para afastar do vício: "desagrada a Deus, Deus o abomina" (3,32; 11,1-20; 12,22;24,18 etc.)!

É com razão, portanto, que a Igreja considera os Provérbios uma pérola entre os livros inspirados por Deus. Evidentemente, não podemos esperar encontrar nos ditos do Sábio toda a sublime elevação da moral evangélica, mas são-lhe uma boa preparação, e não raro muito se lhe aproximam. Razão por que freqüentemente os apóstolos e o próprio Jesus Cristo repetiram formalmente os Provérbios (Jo 7,38; Rom 12, 20; Tg 4,6) ou os seus ensinamentos (cf. Lc 14,10 com Prov 25,7; 1Pdr 4,8 e Tg 5,20 com Prov 10,12).

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