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Santos e Místicos

 

Gabrielle Bossis, uma grande mística do séc. XX

 

"ELE E EU - VIVER COM DEUS"

 

Sem nenhum estardalhaço publicitário como fazem as grandes editoras por ocasião de seus "bestsellers", tantas vezes medíocres, a Editora Quadrante publicou ano passado um pequeno livrinho Ele e Eu - Viver com Deus, de autoria de Gabrielle Bossis. Tal lançamento não pode passar desapercebido do público católico, pois trata-se de uma pequena jóia da espiritualidade, uma grande obra mística, que pode fazer muito bem às almas sedentas. De fato, o livrinho lançado no Brasil é uma anto­logia, tendo sido a seleção dos textos feita por Paulo Monteiro Ramalho. O livro de 11 x 16,5 cm tem só 84 páginas. A edição completa em francês (Lui et moi - entretiens spirituels, Beauchesne, Paris) compreende sete pequenos volumes (10,5 x 18 cm), totalizando 1.228 páginas. O 1o volu­me (1949) está na 60a edição (1997).

Gabrielle Bossis (1874-1950) era até agora desconhecida no Bra­sil. Foi uma católica francesa, natural de Nantes, onde sempre viveu, mais exatamente em Fresne sur Loire, a cerca de 60 quilômetros da­quela cidade. Leiga, permaneceu solteira, apesar de numerosos pedi­dos de casamento. De família abastada, sempre teve um bom padrão de vida, vivendo de rendimentos deixados pelos pais, o que lhe permitiu também muitas obras de caridade. Sua família era muito religiosa e ela estudou num colégio de freiras. Era a mais moça de quatro irmãos. Em 1898 perdeu o pai, passando a morar com a mãe e uma irmã, igualmen­te solteira. Muito viva e expansiva, era extraordinariamente dotada para todas as formas de arte: pintura, música escultura, canto, trabalhos manuais, dança. Gostava dos esportes da época: bicicleta e equitação. Não era de uma beleza clássica, mas tinha muito charme, sendo inteli­gente, dinâmica e alegre. Conciliava seus sentimentos religiosos com uma vida social um pouco refinada. Em 1908 morreu sua mãe e em 1912 faleceu a irmã. Passou a morar sozinha. Trabalhou num atelier de decorações litúrgicas para as Missões, que ela ajuda com importantes contribuições. Ensinou regularmente catecismo e participou em outras atividades paroquiais. Obteve o diploma de enfermeira, que exerceu durante a Primeira Guerra Mundial.

Em 1923 Gabrielle está com quase 50 anos. Eis que o pároco de Fresne, que a conhecia desde a adolescência e tinha seguido seu cresci­mento espiritual, lhe pede que escreva uma peça teatral para os jovens. É um tipo de apostolado meio desconhecido no Brasil, mas muito difundido na época na França: peças teatrais edificantes, em nível paroquial. Ela es­creve uma peça em que ela própria vai atuar, cantando e dançando com vários jovens paroquianos, atores improvisados. A representação conquis­ta o público e o pároco organiza diversas outras representações e empres­ta a "troupe" o outras paróquias, tendo sempre um grande sucesso. Come­ça a missão de Gabrielle de escritora e atriz. De 1923 a 1936 vai compor 16 comédias em três atos e 14 "saynètes" ou balets. Todas têm um sentido moral e reflexões espirituais, sendo apresentadas em teatros paroquiais e de movimentos religiosos. Ela sempre atua nos espetáculos. Vai ficando famo­sa e viaja com seu grupo amador por toda a França, até 1948, quando pela idade e por seu estado de saúde tem que parar. As peças teatrais são edi­tadas e os livros tornam-se um grande sucesso de venda, recebendo vários prê­mios. Os constantes deslocamentos a obrigavam muitas vezes a dormir nos trens ou num banco nas estações ferroviárias, tinha que renunciar ao sono e a refeições regulares, suportar o calor tórrido e o frio glacial. Tudo visava o apostolado. As despesas eram todas pagas com seu bolso. E sabia conciliar o intenso trabalho com uma vida de oração constante.

1936, após 13 anos de apostolado em cena, com 62 anos de idade, Gabrielle aceita um convite para apresentações no Canadá. Até então ela não tinha nenhum diário, era muito impetuosa e dinâmica para se observar e se descrever. Eis que na viagem de ida num grande transatlântico, come­ça a escrever um diário da viagem. É aí que irrompe com muita naturalida­de uma Voz sobrenatural em sua vida. Ela se põe à escuta da Voz e come­ça o diálogo, que coloca no papel. "Ele e eu". É o diálogo de Jesus com Gabrielle. Certas descobertas recentes parecem revelar que estes diálo­gos com a Voz divina são de fato anteriores a 1936, mas neste ano é que os diálogos se acentuaram e passaram a ser habituais. Neste momento é que seus escritos se transformam em mensagens, em autêntica missão:

"Eu não te peço se não isso: "escrever". Não é muito difícil?

Eu estou contigo. Seja Minha fiel. Eu sou teu Fiel".

"Quanta doçura nos primeiros diálogos transcritos por Gabrielle", diz Lúcia Barocchi, biógrafa de Gabrielle Bossis. "É a época em que qua­se que o Senhor a "corteja", em que quer conquistar todo lugar no seu coração para ligá-la a Ele. Ternamente responde às suas perguntas, par­ticipa de seus problemas, entra quase que na ponta dos pés nas situa­ções humanas mais humildes. É comovedor perceber esta divina sensibi­lidade no timbre cheio de benevolência e delicado, que Gabrielle regis­tra". Depois a pressão torna-se cada vez maior, mais exigente, busca conduzi-la para uma vida sempre mais profunda, ávida de união eterna. De página em página o Interlocutor invisível dispensa uma delicada lição de Amor que orienta Gabrielle no caminho das virtudes fundamentais e a encoraja a tentar os esforços decisivos para seu crescimento interior. O Senhor que a deseja longe do mundo e das distrações "mundanas", a lança contudo no mundo do apostolado teatral, em que sua atenção era toda para Ele, para que ela lhe traga almas. Ele a exorta sempre à vida de oração - e mesmo no turbilhão de sua vida com muitas viagens ela será fiel à via-sacra cada manhã, uma hora de adoração, a Hora santa nas quintas-feiras, visitas repetidas ao Santíssimo Sacramento, o Angelus e o Rosário, a missa diária, o que a obriga por vezes a grandes sacrifícios (estando na Córsega, teve um domingo que caminhar sete quilômetros a pé para poder ir à missa):

"... Eu oferecia os perfumes intensos desta terra Córsega à Santíssima Virgem, e como não sentisse a fadiga da subida contínua, Ele me disse: Vês que tudo é fácil no Amor. E eu sentia Sua Presença à minha esquerda."

A Voz divina exorta igualmente Gabrielle à mortificação do espíri­to e da carne, "cilícios" em todos os sentidos.

O diário vai sempre prosseguindo. Ela não fala quase dos aconte­cimentos de sua vida, ignorando acontecimentos que se passam em vol­ta, como a Segunda Guerra Mundial, registra quase que apenas diálogos espirituais. Muita coisa escreve de joelhos durante a Hora Santa semanal na igreja paroquial. A salvação das almas, a paixão pelos pecadores, a vida sacramental, a caridade, tudo está lá na lição deste Mestre que en­sina o amor e pede o amor. Ele a todo momento manifesta sua ternura. Há páginas de muita profundidade e simplicidade. Há algo com Santa Teresa do Menino Jesus - nascida um ano antes dela - e seu caminho da infância espiritual.

Mas será mesmo Cristo que fala a Gabrielle? Ela mesma tem momentos de dúvida, considerando sua indignidade. Mas a própria Voz vence suas dúvidas:

"O pensamento de tua indignidade te faz duvidar que seja Eu que te fala? Não teme, se verá bem que não é por causa de teus méritos que Eu te falo, mas pela necessidade de Minha misericórdia.

Duvidas que seja Eu? Faz como se fosse verdade... Que é que escreverias se eu não te ditasse?"

Patrick de Laubier, professor da Universidade de Genebra, mem­bro leigo do Pontifício Conselho Justiça e Paz (nos últimos anos foi orde­nado sacerdote), autor de várias obras, entre as quais "Jesus, mon Frère", ensaio sobre as conversas espirituais de Gabrielle Bossis, observa que ela, sem formação teológica particular, teria sido incapaz por si mesma de tratar, como trata, de pontos de ordem espiritual e teológica particular­mente importantes, recebendo uma notável iluminação. "Como escrever mil e cento e quatro páginas de conversações sobre tantos assuntos sem cometer nenhum erro teológico, com uma felicidade de expressão e uma profundidade espiritual tão original, sem o atribuir Àquele que lhe fala? Se notará, aliás, a dificuldade para Gabrielle Bossis de crer em sua missão e de medir a extraordinária vocação à qual foi chamada". Laubier vê no diário de Gabrielle Bossis como mensagem particularmente importante o Amor universal de Cristo e diz que a particularidade mais revolucionária de Ele e Eu reside na constante tensão "missionária" de Cristo, que quer quase "ultrapassar" o limite para se unir a nós, para nos converter. Gabrielle não é tanto aquela que recebe, mas a que retransmite as mensagem ar­dentes que Cristo lança a cada um de nós.

De fato, as mensagens de Cristo não são dirigidas unicamente a Gabrielle e ele a partir de 24 de outubro de 1944 começa a pedir a publi­cação delas em livro. Gabrielle concorda, desde que seu nome não apa­recesse. Um papel importante na publicação da obra terá o Pe. Alphonse de Parvillez, SJ (1881 -1970), autor espiritual conceituado, colaborador da revista "Études", conhecido por sua ligação com o grande escritor Daniel-Rops (colaborou para a sua volta à Igreja e o orientou para a História da Igreja). Ele é amigo de Gabrielle desde 1929 e fica encarregado de en­contrar um editor. Os tempos difíceis da guerra impedem isso. Só em 1948 o Pe. de Parvillez vai encontrar a editora, a conhecida Beauchesne. Nesse ínterim, o próprio bispo de Nantes, Mons. Villepelet, mostra inte­resse e mesmo impaciência pela publicação. Quando ela recebe as pro­vas do livro, o Interlocutor divino abre-se numa comovedora efusão, "uma das mais belas páginas do diário" para Lúcia Barocchi:

"Sim, fica muito alegre e reza para que cada uma destas li­nhas tenha sua ressonância de passos nas almas. Oh, Mi­nha Filha, podes saber o caminho que terá este livrinho? Pede-me para ir aos mais miseráveis, estes paralíticos espiritu­ais, estes desolados sem esperança, estes mudos diante de Deus, estes possuídos do desejo de dinheiro. Pede que Eu passe por intermédio deste livrinho como Eu passava outro­ra, curando, atraindo a Mim.. (...) Ah! Que venham se ali­mentar nele e respirar mais forte!".

A obra sai em julho de 1949 com prefácio do bispo Mons. Villepelet, apresentação do Pe. Jules Lebreton, SJ, antigo decano da Faculdade de Teologia do Instituto Católico de Paris e introdução do Pe. de Parvillez, SJ. Nenhum dos três se pronuncia sobre a origem divina das locuções, mas garantem a perfeita ortodoxia e utilidade dos textos. O Pe. Lebreton nota que Gabrielle, tendo se perguntado se as palavras que anotava vinham do Senhor ou dela mesma, Cristo lhe responde: "Mas mesmo que estas pala­vras saíssem de teu natural humano, não sou eu que criou este natural? Não deves tu tudo tornar a levar a mim? De mim, a raiz de teu ser. Minha pobre filhinha". E o Pe. Lebreton acrescenta: "A dúvida era legítima; mas a resposta foi boa. É preciso acrescentar que Deus, que criou a alma, a san­tifica e a move por sua graça. Mais a vida espiritual se desenvolve, mais esta ação é poderosa, mais também ela é manifesta. O termo ao qual aspi­ra o cristão que quer ser inteiramente fiel à graça, é descrito em toda verda­de por São Paulo: "Não sou eu mais que vivo, é Cristo que vive em mim". O Pe. de Parvillez explica por sua vez a natureza da obra: "São "palavras interiores", percebidas por uma alma como vindas de Cristo, e notadas por ela logo. Nada de aparições, nem de audição externa; tudo se passa além do mundo dos sentidos, numa região mais profunda".

Enfim, o livro alcança bastante sucesso e Gabrielle começa - ain­da convalescendo de uma cirurgia para a retirada de um tumor no seio - a preparar logo um volume II com o material de seus cadernos. Ela está com 76 anos. Sente-se fatigada. Em março de 1950 os médicos desco­brem que o tumor atingiu os pulmões. Gabrielle Bossis morre, depois de muitos sofrimentos, mas de forma muito consciente, num dia significati­vo: na noite da festa de "Corpus Christi, 9 de junho. É sepultada com o hábito de terciária franciscana, num túmulo por ela escolhido anos antes e no qual mandara gravar a seguinte inscrição: "Oh, Cristo, meu irmão \ trabalhar junto de Ti \ sofrer contigo \ morrer contigo \ sobreviver em Ti".

O II volume de "Ele e Eu” sairá em dezembro de 1950, com um belo prefácio de Daniel Rops (que consta da antologia publicada agora em português pela Quadrante). Os volumes III a VII foram saindo gradu­almente, até 1953, organizados pelo Pe. de Parvillez, a partir dos dez cadernos deixados por Gabrielle. O vol. VI é precedido de uma biografia de Gabrielle por sua amiga, a sra. Pierre de Bouchaud.

De 1953 para cá a obra de Gabrielle Bossis tem feito seu caminho, embora sem muito estrondo. A autora vai se tornando conhecida. O conceituado "Dictionnaire de Spiritualité" a menciona no verbete "Palavras interiores" ("Paroles intérieures"), de André Derville, que lembra outras místicas do séc. XX e a compara a Santa Brígida da Suécia, Santa Gertrudes Magna, Santa Catarina de Sena, Santa Margarida Maria Alocoque, Marina de Escobar, Maria di Agreda. Em 1999 Patrick de Laubier publica seu ensaio teológico, que acima mencionamos, "Jesus mon frère", e em 2005 sai na Itália uma biografia mais completa de Gabrielle, "Luit e Gabrielle Bossis", de Lúcia Barocchi, figura conhecida do laicato italiano (o cardeal Camillo Ruini escreve o prefácio do livro). Está agora surgindo na França uma "Associação Gabrielle Bossis", montando um site (www.gabriellebossis.fr) em que se pede orações pela beatificação de Gabrielle. Que a obra da Quadrante tenha o sucesso que merece e que um dia possa ser publicado na íntegra em português o livro de Gabrielle Bossis.

Para concluir, percorramos alguns dos textos de "Ele e Eu - Viver com Deus" (Quadrante):

20  de janeiro de 1939. Soissons. "Difunde a alegria por onde quer que passes". Na minha solidão, pensava comigo mesma: "Ah, se Ele estivesse comigo neste vagão". Ele: "Tu não me vês, mas estou aqui. Sempre estou contigo" (p. 14).

13 de janeiro de 1939. "Aumenta, aumenta a intensidade dos teus sentimentos de Fé, de Esperança e de Caridade! Pensas que, se me pe­disses com freqüência que te faça santa, Eu poderia deixar de atender-te? Exercita-te na esperança e na reparação, pois não há arte que se possa adquirir sem exercício" (p. 16).

19 de dezembro de 1936. "Há momentos em que duvidas de que seja Eu quem te fala, tão simples e tuas próprias te parecem as minhas palavras. Mas por acaso não somos tu e Eu uma e a mesma coisa?" (p. 17).

Argel, 23 de abril de 1937. "Não te canses de Mim. Eu não me can­so de ti" (p. 20).

1937.  Admirava-me de que Ele me tivesse cumulado de tantos bens durante toda a minha vida, ao passo que a outras... Enfim disse-me com suma delicadeza: "Perdoas-me por ter-te amado tanto?" (p. 21).

1938.  "Diz-me bom-dia a cada amanhecer, logo que acordares. Como se estivesses entrando no céu" (p. 26).

21  de maio de 1938. Nantes, de volta a casa. "Que se possa julgar a tua alma pela ordem da tua casa" (p. 36).

1937.   "Quando recebes com um sorriso as pequenas contrariedades da vida diária, curas as minhas chagas" (p. 41).

12 de maio de 1937. "Eu ando à procura de sofrimentos que se queiram unir aos meus" (p. 42).

1938.   Eu pensava na morte e me perguntava: "Que farei [nessa hora]? Serei capaz, ao menos, de dizer bom-dia ao meu Deus? Ele, com vivacidade: "Serei Eu quem te desejará bom-dia" (p. 45).

1e de abril de 1938. No metrô: "Fala comigo, fala comigo!" (p. 51).

25 de maio de 1937. Renne, no trem: "Por que haverias de viver na solidão, se Eu quero que vivas em público? E depois, com muito carinho: "Minha filhinha tão amada leva-me, leva-me aos outros. Sobrenaturaliza" (p. 52).

1938. "Com os outros, podes falar pensando em outra coisa, mas comigo, não!" (p. 55).


1940. Na bela igreja do século XIII. "Evita pensar que Eu exijo que as almas sejam perfeitas para recebê-las no meu Coração. Dai-vos a mim com todas as vossas misérias e negligências e com as vossas faltas de cada momento. Reconhecei-as aos meus pés e pedi perdão por elas, e estai seguros de serdes os filhos queridos do meu Amor" (p. 60).

19 de abril de 1940. "A Eucaristia é o presente do céu; nada tem valor neste mundo fora dela" (p. 65).

 

D. José Palmeiro Mendes, OSB

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