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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 379 – dezembro 1993

Mundo Atual

Realista e otimista:

A CRISE DAS VOCAÇÕES

Em síntese: O Cardeal Godfried Danneels, de Malines-Bruxelas, explana as dificuldades que o mundo de hoje apresenta ao surto e ao cultivo de vocações sacerdotais e religiosas. Aponta, entre outras coisas, o consumismo e o secularismo, o enfraquecimento da fé, o medo de compromisso vitalício, a pouca compreensão do Sacramento da Igreja e dos seus ritos... O autor propõe reflexões aptas a debelar esses males e suscitar autênticas vocações: é preciso que os jovens não desistam de ser generosos e heróicos, apesar das renúncias que isto pode impor; um grande amor a Cristo e à sua Igreja, devidamente entendida como Corpo de Cristo, sustentará os vocacionados na procura de Deus e no zelo de levar a muitos e muitos irmãos o tesouro da fé e da vida cristã.

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O Cardeal Godfried Danneels, Arcebispo de Malines-Bruxelas, destaca-se na Igreja como figura eminente, que periodicamente escreve sobre temas de atualidade. Em maio de 1993 publicou no Boletim oficial da sua arquidiocese Pastoralia um artigo referente às vocações sacerdotais e religiosas. Trata-se de um texto notável, redigido em estilo um tanto poético, com metáforas e sugestões várias, que interessa também ao público do Brasil, pois toca em traços característicos da sociedade ocidental contemporânea; põe em evidência certas linhas da mentalidade moderna que vão penetrando nos ambientes católicos com prejuízo para estes. — Eis por que, a seguir, publicaremos em tradução brasileira o texto do Cardeal Danneels.

 

 

1. PREPARAR A PRIMAVERA DAS VOCAÇÕES

 

'Não há vocações'. Este refrão se apodera dos meios de comunicação e da Igreja como se se tratasse de uma verdade indiscutível. Tornou-se quase um mito. O mito do não-ser. Todavia é preciso relativizar essa afirmação. Mesmo em nossa diocese uns quarenta seminaristas se preparam para o sacerdócio.

Verdade é que na Europa Ocidental e na América do Norte o recrutamento das vocações se estagnou. Parece que há poucos rebentos. Isto é o corolário de uma cultura em que os olhos estão fixos sobre o visível e o material.

Nas outras partes do mundo, o número das vocações aumenta. Por certo, houve um declínio em torno de 1986, em que a Igreja sentiu baixar o número. Mas, desde então, as vocações florescem de novo na Ásia, na África, na América Latina e na Europa Oriental, onde as pessoas ainda volvem seu olhar para o invisível e o mistério, onde ainda se tem o sentido natural de Deus.

 

 

Obstáculos a Superar

Há várias causas que, em nossa cultura, dificultam o despertar das vocações.

1)    Existe sobre a nossa retina uma mancha cega para tudo o que diz respeito ao invisível, principalmente no setor religioso cristão. Doutro lado, há um movimento de reação e de interesse difundido para o invisível esotérico, as novas religiosidades e a Nova Era.

2)    Somos tomados por uma fome de verificação. Como se só fosse real aquilo cuja eficácia pudesse ser apalpada. Para aquele ou aquela que se quer consagrar ao Reino de Deus, é impossível fazer o balanço das perdas e dos lucros e fixar-se sobre resultados.

3)    Nossa fé na vida eterna está obscurecida. É esta talvez a causa mais grave do difícil recrutamento de vocações. Foi estendida a cortina sobre o além. Tudo há de ser feito aqui e resolvido neste mundo. Ora a fé na ressurreição é o âmago do Cristianismo. Sem fé na vida eterna, nunca teremos vocações. Os homens perderam o senso do final dos tempos e da consumação da história em Cristo. Quando dizemos na oração 'Venha o vosso reino', reduzimos tudo ao imediato e à imanência; a salvação vem a ser o desenvolvimento material.

4)    Estamos envolvidos numa revolução copernicana: o antropocentrismo e seu corolário, o subjetivismo. Em conseqüência, quando cada um faz o seu projeto de vida, não é mais possível a comunhão. Além disto, o eu está a tal ponto no centro que não fica mais lugar para Deus, o absolutamente Outro. Existe como que uma espécie de ostracismo frente a Deus na vida cotidiana.

5)   Ninguém ousa mais comprometer-se por toda a vida. Só resta a expressão comum: 'enquanto as coisas durarem...'. Este é o mal da falta de confiança total nas possibilidades de Deus!

6)   Em nossa civilização, o aumento do número de celibatários tornou-se uma realidade cada vez mais importante. Basta entrar numa grande loja comercial: no setor de alimentação os produtos mono estão em plena expansão, ao passo que no setor da música o estéreo corresponde ao mono. ([1])

 

'Um belga sobre três vive a sós' é o título de um artigo de revista. Mas essa solidão é pouco desejável. Muitas vezes é a conseqüência de um fracasso. Sociologicamente, o celibato aparece como a face visível da solidão, da carência, do ferimento, do vazio existencial. Isto torna mais difícil a percepção da dimensão transcendental do celibato para o Reino ou do celibato por graça de Deus e por amor.

7)   Outra dificuldade, e não das menores, é a seguinte: o desdém da convergência doutrinal. O individualismo e o subjetivismo promovem a fé como num mercado: 'escolha a fé na prateleira que você deseja', e depois: Do it yourself (Faça-o você mesmo). É moderno. Entrar no curso de uma história? Sim, contanto que seja a minha história.

8)   Temos muito fraca compreensão dos gestos sacramentais. As pessoas preferem a Liturgia da Palavra: 'Isso me diz algo; o resto, não'. Tornamo-nos uma religião da palavra. Isto é muito grave, dado que estamos cercados de religiões curandeiras.

Existe em torno de nós uma espécie de onda em demanda dos gestos antroposóficos ou esotéricos de cura. Já que as pessoas não compreendem mais a força terapêutica dos sacramentos, procuram medicinas paralelas.

 

9) Em nossos ambientes, uma vocação religiosa ou sacerdotal não corresponde a uma promoção social ou a um estatuto privilegiado e respeitado. Isto também tem sua importância.

10) O consumismo contribui para apagar totalmente o sentido dos valores que transcendem o visível. Limita o nosso horizonte ao nosso cotidiano e impede-nos de ver mais adiante. Tudo isto tem que ver com a anestesia do sentido do pecado e da fraqueza moral. A perda do senso do pecado extingue a razão de ser da salvação e a necessidade de Redenção.

Crer, esperar, amar... por excesso

 

Toda vocação específica está ligada a um excesso ou a uma grande intensidade de fé, de esperança e de caridade. Não se trata, em primeira instância, de um apelo a fazer algo, mas a ser. Ora a intensidade do ser cristão provém do calor da fé, da força da esperança e do caráter incondicional da caridade.

A intensidade da fé transparece num olhar — que nos é dado como graça —, um olhar que percebe Deus, Jesus Cristo, o além, a alegria espiritual, a alma, os valores das bem-aventuranças e do Sermão da Montanha (Mt 5-7). É uma certa sensibilidade da retina, que alguns possuem e outros não possuem.

A intensidade da esperança traduz-se pela audácia de crer que, embora tenhamos poucos títulos em mãos, somos todos destinados a uma felicidade garantida por Deus; ... crer que o bem triunfará sobre o mal,... que o sofrimento e a morte têm sentido, pois são coisas passageiras.

A intensidade da caridade se exprime num amor que quer imitar Jesus e seu Pai: 'Amo o outro, porque ele é filho de Deus e meu irmão'. Deus entra na definição do amor. Ele é a fonte e o ponto de chegada do amor. Este, portanto, é muito mais do que o sentido da justiça social, da igualdade e da fraternidade. O amor envolve estas dimensões e as leva à perfeição.

O amor verdadeiro é cada vez menos possessivo e sempre mais oblativo; penetra até os recantos mais extremos da existência. Nos casos mais desesperados, a pessoa que ama, ama sem condições, apesar das desilusões e dos fracassos. 'Eu te amo porque te amo', e não 'Eu te amo porque me amas'.

 

Dominar o tempo

 

Aquele ou aquela que é vocacionado, tem especial relacionamento com o tempo. Não tem medo do tempo. Domina-o. Isto quer dizer que sabe tomar decisões e assumir compromisso para sempre. Por conseguinte, está apoiado na esperança, pois, sem ela, ninguém assume compromissos.

A pessoa vocacionada sente dentro de si o grande valor da fidelidade. Que é que se pode esperar de um dispensador dos mistérios de Deus se não que seja fiel? A fidelidade é uma acolhida, cheia de gratidão, dada ao amor e à fidelidade de Deus. Nossos contemporâneos têm enorme dificuldade para se situar no tempo e na duração, qualquer que seja o setor de suas atividades. Ora a fidelidade é, antes do mais, a fidelidade de Deus que fundamenta a nossa.

 

Compreender o celibato por amor

 

No modo geral de entender, celibato é sinônimo de solidão, e esta, não raro, é ligada à depressão. Para compreender o celibato, é preciso familiarizar-se com a morte. Santo Agostinho diz que a virgindade por causa do Reino é uma meditação contínua, enquanto vivemos num corpo mortal, sobre o fato de que somos destinados à vida eterna. Com efeito; sem a fé no além, o celibato não tem sentido. No Antigo Testamento, quando a visão relativa à vida eterna era muito fraca, não havia lugar para o celibato. A idéia de celibato por amor veio através de Jesus, porque, por Jesus, a ressurreição e a vida eterna foram plenamente valorizadas.

Toma-se difícil compreender o celibato por amor, visto que as pessoas sempre mais identificam amor e genitalidade. O amor não é mais desenvolvido em todas as suas dimensões: espiritual, afetiva e sexual. Tornou-se unívoco. As campanhas em prol dos preservativos insistem sobre a liberdade sexual e o afastamento do risco de morte. Mas, quando a sociedade tiver matado o amor, que é que ainda sobrará? 'A tristeza matou muitos' (Eclo 30, 23).

 

Apreciar o valor dos sacramentos

 

Compreender a eficácia da palavra é relativamente fácil, mesmo que haja alguns percalços quando assistimos a uma peça de teatro ou ouvimos o Evangelho. Existe uma eficácia psicológica decorrente da escuta. Mas, quando nos vemos diante de um gesto ritual, nós nos desconcertamos: interpretamo-lo como algo de simbólico e, por conseguinte, arbitrário. No protestantismo, por exemplo, quase não há ritos. A palavra, sem mais, basta. Para os católicos, o gesto sacramental é a palavra mais forte de todas. É neste ponto que a nossa percepção se tornou muito falha.

Mas aqueles que escutam a Palavra religiosa, têm grande esforço a fazer para suscitar a humilde atitude de obediência à fé. Muitas vezes somos demasiado intelectuais e procuramos dominar as idéias. Preferimos que o serviço da Palavra se torne um diálogo ou um intercâmbio — o que significa reduzir a Palavra de Deus a uma Palavra humana.

 

O Amor à Igreja

É impossível seja chamada à Vida Religiosa ou ao sacerdócio a pessoa que considera a Igreja como instituição meramente humana, necessária para efeitos de organização, mas sem a profundidade do mistério. Sem amor à Igreja, Corpo de Cristo, sem um amor que vá além das aparências, é impossível que alguém seja chamado. A grande crise do nosso tempo se situa nesta deficiência como também na perda do sentido da vida eterna.

Fala-se insuficientemente da Igreja, Corpo de Cristo, com o devido entusiasmo. As pessoas ficam sempre presas aos conflitos, às tensões com os teólogos, às nomeações de Bispos, ao celibato, à função da mulher... Dão grande importância à arquitetura da Igreja, e muito pouco estimam o mistério da Igreja: ela é a Esposa de Cristo, a Vinha do Senhor, a Jerusalém do alto, o Povo de Deus. Onde é que ainda se fala da Igreja recorrendo às grandes imagens bíblicas propostas em nova luz pelo Concílio do Vaticano II?

Para que surjam vocações... É preciso cultivar atitudes do coração:

    Uma humildade fundamental e o espírito de acolhida (o Sim) de Maria: "Seja-me feito segundo a tua palavra". Se alguém não possui essa atitude, nem mesmo em pequena dose, não pode conceber vocação alguma.

    O instinto da verdade. Nunca repousar antes de ter penetrado dentro da verdade, não se vangloriar, não se ufanar em vão; não conceber ilusões a seu próprio respeito, nem ceder à hipocrisia. Às vezes é preciso certo tempo para que a pessoa perceba a diferença entre a verdade subjetiva e a verdade objetiva, entre a verdade que o indivíduo constrói para si, e a verdade que vem de Deus. Hoje dá-se grande ênfase à sinceridade. Mas pode alguém estar sinceramente dentro do erro...

A sinceridade é absolutamente necessária, mas não basta. A verdade vem de fora. Ela sobrevêm a nós. Entrar na verdade supõe deixar de fazer do próprio eu o seu centro. A verdade é como uma morada na qual nós entramos humildemente; dentro da nossa morada tomamos assento.

A verdade está ligada também à beleza. Pode haver algo de mórbido na sinceridade, como, por exemplo, o sentimento da indignidade. Se desligado da beleza e da bondade de Deus, esse sentimento me dobra sobre mim mesmo. — Ora a verdade é a aura da beleza. A procura da verdade supõe uma alma contemplativa, uma virada do coração em demanda do Outro.

— A acolhida da misericórdia de Deus. Não é possível que seja vocacionado quem não tem consciência da sua fraqueza e não conhece a misericórdia e o perdão.

Por vezes, a pessoa se valoriza de tal modo que não fica lugar para a misericórdia de Deus... Por vezes, verificamos em nós chagas que nos levam a crer que não precisamos de perdão porque são castigo justo; em tais casos, é nossa justiça que fala. O que há de mais difícil, é acolher a misericórdia de Deus no âmago da nossa fraqueza e usar de misericórdia para com aqueles que nos ferem. Os dois movimentos — receber e dar misericórdia — são inseparáveis um do outro.

    O gosto da justiça superabundante. A santidade é o amor que transborda. A medida do amor é ser sem medida. A generosidade é muito mais do que o ímpeto pelo qual nos damos a alguém festivamente, como dizem os jovens. O dar-se festivo tem algo que nos satisfaz. Mas a justiça superabundante, que fundamenta a generosidade, vem de Deus. Ela invade todos os setores da existência, inclusive o do perdão.

    A perseverança. Esta atitude está profundamente ligada à alegre esperança. Ela não é um produto da vontade. É Deus quem nos faz perseverar, porque Ele é o Deus da promessa.

 

Condições climáticas

 

Além das disposições do coração, é preciso também dar atenção às condições climáticas da nossa civilização.

    O equilíbrio afetivo. Nossa civilização não favorece o equilíbrio afetivo. É esta a chaga aberta do lado do homem contemporâneo. Ele sangra do lado do coração. Em vez de uma fonte de graça, como aquela que jorrou do coração de Cristo, há uma fonte de amargura.

    A sede dos valores espirituais e religiosos não se deve tornar uma compensação. O Deus que chama, não é unicamente um Deus que consola. O seu amor não é somente material.

Muito se perdeu o sentido da aventura. A imagem que outrora se tinha do vocacionado, era a do amor de Deus entrelaçado com a coragem da criatura. Eram propostos como modelos os alpinistas, os pilotos e outros heróis ou missionários (Charles de Larigaudie, F. Frascati, Saint-Exupéry...).

Hoje a vocação religiosa tornou-se sinônimo de calor do vinho. O que atrai, é o apoio de uma comunidade. O modelo do missionário que deixa tudo a fim de seguir para longe, já não atrai muito. Consideram-no ultrapassado... Todavia ainda em nossos dias encontramos pessoas cheias de heroísmo e generosidade em prol de causas humanitárias. Os missionários da paz, da saúde e dos direitos humanos têm uma coragem admirável e arriscam a sua vida. Mas, no plano do anúncio da fé, tornamo-nos friorentos e delicados.

 

QUE FAZER?

 

Antes do mais, rezar. Pedir ao Pai que mande operários para a sua messe. Se Jesus os quis pedir ao Pai, quanto mais nós os devemos pedir?! As vocações não vêem da publicidade nem de uma Pastoral especializada. Estes meios são necessários. Mas as vocações nascem no coração e Deus é o único Senhor dos corações.

 

Rezarmos juntos. Fora da Jornada das Vocações, em que às vezes se reza tão somente mediante uma intenção de Missa, há poucas ocasiões de oração pública em prol das vocações. As orações seriam bem diferentes se nas paróquias se celebrasse uma Missa ou se promovesse uma hora de adoração em favor das vocações. Aliás, já acontece isto, mas de manhã muito cedo, por iniciativa de grupos fervorosos que vão enxameando por contágio.

 

Promover o amor à Igreja como o Corpo Crucificado e Ressuscitado de Cristo. Falar da Igreja positivamente, pois Ela tem muita coisa positiva... A Igreja deve ser restaurada em todos os tempos, mas em nossos dias seria mórbido estar apenas a apontar falhas e não talhar novas pedras para colaborar na sua restauração.

 

'A Igreja é velha', dizem. Mas, sob a Cruz, também Maria era velha... É preciso que a levemos para a nossa casa, como São João. É a condição para que suas rugas desapareçam.

 

Constituir grupos de jovens em torno de um orientador (sacerdote, Religioso ou Religiosa ou leigo-a) e fazer três coisas: ler as Escrituras, partilhar ou prestar contas do que fizeram após a última reunião do grupo, e tomar decisões para o futuro próximo... É assim que poderão surgir vocações.

 

Por ora estamos fazendo como se lê no poema de Prévot: 'Você pinta uma gaiola com belas cores, abre a porta, pendura a gaiola a uma árvore e se esconde atrás de outra árvore, esperando que o passarinho entre na gaiola; logo que isto acontecer, você fechará cuidadosamente a porta'. Ora isso é totalmente descabido... É preciso ir às encruzilhadas das ruas e lá constituir pequenos grupos. Numa palavra, procurar os passarinhos e ensinar-lhes um novo modo de vida".

2. REFLETINDO..

É altamente sugestivo o texto do Cardeal Danneels, de modo que parece oportuno pôr em relevo ao menos quatro de suas abordagens:

 

2.1. A Fé na Vida Eterna

O terceiro ponto mencionado sob o título "Obstáculos" refere-se ao enfraquecimento da fé na vida eterna. Com efeito; a secularização ou as tentativas de reduzir o Cristianismo a um sistema de atendimento material ao homem (pondo os valores religiosos a serviço da pessoa) têm depauperado enormemente a mensagem e a vida cristãs. Ora o Cristianismo é essencialmente a vocação do homem à plenitude da vida, à satisfação de suas aspirações mais legítimas que não podem ser atingidas dentro dos limites deste peregrinar terrestre, mas só hão de ser saciadas no encontro face-a-face com a Beleza Infinita. O homem chega a tanto, servindo a Deus numa atitude de fé e amor, ou fazendo de Deus e dos valores transcendentais o critério do seu comportamento. — Caso falte a consciência disto, há de faltar também, nos jovens, o desejo de se consagrar inteiramente ao serviço de Deus.

Quem reconhece a autêntica escala de valores, compreende melhor o significado do celibato ou da vida una e indivisa, que São Paulo recomenda em 1Cor 7,25-35; o cristão concentra então os seus talentos na procura dos valores definitivos, a fim de usufruir deles e contribuir para que os irmãos deles usufruam sempre mais copiosamente.

O caráter vitalício da consagração a Deus, em vez de ser algo de espantoso, torna-se assim uma conseqüência lógica das premissas da fé. São Paulo dizia no fim de sua vida: "Sei em quem acreditei" (2Tm 1, 12); ele havia entregue tudo ao Senhor, renunciando à sua carreira de fariseu fogoso, para apregoar o Cristo crucificado e compartilhar sua Paixão gloriosa; após muito padecer por Cristo, ele podia dizer que não se sentia decepcionado, mas tinha plena consciência de se haver devotado a Deus, que não falha, e não a um líder ou a um Partido humano.

 

 

2.2. A Igreja: sociedade burocrática ou mistério?

A consagração ao serviço de Cristo só pode ocorrer autenticamente no Corpo de Cristo prolongado, que é a Igreja (cf. Cl 1,24). Se alguém esquece este aspecto da Igreja, não entenderá nem o sacerdócio nem a Vida Religiosa.

O interesse pela Igreja, nos últimos decênios, levou muitos católicos a apontar suas lacunas para lhes levar solução. Isto parece ter gerado o hábito de criticar a Igreja, na consideração quase exclusiva de seu lado humano. Ora a Igreja não é apenas uma sociedade de gente que procura edificação mútua através de suas assembléias; o Cristo nela existe e age, fazendo passar a graça de Deus através de seus canais humanos. — Dai' deve brotar o amor à Igreja,... à Igreja-Sacramento de salvação. Esposa de Cristo, Reino de Deus encarnado dentro de fragilidade humana.

 

2.3. O culto divino: Palavra e Sacramento

O Cardeal Danneels tem razão ao dizer que a Liturgia da Palavra, para muitos, é mais interessante do que o ritual sacramental. — É certo que a Palavra de Deus bem lida e comentada entusiasma..., mas não é menos certo que essa Palavra mesma é o que os hebreus chamavam dabhar, isto é, palavra que não apenas diz, mas realiza o que diz. Com efeito; a salvação e as boas-novas apregoadas pelas Escrituras deixam de ser meras lições de catecismo para tornar-se princípio de vida nova em nós mediante os sacramentos. S. Agostinho chamava o sacramento visibile verbum, palavra visível (e não apenas audível). Sim; o perdão dos pecados prometido pela Bíblia ocorre realmente quando o sacerdote diz: "Eu te absolvo dos teus pecados..."; o alimento predito pelas Escrituras se torna presente quando o sacerdote diz: "Isto é meu corpo... Isto é meu sangue". Sem os sacramentos, o Cristianismo perde a sua identidade; torna-se mera escola de vida moral, que cada um procura assimilar "aprendendo a lição".

 

2.4. O zelo missionário

A vocação sacerdotal e a vocação religiosa são chamamentos para continuar a obra de Cristo missionário. Não há vocação para consagrar-se totalmente a Deus que não implique zelo apostólico. — Ora tal zelo, que exige sacrifícios e renúncia da parte dos vocacionados, parece arrefecer em muitos por causa do bem-estar a que o consumismo acostuma os jovens desde a infância. Na verdade, a vocação sacerdotal é vocação para a grandeza e o heroísmo, pois é tendência à plena configuração a Cristo; ora não há grandeza de personalidade sem renúncia,... renúncia, aliás, que não deixa de ser praticada nos nossos dias em vista de fins humanitários (atendimento a doentes, crianças, anciãos, etc.). Poder-se-ia perguntar: o Cristo e os dons da vida definitiva não merecem ainda mais dedicação do que os valores temporais?

Eis algumas das idéias que, muito oportunamente, o Cardeal Danneels sugere aos seus leitores e que, devidamente meditadas, darão frutos múltiplo em nossa sociedade, especialmente em nossos jovens.

 



[1] O autor usa de imagens: observa que no comércio são muito freqüentes os produtos mono (um só) e stereo (estéril, seco), querendo com isto mostrar como a solidão é um fato comum.


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