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Pornografia contra o Quarto Mandamento

A excitação vem pela rede. A alma vai para o Inferno.

Onde está a calúnia está o próprio Satã.

(Papa Francisco)

Escrevi outro dia sobre como vivemos em uma sociedade pornográfica. Do mesmo modo, no mesmo teclado e publicando na mesma página, escrevi sobre os perigos do modernismo de direita e sobre como a imprensa transforma em barbaridades as falas do Santo Padre.

Escrevo agora sobre o pecado que une todos esses fenômenos que tanto alegram o Inimigo, pecado esse a que chamo “pornografia contra o Quarto Mandamento”. Dou-lhe este nome porque o seu modus operandi é exatamente o mesmo da pornografia “normal”, mas em vez de agir contra o Sexto, age contra o Quarto Mandamento. Não é difícil de entender; afinal, toda a concupiscência humana, toda a nossa inclinação para pecar, para achar que o pecado parece gostoso ou interessante, vem da mesma única origem, que é o Pecado Original e suas consequências. É a nossa natureza — a mesma natureza assumida por Nosso Senhor, mas, ao contrário d’Ele e de Sua mãe, marcada pelo pecado — que nos torna presa fácil das artimanhas por que nos seduz o Diabo.

A pornografia “normal” funciona de maneira extremamente simples: ela toma a sexualidade, uma pulsão humana que tem o seu lugar no matrimônio, e a arranca de lá, impedindo-a de criar raízes, mas fazendo-a aumentar depressa demais e sem controle. É um pouco como aquele método de plantio, a hidroponia, que coloca uma planta no ar com as pontinhas das raízes entrando numa água com produtos químicos, e assim faz com que a planta cresça muito rapidamente, enquanto a priva de seu lugar normal na Criação. Ao contrário da hidroponia, contudo, que pode ser muito boa quando usada para o bem, temos aqui uma alma humana em risco.

Mas o mecanismo de ação da pornografia é muito simples, simplíssimo. E as consequências, de que tratei no seu nível social no texto sobre a sociedade pornográfica, são gigantescas e assustadoras.

O que estou aqui chamando de pornografia contra o Quarto Mandamento funciona de maneira muito semelhante: ela toma a pulsão humana de saber o que está acontecendo, de perceber-se capaz de identificar o que há ao redor, e a retira de seu lugar devido, que é a realidade, arrastando-a para um terreno de virtualidade, distante do convívio humano verdadeiro, onde ela cresce desordenadamente, fazendo com que a pessoa que caia neste vício viva num mundo de fantasia que é só seu, numa teoria da conspiração de que ela divide aspectos com outras pessoas — preferencialmente à distância, pela tela fria — e se afasta cada vez mais da realidade das hierarquias da vida real, mormente a eclesial.

O Quarto Mandamento, que nos manda “honrar pai e mãe”, é o mandamento em cujo seguimento essa pulsão encontra o seu lugar devido. Ele nos diz que devemos amar e respeitar nossos superiores e subordinados. Ele nos mostra que o pároco manda na paróquia, e o Bispo na diocese, e o Papa na Igreja inteira, e que é apenas na perfeita união com cada um deles (que, como nós, são seres humanos necessitados da graça de Deus e de nossas orações), e com todos eles, que estaremos vivendo a Fé como Deus quer que o façamos. A Igreja nos dá a “casa fora de casa” que é a paróquia (é este o sentido da palavra: “casa fora de casa”! Real, não virtual; grupos do facebook ou do whatsapp não devem ser o segundo lar de ninguém), e é ali que vivemos a Fé. As paróquias dependem do Bispo da diocese, Sucessor dos Apóstolos, e, ao mesmo tempo, cada um de nós tem o Papa por pai dado por Deus, por representante (“vigário”) do próprio Verbo de Deus feito homem. E é assim que encontramos o nosso lugar real, é assim que, e aí que, podemos realmente identificar o que há ao redor e entender o que está acontecendo. Na vida de casa, na vida paroquial, na vida de trabalho, na vida de lazer, com tudo isso unido e formando uma coisa só, em que pertencemos ao mesmo tempo a diversas hierarquias concomitantes, é que podemos ter uma vida de Fé verdadeira.

Mas é contra isso que age a pornografia que visa o Quarto, não o Sexto, Mandamento. Ela procura, demoniacamente, desmanchar o nosso pertencimento à mais importante dessas hierarquias, sob o ponto de vista de um anjo caído, àquela que pode nos dar o perdão dos pecados, àquela que pode nos dar a Real Presença d’Aquele que o Diabo percebe como seu inimigo, mas que na verdade é seu — e nosso — Criador: a hierarquia eclesial. A pornografia contra o Quarto Mandamento oferece à sua vítima uma falsa realidade, uma falsa percepção do que estaria acontecendo, que satisfaz o seu orgulho ao colocá-lo acima de seus superiores, quiçá acima do próprio Papa(!), e continua apresentando mais e mais ocasiões de fortalecimento do vício, até que a pessoa esteja completamente dominada por ele.

A minha geração teve, graças a Deus e a uma sociedade ainda menos depravada, muitíssimo menos acesso a pornografia que a juventude de hoje. Quando caía na mão dos rapazes adolescentes alguma imagem pornográfica, era um acontecimento. Ela era passada de mão em mão, emprestada, examinada profunda e detidamente. E a excitação que acompanhava a apresentação dessas imagens, e mais ainda os comentários que se faziam acerca delas, que misturavam uma falsa preocupação (“isto deve ser proibido”) para apimentar ainda mais a violação do Sexto Mandamento, o desenraizamento e aumento desordenado da pulsão sexual, era exatamente igual ao comportamento dos que se viciam na pornografia contra o Quarto Mandamento.

Não são um nem dois viciados em pornografia contra o Quarto Mandamento que ficam me mandando linques em particular, como um moleque que tirasse da mochila uma imagem pornográfica 40 anos atrás, com comentários que soam exatamente iguais aos dos viciados em pornografia “normal” então. É evidente a excitação ao ver, sei lá, uma foto do Papa recebendo algum dignitário ou uma notícia de alguma nomeação para alguma Academia vaticana, que o viciado interpreta de modo completamente delirante como confirmando alguma teoria da conspiração tresloucada em que acredite. Para mim, como para qualquer pessoa normal, em geral trata-se de algo desinteressante ao ponto do sono. Quem tem paciência para acompanhar nomeações papais?! Mas para o viciado, aquilo é apenas o ponto de partida de uma clara batida em neve mental em que o fato de o Papa (na verdade, aliás, no mais das vezes, algum subordinado seu. Mas finjamos que seja o Papa) nomear Fulano, pecador inconfesso, para este ou aquele Conselho significa que Sua Santidade está fazendo o possível para, sei lá, “islamizar o Ocidente”, “fazer o mundo ficar comunista”, “vender a Igreja para o George Soros”… Todos estes absurdos me foram ditos por viciados em pornografia contra o Quarto Mandamento.

É visível a alegria do pobre viciado ao encontrar alguma besteira com que elevar novamente o seu nível de excitação. (Pois é assim que funciona a pornografia: ela aumenta a excitação até um rápido frenesi, do qual ela cai a quase zero, situação extremamente efêmera pois o viciado já se coloca em busca novamente da excitação pouco depois. A situação de “calma” e “relaxamento” pós-frenesi passa a ser o ponto de referência buscado)

É claro que não é novidade que haja este tipo de vício. Normalmente, contudo, ele costumava ser menos violento, do mesmo modo que o vício em pornografia contra o Sexto Mandamento era menos comum que hoje, e pela mesma razão. A internet possibilitou ao mesmo tempo o espalhamento de ambos os tipos de pornografia e, no caso da pornografia contra o Quarto Mandamento, de que estamos tratando aqui, a formação de “para-paróquias” (sendo que “paróquia” já é “para-oikia”; agora temos “‘casas’ virtuais fora da ‘casa que é fora de casa’”!). Teorias da conspiração segundo a qual o Papa Bento não renunciou, o Papa Francisco é comunista, é muçulmano, é empregado do Soros ou o que mais se quiser inventar circulam virtualmente, excitando pornograficamente os rapazes solitários e fazendo as vezes do convívio paroquial há muito abandonado por eles, com o agravante de inflar-lhes o orgulho e diminuir-lhes tremendamente a virtude da misericórdia ao acostumá-los a julgar e condenar a tudo e a todos, inclusive e especialmente os próprios superiores(!). Ora, é assim que serão eles mesmos julgados. É bem melhor procurar emular a misericórdia de Nosso Senhor!

Antes da rede, a forma mais comum deste vício seria a mera fofoca contra o superior, coisa que em geral atingia menos os rapazes e mais as moças, mais dadas ao convívio pessoal direto em grupos fechados de que o vício dependia para se espalhar. Então era um tal de “você ouviu o que o padre disse?!”, com uma versão distorcida de algo que ele teria dito. Fofoca, difamação, calúnia. Coisas de que aliás já falei aqui. Mas besteiras quase irrelevantes, quando comparadas com os horrendos ataques contra a hierarquia da Igreja que circulam hoje na rede, efetivamente arrancando muitos rapazes solitários da comunhão com o Papa que é essencial para a salvação.

A solução para tal vício é a mesma que funciona para o vício na forma mais habitual de pornografia:

Primeiro, cessar todo contato com esta modalidade de pornografia (seria ótimo seguir os mesmos passos em relação à outra, também, aliás). Parar de ler páginas de “notícias” antipapais, de participar em grupos dedicados à calúnia e à difamação contra os superiores que nos foram dados por Deus, etc.

Segundo, rezar mais. Frequentar os Sacramentos. Cuidar da própria alma, não da dos outros.

Terceiro, correr à paróquia. Confessar-se, comungar, participar da vida paroquial, e viver a Fé tal como a Igreja manda ser vivida: dentro da Igreja, este amontoado de gente tão necessitada da graça divina. Titilações internéticas não são a Fé católica. Inchar-se como um pavão até o absurdo de se achar mais católico que o Papa e, mais ainda, delirar estar em posição de passar-lhe julgamento, é o oposto diametral de viver a Fé.

Pornografia mata a alma. Nunca nos esqueçamos disto.

Carlos Ramalhete

Fonte:  https://medium.com/@carlosramalhete/pornografia-contra-o-quarto-mandamento-97a9e9da0fde


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