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A IMORTALIDADE DA ALMA

 

“...muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, outros para vergonha e desprezo eterno." (Daniel 12, 2)

 

1. A CONSTITUIÇÃO DO HOMEM (HOMINIS UNO) E DEMAIS SERES VIVENTES.

 

Os “mortalistas” acreditam na dormição da alma após a morte, sendo reativada apenas no juízo final, onde, se condenada, será aniquilada, destruída.

 

Alguns defendem tal tese agredindo à Igreja Católica, e deturpando textos Patrísticos e Escriturísticos: (http://www.lucasbanzoli.com/2015/07/artigos-sobre-imortalidade da-alma.html).

 

De outra banda, há aqueles “imortalistas” que acreditam que até os animais foram dotados por Deus com uma alma imortal: (http://www.genizahvirtual.com/2014/10/havera-animais-no-ceu.html)

 

As duas linhas teóricas estão equivocadas.

 

O pecado só é perdoado na Graça e, portanto, só deixa de existir pela Misericórdia Divina.

Assim, aquele que morre sem a Graça, levando consigo eternamente o seu pecado, ficará também sujeito eternamente à Justiça Divina, como aquele que morre em Comunhão com Cristo, levará consigo eternamente a Glória e a Remissão dos pecados.

 

Eis aí, o dogma infalível da IMORTALIDADE DA ALMA.

 

A Imortalidade é a Doutrina Apostólica na qual a alma humana criada por Deus mantém-se consciente [1] após a morte da carne, para viver eternamente no Céu ou na condenação, após a ressurreição do corpo físico.

 

Conforme Santo Agostinho:

“o corpo se une [2] à alma para formar e constituir o homem completo e total. (De Civita Dei X, 29, 2, ano 350 DC)”

 

O homem, como todos os seres vivos, é substância e subsistência.

Substância é o elemento material [3] ou corpo, sendo a subsistência ou alma o elemento imaterial [4] e incorpóreo, a força animadora invisível que ativa esse corpo.

 

Alma ou vida é o princípio animador nos animais, [5] vegetais (animus) e também no homem (anima), criado à imagem de Deus.

 

E sendo sobrenatural não se reproduz biologicamente, como sói ocorrer com o corpo, não sendo dado ao homem o poder de criá-la em si ou em terceiros, porque está Escrito:

“O Senhor é o que TIRA A VIDA E A DÁ; (I Sm 2, 6)

“Eu sou o Único, FAÇO MORRER [6] E FAÇO VIVER, (Dt 32, 39).”

 

Na alma está a essência do homem, na personalidade e nas Virtudes Potenciais que Deus lhe infundiu; e no corpo temos a operação, que é o meio por qual essas Virtudes e os elementos da personalidade se realizam. [7]

 

O homem é um todo Corpo e Alma.

Ora, o que não pode ser criado pelo homem, por ele também não pode ser extinto.

Apenas o Poder Sobrenatural do Criador pode criar e apagar a alma de qualquer ser vivente:

“Não temais os que matam o corpo, [8] mas não têm poder para matar a alma. Temei antes, aquele que PODE DESTRUIR [9] no inferno tanto a alma como o corpo. (Mt. 10, 28)”

 

Mas de dois modos se pode destruir:

 

Primeiro:

Na extinção, causando-lhe óbito pelo desaparecimento universal e completo;

 

Segundo:

Na ruína, tirando-lhe o fôlego vital, tornando-o inanimado, inservível para interagir, [10] embora ainda possa existir em forma.

 

E foi na ruína eterna que deliberou o Criador a punição das almas dos condenados.

 

 

2. A ALMA DO HOMEM, DOS SERES BRUTOS E O ESPÍRITO.

 

A alma opera através do corpo. [11]

Então o que seria o Espírito invisível que habita no homem?

 

“TODO O VOSSO SER, ESPÍRITO (pneuma), ALMA (psichē) E CORPO (sōma), seja conservado irrepreensível” (1 Tess 5, 23) .”

 

Existe notável diferença entre a alma do homem e a dos demais seres, posto que vegetais e animais possuem apenas alma sensível e instintiva, gerada em sua própria matéria corporal:

“Nem a planta é alguma coisa, nem quem rega, POIS DEUS É QUE DÁ O CRESCIMENTO. (I Cor. 3, 7)”

 

Lecionou Santo Tomás:

“dizer que o homem e os outros animais têm o princípio da geração semelhante é verdade quanto ao corpo, pois todos foram feitos da terra. Não quanto à alma, pois a alma dos brutos é produzida por uma QUALIDADE CORPÓREA. A Escritura diz dos animais: PRODUZA A TERRA ANIMAIS VIVENTES. Mas quanto ao homem diz: ― INSPIROU NO SEU ROSTO UM ASSOPRO DE VIDA. Por onde conclui Salomão, que ao pó se retorne a terra de onde era, e o Espírito volte para Deus que o deu. A origem da vida é semelhante quanto ao corpo (Ecl 3, 19), não quanto a alma, pois o homem intelige e os brutos não. Semelhante lhes é a morte do corpo, não da alma.

(Suma Teológica, Q 75, art. 6,° Tratado sobre o Homem, ano 1.246)”

 

A distinção entre a alma bruta e a humana é o Espírito soprado nesta, tornando o homem capaz de ser partícipe de toda Ciência Divina, como a caridade, justiça, perdão, retidão, a moral, o amor e dons.

 

A alma humana tornou-se espiritual, porque o Espírito de Deus habita [12] nela, dando-lhe as Virtudes que tornam o homem imagem e semelhança do Filho Encarnado, que também é Espírito e Matéria.

 

E essas Potências e Virtudes, por serem a extensão do Espírito de Deus, não pertencem nem ao corpo, nem à alma.

 

Enquanto a alma do homem tornou-se elemento espiritual, nos animais e vegetais é apenas a vida corporal que se encerra com a morte física.

 

Assim, não são três elementos na formação do homem, pois o Espírito não lhe pertence, sendo prolongação do Espírito Divino, moldando a alma humana e depositando nela as Virtudes [13] que permitem interagir com Deus.

 

Como disse o sábio: ― “e o espírito volte a Deus; (Ecl. 12, 7)”

 

E Deus soprou, retirou de dentro de si, e despejou no interior do homem o seu próprio Espírito Divino, criando-o à sua imagem.

 

Na morte física, as almas dos justos e ímprobos são levadas a Deus para seu destino final através do Espírito, sendo a capacidade de armazenar e abrigar esse Espírito da Verdade, o que as imortaliza:

“A Verdade (Espírito Divino) não perece de modo algum; e não pode estar nas coisas que perecem; por isso a alma humana é imortal.

(Sol I 15, 29 e II 2, 22 e 13, 24, ano 360. S. Agostinho).

 

Já as almas das feras, ligadas apenas aos instintos corpóreos, morrem com o corpo.”

 

Espírito é o sobrenatural de Deus inserido na alma daqueles criados a sua Imagem, pois ao homem concebeu-se assim:

 

“formando o homem do barro da terra, e INSPIROU-LHE NAS NARINAS UM SOPRO DE VIDA; (Gn 2);

“aquele que o formou, lhe INSPIROU UMA ALMA ATIVA E LHE INSUFLOU O ESPÍRITO VITAL. (Sb 15,11).

Mas aos demais seres, disse: — “produza da terra os seres vivos, segundo a sua espécie.” (Gn 1, 24)”

 

Todas as operações da alma animal, não lhes são ordenadas por Virtudes ou pela Moral, mas pelo instinto natural.

Findando-lhes o corpo, finda-lhes a alma por não haver em que operar.

 

Do contrário, a alma espiritual do homem permanecerá viva na morte corporal, pois sua origem vital não está na matéria deteriorável, mas no Espírito Eterno.

 

Ensinou Tácio,14 o assírio:

“Gregos, a alma não é imortal por si mesma, mas mortal; ela TORNOU-SE CAPAZ DE NÃO MORRER […] Ela morre [15] com o corpo se não conhece a Verdade; ressuscita novamente com o corpo na consumação do tempo, para receber COMO CASTIGO, A MORTE NA IMORTALIDADE;

 

E continua:

“Por outro lado, não morre, por mais que se dissolva com o corpo, se tem conhecimento [16] de Deus. (Discurso Contra os Gregos, Cap. XIII,anos 120-180DC)”

 

Diz ainda a Escritura: — “a imortalidade se encontra na Aliança com a Sabedoria; (Sb 8.17)

E a Sabedoria, que imortaliza a alma por fazê-la sua imagem, é PREFIGURAÇÃO DE DEUS:

 

“Sabedoria é um Espírito que ama os homens, mas não deixará sem castigo o blasfemador pelo crime de seus lábios; (Sb 1.6)”

 

 

3. NA ALMA HUMANA ESTÁ TODA CIÊNCIA INFUSA.

 

Pela Ciência Infusa pôde o homem ter percepção [17] sobre Deus; as coisas de Deus e sua própria redenção.

 

Essa Ciência habita na alma, vinda do Espírito, e o faz não só conhecedor, mas partícipe da ação de Deus, retornando com a alma na morte do corpo, para que Deus retribua ao ser humano com a ressurreição para a vida ou para a perdição eterna: [18]

“pela tua obstinação e coração impenitente, vais acumulando ira contra ti, para o dia da cólera e da revelação do justo juízo de Deus, QUE RETRIBUIRÁ a cada um SEGUNDO AS SUAS OBRAS; [19] (Rom. 2.5,6 e Ap. 12, 22)”

 

Os condenados são tidos por Deus como mortos:

“CONHEÇO AS TUAS OBRAS: TENS REPUTAÇÃO DE VIVO, MAS ESTÁS MORTO. Sê vigilante, e confirma os que morrerão, porque não achei tuas obras perfeitas diante do Meu Deus; (Ap. 3,1 e 2)”

 

E os ímpios se sujeitarão ao perecimento eterno, por terem se excluído voluntariamente da Graça:

 

“vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, buscam a glória, a honra e a imortalidade; [20] mas ira e indignação aos contumazes, rebeldes à verdade e seguidores do mal. TRIBULAÇÃO e ANGÚSTIA sobrevirão a todo aquele que PRATICA O MAL; (Rom 2.7, 8 e 9)

 

“Assim é aquele que o Senhor repele, que carrega o castigo de seu pecado; é como um eunuco ao abraçar uma virgem. (Eclo 30. 20 e 21)”

 

Ao homem só é dado acessar Deus, e com Ele se comunicar, por intermédio do próprio Deus.

Mas isso só é possível pela ALMA ESPIRITUAL.

 

Enfatiza Agostinho:

“Deus fez o homem a sua IMAGEM E SEMELHANÇA, efetivamente CRIOU NELE UMA ALMA APTA PELA INTELIGÊNCIA E PELA RAZÃO, a elevar-se acima de todos os animais. Tendo formado o homem do pó, insuflou nele essa alma" (Civitae Dei, 22, 23)

 

E prossegue:

“A alma (humana) não está sujeita a transformação, não sendo de nenhum modo capaz de mudar, sendo imortal. (A Imortalidade da Alma, cap. II ano 387 DC)

 

O Espírito Divino comunicado na alma é o que nos eleva à Comunhão Plena (corpo e alma) com o Verbo Encarnado.

 

 

4. IMORTALIDADE E ETERNIDADE.

 

A imortalidade de Deus difere da imortalidade da alma humana, pois Nele é consequência da sua Eternidade.

 

Já a alma humana tornou-se imortal não por ser eterna, como ensinavam os platônicos, mas porque quis o Criador imortalizá-la desde a criação, dando-lhe participar do seu Espírito.

 

E imortalizar não só a alma, mas também o corpo humano que a abriga:

“Deus criou o homem PARA A IMORTALIDADE, e o fez à sua imagem. (Sb 2, 23)”

 

A Sentença contra o homem por causa do pecado é a morte do corpo, não da alma:

“voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar. (Gn 3, 19)”

 

Ensinou Meliton [21] de Sardes:

“Toda carne, pois, caiu sob o pecado, e todo corpo sob a morte. Toda alma foi arrancada de sua morada de carne, e o que foi tirado da terra se dissolveu na terra. Estava destruída a bela harmonia, desfeito o belo corpo. (Mistérios Pascoais, Frag. ano 190 D.C.)

 

 

5. O HOMEM NÃO É APENAS UMA ALMA.

 

Na Encarnação do Verbo, Deus se fez nossa imagem pelo Corpo, e na alma nos assemelhamos a Ele em Espírito, desde a criação.

 

É no núcleo da alma humana que o Criador deposita as Virtudes Superiores que compartilha conosco, como razão, fé e amor, as quais nos permitem conhecer, unir e interagir com o Sagrado:

“Porque conhecer-vos é a perfeita justiça, e CONHECER VOSSO PODER É A RAIZ DA IMORTALIDADE. (Sb 15, 3)”

 

A alma do homem, mediante o Espírito, domina o corpo e os instintivos, pois é sempre o superior que rege o inferior.

 

Nisto assemelhamos ao Verbo Encarnado, porque Nele há a regência superior em todas as coisas, regência que nos participa na supremacia e controle [22] sobre nós mesmos, e os demais seres. Diz Santo Tomás:

“Inteligindo os máximos inteligíveis, mais facilmente poderá inteligir os menores[...]” (Suma Teológica, Q 75, art. 3º)”

 

E Santo Agostinho:

“Julgas que a paixão seja mais poderosa que a razão, pela qual por Lei Eterna nos foi dado o domínio sobre todas as paixões? Não creio de modo algum, pois caso fosse, seria a negação da ordem perfeita de Deus em que o maior domine sobre o menor. Então, haverá sem hesitar em colocar as Virtudes acima dos vícios? (O Livre Arbítrio, p. 25)”

 

O ser humano não é só alma, pois esta precisa encarnar no corpo para formar o homini uno:

“Pode-se entender que uma alma seja um homem? Isso se poderia sustentar caso se estabelecesse que todas as operações da alma sensitiva fossem só dela, sem corpo. NÃO SENDO OS SENTIMENTOS, OPERAÇÕES SÓ DA ALMA, MAS CONJUNTA (corpo e alma), é manifesto que o homem não é só a alma, mas algo composto de alma e corpo.”

(Suma Teológica, Q 75, art. 4, Tratado sobre o Homem)”

 

Como disse Agostinho:

“O corpo É O MENSAGEIRO da alma. (De Ord. II e XI, 32)”

 

Alma não abrange substância e forma, que são elementos apenas da matéria corporal.

O corpo então, torna-se a ferramenta biológica na qual a natureza imaterial age.

E a alma necessita do corpo para operar, salvo permissão Divina em contrário. [23]

 

Espírito e alma no homem, compõem um mesmo elemento imaterial e, juntos, formam a “Alma Espiritual” que encarna e habita no Corpo.

O homem é formado assim, na unidade do corpo e alma.

E o Espírito Divino, agindo na alma, lhe empresta a imagem e semelhança, sendo que ao unir-se ao Espírito, a alma humana se imortaliza.

 

Só após o fôlego de vida interagir na matéria corporal é que Adão se tornou “alma vivente,” ou seja, um ser completo cuja alma consegue operar e realizar atos concretos através da matéria corporal.

 

Não é um corpo apenas, senão seria um CADÁVER; e não apenas alma, senão seria um FANTASMA.

 

A alma é um dos elementos do ser.

 

E o que é elementar não pode ser a completude, salvo se desconsiderássemos a matéria como parte do ser humano, o que não se permite, dada a importância da Encarnação do Verbo para a ressurreição da carne.

Eis aí, uma outra chave hermenêutica que abre a compreensão sobre a imortalidade da alma.

 

 

6. NO INFERNO, A JUSTIÇA SUBSTITUIRÁ A IMAGEM DE DEUS NO CONDENADO.

 

A exclusão da Graça condena a alma espiritual a suplícios, em razão do desligamento do Espírito de Deus no homem.

 

A privação de Deus aos perdidos gerará neles penas de dores e danos. [24]

 

O Espírito Divino, não podendo sucumbir no inferno junto com o condenado, dele se retirará, sendo substituído pela Justiça Divina. [25]

 

A morte sobrenatural [26] não vem da destruição da alma, mas do fato desta perder a imagem e semelhança do Criador.

 

A Igreja Apostólica sempre entendeu Eternidade como sendo a imortalidade da alma participada com Deus, que pelo Espírito retornará a Ele, permanecendo ou se desligando para sempre.

 

Mas não retornará como energia abstrata, impessoal e irreconhecível, mas trazendo seu caráter, personalidade e todo histórico de ações a serem apresentadas no Tribunal Celestial.

 

A morte condenatória é perdição, exclusão da participação no Reino de Deus:

 

“ao contrário, castigo o meu corpo e o mantenho em servidão, DE MEDO DE VIR EU MESMO A SER EXCLUÍDO (ἀδόκιμος) [27] depois de eu ter pregado aos outros. (I Cor. 9, 27)”

 

“tenhamos cuidado em que ninguém de nós corra O RISCO DE SER EXCLUÍDO (ἀδόκιμος). (Hb 4,1)”

 

“Naquele dia, o meu furor se acenderá contra esse povo: EU O ABANDONAREI E OCULTAR-LHE-EI A MINHA FACE, e ele será devorado, uma multidão de males e angústias virá sobre ele, o que lhe fará dizer: é certamente porque meu Deus não está mais comigo que me vêm todos estes males, (Dt. 31, 17)”

 

 

7. A PERPETUAÇÃO DO PECADO IMPENITENTE E SUA PENA.

 

A destruição do condenado implicaria numa justiça imperfeita, pois se o pecado não remido permanece para sempre em seus efeitos, a pena há também de ser eterna.

 

Ensinou S. Justino:

“Contudo, eu NÃO AFIRMO QUE AS ALMAS MORRAM. ISSO SERIA UMA VERDADEIRA SORTE PARA OS MAUS. Digo, então, que as almas dos justos permanecem num lugar melhor e as injustas e más ficam em outro lugar, esperando o tempo do julgamento; desse modo, as que se manifestaram dignas de Deus não morrem; as outras são castigadas, desde que Deus os queira para que existam e sejam punidas.” (Diálogo com Trifão28 ano 150 DC)”

 

O pecado é ofensa contra a consciência, o Amor, a Ordem e as Leis Eternas de Deus, que decorreu do apego perverso à desordem natural, que põe a vontade humana desalinhada com a Vontade Suprema.

 

É atentado contra Deus, ainda que obrado contra o próximo:

“PEQUEI CONTRA TI SOMENTE, PRATIQUEI O QUE ERA MAU AOS SEUS OLHOS. (Sl 51, 6).”

 

Instantâneo na conduta, mas INCESSANTE E IMORTAL EM SEUS EFEITOS. [29]

Ultraje que sem a Graça, priva o indivíduo da remissão.

 

O pecado é finito e infinito.

Finito: — na ação humana que se realiza no tempo, e não raras vezes se concebe em instantes; Infinito: — na intensidade e efeito, pois o atentado a Deus, se não for perdoado, sempre existirá.

 

E os pecados só são apagados por Deus no arrependimento e conversão:

 

“Sempre SOU EU QUEM DEVE APAGAR TUAS FALTAS, e não mais me LEMBRAREI [30] DE TEUS PECADOS. (Is 43, 25)”

 

Logo, o castigo será incessante, porque o pecador estará preso por toda eternidade aos seus delitos:

 

“DIANTE DE MIM ESTÁ SEMPRE O MEU PECADO. (Sl 50, 5)” — “A JUSTIÇA DE DEUS É IMORTAL. (Sb 1, 9)”

 

“O HOMEM SERÁ PRESO POR SUAS PRÓPRIAS FALTAS, E LIGADO COM AS CADEIAS DE SEU PECADO. (Prov. 5, 22)”

 

A Justiça Divina seria vingança, se houvesse a destruição do pecador, deixando permanente os efeitos da sua conduta e insatisfeita a cólera do ofendido.

Justiçar é retribuir o que é proporcional.

 

Caso o pecado e seus efeitos extinguissem naturalmente pelo tempo, o SACRIFÍCIO DE CRISTO TERIA SIDO INÚTIL:

 

“Mas os céus e a terra que agora existem são guardados e reservados para o fogo no dia do juízo e da perdição dos ímpios. ” (II Pe 3, 7);

 

“eles sofrerão como castigo A PERDIÇÃO ETERNA, LONGE DA FACE DO SENHOR, e da sua suprema glória.” (II Tess. 1, 9)

 

“Sobre os ímpios, ele fará cair uma chuva de fogo e de enxofre; um vento abrasador de procela será o seu quinhão”. (Sl. 10, 6)

 

“[...] SERÁ ATORMENTADO PELO FOGO E ENXOFRE diante dos seus santos anjos e do Cordeiro; ” (Ap. 14, 10)

 

"Ali haverá PRANTO E RANGER DE DENTES, quando virdes Abraão, Isaac, Jacó e todos os profetas no Reino de Deus, enquanto que vós estareis sendo lançados fora" (Lc. 13,28).

 

"Porém, os covardes, os incrédulos, os abomináveis, os assassinos, os impuros, os feiticeiros, os idólatras e todos os embusteiros terão a sua parte no lago que arde com fogo e enxofre, QUE É A SEGUNDA MORTE" (Ap. 21,8).

 

"E o Diabo, seu sedutor, foi atirado no lago de fogo e enxofre, onde estão também a besta e o falso profeta; e serão atormentados dia e noite PELOS SÉCULOS DOS SÉCULOS." (Ap. 20,10)”

 

“E estes irão para o CASTIGO ETERNO, e os justos, para a vida eterna.” (Mt. 25. 46)”

 

A morte corporal do ímpio consumará neste os efeitos de uma malícia infinita, por conta dos pecados cometidos, e não perdoados em vida.

 

Ensina Monsenhor Gastón de Ségur:

“A santidade infinita de Deus não deve repelir eternamente um ser que jaz no estado eterno de pecado? Ora, tal é o réprobo no inferno.” […] “Escolheste loucamente a morte e o mal; então estareis permanentemente na morte e no mal que livremente escolheste; [...] O MAL E ELE SÃO INSEPARÁVEIS. “Pergunto-vos: não será rigorosamente justo que se aplique um castigo imutável para uma perversidade imutável? No inferno, os condenados já não têm tempo, nem a Graça de se arrepender, e não podem ser perdoados, e por isso, devem necessariamente sofrer um castigo imutável e eterno.

(O Inferno? Liv. Catholica Portuense, p. 57, ano 1.905)”

 

O combustível que nutre o fogo da Justiça Divina é a maldade não redimida, o pecado não purificado e, consequentemente, a memória íntegra do ultraje não cessado.

 

Ensinou o profeta:

“Circuncidai-vos em honra do Senhor, tirai os prepúcios de vossos corações, PARA QUE MEU FUROR não CONVERTA EM FOGO, e não vos consuma, SEM QUE NINGUÉM POSSA EXTINGUI-LO, POR CAUSA DA PERVERSIDADE DE VOSSOS ATOS. (Jr 4, 4)”

 

Essa é a “morte” trazida pela condenação, conforme outro profeta:

“muitos dos que dormem no pó da terra RESSUSCITARÃO, UNS PARA VIDA ETERNA, E OUTROS PARA VERGONHA E DESPREZO ETERNO. (Dn 12, 2)”

 

Uma alma apagada não sentiria o desprezo espiritual, nem a aflição de perder para sempre a Comunhão com Deus.

Nela não haveria dores ou sofrimento, não podendo haver penas.

 

Lecionou São João Crisóstomo:

“Alguns dizem: empreguei poucos instantes em matar; e por esses instantes de pecado deverei sofrer pena eterna? SIM porque Deus julga o vosso pecado, não pelo tempo que despendeste em cometê-lo, mas pelo mal que realiza. ” (ano 347, cit. in: O Inferno – se existe, o que é e como poderemos evitá-lo)”

 

A imortalidade dá por duplo motivo:

Primeiro: ― pelo efeito incessante da Graça aos afortunados que foram salvos para a vida eterna;

Segundo: ― pelo efeito eterno do pecado nos desafortunados, outrora não perdoados em suas violações contra Deus.

 

 

8. A SARÇA QUEIMA SEM CARBONIZAR E O “VERME” NUNCA MORRE.

 

Nas Escrituras e na Tradição, o fogo prefigura ora o Poder, outrora Punição ou ambos.

Mas aquele Fogo Divino representava essas duas coisas:

 

“Moisés olhava: A SARÇA ARDIA, MAS NÃO SE CONSUMIA. Vou me aproximar, disse ele consigo, para contemplar esse extraordinário espetáculo, e saber porque a sarça não se consome." (Êx 3. 3 e 4)”

 

Deus se apresentava ao patriarca em sua Justiça e Onipotência.

 

A sarça que não queimava e ardia em chamas está como a alma condenada, a qual não é aniquilada, mas morre por não haver sinais vitais, inexistindo nela nada além das dores da combustão.

 

Disse Cristo numa metáfora ao Geena: [31] ― “Se o teu pé for para ti ocasião de queda, corta-o fora; melhor te é entrares coxo na vida eterna do que, tendo dois pés, seres lançado à GEENA DO FOGO INEXTINGUÍVEL, ONDE O SEU VERME NÃO MORRE E O FOGO NÃO SE APAGA. Porque todo homem SERÁ SALGADO PELO FOGO […]

 

Prosseguindo: ― “O sal é uma boa coisa; mas se ele se tornar insípido, com que lhe restituireis o sabor? Tende sal em vós e vivei em paz uns com os outros. (Mc. 4)”

 

Essa citação se refere a uma antiga profecia: ― “Humilha profundamente o teu espírito, pois O FOGO E O VERME SÃO O CASTIGO da carne do ímpio. (Ec 7. 19)”

 

O “verme” representa os bichos da putrefação da matéria orgânica morta, os quais também morrem após devorá-la.

 

Mas estes “vermes” aqui referidos, não morreriam, antes, corroeriam a carne “morta” para sempre.

 

O sal é outra referência à imortalidade, [32] vez que salgamento era a forma primitiva de conservar.

 

Ensina Santo Tomás:

“este verme sempre vivo, que sempre lhe roerá o coração, é o remorso: O seu verme não morre. Dirá então: Ó insensato que fui! Podia fazer-me um grande santo. Tivera obedecido, agora estaria salvo; e eis que em vez disso, por minha própria culpa, por um nada estou condenado sem remédio! (Meditação de S. Tomás. 1 Reg. 15, 23)”

 

Dai temos:

Primeiro ― a morte (decomposição) é apenas para o corpo, sendo que a alma espiritual permanece viva à espera do seu Juízo final;

Segundo ― admitir que morramos corpo e alma, já não seria ressurreição do mesmo ser, mas renascimento de outro.

 

Em contrapartida, as Virtudes Divinas implantadas na alma pelo Espirito, subsistirão mesmo depois da morte física. São essas, a fé, o amor a Deus; a santidade em beatitude; o pensamento, sentimentos; dons espirituais, amor ao próximo e a Ciência Infusa Extranatural, [33] ainda que o homem não tenha feito bom uso delas em vida.

 

Diz Santo Tomás:

“Ora, o homem tem corpo como os brutos, como também tem as potências comuns ao corpo e à alma. Mas só as faculdades próprias à alma, isto é, as racionais, é que pertencem exclusivamente ao homem. POR ONDE, A VIRTUDE HUMANA, DE QUE AGORA TRATAMOS, NÃO PODE PERTENCER AO CORPO, pois É PRÓPRIA DA ALMA. (Suma Teológica, Q 55, art. 2º Tratado do Homem)”

 

A alma espiritual, como elemento da nossa essência racional e transcendental, é o que nos comunica com a Ciência de Deus.

Essa ciência é absolutamente necessária à salvação, motivo da alma diferida, que nos leva a conhecer a Verdade, e a Ela associar ou desprezar:

“Deus criou o homem da terra, formou-o segundo a sua própria imagem; CRIOU NELES A CIÊNCIA DO ESPÍRITO, ENCHEU-LHES O CORAÇÃO DE SABEDORIA, E MOSTROU-LHES O BEM E O MAL." (Eclo 17, 1 e 6)

 

 

Referências:

 

1. Elias, Enoc e a Virgem não conheceram morte física, foram arrebatados

 

2. Questão abordada no vol. I. Capítulo III “Da Intercessão dos Santos.

https://www.clubedeautores.com.br/book/205963--A_FE_CATOLICA_NAS_ESCRITURAS_E_NA_TRADICAO_DOS_APOSTOLOS?topic=teologia#.WC069rIrLIU

 

3. Platão na obra Fédon 339 AC, ensinava que a alma é eterna. A Igreja, em contrário, ensina que é mortal até receber o Espírito.

 

4. Sujeito às leis da física (tempo, espaço, início, fim, deterioração e outros)

 

5. Não sujeita às leis físicas, e que, portanto, se conserva permanentemente.

 

6. No AT a palavra alma consta naphesch, que é vida em hebraico: http:// biblehub.com /hebrew/ 5315.htm . (Gn 1, 30)

 

7. Morte é a retirada da alma do corpo. Ressurreição em contrário, sua reinserção.

 

8. Dionísio, o Areópago, filósofo grego convertido (Atos 17, 34), discípulo de S. Paulo e autor de “Corpus Areopagiticium.”

 

9. Um homicida pode destruir o corpo, não a alma.

 

10.Destruir nogrego apollumi, é tanto desaparecimento, quanto inutilização. http://biblehub.com/greek/622.htm . E Deus pode destruir a alma das duas maneiras.“Pode” ou dunamenon é capacidade, faculdade. http://biblehub.com/ greek/ 1410. htm

 

11. Como os corpos mumificados.

 

12. A alma dos anjos opera todas as Virtudes de Deus, independente de corpo. As naturezas dos seres angelicais e das criaturas corpóreas são distintas. (Suma de Aquino, Q 78, art. 6°)

 

13. Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós (I Cor. 6, 19)

 

14. O pecado atingiu o corpo, (Gl 5, 17; I Cor. 15, 59 e II Cor. 7,1) apagando essas Virtudes, desfazendo na Alma do homem a imagem de Deus, a qual se restaura em Cristo, e por Cristo.

 

15. Escritor Eclesiástico e um dos grandes Cátedras da Igreja.

 

16. Morte não pela desaparição, mas pela ausência de funcionalidade, como diz o texto sagrado: - “Também o seu amor, ódio, inveja pereceram, e já não tem parte alguma para sempre; pois que na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria” (Ecle. 9, 6 e 10). A alma condenada sentirá apenas a Justiça de Deus: - “Sobre os ímpios ele fará cair uma chuva de fogo e de enxofre; um vento abrasador de procela será o seu quinhão. (Sl. 10, 6); os ímpios perecem nas trevas; (I Sm 2, 9)

 

17. Ciência de Deus, no sentido participar das suas Virtudes e do seu Caráter.

 

18. Os que não tem a Ciência Perfeita sobre Deus, tem a percepção, como as crianças, os alienados e os silvícolas.

 

19. A ressurreição é do corpo, não d'alma, pois ressuscitar e decompor são exclusividades da matéria. O homem será julgado por inteiro, em corpo e alma.

 

20. Assim também a fé: se não tiver obras é morta em si mesma. (S. Tiago 2, 17)”

 

21. Vida Eterna significa viver na Glória Celestial.

 

22. Bispo em Esmirna, em 177 DC e um dos Cátedras da Igreja.

 

23.“Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra. Eis que eu vos dou toda a erva que dá semente sobre a terra, e todas as árvores frutíferas que contêm em si mesmas a sua semente, para que vos sirvam de alimento. (Gn 2, 28 e 29)”

 

24. Moisés morreu e fora sepultado no Monte Horebe, (Dt. 32, 51-52; 34, 6 e Núm. 20,12). Estando sua alma aguardando a ressurreição dos justos (Is. 26:19, Dn. 12:2, Ap. 20:4-5) por ordem Divina aparece a Cristo para confortá-lo, antes da crucificação. (Mt 17-1,8) Deus é o único que pode agir fora da ordem universal preestabelecida.

 

25. No inferno dos condenados haverá privação total e irreversível da Comunhão com Deus que é pena de dano; e por consequência sofrimento por não se comunicar com Ele. Essa é a pena de dor.

 

26. Deus é ONIPRESENTE e no inferno ele está como JUSTIÇA: “Se subir até os céus, ali estareis; se descer à região dos mortos, lá vos encontrareis também. (Sl. 138, 8)”

 

27. A alma que pecar, essa morrerá (Ez. 18, 4): Não implica no apagamento, mas separação de Deus por causa do pecado, o que pode ser revertido em Cristo: "Estando mortos em razão de nossos delitos, nos vivificou em Cristo: “pela graça fostes salvos" (Ef. 2,5); E a vós, que estáveis mortos em vossos delitos e em vossa carne incircuncisa, vos vivificou juntamente com Ele e nos perdoou a todos os nossos delitos" (Col. 2,13).

 

28. Excluído ou rejeitado, no grego “adoidamos” (ἀδόκιμος). http:// biblehub.com /léxicon/1_corinthians/9-27.htm

 

29. ARISTOTELISMO E PLATONISMO: Duas correntes filosóficas que discutiam a natureza da alma. A aristotélica defendia a MORTALIDADE e a platônica a IMORTALIDADE. A diferença entre filósofos imortalistas e a fé cristã, é que aqueles defendiam que a alma é imortal por ser eterna. Em “Diálogo com Trifão, anos 100 ou 150, S. Justino corrige o pensamento platônico, no sentido da “alma humana ser mortal por natureza,” pois a Igreja ensina que as almas humanas foram imortalizadas por vontade de Deus.

 

30. A morte física cessa a fase do arbítrio. Não poderá após isto, produzir amor ou ódio, se arrepender ou pecar. (Ecle 9. 6 e 10) Mas os efeitos desse ódio pecaminoso ou do amor, obrados quando encarnados, serão a razão do seu juízo final, traçando seu destino, acompanhando o homem no mundo porvir.

 

31. Numa interpretação dialética de Isaías 43, 25, a recíproca é verdadeira, pois também a lembrança de Deus sobre os pecados não arrependidos será eterna.

 

32. Fornalha que queimava cadáveres de doentes, cuja pira era mantida acessa diuturnamente. Prefiguração ao castigo eterno: Afastai-vos de mim malditos, para o fogo eterno!" (Mt 25,41). Cat.§366: a alma espiritual criada por Deus não perece quando se separa do corpo, e se unirá novamente no juízo final.

 

33. A segunda morte é esta: o tanque de fogo. (Ap 20, 14) Naqueles dias, os homens buscarão a morte e não a conseguirão; desejarão morrer, e a morte fugirá deles.(A 9, 6)” Pai Abraão, compadece-te de mim e manda Lázaro que molhe em água a ponta de seu dedo, a fim de me refrescar a língua, pois sou cruelmente atormentado nestas chamas. (Lc 16, 24) Será atormentado pelo fogo e pelo enxofre diante dos seus santos anjos e do Cordeiro. (Ap 14, 10) A fumaça do seu tormento subirá pelos séculos dos séculos. Não terão descanso algum, dia e noite, esses que adoram a Fera e a sua imagem, e todo aquele que acaso tenha recebido o sinal do seu nome. (Ap 14, 11)

 

34. Tudo que vai além do raciocínio lógico e limitado do mundo material.

 

Nando Gomes

Fonte: A Fé Católica nas Escrituras


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