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Tolerância e intolerância – questão semântica?

 

Sergio Sebold

Economista e Professor Independente

[email protected]

 

Nos primórdios do cristianismo, a grande preocupação dos primeiros cristãos através de sua hierarquia, era evitar um julgamento injusto. A questão da justiça é amplamente desenvolvida nas páginas da Bíblia desde o Antigo Testamento. Mesmo assim houveram muitos sofrimentos causados por decisões equivocadas, embora não se pode questionar por ser um produto da história. A questão se coloca na posição de quem está julgando no momento, dentro de um contesto contraditório quando o decisor está diante de um conjunto de forças antagônicas ou em conflitos.

 

Quando a Igreja Católica primitiva delegou à sociedade política este procedimento, houve exageros e injustiças no campo civil. Preocupada com a justiça, se posicionou contra qualquer tipo de penalidade que violasse ou possibilitasse de risco á vida do réu. É princípio teológico fundamental que todo cristão, pode em qualquer momento da vida vir se arrepender de seus delitos (pecados), nem que fosse aos derradeiros momentos para salvar sua alma. A máxima era, e sempre foi, Deus na sua infinita misericórdia, está sempre predisposto a perdoar o pecador arrependido. A eliminação da pena de morte, por mais perversa e ignominiosa que fosse o autor do crime, lhe dava uma janela para o arrependimento e o começo de uma nova vida virtuosa. A pena de morte não é mais uma penalidade, passa ser uma vingança da sociedade. De vingança em vingança chegamos até aqui, com violência e mais violência. Contraditoriamente a não radicalidade deu chance à permitir todos os tipos de transgressões morais e mesmo de Fé.

 

A intolerância como se vê em certos povos e culturas, procura preservar os valores consolidado da sua própria história. Na outra ponta, pela ótica social, a tolerância é o comportamento de uma pessoa ou grupo social de aceitar o outro, ou grupo social, que tenha atitudes e crenças diferentes daquelas. A tolerância cultural permite um aperfeiçoamento e avanço da civilização. Em contraste com a intolerância, a tolerância pode ser interpretada como “discordar pacificamente”. As palavras são expressões de nossa própria realidade humana, de suas contradições e de sua beleza espiritual. Pela origem latina, tolerare, significa acolher alguém, ser indulgente com os outros.  Santo Tomás de Aquino identificou a palavra tolerância como a virtude da paciência. Com a reforma protestante dos séculos XVI e XVII surgiu a palavra tolerância religiosa, como uma atitude prudente para convivência entre católicos e os novos adeptos do cisma.

 

A exaltação da virtude da tolerância, muitas vezes é falsamente concebida, quando conduz a tolerar ações imorais, a ponto de parecer que apoiamos a moral equivocada. Tolerância é uma virtude, onde a principal é a caridade de falar a verdade particularmente sobre a vida humana.

 

Tolerantes e intolerantes somos nós mesmos, não apenas os outros que os julgamos assim. Tanto um como outro são relações que se estabelecem entre pessoas na linha de uma reciprocidade negativa. Não são apenas produtos do momento, mas são construídos ao longo de nossa realidade cultural. Por este fato pode se fazer história da intolerância religiosa, da intolerância racial e assim adiante.

 

A tolerância praticada pela Igreja Católica tem sempre como pressuposto, a possibilidade do cristão se reconciliar com Deus segundo seus preceitos. Por este viés, a experiência tem demonstrado que a tolerância oferecida tem produzido muitas vezes às piores consequências sociais que se verifica nos dias atuais, pela má utilização dela.

 

Diante deste comportamento condescendente da Igreja, se avolumaram no tempo um sem número de atitudes contrárias a verdade revelada, explorando-se este viés da doutrina. Vamos observar assim, a tolerância religiosa, onde todos têm o direito de professar uma crença pela visão civil. Entretanto a tolerância cristã está no respeito à liberdade individual de escolha, não na liberdade de cada um criar seu próprio modelo de crença. Tolerância de minorias o é pelo lado ideológico/político, e não pelas atitudes. Estas atitudes devem ficar restritas ao âmbito daqueles que assim assumiram. A tolerância racial é estribada em que todos os seres humanos são imagem e semelhança de Deus; por consequência espiritualmente somos todos iguais diante Dele.  A intolerância racial por efeito cultural deve ser banida neste caso.

 

A tolerância é um dom cristão com respeito às escolhas do ser humano. Infelizmente, grupos específicos distorcem e usam desta tolerância, para fazer o que quiser na afronta aos valores morais universais consagrados.

 

Quando somos apossados pela intolerância ao próximo, nosso semelhante, passamos rejeitá-lo a partir das diferenças que apontamos nele. Os noticiários estão carregados de fatos ou delitos de intolerância dos mais diferentes tipos por esta condição emocional. Assim, tolerar alguém ou mesmo um grupo social exige um esforço emocional redobrado. Tolerância significa em outras palavras, ter que “aguentar” o outro nas suas diferenças, nas suas crenças, sua linguagem, seus costumes, seu tom de voz, sua sexualidade, suas excentricidades; mesmo que no fundo possam nos ameaçar e agredir o nosso senso.

 

A intolerância que vigora no mundo desde o tempo de Adão, ainda persiste; dificuldade de perdoar, de compreender, de aceitar o erro do próximo; assim como exigimos que o próximo aceite nossos erros, afinal muitas vezes nossos erros para nós não são erros, também os de nossos irmãos, para eles não os são.

 

Voltaire percebeu que a tolerância possibilitaria ao homem ser mais compreensivo com o próximo; seria por outro lado um antídoto da feroz doença da vingança. Sendo a compreensão humana limitada, ela está sujeita a todo tipo de erro; nisso consiste a razão da tolerância, privilégio dado e reservado ao próprio ser humano. Entretanto não se pode aceitar ou tolerar tudo que se encontra neste mundo, mas sim o ato de se respeitar.

 

Permitimo-nos citar Karl Popper de sua obra “The Open Society and Its Enemies” (em tradução livre: Sociedade aberta e seus inimigos) sobre o paradoxo da  tolerância: "Menos conhecido é o paradoxo da tolerância: tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos tolerância ilimitada até mesmo para aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra a investida dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância junto destes”.

 

Ainda num trabalho de 1997, Michael Walzer indagou: "Devemos nós, tolerar os intolerantes?". Na maioria dos grupos religiosos minoritários que são beneficiários da tolerância, são eles próprios intolerantes, embora nem em todos os aspectos. Em um regime tolerante como o é a democracia, estas pessoas podem ter que aprender a tolerar, ou ao menos comportar-se "como se possuíssem esta virtude".

 

Numa visão mais prática no dizer de Augusto Cury: “O silêncio e a tolerância são as armas de quem pensa”.

 

Quando o gênero humano entender que todos estão cheios de defeitos, fraquezas, erros, e reconhecer que tudo isto é de nossa natureza (como se diz: errar é humano); que todos são iguais por esta limitação será então mais fácil pactuar o perdão mutuamente. Entretanto vivenciamos um momento em que não se pode mais aceitar a tolerância, como justificativa para deixar de defender a verdade.

 

(28/08/17)

 


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