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Nominalismo, a origem do calvinismo

Carlos Ramalhete

Fonte: Veritatis Splendor

Um amigo, envolto em discussão com um calvinista, enviou-me mensagem que enviara ao dito herege, perguntando se estava boa ou se – no afã de atacar o calvinismo – não caía no palagianismo. Respondi-lhe assim:


Bunitin, nada a condenar, em absoluto; não achei nem um pouco pelagiano. Acho até que vc poderia ter jogado mais forte (por exemplo – não sei se vc já usou isso antes na discussão), usando o que diz São Tomás sobre as palavras da Consagração. É uma questão bastante atual, inclusive, devido à querela do “pro multis” (que a CNBB fez virar “por todos”). Em grandes linhas, o bom frade diz que a graça de Nosso Senhor é suficiente para todos e oferecida para todos, mas só é aceita por alguns (os “multi”).

Creio – sem querer te fazer reescrever o seu Tractatus Contra [Calvinista] – que seria interessante desviar a discussão para o ponto de base do erro dele, que é a visão ontológica da pessoa humana.

Explico: Calvino, como Lutero, era nominalista. Ou seja: eles negavam a existência de uma “humanidade” (ou natureza humana) fora de cada homem. A visão realista clássica (de S. Tomás, mais ainda de Sto. Agostinho, etc.) é de que haja uma humanidade da qual participamos todos os homens. Esta humanidade é a que foi assumida por Nosso Senhor (uma só Pessoa, duas naturezas: a natureza é determinação ontológica, não acidente). Para o nominalista, entretanto, ser homem é simplesmente um acidente que – por puro acaso – todos nós temos. Ser homem, em outras palavras, não é algo que ocorra realmente em nível ontológico (daí os netinhos deles hoje em dia querendo dizer que chimpanzé é gente, etc.; na falta de uma humanidade extrínseca ao homem, eles querem achá-la em percentuais de DNA ou outras besteiras: ela é apenas um rótulo, uma característica não mais importante que a cor do cabelo, o tamanho do nariz ou o time pelo qual se torce, em termos de determinação ontológica do ente).

Aí os pobrezinhos entram em pânico na hora da determinação do processo salvífico. Nós sabemos que Deus Se fez homem (ou seja, assumiu a natureza humana de que todos participamos e cuja existência extrínseca a cada homem os nominalistas negam). Com isso, tornou-nos todos (todinhos, sem exceção: Ele assumiu algo que nos determina e define antes mesmo de recebermos o ato de ser, antes mesmo de cada alma individual ser criada: quando ela é criada, já é criada humana, participando desta humanidade, desta natureza que eles negam como tal) capazes de salvação e chamados à graça. Sabemos assim que a graça, mais ainda, que a salvação, são o modo e o fato da participação plena do homem em Deus, em Quem ele é. Em outras palavras: santificar-se é ser plenamente em Deus, deixando de escorar o nosso “ser” em algo d’outro (mulher, dinheiro, prazer sensível…).

Já para eles não há conceito possível de santificação porque não há possibilidade de ser mais plenamente em Deus, na medida em que cada um é completamente autônomo, separado dos outros homens, com quem não partilha sequer uma natureza no sentido pleno (uma “humanidade”, que eles negam). Sendo cada um uma coisa à parte, sendo cada um um ser único, de natureza única (como aliás sabemos serem os anjos; é por isso que os demônios não podem ser salvos: cada um tem uma natureza própria, já nos ensinava Santo Agostinho; não há uma “angelicalidade” de que eles participem individualmente e que Deus pudesse assumir), a salvação é necessariamente algo externo ao homem e completamente arbitrário. Daí a arbitrariedade da “moral” puritana dos calvinistas, também, que o é necessariamente por não partir de determinação ontológica (“agir conforme o ser” é a moral clássica – se cada um é uma “natureza” diferente, não há um agir comum que possa ser depreendido de uma natureza comum que determina o ser homem, e qualquer moral é necessariamente arbitrária ou pragmática).

Lutero – aliás agostiniano; é impossível ler Santo Agostinho como nominalista e querer achar algum sentido; o nominalismo nega as próprias premissas filosóficas neo-platônicas do Bispo de Hipona – pregava uma salvação que viesse de uma confiança em Deus, que seria ao mesmo tempo sinal e suscitamento de resposta divina (coisa assaz mal-cozida, aliás, mais cheia de furos que peneira que é usada de alvo de tiro de espingarda). Calvino tenta costurar melhor as pontas, e inventa a dupla predestinação, usando nisso uma versão reducionista do processo de salvação ou danação dos anjos: os anjos, com sua inteligência angélica, no momento em que foram criados “viram”, souberam, o que havia a ver e a saber e fizeram, com seu livre arbítrio, uma escolha. Calvino, não tendo como atribuir a bebês de colo uma inteligência angélica, achou mais “fácil” negar o livre-arbítrio e dar a Deus a nada nobre missão de bancar o Satanás e condenar irremediavelmente ao inferno alguns (e outros predestinar ao Céu).

O problema, então, não é de ordem estritamente teológica, é de má filosofia na base. O que os calvinistas negam – e é este o ponto que deveria ser atacado, na minha humilde opinião – é a humanidade, logo a possibilidade de santificação, logo a participação humana na obra da salvação. O resto é consequência. Ficar neste debate em torno de trechos pinçados de enciclopédias (!!!)  por um sujeito que não tem a menor ideia do que está falando não há de levar a lugar nenhum. Isso porque:

– Vocês estão falando de homens diferentes, partindo de visões totalmente diferentes do que seja o homem e a salvação. Não há como chegar a um acordo (a não ser que seja um acordinho fuleiro irênico, como a declaração conjunta com os luteranos) sem que haja uma determinação firme dos termos do que está sendo declarado.
– Vc diz “homem” e pensa em um homem que participa da humanidade que Nosso Senhor assumiu; ele fala “homem” e pensa em um ser quase angélico, que não partilha a mesma natureza que outros homens.
– Vc fala “salvação”, e pensa em purificação do homem para que ele seja plenamente ele ou seja, que ele seja ele mesmo plenamente em Deus; ele fala “salvação” e pensa em um decreto divino que ignora, ou mesmo violenta, o que aquele indivíduo (não-humano, ou seja, não participante na humanidade, não passível de aperfeiçoamento real pela graça) realmente *é*. Para ele, a salvação é o uso de um pistolão, é o amigo que faz entrar no show pela porta dos fundos para que não se tenha que pagar a entrada.
– Você fala de “obras” e pensa na instauração do homem em Cristo, em ser cada vez mais plenamente em Deus-Que-Se-fez-homem; ele pensa em algo completamente arbitrário, que não pode refletir uma natureza pelo simples fato de essa natureza não existir, tendo assim que refletir não a humanidade, mas os desejos pessoais e individuais de cada “homem-como-acidente”: para ele a obra é por definição exatamente o que a visão cristã clássica de “obra” quer demolir (ou seja, a ação que é fundada em algo exclusivo da pessoa, tendo o “obrante” como princípio e fim, sendo assim algo que afasta de Deus, não aproxima).
– Etc.

Deu para entender? No mais, parabéns pela paciência.

 


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Dom Estêvão Bettencourt

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