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Teologia

Primeira Encíclica:

DEUS É AMOR"

por Bento XVI

 

Em síntese: Em sua primeira encíclica o Papa Bento XVI conside­ra o tema muito distorcido do amor; a própria violência tem sido inspirada por certo tipo de amor como outrossim a libertinagem dos costumes. Na sua Parte I o Papa afirma que o homem, sendo psicossomático, ama sempre com a sua corporeidade (amor eros) e sempre com o seu espírito (amor ágape); aquele, porém, precisa de ser purificado para se adaptar ao amor ágape. O Verbo Encarnado é a manifestação plena desse amor ágape, e nos convida a amar como Ele amou... amar a Deus e ao próxi­mo. A Igreja deve dar testemunho do ágape mediante o seu culto divino e seu serviço aos homens (Parte II).

* * *

.Aos 25 de dezembro de 2005 o Papa Bento XVI assinou a sua primeira Carta Encíclica, que versa sobre o amor. É documento rico de considerações filosófico-teológicas, que revelam o teólogo professor e procuram dissipar as tendências ao ódio e plantar a Boa Semente. O documento consta de Introdução, duas Partes e Conclusão, das quais destacaremos, a seguir, os principais traços.

 

1. Introdução

Bento XVI propõe como justificativa de sua Encíclica o mau uso da palavra "amor". No mundo atual: violência e libertinagem são associadas a tal vocábulo, desviando-o do seu significado tradicional, contido nos termos eros e ágape. É o rico e genuíno significado de amor que Bento XVI tenciona pôr em relevo mediante a Encíclica.

 

PARTE I: A UNIDADE DO AMOR

1.1. Eros e Ágape[1]

O texto se abre com uma reflexão de ordem filosófica e lingüística. A filosofia grega tinha dois vocábulos mais usuais para designar o amor, a saber: eros e ágape. Aquele significaria o amor carnal, existente es­pontaneamente no homem e na mulher, ao passo que ágape seria o amor oriundo do espírito humano. Pois bem; o Papa afirma que o homem, sendo um composto psicossomático, ama sempre com a sua corporeidade e a sua espiritualidade. - Seguem-se considerações histó­ricas para aprofundar quanto foi dito.

"Os gregos viram no eros o inebriamento, a subjugação da razão por parte de uma loucura divina, que arranca o homem às limitações da sua existência para fazê-lo gozar da mais elevada felicidade" (n° 4). -Ora tal concepção de eros não é subida até o Divino, mas degradação do homem. Fica assim claro que o eros necessita de disciplina, de puri­ficação para dar ao homem não o prazer de um instante, mas uma certa amostra do vértice da existência daquela bem-aventurança para a qual tende todo o nosso ser" (n° 4).

I.2. Purificação do Eros

Pergunta então o Papa: Como se deve configurar este caminho de ascese e purificação? E responde:

"Uma primeira indicação importante, podemos encontrá-la no Cântico dos Cânticos, um dos livros do Antigo Testamento bem conheci­do dos místicos. Segundo a interpretação hoje predominante, as poesias contidas neste livro são originalmente cânticos de amor, talvez previstos para uma festa israelita de núpcias, na qual deviam exaltar o amor conju­gal. Neste contexto, é muito elucidativo o fato de, ao longo do livro, se encontrarem duas palavras distintas para designar o "amor". Primeiro, aparece a palavra "dodim", um plural que exprime o amor ainda inseguro, numa situação de procura indeterminada. Depois, esta palavra é substi­tuída por "ahabà", que, na versão grega do Antigo Testamento, é traduzida pelo termo de som semelhante "ágape", que se tornou, como vimos, o termo característico para a concepção bíblica do amor. Em contraposição ao amor indeterminado e ainda em fase de procura, este vocábulo exprime a experiência do amor que agora se torna verdadeiramente desco­berta do outro, superando assim o caráter egoísta que antes claramente prevalecia. Agora o amor torna-se cuidado do outro e pelo outro. Já não se busca a si próprio, não busca a imersão do inebriamento da felicidade; procura, ao invés, o bem do amado: torna-se renúncia, está disposto ao sacrifício, antes procura-o" (n° 6).

Donde se vê que o amor carnal há de ser penetrado pelos valores espirituais aos quais o amor-agápe aspira. Há um só princípio de amor, que é a pessoa humana composta de matéria e espírito... matéria e espí­rito que dão a origem às duas modalidades do amor: eros e agápe. O Papa explica melhor seu pensamento, usando uma linguagem que tem de ser lida vagarosamente:

"Faz parte da evolução do amor para níveis mais altos, para as suas íntimas purificações, que ele procure agora o caráter definitivo, e isto num duplo sentido: no sentido da exclusividade - 'apenas esta única pessoa'- e no sentido de ser 'para sempre'. O amor compreende a totali­dade da existência em toda a sua dimensão, inclusive a temporal. Nem poderia ser de outro modo, porque a sua promessa visa o definitivo: o amor visa a eternidade. Sim, o amor é 'êxtase'; 'êxtase', não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo perma­nente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus: 'Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á' (Lc 17, 33) - disse Jesus; afirmação esta que se encontra nos Evangelhos com diversas variantes (cf. Mt 10, 39; 16, 25; Mc 8, 35; Lc 9, 24; Jo 12, 25). Assim descreve Jesus o seu caminho pessoal, que O conduz, através da cruz, à ressurreição: o cami­nho do grão de trigo que cai na terra e morre e assim dá muito fruto. Partindo do centro do seu sacrifício pessoal e do amor que aí alcança a sua plenitude, Ele, com tais palavras, descreve também a essência do amor e da existência humana em geral" (n° 6).

1.3. A unidade plena na Encarnação do Verbo

Eis ainda uma observação lingüística:

O amor-eros tem sido designado como amor de cobiça ou amor possessivo;

O amor-agápe é tido com o amor de benevolência ou oblativo.

Não se deve radicalizar esta distinção. Ela ocorre na união matri­monial, na qual homem e mulher se vinculam por um amor que é simulta­neamente de cobiça e de benevolência. Aliás o próprio Deus na Bíblia faz as vezes de Esposo, que requer da sua plebe amada total fidelidade, prometendo-lhe em troca a consumação. "A relação de Deus com Israel é ilustrada através das metáforas do noivado e do matrimônio; conse­qüentemente a idolatria é adultério e prostituição" (n° 7).

Jesus Cristo é esse amor de Deus encarnado, que se apresenta sob a imagem do pai que corre ao encontro do filho pródigo e o recoloca na mesa da família, dando-lhe o seu Corpo e o seu Sangue como alimen­to na Eucaristia.

1.4. Amor ao próximo

Esse amor de Deus e a Deus deve expandir-se no amor ao próxi­mo. Na verdade, como pode amar o Deus invisível o cristão que não ama o próximo que ele vê? O amor ao próximo não é um ato sentimental e volúvel, mas é a expressão do intelecto e da vontade, que se conser­vam iguais a si mesmos através de eventuais dissabores, pois tal é o amor de Deus às suas criaturas. Assim se chega à segunda parte da Encíclica.

 

PARTE II: A PRÁTICA DO AMOR PELA IGREJA

De quanto foi dito até aqui depreende-se que a Igreja deve praticar o amor, manifestando a ação do Espírito Santo, que nela vive.

11.1. Um pouco de história

Desde as suas origens os cristãos procuraram ser fiéis a este de­ver, como atesta a escolha dos sete primeiros diáconos (cf. At 7, 1-6). Eram destinados a atender às necessidades de irmãos menos aquinhoados. Os antigos escritores da Igreja referem-se a variadas inici­ativas empreendidas pelos bispos para aliviar o sofrimento dos irmãos, pois a Igreja é a família de Deus no mundo, família na qual não deve haver quem sofra a carência do necessário. Todavia a caridade-agape deve estender-se a todo indivíduo que dela precise, como ensina a pará­bola do bom Samaritano (cf. Lc 10, 29-37).

Com o tempo a Igreja, através de suas dioceses e seus mosteiros, criou uma vasta rede de obras hospitalares, educativas, profissionalizantes, que por vezes é tida como defasada, pois o Estado tem assumido a assistência aos pobres, que - note-se bem - mais preci­sam do anzol auto-suficiente do que da esmola do peixe. A esta objeção cabe responder lembrando que a ação promocional do Estado jamais porá fim a necessidades prementes para as quais somente a esmola é a solução, como demonstra a experiência.

Neste percurso histórico são citadas as Encíclicas sociais dos Pa­pas desde Leão XIII (1891) até João Paulo II (1991). São documentos que visam a conciliar entre si justiça e caridade na organização da socie­dade, propondo assim a Doutrina Social da Igreja, inspirada pelas duas seguintes normas:

-   a justiça, indispensável para garantir os direitos de cada um; vem a ser o objetivo de toda a Política. A Fé assume os ditames da justiça;

-   o amor será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa.

Trabalhar pelas justas estruturas da sociedade não compete dire­tamente à Igreja, que todavia oferece aos políticos a sua doutrina social. O que toca diretamente à Igreja é a prática da caridade, que, para ser bem desempenhada, requer o recurso aos meios de comunicação soci­al, fator de solidariedade entre os homens.

 

11.2. Noções complementares

Dito isto, segue-se a pergunta: Qual seria o perfil específico da atividade caritativa da Igreja? - O Papa responde indicando três notas:

a) A caridade cristã está voltada para toda e qualquer criatura hu­mana, independentemente de Credo, raça, sexo, idade...

b) A caridade é independente de Partidos políticos e ideologias. O programa do cristão é ser "um coração que vê".

c)  A caridade cristã está isenta de qualquer intenção proselitista, ou seja, não visa a ganhar adeptos para a Igreja em troca de benefícios outorgados.

Concatenando idéias, o Papa se dirige aos responsáveis da ação caritativa da Igreja, propondo-lhes uma palavra de estímulo frente às di­ficuldades que surjam na execução da sua tarefa. Meditem no hino a Caridade ágape de 1 Cor 13, 1-13. E saibam recorrer à oração para supe­rar os problemas encontrados. A importância desta advertência é tamanha que vai, a seguir, transcrita na íntegra:

"36. O contato vivo com Cristo é a ajuda decisiva para prosseguir pela justa entrada: nem cair numa soberba que despreza o homem e, na realidade, nada constrói, antes até destrói; nem abandonar-se à resigna­ção que impediria de deixar-se guiar pelo amor e, deste modo, servir ao homem. A oração, como meio para haurir continuamente força de Cristo, torna-se- aqui uma urgência inteiramente concreta. Quem reza não des­perdiça o seu tempo, mesmo quando a situação apresenta todas as ca­racterísticas duma emergência e parece impelir unicamente para a ação. A piedade não afrouxa a luta contra a pobreza ou mesmo contra a miséria do próximo. A Beata Teresa de Calcutá é um exemplo evidentíssimo do fato de que o tempo dedicado a Deus na oração não só não lesa a eficá­cia nem a operosidade do amor ao próximo, mas é realmente a sua fonte inexaurível. Na sua carta para a Quaresma de 1996, esta Beata escrevia aos seus colaboradores leigos: 'Nós precisamos desta união íntima com Deus na nossa vida quotidiana. E como poderemos obtê-la? Através da oração'.

37. Chegou o momento de reafirmar a importância da oração face ao ativismo e ao secularismo que ameaça muitos cristãos empenhados no trabalho caritativo. Obviamente o cristão que reza, não pretende mu­dar os planos de Deus nem corrigir o que Deus previu; procura, antes, o encontro com o Pai de Jesus Cristo, pedindo-Lhe que esteja presente, com o conforto do seu Espírito, nele e na sua obra. A familiaridade com o Deus pessoal e o abandono à sua vontade impedem a degradação do homem, salvam-no da prisão de doutrinas fanáticas e terroristas. Um comportamento autenticamente religioso evita que o homem se arvore em juiz de Deus, acusando-0 de permitir a miséria sem sentir compaixão pelas suas criaturas. Mas, quem pretender lutar contra Deus tomando como ponto de apoio o interesse do homem, sobre quem poderá contar quando a ação humana se demonstrar impotente?

38. É certo que pôde lamentar-se com Deus pelo sofrimento, incompreensível e aparentemente injustificado, presente no mundo. As­sim se exprime ele na sua dor: 'Oh! Se pudesse encontrá-Lo e chegar até ao seu próprio trono! (...) Saberia o que Ele iria responder-me e ouviria o que Ele teria para me dizer. Oporia Ele contra mim o seu grande poder? (...) Por isso, a sua presença me atemoriza; contemplo-O e tremo diante d'Ele. Deus enervou o meu coração, o Omnipotente encheu-me de terror' (23, 3.5-6. 15-16). Muitas vezes não nos é concedido saber o motivo pelo qual Deus retém o seu braço, em vez de intervir. Aliás Ele não nos impe­de sequer de gritar, como Jesus na cruz: 'Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?' (Mt 27, 46). Num diálogo orante, havemos de lançar-Lhe em rosto esta pergunta: 'Até quando esperarás, Senhor, Tu que és santo e verdadeiro?' (Ap 6, 10). Santo Agostinho dá a este nosso sofri­mento a resposta da fé: 'Si comprehendis, non est Deus - se O compre­endesses, não seria Deus'. O nosso protesto não quer desafiar a Deus, nem insinuar n'Ele a presença de erro, fraqueza ou indiferença. Para o crente, não é possível pensar que Ele seja impotente, ou então que 'este­ja a dormir' (cf. 1Rs 18, 27). Antes, na verdade é que até mesmo o nosso clamor constitui, como na boca de Jesus na cruz, o modo extremo e mais profundo de afirmar a nossa fé no seu poder soberano. Na realidade, os cristãos continuam a crer, não obstante todas as incompreensões e con­fusões do mundo circunstante, 'na bondade de Deus e no seu amor pelos homens' (Tt 3, 4). Apesar de estarem imersos como os outros homens na complexidade dramática das vicissitudes da história, eles permanecem inabaláveis na certeza de que Deus é Pai e nos ama, ainda que o seu silêncio seja incompreensível para nós".

Segue-se uma palavra de incentivo: "O amor é possível e nós so­mos capazes de o praticar, porque criados à imagem de Deus. Viver o amor e, deste modo, fazer entrar a luz de Deus no mundo: tal é o convite que vos queria deixar com a presente Encíclica" (n° 39).

 

4. Conclusão

Em sua CONCLUSÃO o Papa cita os Santos como testemunhas de que a caridade é possível. Lembra São Vicente de Paulo; Santa Luisa de Marillac; São José Cottolengo, São João Bosco, Dom Luís Orione, Madre Teresa de Calcutá. E termina com uma oração a Maria SSma.

A Encíclica merece ser lida com especial atenção. Exprime o teólo­go aprofundado e culto que sabe escrever belas páginas.



[1] Palavra paroxítona em grego; proparoxítona em português.

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