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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 398 – julho 1995

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O Livro de Q:

 

"O EVANGELHO PERDIDO"

por Burton L. Mack

Em síntese: Burton L Mack procura reconstituir urna hipotética fonte dos Evangelhos Sinóticos, que constaria apenas de sentenças de Jesus (sem referência a feitos e ao fim de vida de Cristo); é dita 'fonte Q" (de Quelle, fonte, em alemão). Segundo essa fonte, recomposta a partir dos discursos de Jesus em Mt, Mc e Le, Jesus terá sido um Sócrates judeu ou um mestre de bons costumes, sem querer romper com o povo judeu. Os seus discípulos nem eram cristãos, diz Mack.

Os seguidores desse Jesus terão construído a imagem do Senhor Jesus Cristo como se acha em Mt, Mc e Lc. assumindo mitos do paganismo. Assim teve origem o Cristianismo, dizem os críticos que seguem Burton L. Mack.

A tese do livro em foco é extremamente frágil e hipotética, sem fundamento sólido no texto bíblico e em textos extra-bíblicos, pois se baseia em preconceitos não provados. A leitura dos livros mesmos do Novo Testamento permite evidenciar a inconsistência das hipóteses, como se depreende da leitura do artigo que se segue.

* * *

 

Burton L Mack é professor de S. Escritura do Novo Testamento, da Faculdade de Teologia de Clarernont (U.S.A.) e autor do livro A Myth of Innocence (Um Mito de Inocência). Publicou a obra The Lost Gospel em 1993, obra traduzida para o português por Sérgio Alcides e publicada na coleção Bereshit da Editora Imago (Rio de Janeiro). É obra extremamente revolucionária, construída, porém, sobre hipóteses e preconceitos que lhe tiram a seriedade científica, como se poderá averiguar após atento estudo de seus dizeres.

 

1. O CONTEÚDO DO LIVRO

Vejamos, antes do mais,

1.1. A tese do autor

O autor julga poder reconstituir uma hipotética fonte (Quelle, em alemão) dos relatos de Mateus, Marcos e Lucas. Essa fonte ter-se-á perdido, mas os críticos, entre os quais Burton L. Mack, afirmam ter restaurado o seu conteúdo: conteria apenas sentenças de Jesus, e não dados biográficos. As conclusões de Burton L. Mack são assim expressas na quarta capa do livro:

"O estudo de Q (=Quelle) revela que Jesus foi mitificado como o Salvador dos evangelhos do Novo Testamento com fins religiosos e até políticos. O Livro de Q nos conta enfaticamente que os primeiros seguidores de Jesus não o consideravam filho de Deus nem acreditavam que ele tivesse ressuscitado depois de morto. Em vez disso, eles o viam como um Sócrates judeu - mestre e líder contracultural.

 

As implicações do Livro de Q são sensacionais e controversas:

 

Os seguidores de Q não entendiam os ensinamentos de Jesus como uma acusação ao judaísmo. Eles não achavam que Jesus fosse o Messias ou Cristo, e muito menos um deus. Eles não criaram um culto a Cristo. Na verdade, eles nem eram cristãos".

 

Segundo B. L. Mack, o Cristianismo se originou porque às idéias do Sócrates judeu chamado Jesus foram associadas concepções pagãs mitológicas, de modo que o Cristianismo é mitologia sob a capa de história. Entre outras passagens, eis uma das mais significativas:

"Explosão de imaginação coletiva é sinal de mudança, e foi justamente isso que o primeiro século cristão vivenciou. Essa explosão manifesta o clima de incerteza da época e registra a grande concentração de energia humana e atividade intelectual na produção de mitos. Os cristãos não eram o único grupo que estava criando novos mitos. A literatura da época é famosa por seus mundos fantásticos e pela exploração de figuras lendárias. Foram os cristãos, contudo, que elaboraram a mitologia que a cultura ocidental acabou aceitando para si própria...

O mito concentrava-se na importância de Jesus como o fundador dos movimentos, congregações e instituições que os cristãos estavam formando. Assim a história e o mito fundiam-se numa caracterização única, e os mitos de origem eram escritos e imaginados como se de fato tivessem acontecido num passado recente, num lugar específico. Os cristãos dos séculos II, III e IV notaram com inquietação a semelhança entre seus mitos e as mitologias grega e judaica. Eles só conseguiram se afastar dessas outras culturas e distinguir sua própria mitologia enfatizando a recente conformação histórica de seus mitos e a impressão deixada pelos evangelhos narrativos de que esses mitos realmente aconteceram" (p. 199).

 

Examinemos agora alguns pormenores da tese:

1.2. Considerando mais atentamente...

A hipótese de que existiu uma fonte (Quelle) donde Mateus, Marcos e Lucas tiraram os dizeres de Jesus, se deve ao fato de que os três evangelistas têm em comum muitos sermões de Jesus: o das bem-aventuranças, o da confiança em Deus, o do desapego dos bens materiais, parábolas... Ora afirmam os críticos que esses dizeres de Jesus foram colhidos por Mateus, Marcos e Lucas numa coletânea comum de sentenças do Mestre. Essa coletânea, também chamada Quelle, ter-se-á perdido (daí "o Evangelho perdido"), mas as suas sentenças foram transcritas por Mateus, Marcos e Lucas de modo que pode ser reconstituído o "Evangelho perdido". Em conseqüência Burton L. Mack, na Parte II do seu livro, julga poder apresentar o texto do "Evangelho Perdido"; terá passado por duas redações: o Livro de Q original e o Livro de Q completo, redações que B. L. Mack distingue usando composição tipográfica diferente. Eis um espécimen de Q original (grego traduzido para o português):

"Ele disse: 'A colheita é abundante, mas os trabalhadores são poucos; peçam então ao dono da colheita que envie mais trabalhadores para a sua colheita. Vão. Mas, olhem, estou enviando vocês como cordeiros no meio de lobos.

Não levem dinheiro, nem bolsa, nem sandálias. E não falem com ninguém pelo caminho'(p. 75).

"Em suas orações rezem: Santificado seja seu nome, pai. Que se cumpra o seu domínio. Dê-nos o pão de cada dia. Perdoe nossas dívidas assim como perdoamos nossos devedores. E não nos ponha à prova (= em situação difícil)" (p. 76).

"Ele disse: 'Como é o reino de Deus? A que poderia compará-lo? Ele é como um grão de mostarda que um homem pegou e plantou no quintal. Ele cresceu, tornou-se uma árvore e as aves do céu fizeram ninhos em seus galhos'.

Ele disse ainda: 'O reino de Deus é como o fermento que uma mulher pegou e misturou a três medidas de farinha de modo que toda a massa ficasse fermentada'" (p. 78).

São Paulo terá sido um dos grandes responsáveis pela introdução de mitos pagãos na mensagem de Jesus. Assim "os movimentos de Jesus (= Sócrates) tornaram-se as congregações de Cristo", a Igreja organizada, com toda a mística que as epístolas paulinas sugerem; cf. p. 212.

O livro de Q terá desaparecido porque os Evangelhos de Mateus e Lucas passaram a contar uma história mais interessante, colocando Jesus na crista dos acontecimentos; as instruções contidas em Q já não bastavam para o tipo de pregação que os cristãos exerciam. "Q foi relegado por mitologias posteriores, que não tinham espaço para seu enfoque particular sobre a autoridade de Jesus" (p. 223).

Quanto ao Evangelho de João, tem características gnósticas (1), que o aproximam do apócrifo Evangelho de Tomé. "João retratou Jesus como a manifestação do filho de Deus vindo dos domínios da luz, a própria expressão de Deus que criou o mundo, mas que repetidamente fracassou em obter reconhecimento até o surgimento de Jesus" (p. 214).

Ditas estas coisas, o autor divaga ainda longamente sobre as possíveis modalidades das sentenças originárias de Jesus, sobre os fatores que terão provocado a adoção de concepções mitológicas entre os discípulos do Mestre, sobre o papel dos bispos na formação do catálogo bíblico,... jogando com hipóteses e hipóteses que Burton L. Mack apresenta como se fossem proposições seguras.

 

A conclusão do livro soa do seguinte modo:

"Se os cristãos reconhecerem seu evangelho como mito, outros povos poderão achar possível conversar conosco sobre isso. E nós, cristãos, poderemos achar possível fazer alguma contribuição à urgente tarefa de crítica cultural onde ela parece mais importante: a compreensão das conseqüências sociais da mitologia cristã" (p. 246s).

Como se vê, o autor, reduzindo o Evangelho a mitos, julga que assim o povo cristão se põe em condições de dialogar com povos não cristãos, também criadores de mitos; o diálogo que daí resultará, poderá redundar em benefício da sociedade.

A esta altura talvez alguém diga: pobre e magra conclusão!

Pergunta-se agora:

2. QUE DIZER?

Quatro pontos nos parecem merecer especial atenção.

2.1. A hipótese Q

A hipótese de que os Evangelhos Sinóticos (Mt, Mc e Lc) dependem de duas fontes, já data do século passado: uma dessas fontes seria uma coletânea de sentenças de Jesus, chamada propriamente Quelle (= fonte, em alemão, donde Q); a outra seria um compêndio de façanhas de Jesus, que alguns identificam com o núcleo inicial de S. Marcos. Todavia os críticos mais antigos não viam hiato entre a fonte Q e o texto canônico do Evangelho; não viam por que admitir na fonte Q um Jesus-Sócrates diferente do Jesus-Messias e Salvador encontrado nos Sinóticos. Ademais é de notar que a existência mesma da fonte Q é hipotética; mais hipotético ainda é o seu caráter não cristão apregoado por B. Mack.

 

1 O gnosticismo é uma corrente de pensamento dualista, que opunha entre si matéria (má) e espírito (bom) e julgava haver doutrinas secretas reservadas aos iniciados.

Aliás, a hipótese de que a coletânea Q só incluía sentenças de Jesus, sem mencionar os feitos, a Paixão e a Ressurreição do Senhor, não quer dizer que os supostos autores da coleção não conhecessem o desfecho cruento da pregação de Jesus. O propósito desses compiladores terá sido apenas o de oferecer aos primeiros cristãos uma súmula de sentenças do Mestre, sem pretender entrar em traços biográficos. - Existem obras semelhantes referentes a autores modernos, entre as quais uma coletânea de dizeres de Gandhi (ed. Cidade Nova, São Paulo), a qual não significa em absoluto que Gandhi não tenha morrido assassinado. Antologias de autores clássicos (Alexandre Herculano, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Gonçalves Dias...) são usuais em nossas escolas; contêm apenas trechos seletos, sem pretender negar algo da biografia dos respectivos autores.

 

2.2. O Progresso da Papirologia

A hipótese Q tem que ser revista à luz das descobertas recentes de papiros, que mais e mais aproximam de Jesus a redação dos Evangelhos. Como observamos às pp. 290-294 deste fascículo, a identificação de papiros muito antigos leva a crer que a redação dos Evangelhos, como hoje eles são, deve ter começado quando ainda havia testemunhas oculares da vida e dos feitos de Jesus. À p.293 citam-se os papiros do Magdalen College e os de Qumran como testemunhos de muito antiga redação dos Evangelhos. Segundo Burton L. Mack, o livro de Q terá tido vigência e exercido influência durante quarenta anos - o que significa:... até o ano de 70 aproximadamente (1). Ora a papirologia vai levando os estudiosos a recuar sempre para mais perto de Jesus a confecção dos Evangelhos (ou, ao menos, de parte dos Evangelhos).

 

1 Eis o que se lê à p. 228 de Burton L. Mack:

"O livro de Q vai questionar a versão das origens cristãs oferecida pelo Novo Testamento, propondo outra, mais plausível, acerca dos primeiros quarenta anos. O movimento de Jesus é um grupo de pessoas mais verossímil do que os discípulos e os primeiros cristãos retratados pelos evangelhos narrativos. Q fornece uma documentação desse movimento que os evangelhos narrativos não podem fornecer para a ficção congregacional que propõem".

 

2.3. O testemunho de São Paulo

É de notar outrossim o testemunho das epístolas de São Paulo. Embora à. p. 220 Burton L. Mack só reconheça (arbitrariamente) sete delas como genuínas, é notório que foram escritas entre 50/51 e 67. Ora esses documentos evidenciam que, dois decênios após a Ascensão do Senhor, os cristãos professavam elevadas concepções cristológicas, reconhecendo Jesus como o Kyrios (Senhor) ressuscitado, Cabeça do Corpo Místico da Igreja, Redentor dos homens por sua Paixão gloriosa... Essas idéias brotaram imediatamente da consciência dos Apóstolos e discípulos que acompanharam Jesus antes e depois da sua Páscoa final.

De modo particular, seja citado o texto de 1Cor 15,3-8:

3 Transmiti-vos, antes de tudo, aquilo que eu mesmo recebi, a saber, que Cristo morreu por nossos pecados, conforme as Escrituras,

4 e que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia conforme as Escrituras

5 e que apareceu a Cefas, depois aos doze.

6 Posteriormente apareceu de uma vez a mais de quinhentos irmãos, dos quais a maior parte vive até hoje, alguns, porém, já morreram.

7 Depois apareceu a Tiago e, em seguida, a todos os Apóstolos.

8 Por fim, depois de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo".

Estes dizeres são de época muito antiga ou do sexto decênio do século I (56/57); pouco mais de vinte anos apenas os separam da Ascensão de Jesus. Referem-se à pregação que São Paulo realizou em Corinto entre os anos de 50 e 52; nessa época, o Apóstolo entregou aos fiéis os ensinamentos que lhe haviam sido anteriormente entregues.

Aliás, também em 1 Cor 11, 23 afirma o Apóstolo ter transmitido aos coríntios o que lhe fora transmitido, a saber: a mensagem referente à Ceia do Senhor.

E quando recebeu Paulo tais ensinamentos?

Ou por ocasião da sua conversão, que se deu aproximadamente no ano de 35, ou no ensejo de sua visita a Jerusalém, que teve lugar em 38, ou, ao mais tardar, por volta do ano de 40.

Observe-se agora o estilo do texto de 1Cor 15, 3-8: as frases são curtas, incisivas, dispostas segundo um paralelismo que lhes comunica um ritmo notável. Abstração feita dos vv. 6 e 8, dir-se-ia que se trata de fórmulas estereotípicas, forjadas pelo ensinamento oral e destinadas a ser freqüentemente repetidas. Nesses versículos encontram-se várias expressões que não ocorrem em outras cartas de São Paulo: assim "conforme as Escrituras", "no terceiro dia", "aos doze", "apareceu" (expressão que só ocorre sob a pena de São Paulo num hino citado pelo Apóstolo em 1Tm 3, 16).

Estas indicações dão a ver que São Paulo em 1Cor 15, 3-8 reproduz uma fórmula de fé que ele mesmo recebeu já definitivamente redigida poucos anos (dois, cinco, oito anos?) após a Ascensão do Senhor Jesus. O v. 6, quebrando o ritmo do conjunto, talvez tenha sido introduzido posteriormente; quanto ao v. 8, é por certo uma notícia pessoal que São Paulo acrescenta ao bloco.

Vê-se, pois, que desde os primeiros anos da pregação do Evangelho já existia entre os fiéis uma profissão de fé na ressurreição de Cristo formulada em frases breves e pregnantes; tais frases eram transmitidas como expressões exatas da mensagem dos Apóstolos.

Ora essa fórmula de fé antiquíssima professa a ressurreição corpórea de Cristo como realidade histórica. Para a comprovar, havia testemunhas oculares, das quais, diz São Paulo, muitas ainda viviam vinte e poucos anos após a ressurreição do Senhor.

Tal depoimento de primeira hora, concebido e transmitido pelos discípulos imediatos do Senhor, já seria argumento suficiente para remover qualquer teoria tendente a desvirtuar a fé na ressurreição corporal de Cristo. Esta fé não surgiu tardiamente na história das primeiras comunidades cristãs, mas é o eco direto da missão de Cristo acompanhada dia a dia pelos Apóstolos.

Assim vemos como é errôneo admitir um hiato entre Jesus (tido como mero "Sócrates judeu") e o Cristianismo; este, com toda a riqueza de seu pensamento e sua Mística, já se acha contido no âmago da consciência dos primeiros discípulos, convictos da grandeza de Jesus após a ressurreição do Mestre e Pentecostes.

2.4. Mito e Logos

Ainda mais carece de fundamento a hipótese de que os discípulos de Jesus tenham assumido mitos do paganismo para ilustrar a figura e a obra de Jesus. Com efeito; sabemos que os judeus eram totalmente avessos aos pagãos, que eles consideravam imundos e que os oprimiam politicamente desde o século VI a. C, suscitando o ódio dos judeus; o monoteísmo de Israel caracterizava esse povo, tornando-o um quisto quando disperso entre pagãos, e o impermeabilizava à mitologia pagã. Quanto aos cristãos, sabe-se que morreram mártires até 313 para não trair sua em um só Deus e no Evangelho; foram boicotados e perseguidos, mas guardaram intacta a mensagem religiosa que professavam, avessa aos mitos. Em conseqüência, toma-se irreal a hipótese de adoção de crenças pagãs por parte dos discípulos de Jesus. São Paulo mesmo, em 1Cor 1-2, faz a antítese entre a sabedoria deste mundo e a sabedoria do Evangelho, que é a da Cruz; em 2Cor 6,15s diz ainda o apóstolo: "Que acordo há entre Cristo e Beliar? Que relação entre o templo de Deus e os ídolos?". Isto bem mostra que o Apóstolo, escrevendo em 57, tinha nítida consciência de que o Cristianismo nada tem que ver com o paganismo.

Mais: os Apóstolos, em suas cartas, distinguem ciosamente entre mythoi (mitos) e lógos. Sabem que podia haver tentativas de introduzir mitos na pregação cristã, mas alertavam os fiéis contra os mesmos; não eram simplórios a ponto de equiparar a verdade e as "belas histórias" dos mitos. Eis os textos em que São Paulo acautela contra os mitos:

1Tm 1,3s:"... foi para admoestares alguns a não ensinarem outra doutrina, nem se ocuparem com fábulas (mythois) e genealogias sem fim";

1Tm 4,7: "Rejeita as fábulas (mythous) ímpias, coisas de pessoas caducas".

2Tm 4,4: "Desviarão seus ouvidos da verdade, orientando-os para as fábulas (mythous)".

Tt 1,14: "Não dêem ouvidos a fábulas (mythois) judaicas".

Ver também 2Pd 1,16: "Não foi seguindo fábulas (mythous) sutis que vos demos a conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo".

Em contraste, a palavra do Evangelho é dita logos.... como se depreende dos seguintes textos:

 

- a

Palavra

(sem mais) em 1Ts 1,6; 1Pd 3,1; At 4,4; 11,19; Lc 1,2

- a

Palavra

de Deus: At 4,31;

- a

Palavra

da sua graça: At 14,3;

- a

Palavra

da salvação: At 13,26;

- a

Palavra.

... a Boa Nova da paz: At 10,36;

- a

Palavra

da verdade, o Evangelho da vossa salvação: Ef 1,13;

- a

Palavra

da verdade, o Evangelho: Cl 1,5.

Estes textos evidenciam suficientemente a consciência, dos Apóstolos, de que verdade e mito não se identificam. Os pregadores do Evangelho faziam questão de dizer que partiam de fatos históricos realmente ocorridos e não de ficções. Sejam a propósito considerados os textos de

 

1 Cor 11,23: "Eu mesmo recebi do Senhor o que vos transmiti: na noite em que foi entregue..."

1Cor 15,3: "Transmiti-vos, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo recebi: Cristo morreu por nossos pecados..."

Cl 2,6-8: "Assim como recebestes o Cristo Jesus, o Senhor, assim nele andai, arraigados nele, sobre ele edificados, e apoiados na fé, como aprendestes, e transbordando em ação de graças. Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganosas especulações da filosofia, segundo a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo".

Ver ainda 1Cor 11,2; 2Ts2,14s; Fl 4,9; Gl 1, 8-12; 2,2s.

Passemos a breve

3. CONCLUSÃO

Burton L. Mack é movido por preconceitos e apresenta hipóteses frágeis e artificiais para estabelecer um corte entre o Jesus real e o Jesus concebido pelos Evangelistas. É desmentido, porém, por uma leitura atenta dos próprios textos do Novo Testamento, que não somente não dão margem à sua hipótese, mas ainda lhe contradizem, ... desmentido também pela evidência da pesquisa empírica ou da papirologia.

O livro pode causar impressão, com suas 265 páginas e seu esforço de construir hipóteses, mas não merece o assentimento de quem estuda seriamente o Novo Testamento.


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