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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 377 – outubro 1993

Mundo Atual

Tendência forte:

A PRIVATIZAÇÃO DA FÉ

 

Em síntese: A privatização da fé é a atitude de quem professa Jesus Cristo, mas não freqüenta a Igreja. Pode ter diversos motivos, entre os quais se salienta a dificuldade de aceitar uma instituição com suas normas jurídicas; a mentalidade subjetivista de nossos dias alimenta tal dificuldade.

 

Em resposta deve-se lembrar que ser cristão não é simplesmente crer em Deus, mas é crer em Deus como Jesus O revelou. O Senhor Jesus se apresentou como o Mediador da definitiva Aliança entre Deus e os homens; Ele veio fazer uma convocação (ek-klesía) dos homens dispersos, reunindo-os num só povo, o povo de Deus. Esse povo é mais do que a soma de seus membros; é Sacramento, visto que Jesus prometeu estar em sua Igreja e continuar por Ela a sua obra redentora até o fim dos tempos: "Ide e fazei que todas as nações se tornem discípulos. Eis que estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos" (Mt 28,19s). Pela Igreja passa a vida de Cristo em favor de quem a Ela adere, sem que a fragilidade dos homens da Igreja possa impedir a ação redentora de Cristo no sacramento da Igreja. Por conseguinte. Cristo e Igreja são inseparáveis um do outro. A privatização da fé só pode resultar da ignorância da autêntica índole do Cristianismo.

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O jornal "O Estado de São Paulo", em seu Caderno Especial de 13/06/93, pp. 3 e 4 publicou interessante noticiário sobre a Religião no mundo atual. Registrava a profissão de fé em Deus e em Jesus Cristo por parte de numerosos segmentos da população da Alemanha, Inglaterra, Itália, Holanda, Estados Unidos, Nova Zelândia, Polônia, Eslovênia, Irlanda, Hungria, Noruega, Israel. Assim, por exemplo, nos Estados Unidos 90% das pessoas entrevistadas disseram crer em Deus.

 

Ocorre, porém, o fenômeno da privatização da fé, ou seja, da não freqüência à Igreja. A fé se torna um assunto meramente pessoal, sem expressões comunitárias. Visto que o fato tende a se alastrar mesmo entre os católicos, as páginas seguintes o abordarão, tocando o âmago da questão.

 

1. PRIVATIZAÇÃO DA FÉ: POR QUE?

 

A existência de muitas pessoas que crêem em Deus e em Jesus Cristo, mas não vão à Igreja, tem suas causas, que vamos procurar catalogar:

1)   Migrações. O fenômeno de pessoas que deixam seu torrão natal para estudar ou trabalhar longe daí, cada vez mais freqüente. Ora acontece facilmente que tais pessoas, ao deixarem seu ambiente de origem, deixam também muitos de seus costumes; sentem-se desarraigadas e dispostas a ser absorvidas pelo novo mundo em que passam a viver,... mundo de megalópole, materializado ou absorvido pelas conquistas materiais. Abandonam então sua prática religiosa e "privatizam" sua fé, reduzindo-a a um sentimento íntimo.

2)   Moral Católica. Para quem vive na grande cidade, o motivo da privatização deve ser outro: consiste, muitas vezes, na recusa de certas normas da Moral Católica, que a Igreja professa: o Não ao divórcio, ao aborto, ao homossexualismo, às relações extra-conjugais... é a antítesis do que a sociedade de hoje aceita e pratica... Isto torna a Moral Católica difícil, mas, sem dúvida, garantia e tutora dos verdadeiros valores humanos. Por não compreenderem este papel benéfico, há quem se afaste da Igreja, embora continue a crer em Jesus Cristo.

3)   Existencialismo e Subjetivismo. Este isolamento religioso pode não causar estranheza, visto que a sociedade contemporânea está impregnada de mentalidade existencialista, alheia à Metafísica e voltada para o eu individual de cada cidadão. O critério dos valores é o eu circunstanciado de cada um (eu e minhas circunstâncias, tu e tuas circunstâncias...). Em questões de Ética, Direito, Religião... é freqüente dizer-se: "Eu acho que... Para mim é assim,..., Cada um na sua verdade, na sua Ética...". Tal subjetivismo é mais cômodo do que a aceitação da vida em comunidade.

4)   A face humana da Igreja. Além do mais, sabe-se que a Igreja tem uma face humana, que é bela ou desfigurada de acordo com as pessoas que a constituem. A fragilidade humana nem sempre corresponde ao ideal, de modo que muitos se afastam da Igreja escandalizados (com ou sem razão) pelo que observaram.

 

Parecem ser estas as principais causas da privatização da fé. Procuremos agora uma resposta para o problema.

 

2. QUE DIZER?

 

As nossas considerações terão em vista a privatização da fé dentro do Cristianismo ou, mais precisamente, dentro do Catolicismo.

 

2.1. Aliança

 

Um cristão não é simplesmente alguém que crê em Deus. Um cristão crê em Deus tal como Jesus O revelou. Jesus se apresentou e comprovou, por seus ditos e feitos, como o Enviado do Pai, Mestre de todos os homens; principalmente a sua ressurreição dentre os mortos é o sinete colocado pelo Pai sobre a pessoa e a obra de Jesus Cristo; cf. 1Cor 15,14.17.

Ora Jesus sempre se situou na linha de uma Aliança entre o Pai e o gênero humano. Essa Aliança interpela pessoalmente cada ser humano... mas cada ser humano situado dentro de um povo. Deus faz Aliança com o povo santo e, porque é membro desse povo santo, cada cristão entra em Aliança com Deus: antes de Jesus Cristo, havia o povo da Antiga Aliança, os judeus; após Jesus Cristo, há o povo da Nova Aliança, a Igreja, cujo nome Ek-klesía, em grego, significa convocação; a Igreja continua o papel do antigo Israel. É por isto que em toda a pregação de Jesus se enfatiza a comunhão dos discípulos entre si dentro de uma sociedade organizada:

 

"Não temais, pequeno rebanho..." (Lc 12,32);

 

"Como o Pai me enviou, assim eu vos envio..." (Jo 2021);

"Tudo o que ligardes sobre a terra, será ligado no céu..." (Mt 18, 18; cf. 16, 19);

"O Espírito Santo... vos ensinará tudo, e vos recordará tudo o que eu vos disse" (Jo 14, 26);

"Simão, Simão,... roguei por ti, a fim de que a tua fé não desfaleça. Quando te converteres, confirma teus irmãos" (Lc 22,31 s);

 

"Simão, apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21,15-17).

 

É muito compreensível o propósito do Pai, visto que o ser humano é, naturalmente, um ser social; só se realiza plenamente em comunidade, tanto no plano meramente racional quanto no plano da fé. Daí dizer o Concílio do Vaticano II:

"Aprouve a Deus santificar e salvar os homens não singularmente, sem conexão de uns com os outros, mas sim constituir um povo que o conhecesse na verdade e santamente lhe servisse" (Constituição Lúmen Gentium n. 9).

 

2.2. Sacramento

 

A Igreja assim constituída, tem uma face humana, mas não é apenas a soma dos homens que a compõem. Dentro dela vive o Cristo. Este comparou-se a um tronco de videira, da qual somos os ramos; isto quer dizer que há uma comunhão de vida entre Cristo e seus discípulos ou sua Igreja. Por meio do sinal humano da Igreja, o Cristo exerce a sua ação santificadora em favor dos homens. É o que torna a Igreja um sacramento... ou o Sacramento que prolonga a humanidade de Jesus. Por esta, na terra, o Filho de Deus exerce sua função de arauto da Boa-Nova e restaurador do homem ferido pelo pecado; por sua Igreja Corpo de Cristo estendido através dos séculos Cristo continua a sua missão redentora.

Por conseguinte, a Igreja não é algo de acidental no Cristianismo ou algo que possa ser recomeçado (como se recomeça um partido político); ela tem sua origem no mistério da Encarnação, central no Cristianismo, e, a seu modo, prolonga esse mistério. Cristo e a Igreja são, pois, inseparáveis um do outro. Não há cristão em sentido pleno que não seja membro de Cristo Cabeça do Corpo de Cristo, que é a Igreja. Cristo não é apenas um mestre que tenha deixado uma mensagem a ser estudada e vivenciada em escolas fundadas por homens.

 

Pode-se, portanto, dizer: o não reconhecimento da Igreja decorre da ignorância muito freqüente — do que seja a autêntica natureza do Cristianismo.

 

2.3. E as falhas?

Sem dúvida, existem falhas na Igreja, resultantes das limitações dos homens que a integram. Essas falhas, porém, não extinguem a ação santificadora de Cristo em favor dos membros fiéis da Igreja. Não há pecado humano que impeça Cristo de se dar aos seus no sacramento da Igreja. Ele prometeu aos Apóstolos antes de partir: "Estarei convosco até a consumação dos séculos" (Mt 28,20). Isto significa que Jesus garante sua ação vivificante à sociedade estruturada pelos Apóstolos e seus sucessores, independentemente da virtude desses homens; não é a santidade dos pastores que santifica os fiéis, mas é a santidade de Cristo, que quer passar pelas mãos dos pastores, sem ser diminuída por estes. É de notar que Jesus não disse: "Estarei com os mais santos e zelosos até o fim dos tempos"; se o tivesse dito, estaria condicionando a sua obra redentora à fidelidade dos ministros o que deixaria inseguro o povo de Deus. Cristo quis, ao contrário, dar um sinal objetivo da sua indefectível ação santificadora; esse sinal é a sucessão apostólica, um fato histórico, que pode ser averiguado e comprovado por qualquer observador e que paira acima da oscilante virtude dos homens. Quem, pois, adere à sociedade fundada por Cristo e estruturada pela sucessão apostólica (a Igreja), pode ter a certeza de que entra em comunhão com Cristo, fonte de vida, independentemente da fidelidade ou infidelidade de seus irmãos.

São estas as principais razões pelas quais o Cristianismo é um Sacramento a ser vivido em comunidade, de modo a se excluir a "privatização da fé". Esta, a rigor, é uma aberração derivada da não compreensão do Evangelho e alimentada pelo subjetivismo reinante na sociedade contemporânea.


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