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SUFICIÊNCIA FORMAL E MATERIAL DA ESCRITURA

 

Sola Scriptura: suficiência formal versus material

 

Há uma distinção muito crítica a qual os católicos devem sempre ter em mente quando se discute o tema da Sola Scriptura. Ela determina se a doutrina da Sola Scriptura é verdadeira ou não e consiste em suficiência “material” ou suficiência “formal” da Escritura.

 

Em seu maravilhoso blog, Dr. Michael Liccione teve uma discussão com um professor protestante de teologia sistemática sobre este mesmo assunto. O professor protestante explicou sucintamente a diferença entre os dois entendimentos da Escritura (destaques meus):

 

A diferença aqui é entre um projeto para fazer um prédio, e os tijolos do qual o edifício é feito. A mera suficiência material da Escritura é como uma pilha de tijolos que pode construir qualquer coisa, desde uma catedral até um casebre, mas os próprios tijolos não possuem inteligibilidade inerente (suficiência formal) para uma coisa ou para outra. A inteligibilidade vem de fora dos tijolos. Por outro lado, um projeto é inerentemente inteligível e, portanto, não tem suficiência material, mas formal para criar um edifício específico, quer seja uma catedral, quer seja um casebre.
Em termos de desenvolvimento, a alegação de que as Escrituras são materialmente suficientes presume que a inteligibilidade da Revelação vem de outro lugar que não a própria Escritura. Um magistério definitivo (ou tradição externa) é necessário para decidir o que fazer com os tijolos. Sem o magistério é impossível saber se os tijolos tinham a intenção de ser uma catedral ou um casebre.

 

A distinção aqui faz toda a diferença do mundo. Do ponto de vista protestante, nada menos do que a suficiência formal é aceitável e irá tornar Sola Scriptura impossível. Por outro lado, na visão católica, não há nenhum problema afirmar a suficiência material das Escrituras (i.e. todas as informações necessárias estão, pelo menos, implícita nelas), uma vez que, de modo algum exclui a necessidade do Magistério –mas, na verdade o exige!

 

É importante ter em mente isto porque torna a incumbência dos protestantes em provar a Sola Scriptura da Bíblia mais difícil e desconfortável. Não é suficiente para o protestante apontar para um texto que diz quão bom ou útil ou inspirado a Escritura é, já que a suficiência material de bom grado abarca tudo isso. O protestante deve mostrar que a Escritura formal claramente estabelece a doutrina cristã de tal maneira que nenhum Magistério ou Tradição são necessários; e na verdade tem de mostrar, em primeiro lugar, que o Magistério e a Tradição não existem (ou não vão existir no futuro).

 

Também é importante salientar que a maior parte da Escritura não está escrita, em sentido algum, como um “projeto”, de tal forma que foi o escritor humano inspirado estivesse estabelecendo um tratamento sistemático das doutrinas. Em outras palavras, a Bíblia não foi escrita como um livro de texto ou mesmo um livro de autoajuda “faça você mesmo”. Esta é a maior dificuldade para o protestante que procura provar suficiência formal.

 

Tomemos o exemplo do Batismo: se as Escrituras são formalmente suficientes, elas teriam que expor de uma forma muito sistemática que efeitos o Batismo tem sobre o sujeito, se é necessário, quem pode ser batizado e como se deve batizar. Contrariamente à abordagem formal, o que acontece na vida real e ao longo da história é que os teólogos, sejam protestantes ou católicos, tiveram que “inferir” várias doutrinas do Batismo parte por parte, começando com as referências explícitas, até meras alusões a ele, e então o apoio de doutrinas relacionadas, tudo para chegar às conclusões finais acerca do Batismo. Como todos sabem, não existe tal tratamento sistemático da Escritura sobre esta doutrina – e como todos são igualmente cientes, os protestantes têm divergências sobre cada uma das facetas mencionadas (e.g. se os bebês podem ser batizados).

 

Dado este solidíssimo exemplo contra a noção de formalidade, podemos ter grande confiança de que nenhuma passagem específica ensinará a suficiência formal (uma vez que as Escrituras não podem se contradizer ou errar).

 

Provavelmente o mais famoso – e mais importante – exemplo que contradiz a suficiência formal é toda a heresia em torno da Trindade. Como o apologista católico Dave Armstrong explica: “A Trindade pode ser comprovada a partir da Escritura, de fato (suficiência material), mas a Escritura, apenas como um princípio, não foi formalmente suficiente para evitar a ocorrência da crise ariana. Em outras palavras, o fator decisivo nessas controvérsias foi o apelo à sucessão apostólica e à Tradição, que mostrou que a Igreja sempre foi trinitária”.

 

Outros exemplos (entre muitos) que contradizem a noção de suficiência formal são especialmente aqueles textos que discutem a interpretação da profecia do AT, mostrada pelo NT como tendo sido muitas vezes esquecidos pelos judeus que conheciam o AT muito bem. O Caminho a Emaús (Lc 24,13-27), os bereanos (At 17,1-5.10-12) e Apolo (At 18,24-26) demonstram o problema muito bem.

 

Uma última coisa importante a notar (que apologistas como Mark Shea e Dave Armstrong fazem) é que, quando se afirma a suficiência material das Escrituras, não há “perigo” de “minar” a autoridade das Escrituras ou “subordinar” sua autoridade à Tradição ou ao Magistério – perigo que os protestantes regularmente introduzem em tais discussões. A razão pela qual não existe tal “perigo” entre os católicos é que a suficiência material por natureza significa que a Tradição e o Magistério são necessários para organizar os “tijolos” na ordem certa para formar a estrutura correta. Este “perigo” só pode existir se o protestante puder demonstrar a suficiência formal como verdadeira – e até lá será uma falácia alarmista.

 

Autor: Nicholas Catholic Blog

Fonte: https://pelafecatolica.com/

Original: aqui.

Tradução por Karlos Guedes.


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