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Santos e Místicos

 

Revelações particulares:

 

AS PROMESSAS A SANTA BRÍGIDA

 

Em síntese: As promessas atribuídas a Jesus em colóquio com Santa Brígida são revelações particulares, que não exigem fé, mas po­dem não ser aceitas por quem não veja aí as devidas credenciais. É de notar também que não se conquista a salvação sem contínua vigilância e fidelidade à graça divina.

*    *    *

Estão difundidas entre os fiéis católicos as promessas atribuídas a Jesus em colóquio com Santa Brígida (1302-1373). Sugerem um tipo de piedade que pode ser muito atraente, mas é discutível. A seguir, exami­naremos mais atentamente a questão.

O TEXTO-BASE

Santa Brígida da Suécia (+1373) tornou-se viúva e fundou um mosteiro de monjas cistercienses. Recebeu valiosos dons do Senhor, entre os quais as seguintes promessas:

OS SETE PAI NOSSOS

O divino Salvador revelou a Sta. Brígida ainda a promessa seguin­te: "Sabei que darei 5 graças àqueles que, durante 12 anos, irão rezar sete Pai nossos e Ave Marias em honra do meu precioso sangue[1].

1. Não terão que passar pelo purgatório.

2.  Aceitá-los-ei no Coro dos Mártires como se tivessem derramado o seu sangue pela fé.

3.  Conservarei 3 almas dos seus parentes na graça santificante conforme sua escolha.

 

4.  As almas dos seus parentes até o 4o grau escaparão do inferno.

5.  Um mês antes de sua morte ser-lhes-á dado conhecimento dela.

Se por acaso irão morrer antes dos 12 anos completos, irei julgar como se fossem as condições cumpridas.

Papa Inocêncio X confirmou esta revelação e acrescentou que as almas cumpridoras das condições libertarão cada 6a feira Santa uma alma do purgatorio. A esta devoção, facilmente, se unirá a veneração e o ofe­recimento das santas chagas do nosso Salvador; pois das Suas chagas brotou o precioso Sangue. O Redentor recomendou este exercício à irmã Maria Marta Chambón e lhe deu grandes promessas a respeito deste.

 

QUE DIZER?

Proporemos sete observações:

1)   As promessas a Santa Brígida pertencem ao acervo das revela­ções particulares, revelações que não constituem artigos de fé. Cada cristão está livre para examiná-las; ele as aceitará ou não de acordo com as credenciais - válidas ou não - que justifiquem a fé em cada caso.

2)   Argumenta-se: "O Papa Inocêncio X aprovou a aceitação das promessas a Santa Brígida". Respondemos:

 

a)  A aprovação dada pelo Papa está imprecisamente formulada e deixa dúvidas sobre a autenticidade do pronunciamento de Inocêncio X;

b)  mesmo quando a aprovação é autêntica, ela pode significar ape­nas que o texto aprovado não contém heresia, mas não é a melhor expla­nação do assunto considerado.

 

3)   Voltando-nos agora para o conteúdo das promessas, verifica­mos que se ressentem de imperfeita redação. Com efeito, dão a enten­der que o purgatório é um cárcere e que periodicamente é dada a anistia a algum presidiário (ou alma do purgatório). Esta concepção é falsa; o purgatório é um estado póstumo em que a Misericórdia Divina concede às almas dos fiéis defuntos arrepender-se radicalmente dos seus even­tuais resquícios de pecado. Ninguém pode deixar esse estado sem se ter libertado das escórias do pecado, pois não se pode contemplar Deus face-a-face com resquícios de pecado (sabemos que o pecado, mesmo depois de absolvido, deixa a raiz do pecado profundamente arraigada na alma do penitente). As almas do purgatório querem elas mesmas purifi­car-se das escórias, por um repúdio total ou, com outras palavras, que­rem terminar de preparar sua veste nupcial para entrarem com dignidade na ceia da vida eterna.

4)   Mais: a salvação não pode ser conquistada ou comprada de modo definitivo mediante tal ou tal prática de piedade; ninguém tem cer­teza de estar salvo enquanto peregrina neste mundo. A piedade ajuda a santificação do indivíduo, mas não o dispensa de estar vigilante contra os ataques do mal.

5)   O conteúdo teológico dos escritos de Santa Brígida é tão falho que provocou um debate a respeito nos Concílios de Constança (1414-1418) e Basiléia (1431-1449) e inspirou ao teólogo João Gerson (1363-1429) a redação da obra De probatione spirituum (Sobre o discernimento dos espíritos).

6) Com estas observações não queremos desestimular a piedade. Esta é uma grande virtude e precioso dom de Deus, mas é para desejar que esteja fundamentada sobre bases sólidas, ou seja, na Escritura e na Tradição tais como no-las entrega o magistério da Igreja. Sabiamente diziam os antigos: "Lex orandi lex credendi. - O modo como nós oramos é o modo como cremos". Pelas normas e fórmulas de oração se pode introjetar muito erro teológico.

7) A mais valiosa fonte de confiança do cristão é a premissa de que Deus nos amou primeiro (1Jo 4, 19) e nos ama irreversivelmente apesar de nossas deficiências. Como filhos e filhas de Deus, dirigimo-nos ao Pai numa atitude filial, que ousa tudo esperar, pois sabemos que "Ele quer dar muito mais do que nós ousamos pedir" (Missal Romano).

Na obra CATHOLICISME, vol. II p. 273 escreve o prof. G. Marsot:

"Apesar da aprovação, meramente fantasiosa, dada pelo Papa Inocêncio X, fica bem claro que se trata de uma prática supersticiosa. Se alguém não o percebe, é necessário fazer que o veja"[2]

 

APÊNDICE

QUEM FOI SANTA BRÍGIDA?

A personalidade de Santa Brígida da Suécia, que tanto se projetou na história, merece atenção.

Brígida ou Birgitta nasceu por volta de 1303, de família ligada à Casa Real da Suécia. Tinha cerca de treze anos quando esposou Ulf-Gurdmarson, príncipe de Nericle, com o qual teve oito filhos, entre os quais Santa Catarina da Suécia. Ao regressarem de uma peregrinação a Compostela (Espanha), os dois esposos combinaram entre si entrar cada qual num mosteiro. Ele ingressou na Ordem dos Cistercienses em Alexandria, onde faleceu pouco tempo depois, ou seja, em 1344. Brígida fixou residência perto deste mosteiro, cuja espiritualidade muito a influ­enciou.

Em breve começou a ter Revelações que a tornaram famosa ou uma quase profetisa, que censurava os maus costumes da sociedade e principalmente se empenhava, juntamente com Santa Catarina de Sena, pela volta dos Papas de Avinhão para Roma.

Em 1363 aproximadamente, fundou a Ordem de São Salvador em Linkoepling (Suécia), cuja Regra foi aprovada por Urbano X em 1370. Em 1371 foi em peregrinação à Terra Santa com sua filha Catarina. Ao voltarem, foram residir em Roma, onde Brígida veio a falecer em 1373. Foi canonizada pelo Papa Bonifácio IX em 1391.

Brígida deixou oito livros de Revelações ditadas em língua sueca a secretários. O texto foi traduzido para o latim e finalmente repartido em livros. Desta maneira foi assaz remanejado, dando lugar a possíveis alte­rações do pensamento original da Santa. Julga-se, porém, que de modo geral foi guardada fidelidade aos originais. Essas Revelações descre­vem, de maneira muito viva, cenas da Paixão do Senhor assim como os acontecimentos finais da história. O purgatório aí aparece terrificante. Refletem o modo de pensar da época: Dionísio Areopagita (At 17, 33) terá sido feito Bispo de Paris; São Pedro terá tido uma filha chamada Petronilha, a comunidade cristã de Roma é tão benemérita que a cada dia do ano celebra a memória de 7.000 mártires; os presbíteros que caem na heresia perdem a faculdade de consagrar a Eucaristia, os sacerdotes infiéis perdem a faculdade de absolver os penitentes, a pedido do Papa S. Gregório Magno, o imperador Trajano terá sido retirado do inferno e introduzido na bem-aventurança celeste (como pensava Dante Alighieri); se as crianças nascessem em estado de inocência, atingiriam logo a es­tatura de adultos. Em suma, tem-se a impressão de que Brígida, ou seus tradutores, colocaram nessas Revelações um tanto das suas próprias concepções.

Frente às Revelações manifestaram-se logo o apoio de uns e a discórdia de outros. Os Concílios de Constança (1414-18) e de Basiléia (1431-49) examinaram esses escritos, a ponto que em Basiléia houve teólogos que pediram a condenação de 123 artigos extraídos dessas obras. A condenação, porém, foi evitada por obra do frade dominicano João de Torquemada. Tal era o prestígio de que gozava Sta. Brígida.



[1] E porque tantas orações durante 12 anos?- Respondem que o número de orações deve igualar o de gotas de sangue derramadas por Jesus desde que nasceu até morrer: 61.382 gotas! (N.d.R.).

[2] Outro fato significativo: A partir do século XVI circula uma coletânea de quinze orações referentes à Paixão do Senhor Jesus, atribuída a Sta. Brígida da Suécia. O texto é piedoso, mas é utilizado de maneira singular. Com efeito, o prólogo dessa coletânea diz que Jesus trazia 5.460 chagas e, por isto, se devem recitar diariamente as quinze orações, acompanhadas de quinze Pai Nosso e quinze Ave Maria, de tal modo que ao cabo de um ano tenham sido recitadas 5.460 orações (15 x 365?); seriam tantas orações quantas chagas. Em recompensa quinze pessoas da família do(a) orante seriam libertadas do purgatório, quinze pecadores se converteriam, quinze almas justas seriam confirmadas na graça. Os lugares em que tais orações fossem recitadas seriam preservados de incêndio e enchentes. - Pois bem; tal prática, su­persticiosa como é, foi explicitamente condenada pelo Santo Ofício mediante decreto datado de 30 de junho de 1671. Está proibida a divulgação da coletânea a não ser que se omita o prólogo.

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