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O CLAUSTRO e a CIDADELA

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 066 – Junho de 1963

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

«Tem causado sensação o livro 'O Claustro e a Cidadela' de Brigid Knight (Editora Ciütrix 1962).

Pretende narrar a história da princesa Carlota de Bourbon, que no séc. XVI foi coagida por seus genitores a abraçar a vida claustral em Jouarre, mas finalmente deixou o mosteiro e a fé católica, para se casar com o príncipe Guilherme de Orange (Holanda).

Tal episódio aparece como um dos 'escândalos' da história da Igreja. Que pensar a respeito?»

 

Desenvolveremos em duas etapas a resposta, considerando primeiramente o livro de Brigid Knight em si; depois, a dúvida religiosa que ele desperta na mente do leitor.

 

1. «O Claustro e a Cidadela»

 

Pouca coisa de fonte segura se sabe a respeito de Da. Carlota de Bourbon, princesa francesa do séc. XVI.

A escritora inglesa Brigid Knight pesquisou em bibliotecas e arquivos a exígua documentação referente ao assunto; selecionou narrativas, preencheu as lacunas recorrendo a hipóteses, e assim teceu um enredo cuja heroína é Da. Carlota de Bourbon. O livro daí resultante, como diz a própria Brigid Knight, «não tem a pretensão de ser uma biografia... São muito escassas as fontes... Por conseguinte, é forçoso recorrer a puras conjeturas... Interpretei a moral da situação em Jouarre sob meu próprio ponto de vista... Parece que meu juízo se adapta às provas; não alcancei necessariamente, contudo, a resposta exata» (pág. 7s).

 

Referindo-se especialmente a certa «Irmã Maria Clara» introduzida na trama da narrativa, observa ainda Brigid: «A Irmã Maria Clara é personagem imaginário, e todo incidente em que ela exerce um papel é também pura ficção... Todos os incidentes relacionados à freira Maria Clara são pura invenção; mas tive que lançar mão desse recurso para preencher uma das maiores lacunas na história da vida de Carlota de Bourbon» (pág. 218).

 

Estas advertências significam claramente que não se deve atribuir valor histórico a todo e qualquer episódio relatado pela escritora inglesa; esta elaborou uma espécie de romance com fundo histórico (aliás, tal é o título da coleção literária a que pertence a obra: «Romances históricos Cultrix»). Vamos, pois, reproduzir ligeiramente as principais linhas desse romance, para depois analisar o cerne de episódios históricos que foram de tal modo ornamentados.

 

Carlota de Bourbon, educada dentro das mais puras normas do Catolicismo, aos doze anos de idade foi por seus pais levada à Abadia beneditina de Jouarre (França), onde a obrigaram a tomar o véu de monja. Mais ainda: vindo a morrer a Abadessa tía comunidade, Carlota foi, a contragosto seu, investida das funções de Abadessa. A Jovem, porém, se sentia sufocada na clausura e sonhava com a fuga. Já que não aguentava mais, negociou com terras do mosteiro de modo a captar a benevolência de senhores nobres das vizinhanças. Estes, a seguir, ajudaram-na a escapar definitivamente do cenóbio para Heidelberg (Alemanha), quando tinha dezoito anos de idade. Carlota abandonou então o Catolicismo para professar o Calvinismo, e tornou-se a terceira esposa de Guilherme de Qrange, dito «o Taciturno», herói nacional holandês. Dedicou o resto de sua existência à promoção dos interesses do marido, qual esposa fiel e feliz; o seu teor de vida virtuosa desmentiu as calúnias que, a seu tempo, se espalhavam pela Europa. Finalmente em 1582 faleceu, estimada por todos — parentes, amigos e cidadãos holandeses.

 

Brigid Knight esforça-se por apresentar de modo simpático a heroína do enredo. Esta, aliás, lhe apareceu, através de suas pesquisas, qual «mulher de extraordinário interesse humano,... despojada das afetações de sua época, encantadora em sua sinceridade,... devotada aos deveres...» (cf. pág. 7). Junto a Da. Carlota de Bourbon, entram em cena, no mesmo livro, católicos de mentalidade e conduta frívolas, a representar papel pouco simpático. Destarte a leitura do livro comunica insensivelmente ao leitor uma impressão pouco atraente, mesmo pejorativa, do Catolicismo.

 

Compreende-se então a pergunta: que pode haver de histórico e real no fundo do enredo narrado por Brigid Knight?

É o que procuraremos explanar no parágrafo abaixo.

 

 

2. Fatos históricos

 

Carlota de Bourbon abandonou o mosteiro na qualidade de Abadessa ou Superiora da comunidade e casou-se... Ora este feito que, à primeira vista, provocou, e provoca, escândalo, não se deveria, conforme insinua Brigid Knight, atribuir à culpa ou infidelidade da monja, mas, sim, às deficiências do Catolicismo, das quais a infeliz monja terá sido mera vítima.

 

Houve realmente tais deficiências na história da Igreja do séc. XVI?

 

Deficiências..., houve-as, como as há em tudo que é humano, de qualquer época que seja. Exporemos essas falhas, lembrando desde já que não afetam a santidade da Igreja; esta não vale apenas o que seus filhos valem, mas a Igreja é o próprio Cristo vivo e prolongado, cuja santidade indefectível se afirma através da miséria mesma dos homens.

 

O enredo descrito por Brigid Knight nos leva ao ambiente de um mosteiro do séc. XVI. Que há de curioso nesse ambiente?

Entre outras coisas, interessam-nos as seguintes:

 

a) A Regra monástica, desde os seus inícios (séc. VI); admitia dois modos de se agregar novo membro a uma comunidade religiosa: a profissão e a oblação.

 

Pela profissão, o candidato ou a candidata, em idade adulta e plenamente responsável, emitia os votos de estabilidade, conversão dos costumes e obediência.

Pela oblação, ao contrário, não era o candidato que se entregava a Deus de maneira espontânea, mas eram os genitores que consagravam seu filhinho ou sua filhinha, de menor idade, fazendo a oblação (ou oferta) da criança, a fim de que esta vivesse na casa do Senhor, como monge ou monja, por todo o resto da vida. A oferta era redigida em documento, ao qual, em certos lugares e épocas, se atribuía valor definitivo e irrevogável; assim, por exemplo, legislava o concilio regional de Toledo (Espanha) em 633:

«Monachum aut paterna devotio aut própria proíessio íacit. — O monge é constituído ou pela devoção de seus pais ou pela sua própria profissão».

 

Em 817, porém, o concilio de Aquisgrano (França) exigia que a criança, chegando à idade da razão, reafirmasse a entrega de si mesma outrora efetuada pelos pais. A partir do séc. XI, as diversas legislações monásticas reconheciam geralmente à criança o direito de voltar ao século, caso em idade adulta não quisesse confirmar a sua oblação.

 

Entende-se que a oferta feita pelos genitores tenha tido origem nos sentimentos de piedade das famílias cristãs, que desejavam consagrar seus filhos a Deus. Inegavelmente, porém, tal praxe abria margem a abusos, que de fato se verificaram: a oblação paterna exercia certa coação sobre os jovens, cujo futuro era destarte tão fortemente predefinido que muitos e muitos não ousavam mais modificar o programa. Tornavam-se assim monges e monjas sem vocação, fadados a viver no mosteiro sem ter o ânimo-interior correspondente; a fim de suavizar a sua sorte, facilmente procurariam compensações irregulares, destoantes das instituições monásticas — o que se tornaria causa de graves escândalos.

 

b) Este mal ainda era agravado por outra calamidade que a história registra.

 

Muitos nobres, movidos pela boa intenção de favorecer a vida monástica, fundavam mosteiros em seus territórios ou faziam vantajosas doações aos cenóbios já existentes. Em consequência, julgavam ter um quase direito natural de intervir na vida desses cenóbios a título de tutores ou mesmo proprietários.

 

Disto também resultaram abusos. Certas famílias nobres passaram a considerar «seus» mosteiros como instituições que deviam servir aos interesses da respectiva linhagem: os pais colocavam seus filhos e filhas no cenóbio, e controlavam o recrutamento da comunidade, excluindo candidatos ou candidatas que não lhes interessassem. Tendo uma vez estabelecido os filhos no mosteiro, os mesmos genitores tratavam de os promover, direta ou indiretamente, aos cargos superiores, de modo que esses monges e monjas se tornavam, por vezes prestigiosos administradores de vultuosos bens, gozando de carreira invejável, relacionados com os grandes do mundo, etc. — Tal praxe, como se compreende, não podia deixar de acarretar notável detrimento para o fervor dos mosteiros. Estes se tornavam o refúgio (e, por vezes, o cárcere) de jovens que os pais não queriam destinar à carreira das armas ou não conseguiam encaminhar para matrimônio favorável, ou de filhos que, permanecendo no século, se tornariam herdeiros de parte dos bens paternos, os quais assim se retalhariam, perdendo vulto e importância. As comunidades religiosas assim constituídas deveriam ressentir-se da falta de espírito monástico de seus membros: práticas mundanas, modas, luxo e outros males escandalosos seriam a consequência de tais intervenções dos nobres nos mosteiros medievais.

 

A decadência veio a ser especialmente grave no fim da Idade Média até o séc. XVI ou até o Concilio de Trento (1545-1563), que baixou normas severas para disciplinar a vida monástica.

 

Ora foi justamente no séc. XVI que Da. Carlota de Bourbon viveu sua aventura de Abadessa de Jouarre. Brigid Knight põe muito bem em realce o motivo de sua entrada no mosteiro: o pai de Da. Carlota — Luís de Bourbon — estava profundamente interessado em colocar a filha no cenóbio, pois julgava não ter posses suficientes para doá-la em casamento a um nobre do seu tempo; entrementes em Jouarre as perspectivas de um futuro brilhante se abriam para Carlota, pois a tia da menina era a Abadessa do cenóbio e estava gravemente enferma; a sobrinha Carlota poderia então tomar o cargo da tia com grande vantagem para a família dos Bourbons.

 

Brigid Knight imagina mesmo alguns episódios em que Luis de Bourbon procura convencer sua esposa Jacqueline de que é preciso forçar Carlota a tomar o véu de monja em Jouarre:

 

«As ideias do casal divergiam: Jacqueline pensava numa possível aliança matrimonial para Carlota; e Luis julgava que os baluartes de sua casa se estavam desmoronando... Não devia permitir que sua família perdesse o rico padrão de vida... Devia impor a autoridade paterna : Carlota não tinha outra alternativa senão obedecer.

 

— 'Jacqueline, a questão não é optar entre a vida religiosa e o casamento. Carlota não tem dote, e o duque de Longueville não aceitaria tal aliança. Afasta do pensamento quaisquer negociações de casamento. Carlota será a Abadessa de Jouarre'.

"Ele se esquece do principal, que é Carlota', disse Jacqueline com seus botões... Carlota dissera: 'Falta-me a vocação. Devo declará-lo'.

   'Jacqueline, tu estás contra mim', declarou Luis...

   É a Carlota que cabe decidir'.

   'É o único futuro possível. Não tendo dote, não lhe aparecerá marido. Podes estar certa disso. Deixa-me expor novamente o estado lamentável em que se encontram minhas finanças...'

 

Já estavam mais próximos de Jouarre quando Luís de Bourbon terminou de contar a redução que sofrerá nos bens imóveis e rendimentos e a impossibilidade de juntar algum dinheiro para dotar a filha sem arruinar o futuro do filho. Acabou convencendo Jacqueline de que não havia outra alternativa — Carlota devia tomar o véu.»

 

Não admira, pois, que Carlota, «empurrada» para o mosteiro sem vocação, tenha apostatado na primeira ocasião, chegando mesmo a abraçar a fé calvinista, que lhe fornecia plena justificativa para o seu ato de fuga e para o seu matrimônio com Guilherme de Oraflge.

 

Procuremos agora formular, a partir do que acabamos de ver, uma

 

3. Conclusão

 

Abstração feita dos traços e quadros imaginados por Brigid Knight, o livro «O Claustro e a Cidadela» focaliza uma situação real da história monástica de fins da Idade Média e do séc. XVI.

 

Tal situação resultava do declínio de duas instituições medievais..., instituições oportunas e louváveis em si mesmas ou em sua inspiração fundamental:

- a oblação de crianças por parte dos genitores desejosos de as consagrar ao serviço de Deus;

- a fundação de mosteiros por parte de famílias ricas e nobres da Idade Média.

 

Foi a fé ardente dos cristãos medievais que os levou a empreender tais iniciativas: desejavam dar a Deus... e dar o mais possível — suas terras, seus bens materiais..., até mesmo seus filhos, de acordo com a mentalidade da época.

 

Infelizmente, porém, a fraqueza humana provocou o desvirtuamento dessas práticas generosas: no decorrer dos tempos, muitos dos doadores procuraram, mediante o ato mesmo de doação, servir a si e a seus interesses mesquinhos.

 

As autoridades eclesiásticas não condenaram como tais as oblações de crianças e as fundações de mosteiros, pois nada havia de condenável nesses empreendimentos. Não deixaram, porém, de censurar severa e repetidamente os abusos dai derivados: não somente os bispos e concílios por toda a Idade Média tomavam medidas repressivas, mas também a Santa Sé mais de uma vez nomeou legados que deviam percorrer os mosteiros a fim de lhes sanear a disciplina. Contudo não era sempre fácil, nem possível, às autoridades eclesiásticas implantar as normas necessárias para restaurar a observância monástica; as famílias nobres de certo modo conspiravam entre si para neutralizar a intervenção superior.

 

Assim, por exemplo, sabe-se que o arcebispo de Ruão (França), Cardeal de Amboise (+1510), foi, por Alexandre VI, nomeado legado papal com a tarefa de reformar os mosteiros e conventos da França. O prelado, para executar a sua missão, gozava também da autoridade de ministro plenipotenciário do rei. Aconteceu, porém, que no mosteiro das monjas de Yzeure, o Cardeal de Amboise não conseguiu vencer a resistência da priora Joana Mareschal; esta, apoiada por sua família, considerando o seu cargo como bem pessoal, vivia prazenteiramente em Yzeure com quatro ou cinco Religiosas. E permaneceu nas suas funções até falecer, sempre defendida por uma trama de nobres poderosos... Após a morte da Madre Priora, o Cardeal conseguiu reformar a observância do mosteiro; em consequência, a comunidade passou a contar, sem demora, quarenta Religiosas!

 

Poder-se-iam citar muitos de tais episódios. Eles querem dizer ao leitor moderno que não se devem considerar como expressões da autêntica mentalidade e da vida da Igreja os casos sombrios que a história dos mosteiros possa registrar. Tenha-se por certo que nem tudo que acontece dentro da Igreja, corresponde aos ensinamentos e às intenções da Esposa de Cristo; muita coisa se deve, sim, à debilidade humana, que, mesmo quando movida pelas melhores das aspirações, está sempre sujeita a não corresponder ao ideal. Contudo, até nos casos em que os católicos são infiéis, a santidade da Igreja fica fiel, isto é, incólume e incontaminada. A prova disto é que á própria Esposa de Cristo renovou a vida nos seus setores afetados todas as vezes que isto foi necessário, tirando do seio mesmo de sua vitalidade os elementos reformadores. Em particular, a vida monástica se restaurou vigorosamente após o séc. XVI e subsiste até nossos dias, isenta, por graça de Deus, dos males que a assolavam no fim da Idade Média.

 

O leitor que tenha consciência disto, não fará do livro de Brigid Knight o motivo de graves problemas ideológicos; trata-se de um romance que explora cenas de fraqueza moral de pessoas religiosas,... cenas de fraqueza que a Providência Divina quis de antemão envolver dentro do seu plano redentor. Reconheça-se, antes, o estupendo poder de Deus, que, através da debilidade humana, se comunica sempre a quem O procura na sua única Igreja!

 

Dom Estêvão Bettencourt (O.S.B.)


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