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CONCÍLIO DE TRENTO: BARREIRA PARA A UNIÃO?

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 065 – maio 1963

 

DOGMÁTICA

AARÃO (São Paulo): «O Concilio de Trento não terá alterado o Cristianismo, criando barreiras para a união de católicos e protestantes ?»

 

Algumas correntes protestantes têm afirmado que o Catolicismo oriundo do Concilio de Trento é uma «nova Religião», a qual já não corresponde à genuína mensagem do S. Evangelho. É o que, por exemplo, asseverava o grande filósofo Leibnitz em famosa carta de 29 de março de 1693, carta à qual respondeu sabiamente Bossuet, o bispo de Meaux.

 

Voltaremos nossa atenção para essa proposição, examinando com cuidado as notas que marcam o Catolicismo após o Concilio de Trento. A seguir, indagaremos se essas notas constituem de lato barreiras para a aproximação dos cristãos entre si.

 

 

1) O Catolicismo após o Concílio de Trento

 

1.  Forçoso será reconhecer que a Religião Católica após o Tridentino aparece revestida de traços novos bem característicos. Esses traços, porém, não implicam em desvios da tradição anterior ; não há uma só sentença proclamada pela assembleia que não esteja devidamente assentada na S. Escritura e na Tradição.

 

Esses traços, longe de serem sinais de corrupção do Catolicismo, constituem, antes, autênticos testemunhos de sua vitalidade, pois não são outra coisa senão o desdobramento dos tesouros de vida sempre contidos dentro do próprio Catolicismo. Correspondem ao desabrochar do botão que se torna flor e fruto, numa planta. Os Concílios sempre tiveram por papel tornar explícito o que era implícito ou projetar clareza sobre o que era obscuro, no depósito da Revelação cristã.

 

A Igreja na África e na Ásia não pode ter a mesma face humana que na Europa ou na América. Assim também a Igreja no séc. XVI, e após este, não pode aparecer com as mesmas facetas que na Idade Média ou na Antiguidade; se aparecesse sempre igual, ter-se-ia motivo para dizer que é entidade sem vida, múmia, e não o Corpo Místico de Cristo ou a árvore de mostarda, de que falam as Escrituras Sagradas (cf. Ef 4,15s; Mt 13,31s).

 

2.  Quais seriam então as principais notas características do Catolicismo após o Concilio de Trento?

Ei-las em poucas palavras:

 

a) Maior precisão na formulação dos dogmas. Antes do surto do Protestantismo, os teólogos não sentiam tanto a necessidade de perscrutar o que é estritamente matéria de fé, o que pode ser livremente discutido e o que vem a ser temerário ou próximo à heresia. Foi, sim, a controvérsia com os protestantes que os levou a delimitar com toda a precisão possível o alcance das proposições doutrinárias católicas. «A Igreja após o Concilio de Trento é, em primeiro lugar e acima de tudo,... ciosa de segurança doutrinária e de fidelidade aos dogmas; este traço a caracteriza até nossos dias» (Daniel- -Rops, La Réforme Catholique. Paris 1955, 168).

 

Eis o que observava Leibniz:

«Doravante nenhum católico poderá duvidar de algum livro ou de alguma parte da Escritura Sagrada; ninguém poderá pôr em dúvida que a justificação se faz por uma qualidade inerente à alma [a graça santificante] ou que a fé que justifica é diversa da confiança na misericórdia divina, ou ainda que sete são os sacramentos,... que se requer determinada intenção no ministro, ... que o batismo é de necessidade absoluta,... que a Eucaristia contém o corpo, o sangue e também a Divindade de Jesus Cristo,... que cada sacramento tem matéria, forma e ministro determinados,... que o vinculo matrimonial é indissolúvel, mesmo em caso de adultério» (Leibnitz em «Oeuvres de Bossuet», ed. Lachat XVIII 198s).

 

Em particular, foi sendo mais e mais focalizada a Igreja, registrando-se então

 

b)   A acentuação do conceito de Igreja visível, com seu aspecto jurídico e hierárquico. Desejando evitar a tendência protestante a espiritualizar a Igreja, como se esta existisse apenas no íntimo das almas, os teólogos tridentinos e pós-tridentinos muito se detiveram na descrição das notas visíveis essenciais à Igreja; esta então passou a ser apresentada geralmente como «sociedade daqueles que professam a mesma fé, recebem os mesmos sacramentos e prestam obediência às mesmas autoridades eclesiásticas».

 

Tal descrição era, sem dúvida, muito exata e útil. Acarretava, porém, o perigo .de não se considerar tanto o aspecto invisível, e ainda mais rico, da Santa Igreja, que é o de «Corpo Místico de Cristo», «Esposa sem mancha nem ruga» (cf. Ef 4 e 5).

 

A valorização do aspecto jurídico teve como consequência imediata uma crescente centralização das funções administrativas da Igreja; a autoridade papal e a das Congregações Romanas encarregadas dos diversos setores da vida eclesiástica (espécies de Ministérios) foram mais e mais solicitadas para a solução de questões grandes e pequenas, oriundas em todas as partes do mundo. — Esta evolução era necessária "a fim de se evitar a anarquia e o esfacelamento que o espírito liberal da vida moderna podia introduzir na S. Igreja. Não há dúvida, porém; a centralização admite graus diversos (podendo ser ora mais, ora menos rigorosa) e, após certo ponto, em vez de beneficiar, poderia prejudicar ou sufocar a vida da Igreja.

Tenha-se em vista outra nota muito ligada com as anteriores:

 

c)   índole apologética de muitas afirmações da doutrina e da vida da Igreja. Levando em consideração principalmente as afirmativas e negativas do Protestantismo, os teólogos tridentinos formularam a verdade de maneira a rebater as proposições dós reformadores. Ora isto não podia deixar de implicar em focalização um tanto unilateral da doutrina; apenas o aspecto controvertido era assim esclarecido e devidamente afirmado, ficando na penumbra aspectos talvez mais centrais e vitais do dogma revelado. Em geral, a Teologia católica, após o Concilio de Trento, passou a se ressentir da necessidade de defender a verdade (contra os erros do Protestantismo, do racionalismo, do materialismo, do neopaganismo, etc.); enquanto os teólogos se prestaram a tal tarefa (sem dúvida, necessária), arriscaram-se a deixar encobertas facetas e riquezas positivas da Revelação cristã, mais importantes talvez para a vida de oração dos fiéis.

 

«Por forças das circunstâncias, as fórmulas que condenam erros, são sempre unilaterais; só trazem à luz um dos aspectos da verdade, isto é, o aspecto que os hereges contestam; e é o aspecto assim focalizado que os teólogos posteriores continuam a estudar com o máximo afinco. É preciso, porém, não esquecer que a verdade revelada é mais rica e mais fecunda do que aquilo que as definições podem exprimir. Até os últimos dias da história, a Igreja viverá dos ensinamentos de Deus, sem chegar a esgotar o tesouro dos mesmos» (G. Bardy, L'Eglise Catholique, Moyen-Age et Temps Modernes, em «L*Année théologique» 10 [1949] 331).

 

Não obstante, deve-se notar que, após o Concilio de Trento, houve

 

d) Aprofundamento da piedade católica. A piedade medieval era certamente muito intensa e espontânea (notas estas de grande valor), mas talvez por isto mesmo, caía frequentemente na superficialidade e infantilidade.

 

Basta lembrar os autos teatrais ou «mistérios» medievais (a festa do asno, dos reis coroados, do arenque...) representados por vezes dentro do recinto mesmo da igreja: uniam entre si elementos religiosos e profanos numa síntese que podia edificar o homem medieval, mas que surpreenderia ou inquietaria o homem moderno... Este, após o séc. XVI, é mais sóbrio nas suas manifestações religiosas, chegando a regateá-las; todavia, dado que participe do culto sagrado, o homem moderno parece menos irreverente, mais respeitoso para com as coisas santas.

 

A seriedade com que o cristão moderno costuma tratar as coisas de Deus é louvável; ocasiona, porém, o perigo de se distanciar demais a piedade ou a Religião das outras manifestações da vida; é a porta aberta para o divórcio entre os deveres religiosos, prestados «fielmente» a Deus no santuário, e os deveres civis, profanos, prestados às criaturas sem se levar em conta o fator religioso ou Deus.

 

Dito isto, passamos à questão final:

 

 

2. O Concílio de Trento: barreira para a união ?

 

Como foi dito, as características que o grande Concilio imprimiu ao Catolicismo, não afetam o essencial da fé e da moral; necessárias em uma época, podem perder sua oportunidade e tornar-se obsoletas em outra época (desde que deixe de existir a problemática que as suscitou).

 

Não haveria, pois, dificuldade em removê-las nos nossos dias, desde que se verifique que já não correspondem às exigências da vida cristã.

Eis algumas das principais notas que assim poderiam ser reconsideradas:

 

a) A formulação de certas proposições teológicas.

 

A verdade revelada, pertencente ao Credo, é, sim, intangível. Contudo a verdade intangível é comunicada aos homens por meio de expressões humanas... Estas, sendo pobres como os conceitos humanos são pobres, muitas vezes só abarcam um ou outro aspecto do tesouro da fé. Em consequência, torna-se possível em determinada época da história exprimir a mesma verdade em outros termos, mais significativos para os homens de tal época (ficando, sim, intato o conteúdo doutrinário).

 

É o Cardeal Bea, Secretário da Comissão Vaticana pro União dos Cristãos, quem o diz:

«A história dos dogmas mostra claramente como muitas fórmulas teológicas, que são a expressão de verdades imutáveis, foram redigidas de acordo com as concepções ideológicas de determinada época; é preciso compreendê-las e julgá-las nesta perspectiva. As fórmulas assim concebidas, em alguns casos, talvez só exprimam um aspecto da verdade eterna;... por conseguinte, não dão a ver toda a plenitude e a profundidade da verdade que elas tencionam exprimir.

 

Na encíclica 'Hümani generis'. Pio XII observa que 'as duas fontes da doutrina revelada por Deus (a Escritura e a Tradição) contêm tesouros de verdade tão grandes e tão numerosos que, de fato, nunca podem ser esgotados'. Muitas vezes tratar-se-á de buscar nesse tesouro da verdade revelada os elementos que, na nossa época, justamente têm mais importância para os nossos irmãos separados. Destarte, fornecendo aqueles esclarecimentos que a situação requer, o Concilio poderá não somente eliminar bom número dos mal-entendidos concernentes à doutrina católica, como também haurir na abundância e na profundeza das verdades da fé aquelas verdades que dizem respeito em particular aos homens de hoje» (Alocução proferida em Paris aos 23 de janeiro de 1962; cf. «Documentation Catholique» LIX [1962] 115).

 

Entre as formulações dogmáticas católicas que, de algum modo, poderiam ser tornadas mais claras para os irmãos protestantes e em geral para os pensadores de nossos dias, citam-se as que se referem à S. Escritura e à Tradição, ao pecado e à graça, ao primado e à infalibilidade do Sumo Pontífice, assim como a Maria SS. (em particular, certas afirmações marianas, tais como se encontram nos lábios de fiéis católicos pouco esclarecidos, causam equívocos nos ouvintes não-católicos, equívocos perfeitamente evitáveis).

Outra nota que poderia ser reconsiderada é

 

b)   O conceito de Igreja.

 

Os teólogos posteriores ao Concilio de Trento têm mais e mais acentuado as noções de autoridade e monarquia na Igreja, estabelecendo forte distinção entre hierarquia e simples fiéis ou também entre clérigos e leigos. Ora percebe-se que hoje em dia a mensagem cristã se tornaria mais vital se realçasse melhor o papel ativo (e não somente passivo ou receptivo) dos leigos na Igreja, assim como a sua participação no sacerdócio de Cristo mediante os sacramentos do Batismo e da Crisma.

 

Revigorar-se-ia assim no povo cristão a importantíssima noção de Igreja «Corpo Místico de Cristo, Comunhão dos Santos», cujas intenções são compartilhadas por todos os seus membros (autoridades e súditos),... cujos interesses são carregados por todos os cristãos sem exceção. Cada um sentir-se-ia destarte altamente valorizado na Igreja, pois tomaria consciência mais profunda de «ser remido e ser corredentor com Cristo», como diz Pio XII (ene. «Mystici Corporis Christi»). Em consequência, evitar-se-ia o espírito de crítica mútua, que tanto pode debilitar o povo de Deus.

 

Poder-se-ia também conceber uma certa descentralização da administração da Igreja (sem derrogação ao primado do Papa), ficando cada bispo dotado de mais amplos poderes em sua diocese (o que é particularmente necessário nos países separados de Roma pela «Cortina de Ferro» ou «de bambu»).

Sejam ainda recenseadas

 

c)   Certas expressões e funções da S. liturgia.

 

O culto comum tem que ser a afirmação máxima da alma religiosa do povo de Deus; por isto, é para desejar que, sem perder a sua seriedade e dignidade, as funções da S. Liturgia correspondam adequadamente às expressões espontâneas e usuais dos homens de cada época e cada região. Ora, já que esse expressionismo varia de época para época e de região para região, entende-se que a Liturgia também possa ser periodicamente retocada no que ela tem de meramente humano e contingente: assim se justificariam, em nossos dias, a restauração do uso da língua vernácula no culto sagrado (ao menos dentro de certa escala), a comunhão sob as espécies de pão e vinho para todos os fiéis, a administração do Batismo por imersão, o restabelecimento do diaconato como tal e a deis Ordens menores (porteiro, leitor da Igreja, etc.), a modificação de certas cerimônias, rubricas, etc.

 

Tanto se tem escrito sobre esses aspectos da Liturgia que não é necessário comentá-los ulteriormente. A respeito do vernáculo no culto sagrado, veja-se «P.R.» 5/1957, qu. 3; a propósito da Comunhão sob as duas espécies,- cf. «P.R.» 9/1958, qu.6. — Passemos ao que concerne à

 

d) Face latina ou ocidental da S. Igreja.

 

A Igreja de Cristo é uma só, destinada a todos os homens. Verifica-se, porém, que o cisma do séc. XI lhe sequestrou grande número de povos orientais e eslavos. Mais tarde, à ruptura do séc. XVI lhe subtraiu, no Ocidente mesmo, bom número de nações germânicas e anglo-saxônicas. Expandindo-se então para as terras recém-descobertas da Ásia e da África, os missionários levaram para os povos evangelizados as instituições ocidentais e latinas da Cristandade. Ora nota-se que tais instituições supõem mentalidade bem diversa da que as populações pagãs professam ao receber a Boa Nova. Daí compreender-se que o Catolicismo, revestido de colorido ocidental, se possa tornar desambientado fora da Europa e da América. Contudo o mal é perfeitamente remediável: as culturas da Ásia e da África possuem valores profundamente humanos e dignos, que bem podem ser aproveitados como portadores da mensagem evangélica nos territórios respectivos. Fala-se consequentemente de «desocidentalização» da Igreja.

 

Poder-se-ia continuar a enumeração dos aspectos humanos que, no Catolicismo de hoje, podem pedir certa atualização. Os principais, porém, estão assim enunciados. Para concluir, seja licito acrescentar uma observação: qualquer retoque na face humana da Igreja nunca poderá ser genuíno se não for empreendido em espírito de fé e dentro de uma visão sobrenatural da realidade cristã ; o que quer dizer :... se não for empreendido com humildade, caridade e na obediência à hierarquia da Igreja; qualquer «melhoramento» inspirado por tendências libertinas e revolucionárias já não realiza a obra de Cristo. Evite-se zelosamente o espírito de crítica; esta em geral não constrói, mas, antes, suscita mal-estar e desagregação.

 

A respeito das características das genuínas reformas na Igreja, . cf. «P.R.» 58/1962, qu. 2.

 

Dom Estêvão Bettencourt (O.S.B.)

 


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