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O PODER DO PENSAMENTO POSITIVO

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 065 – maio 1963

 

A. F. P. (Belo Horizonte):«Que dizer do livro 'O Poder do Pensamento Positivo' de Norman Vincent Peale, que tem obtido enorme sucesso tanto nos Estados Unidos como no Brasil ?»

 

Abordaremos o assunto, apresentando primeiramente breve síntese do conteúdo do livro, para, a seguir, poder formular um juízo seguro sobre o mesmo.

 

 

1. A mensagem do livro

 

Norman Vincent Peale é pastor protestante norte-americano, professor de «New York's Marble Collegiate Church» (U.S.A.). Tem-se dedicado, através da pregação, da imprensa, do rádio e da televisão, ao reconforto e à orientação das pessoas que sofrem. Convicto de que a grande maioria dos padecimentos dos homens se deriva, em última análise, da maneira como cada um encara a vida, Norman Peale tornou-se famoso «professor de otimismo». Numerosas consultas chegam-lhe diariamente de diversas partes do mundo; desde 1937, mantém um dos mais apreciados programas de rádio dos Estados Unidos.

 

O teor de suas palestras acha-se publicado em obras, das quais uma das mais famosas se intitula «O Poder, do Pensamento Positivo» (The Power of Positive Thinking); deste livro já foram vendidos mais de 2.000.000 de exemplares nos Estados Unidos, o que supera todos os recordes de venda até agora alcançados por obras semelhantes. No Brasil já atingiu a nona edição.

 

O livro «O Poder do Pensamento Positivo» tem em vista principalmente às pessoas que se deixam vencer pelas mínimas dificuldades da vida, vítimas da falta de coragem e continuamente revoltadas contra a sua sorte. — A tais pacientes Norman Peale dedica dezessete capítulos, em que formula conselhos práticos, ilustrados por múltiplos casos da experiência do próprio autor.

 

Eis alguns dos títulos de incisos mais significativos: «Tenha confiança em si mesmo» (cap. 1); «Como criar a sua própria felicidade» (cap. 5); «Espere sempre o melhor e consiga-o» (cap. 7); «Como acabar com as preocupações» (cap. 9); «Como empregar a fé na cura» (cap. 11); «Como recorrer ao Poder Supremo» (cap. 17). No fim de cada capitulo, o autor formula algumas regras precisas que indicam ao leitor como, na prática, deverá aplicar as ideias anteriormente enunciadas.

 

Através de suas considerações, redigidas em estilo simples, Norman Peale diz em resumo o seguinte: muitas e muitas das dificuldades de que nos queixamos, só são dificuldades porque as consideramos tais e nos julgamos mais ou menos destinados a sucumbir-lhes. As situações que ora temos na conta de aflitivas, poderão deixar de nos atribular se despertarmos em nós a consciência de que somos capazes de as superar (é essa consciência que Peale entende por «pensamento positivo»). Os que se dão hoje por infelizes, se proclamarão felizes amanhã, caso creiam no seu poder de vencer os obstáculos quotidianos. Em uma palavra: Norman Peale apela para o que se chamaria «a força da sugestão», ensinando os leitores a substituir a sugestão de pessimismo (da qual todos são, em certo grau, vítimas) pela sugestão de otimismo (em geral não ousamos aceitar as soluções de bom agouro, por nos parecerem demais idealistas e irreais).

 

«Não desanime. Você poderá eliminar inteiramente suas preocupações... O primeiro passo para eliminá-las consiste simplesmente em crer que você as pode de fato eliminar. Tudo que você crer, você o poderá fazer, e é certo que o fará com o auxílio de Deus» (ob. cit. 128).

 

De modo especial, é preciso notar que o autor em suas considerações envolve também temas religiosos; recomenda, sim, atitudes e práticas de fé como fatores poderosos para alimentar o otimismo e, por conseguinte, para se obter a vitória nas lutas de cada dia. A fim de corroborar seus ensinamentos, cita frequentemente passagens da S. Escritura, tais como:

 

- as palavras de Jesus em Mc 9,23 : «Se tens fé, cumpre saberes que tudo será possível àquele que a tem»;

- em Mt 17, 21: «Se tens fé,... nada te será impossível»;

- em Mt 9,29 : «De acordo com a tua fé é que receberás»;

- os dizeres de São Paulo em Fip 4,13: «Poderei fazer tudo com a ajuda de Cristo; Ele me dará forças» (citação um tanto livre, mas fiel, efetuada por Peale).

 

A título de ilustração, transcrevemos aqui uma das passagens mais características do livro.

Ao terminar o cap. 1, o escritor formula, entre outras, as seguintes regras:

«5. Repita dez vezes ao dia estas palavras dinâmicas: 'Se Deus estiver conosco, quem poderá estar contra nós?' (Rom 8,31). Suspenda aqui a leitura e repita-as AGORA lentamente e com confiança..

 

7. Repita sete vezes ao dia, em voz alta, se possível, o seguinte versículo: 'Poderei fazer tudo com a ajuda de Cristo; Ele me dará força' (Flp 4,13). Repita-o AGORA. Esta declaração “mágica” é o mais . poderoso antídoto que existe na terra para os pensamentos pessimistas...

9.   Entregue-se a Deus. Para lazer isso, basta dizer simplesmente: “Estou entregue a Deus”. Creia, depois, que está recebendo NESSA OCASIÃO todas as energias de que necessita. Sinta-as fluindo para dentro de você. Afirme que “o reino de Deus está na sua própria alma". (Lc 17,21)., na forma de uma força apropriada para enfrentar a vida.

10. Lembre-se de que Deus está com você e de que nada o poderá vencer. Creia que está AGORA RECEBENDO d´Ele toda a força necessária» (pág. 24).

 

Ao abordar temas religiosos, o autor procura abster-se de ecleticismo, ou seja, de confusão do Cristianismo com o Hinduísmo, o Esoterismo ou o Espiritismo; esforça-se por ficar estritamente dentro das perspectivas bíblicas (embora por vezes lhes dê interpretações e aplicações inovadoras). As afirmações de Peale, portanto, podem, de algum modo ao menos, ser conciliadas com os princípios do Catolicismo (se bem que às vezes tomem sabor muito semelhante aos dizeres do Esoterismo). Assim concebido, o livro tem a possibilidade de satisfazer a um público muito vasto e variado.

 

O autor sabe até mesmo dar indicações (aliás, muito oportunas) para que alguém conquiste a simpatia de seus semelhantes na sociedade.

 

Enfim, por todo o seu livro, Peale assegura continuamente ao leitor que conseguirá os melhores resultados caso observe os conselhos dados; verificará que sua existência tomará novo sentido e novo valor; viverá, aqui na terra mesmo, uma vida isenta de aflições e bem correspondente ao seu ideal. Tal é, conforme o mestre, a maravilha que se pode obter mediante a fé em Deus e a confiança do sujeito em si mesmo.

 

Não se pode negar o poder de atrair e de persuadir que as páginas de Peale, redigidas era tom muito vivo e penetrante, exercem sobre o leitor. Estes predicados explicam a enorme difusão que tal escrito tem conseguido.

 

Procuremos agora tomar posição diante da mensagem de Norman Peale.

 

 

2. Um juízo sobre o livro

 

A intenção do autor é de todo louvável: levantar o ânimo dos que sofrem, aliviando a angústia de grande número de pessoas que poderiam perfeitamente ser mais alegres e felizes.

 

Quanto ao método proposto por Norman Peale aos seus leitores para que consigam tal fim, já o conhecemos... Consiste em excitarem em si a consciência de que podem realmente vencer os obstáculos, obstáculos que, de antemão e gratuitamente, os homens consideram insuperáveis. É o método da sugestão, e principalmente da autossugestão: cada indivíduo, dentro de si mesmo, diga e repita que está perfeitamente habilitado a triunfar na vida.

Que dizer dessa tática ?

 

1. De modo geral, o princípio apresentado por Norman Peale é válido e sadio: as sugestões exercem, inegàvelmente, enorme influência sobre os indivíduos e as massas; criam um ambiente pelo qual as pessoas passam a se nortear, mobilizando energias latentes que, em outras circunstâncias, ficariam improdutivas dentro do sujeito, ou também paralisando forças que deveriam render... As sugestões desencadeiam outrossim, no subconsciente da pessoa, processos de raciocínio, assim como afetos (simpatia, coragem, ou ódio, temor...), que se manifestam na ocasião oportuna, dando resultados surpreendentes.

 

É preciso, pois, reconhecer a grande importância de removermos energicamente do nosso espírito preconceitos pessimistas ou derrotistas (estes criam em nós um clima de inibição que, sem justificativa alguma, nos impede de fazer o que poderíamos muito bem realizar). Esses preconceitos pessimistas hão de ser substituídos por outros, otimistas e confiantes, mediante os quais nos podemos realmente tornar vencedores.

 

O texto abaixo bem mostra o valor que, com razão, Norman Peale atribui ao subconsciente e à influência das sugestões sobre o mesmo:

 

«Eis um processo prático que o ajudará a eliminar de sua experiência o hábito anormal de cultivar as preocupações:

'Esvazie' diariamente o espírito. Deve fazê-lo preferivelmente antes de se recolher à noite a fim de evitar que ele retenha preocupações durante o sono. É durante o sono que os pensamentos tendem a mergulhar mais profundamente no subconsciente. Os últimos cinco minutos antes de dormir são de extraordinária importância, pois é nesse breve período que o espírito se torna mais receptivo para as sugestões. Ele tende a absorver as últimas ideias entretidas quando o sujeito ainda está desperto.

 

Esse processo de drenagem do espírito é importante para a eliminação das preocupações, pois os pensamentos eivados de temores, a menos que sejam expurgados, poderão dominar o espírito» (pág. 128).

 

O autor ainda desce a prescrições muito minuciosas, estabelecendo um verdadeiro código de higiene mental. Os frutos dessas prescrições poderão ser vários, de acordo com a índole ou o temperamento próprio de cada paciente.

 

Em princípio, pois, deve-se dizer que cabe a Norman Peale o .grande mérito de chamar a atenção do público para o papel da sugestão e da autossugestão na vida humana, mostrando que muitas vezes a solução de nossos problemas está em dissiparmos o desânimo e cultivarmos uma mentalidade confiante. Essa tática certamente garantirá muitos triunfos na luta quotidiana.

 

Não se deve, porém, exagerar a eficácia de tal método, crendo que é a receita adequada para resolver todas as dificuldades e tornar a vida terrestre simplesmente feliz. — De um lado, a experiência desmentiria otimismo tão generalizado. De outro lado, a visão cristã do mundo e do homem lembraria que o sofrimento é um valor, e valor inerente à vida de todos os filhos de Adão nesta terra; o cristão não pode abstrair da consciência do pecado original e das desordens que este acarretou na história, como também não pode esquecer que a cruz é o instrumento de salvação do gênero humano, instrumento que a Providência Divina não dispensa; enquanto o homem for peregrino neste mundo, nunca experimentará a bem-aventurança do paraíso. Com outras palavras: para o cristão, o sofrimento não é fenômeno meramente psicológico e natural, mas é outrossim algo de religioso e sobrenatural; por isto as leis da psicologia poderão ajudar a superar o problema da dor e da angústia, mas não o debelarão nem o elucidarão por completo.

 

2. Quando Norman Peale se refere explicitamente à Religião, é de lamentar que o faça de maneira tão naturalista. Parece só considerar a Religião como a mais eficaz das táticas sugestionantes; seria um ótimo remédio ou o mais valioso dos recursos da psicoterapia. A Religião se regeria preponderantemente pelas leis da psicologia. «A fé religiosa é um processo científico para se viver 'feliz... para melhorar a saúde e os negócios», diz Peale (ob. cit. pág. 60).

 

Mais precisamente, a religiosidade que se respira nas páginas de «O Poder do Pensamento Positivo» está deformada pelos seguintes traços:

 

a) antropocentrismo ou mesmo egocentrismo. As práticas religiosas recomendadas por Peale, aliás com muito fervor, parecem ter valor principalmente por servirem ao homem ou ao próprio «eu»; pouco interessa ao autor o aspecto que diz respeito diretamente a Deus (adoração, louvor, glorificação do Criador...) e que, em última análise, é capital em toda observância religiosa. A religião, nesse conceito, é exaltada por proporcionar aos devotos, nesta vida mesma, os maiores bens de índole-higiênica e temporal de que precisem.

 

Eis, por exemplo, como o autor comenta o texto de São Paulo em 1 Cor 2,9:

«Os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem entraram nó entendimento dos homens as coisas que Deus preparou para aqueles que O amam” (1 Cor 2,9). Tenha fé em Cristo; tenha fé em seu sistema de pensamentos, e ponha-o em prática; tenha fé, e sobrepujará todo temor, ódio, complexo de inferioridade, ressentimentos e toda forma de derrotismo. Em outras palavras, tenha fé e adquirirá um grande bem.

 

Você jamais viu, jamais ouviu e jamais imaginou o que Deus dará àqueles que O amam» (ob. cit. pág. 187).

 

Ora as palavras de S. Paulo (1 Cor 2,9) aqui citadas referem-se diretamente aos bens da vida eterna; pelo respectivo contexto percebe-se que o Apóstolo está longe de querer prometer carência de dificuldades temporais e de cruzes aos que amam a Deus. Chegava mesmo S. Paulo a dizer que ele falava a linguagem da cruz (1 Cor 1,18), só queria saber de Jesus Cristo crucificado, o que se tornava desconcertante para quem só considerasse o aspecto temporal ou terrestre da vida humana (cf. 1 Cor 1,22-25).

 

Em particular, o antropocentrismo da religiosidade apregoada por Peale se manifesta no seu

 

b) conceito interesseiro de oração. Esta, na obra citada, parece reduzir-se a um sistema de higiene mental e de forte sugestionismo, mediante o qual o homem pode alcançar enormes benefícios temporais, não somente invisíveis ou interiores, mas também visíveis e financeiros.

 

Uma das mais significativas passagens do livro a este propósito é a seguinte:

«Constantemente estão sendo descobertas por homens e mulheres de grande poder espiritual novas técnicas do domínio das orações. É aconselhável experimentar a força da oração segundo tais métodos, cujos resultados são benéficos. Se isso lhe parece novo e estranhamente científico, cumpre lembrar que o segredo da oração está em descobrir o processo que, de maneira mais eficaz, possa abrir o seu espírito para Deus. Qualquer método por meio do qual você possa fazer com que o poder de Deus flua para o seu espírito, é legítimo e proveitoso.

 

Um exemplo do uso científico da oração é a experiência de dois industriais famosos, cujos nomes seriam conhecidos a muitos leitores, tivesse eu a permissão de revelá-los. Ambos estiveram em conferência sobre um negócio e uma questão de ordem técnica. Poder-se-ia pensar que eles abordariam tal problema numa base puramente técnica. De fato, foi o que fizeram. Mas fizeram também outra coisa mais: recorreram à oração. Como o resultado não foi muito satisfatório, chamaram um pregador da região, um velho amigo deles, porque, como explicaram, a fórmula da oração da Bíblia diz : 'Onde dois ou três se acharem reunidos em meu nome, ali estarei no meio deles' (Mt 18,20)..Fizeram também referência a outra fórmula, a qual diz: 'Se dois dentre vós concordarem na terra, que o que desejam é tudo que eles pedirão, isso lhes será dado por meu Pai que está no céu' (Mt 18,19).

 

Tendo sido educados na prática cientifica, eles creem que, no tratar a oração como fenômeno, devem seguir escrupulosamente as normas delineadas na Bíblia, que eles descreveram como sendo o livro didático da ciência espiritual. O método apropriado de se empregar uma ciência é usar as fórmulas aceitas que se acham expostas no livro dessa mesma ciência. Raciocinaram que, se a Bíblia prevê que dois ou três devem reunir-se, talvez a razão de não terem sido bem sucedidos fosse devido à falta de uma terceira pessoa.

 

Por conseguinte, os três homens rezaram e, a fim de evitarem qualquer engano no processo, tomaram em consideração, com relação ao problema, várias outras normas da Bíblia, como as que se acham sugeridas nos seguintes versículos : 'De acordo com a tua fé é que receberás' (Mt 9,29); 'Sejam quais forem as coisas que desejares, quando rezares, crê que as receberás e tu as terás' (Mc 11, 24).

 

Após várias reuniões em que fizeram análises minuciosas e orações, os três homens afirmaram conjuntamente que tinham recebido a resposta ao problema. O resultado foi inteiramente satisfatório. Os resultados subsequentes indicaram que tinham realmente obtido a orientação de Deus.

 

Esses homens são grandes cientistas e o bastante para não precisarem de explicações exatas sobre a atuação dessas leis espirituais, como não precisariam também no caso das leis naturais. Ficam satisfeitos com o fato de que aquelas leis funcionam realmente quando se emprega uma técnica adequada» (ob. cit. pág. 54s).

 

Causa surpresa verificar como o escritor atribui índole técnica (dir-se-ia mesmo :... mágica) à oração. Esta teria que obedecer a receitas que, devidamente aplicadas, seriam capazes de desencadear fluidos e poderes invisíveis em favor do indivíduo. Contudo deve-se observar que Jesus, ao falar de dois ou três orantes reunidos, não quer indicar quantidades matemáticas, mas apenas deseja incutir uma mentalidade, isto é, o apreço da oração comunitária, da oração em que os discípulos de mais perto reproduzem a comunidade da Igreja, o Corpo Místico de Cristo.

 

Peale admite mesmo que a prece emite ondas para o ar e que ela se torna frutuosa justamente mediante ação exercida por tais ondas sobre outras pessoas ou até sobre o próprio Deus!

 

«Pessoalmente acredito que a oração transmite vibrações de uma pessoa a outra e a Deus. Tudo no universo é uma vibração constante. Há vibrações nas moléculas de uma mesa, no próprio ar. A oração entre seres humanos vibra também. Você, quando faz uma prece para alguém, está empregando uma força inerente ao universo espiritual. Você está transmitindo a esse alguém algo de amor, de auxílio, de apoio — uma forte e real compreensão — e, nesse processo, desperta vibrações no universo, através das quais Deus faz com que se realizem os bons desejos. Experimente esse princípio e conhecerá os seus extraordinários resultados» (ob. cit. pág. 60).

 

Mais adiante, Peale conta o caso de um amigo que sofria do hábito de embriagar-se. Certa vez, entrara num bar, acometido do forte desejo de beber; mas pôs-se a lutar consigo mesmo para não ceder ao vício; pensou em Norman Peale, sentindo necessidade desse amigo distante naquela hora. Em tal aflição, rezou... «Sua prece chegou até mim, e eu comecei a rezar por ele. Assim, juntos, tínhamos completado o circuito. Nossas orações alcançaram Deus, e o homem obteve sua resposta, adquirindo a força que precisava para enfrentar aquela crise. E que fez ele ?

 

Dirigiu-se a uma confeitaria, comprou uma caixa de bombons e comeu tudo. Foi o que o salvou daquela situação — orações e bombons» (ob. cit. pág. 65).

 

«Orações e bombons». Não haverá algo de disforme nessa associação de termos ? Será que a eficácia da oração pode ser justaposta à eficácia de bombons?

 

O autor explica ainda mais precisamente a sua teoria sobre o poder da oração no texto abaixo:

«Temos em nosso cérebro um verdadeiro acumulador que transmite a força por meio de pensamentos e orações. A força magnética do corpo já foi comprovada. Temos milhares de pequenas estações emissoras, as quais, ao serem ligadas pela oração, irradiam uma corrente poderosa, que passa pelos seres humanos. Podemos transmitir a força por meio de orações, as quais agem como estações emissoras e receptoras» (ob. cit. pág. 64s).

 

Estas palavras têm sabor muito pouco cristão, sabor esotérico, ocultista (o que, em última análise, redunda em panteísmo, identificação de Deus com a natureza).

 

c) Os conceitos um tanto materialistas de Peale (lembremo-nos de que vibrações e ondas são algo de físico, matematicamente comensurável) se refletem na maneira como considera a vida póstuma: admite que as almas dos defuntos estejam unidas a um corpo, e assim explica certos fenômenos comumente considerados como comunicações entre vivos e defuntos.

 

Ora a sã filosofia e a teologia ensinam que as almas dos defuntos subsistem separadas de qualquer corpo, na qualidade de puros espíritos. Deus pode permitir que se comuniquem com os sobreviventes na terra; isto então se dá mediante sinais sensíveis, sem que precisem de se unir a um corpo. Leve-se em conta outrossim que, conforme os resultados mais recentes da ciência, não poucos dos fenômenos ditos de «comunicação com o Além» são fenômenos puramente parapsicológicos, que só têm realidade dentro do vidente (alucinação, telepatia, percepção extrassensorial, etc.). Donde se vê que também neste setor a posição de Norman Peale está sujeita a juízo desfavorável.

Por último, merece atenção o que o autor diz sobre

 

d) O Poder Supremo. Esta expressão designa Deus... Deus, porém, concebido de maneira assaz diferente daquela que caracteriza os escritos da Bíblia Sagrada. O Deus que o autor apresenta, é muito semelhante a um fluido cheio de energia, cuja ação benfazeja o homem tenta captar, elevando o espírito a Ele. Tem-se assim mais uma vez a impressão de que, em tal concepção, é o homem quem se serve de Deus, em vez de servir a Deus. Quanto à noção bíblica de Deus Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), que nos torna seus filhos pela regeneração batismal (cf. 1 Jo 3,1; Jo 3,3.5), essa noção é silenciada por Norman Peale — o que naturalmente provoca uma considerável lacuna na obra de tal autor.

 

Tenha-se em vista a seguinte passagem, muito inspirada pelo desejo de utilizar Deus e a Religião como se utilizam as energias latentes na natureza:

 

«O Poder Supremo é uma verdadeira realidade na existência humana. As transformações radicais que opera para sempre nas vidas das pessoas deixam-me assombrado, não obstante ter eu visto inúmeras vezes esse fenômeno...

Ele está constantemente à disposição de todos. Se você se abrir a Ele, Ele afluirá para você qual uma gigantesca avalanche. É acessível a todo mundo em quaisquer circunstâncias e condições. Esse extraordinário fluxo é de tal força que na sua penetração vence todas as barreiras; elimina o temor, o ódio, a doença, a fraqueza e a derrota moral como se tais males jamais estivessem à sua mercê e o fortalece com uma nova vida cheia de saúde, felicidade e bondade» (ob. cit. pâg. 225).

 

 

Em conclusão, diremos: o livro «O Poder do Pensamento Positivo», transpirando otimismo e tranquilidade, facilmente capta a simpatia do leitor; é coisa benfazeja ler algumas de suas passagens referentes à psicologia humana. Acontece, porém, que, com sábias normas de psicoterapia, a obra difunde uma atitude religiosa deficiente ou mesmo errada, atitude que o leitor inconscientemente se arrisca a assimilar: é a atitude da Religião interesseira, antropocêntrica, ou da Religião reduzida a tratamento medicinal. (NT: teologia da prosperidade).

 

Talvez uma ou outra das passagens da obra de Norman Peale que acabamos de criticar, pudesse ser interpretada em sentido benigno. Poder-se-ia também dizer: Peale intenciona apresentar apenas um aspecto da Religião, ou seja, o aspecto que se relaciona diretamente com a psicologia humana. — Reconhecemos o valor dessas advertências; contudo cremos que, se alguém não quiser ou puder suprir as lacunas da obra de Peale (e é certo que a maioria dos leitores não o fará), conceberá uma noção totalmente errada de Religião. Na verdade, esta consiste, antes do mais, em louvor e glorificação de Deus, glorificação da qual só pode resultar — é claro — a felicidade do homem. Contudo não foi para a mesquinha felicidade desta terra que o Senhor Deus destinou o homem; que este alargue seus horizontes e dilate seus desejos, pois o Senhor lhe preparou, mediante a cruz, a ceia da vida eterna!

 

Em suma, parece-nos que se deve desaconselhar a leitura da obra de Peale. Se alguém precisa de conselhos de psicoterapia, procure-os em obra própria dessa matéria, obra que se dispense de reduzir a Religião a mera tática de higiene mental.

 

Em vista de um confronto construtivo, transcrevemos aqui um trecho de famoso autor de espiritualidade, Pe. Grou S.J., o qual dá a ver em que consistem a genuína prece e a autêntica atitude religiosa:

 

«O que devemos pedir a Deus... é que conheçamos a Deus e conheçamos a nós mesmos,... conheçamos o que Deus é e o que nós somos,... o que Ele fez por nós e o que temos feito contra Ele...

O que devemos pedir é a absoluta confiança em Deus, a qual nos leve a dizer como Jó: "Ainda que Ele me envie a morte, não deixarei de depositar n'EIe a minha esperança'.

O que devemos pedir é o espírito de fé, que nos eleve... acima de toda segurança (humana)..., que nos sustente nas trevas mais densas, na falta de todo apoio sensível e que nos conserve em paz, embora estejamos suspensos entre o céu e a terra.

O que devemos pedir, é uma obediência cega, que nos faça morrer ao nosso próprio juízo, à nossa própria vontade, que nos faça agir mesmo contra o nosso modo de ver e as nossas simpatias, que não nos deixe... argumentar contra Deus. Pois é certo que os caminhos de Deus não podem ser apreendidos pelos nossos raciocínios e contrariam todas as inclinações da nossa natureza,... e que jamais progrediremos em Deus se com todo o nosso ser não nos atirarmos ao que nos há de parecer um abismo sem fundo e sem recursos» (Manuel des âmes intérieures. Paris, 2' ed. 1925, 74s).

 

A entrega a Deus total e desinteressada, eis a alma da verdadeira Religião. Servir a Deus (e não ao próprio «eu») é reinar.

 

Dom Estêvão Bettencourt (O.S.B.)


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