Católicos Online - - - - AVISOS -


...

Pergunte!

e responderemos


Veja como divulgar ou embutir artigos, vídeos e áudios em seu site ou blog.




Sua opinião é importante!









Sites Católicos
Dom Estêvão
Propósitos

RSS Artigos
RSS Links



FeedReader



Download







Cursos do Pe Paulo Ricardo


Newsletter
Pergunte!
Fale conosco
Pedido


PESQUISAR palavras
 

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 399 – agosto 1995

Testemunhos

A Verdade nem sempre é verossímil:

 

"OS LADRÕES DE DEUS" (bis)

 

por Maria Winowska

Em síntese: Mais dois episódios ocorridos na Polônia dominada pelo comunismo no período de 1945 a 1989 vêm relatados nas páginas seguintes. Trata-se, em primeiro lugar, de um policial que, numa noite de Natal foi a uma casa paroquial para prender e maltratar o respectivo Vigário. Em conversa com o padre tranqüilo, mas firme, o esbirro se convenceu de que estava diante de um homem de Deus, asceta, sóbrio e pobre. Recordou-se outrossim das noites de Natal da sua infância, quando cantava no coral, orientado por sua mãe, e rendeu-se à evidência de que estava sendo um ladrão de Deus. Concluiu que era preciso reconciliar-se com Deus, apesar de sua sanha perseguidora.

O outro episódio refere-se a um padre que, ameaçado por comunistas, realiza um ato de sinceridade tal que desmonta o furor dos adversários.

* * *

 

Em PR 396/1995 foram publicados, sob o título "Ladrões de Deus", alguns episódios narrados pela escritora polonesa Maria Winowska no livro homônimo; trata-se de fatos realmente ocorridos na Polônia dominada pelo comunismo entre 1945 e 1989. Voltamos a tal fonte de relatos, donde extraímos mais dois significativos quadros; bem revelam o vigor da fé dos católicos perseguidos como também a fragilidade daqueles que, por conveniência política, exerciam o papel de perseguidores.

 

I. O FEROZ POLICIAL

Como a chaleira começasse a cantar. Padre Paulo desligou o fogão. Depois, como se encontrava molhado até os ossos e tremendo de frio, deixou-se cair num sofá, que gemeu sob o peso; tinha molas desgastadas.

Havia algum tempo o vento tinha dobrado de furor e as rajadas de neve rodopiavam na noite escura. Um dos batentes da porta, meio-solto, estalou uma, duas vezes... O padre sobressaltou-se:

 

"Entre!", gritou com voz rouca.

Ninguém respondeu, mas o barulho redobrou.

"Dir-se-ia uma alma penada", murmurou o padre estendendo suas pernas compridas, enfiadas em grosseiros sapatos. Fazia um frio glacial, mas ele estava cansado demais para se mover.

 

"É preciso que eu expectore meu cansaço!", suspirava.

 

Já no Seminário, seus monólogos intermináveis lhe valeram o apelido de "Reitor". "E daí", respondia aos implicantes, "as palavras que a gente pronuncia enganam menos". Quando Vigário e em sua casa, não se corrigiu. "Ele fala com o seu anjo!", confiou a sua governanta às comadres. A paróquia acreditou...

 

Padre Paulo e resmungou:

 

"Se Isso fosse verdade, meu anjo, eu te pediria agora que me fizesses um chá, porque de fato estou exausto e daqui a pouco, preciso estar em forma!.."

 

Quatro horas o separavam da Missa de meia-noite. Ele havia voltado de uma de suas sucursais, como chamava as paróquias vizinhas confiadas a seus cuidados, e já na igreja, diante do seu confessionário, as pessoas faziam fila.

Este pensamento o reanimou: "Vamos, velha carcaça, apressa-te!". Sua linguagem de antigo membro da Resistência não era muito burilada, sobretudo quando só tinha seu anjo como auditório. "Ele me compreende", dizia rindo, "pois não foi criado à minha medida?"

 

Espreguiçou-se até estalar os ossos e bruscamente se pôs de pé. Sobre seu corpo comprido e magro, a batina flutuava como sobre uma vara, enlameada na barra e cheia de manchas esverdeadas.

"Depois que eu tiver tomado meu chá, tudo melhorará", resmungou entre os dentes. "Recuar nesta noite seria idiota. Vamos! Três vezes imbecil, você não sabe que o estão esperando? E talvez haja grandes peixes na rede; esta noite é diferente das outras!"

 

"Com quem o Sr. está falando?", perguntou uma voz atrás dele.

 

Ele se voltou rapidamente. O barulho do batente havia abafado o rangido da porta. Alguém havia entrado sem bater e o encarava insolentemente:

 

"Quem está com o Sr.?", repetiu o desconhecido com voz ameaçadora.

Padre Paulo se refez. Cedo ou tarde, isso teria que acontecer! "Meu anjo, juro! Que deseja o Sr.?"

- "Umas poucas explicações, caro Vigário, que lhe ensinarão a não zombar de mim. Dou-lhe tempo para fazer sua mala, o que me permitirá dar uma volta por aqui".

Padre Paulo conhecia o homem de vista, mas principalmente de reputação. Por causa dele, centenas de "resistentes" apodreciam nas prisões. Promovido a mestre na arte dos interrogatórios, divertia-se com suas vítimas como um gato com seus ratos. Odiado como ninguém e considerado o maior canalha da região, gozava do lúgubre prazer de semear o pânico por onde passava. O Departamento dos Serviços Secretos lhe confiava as questões mais escabrosas, na certeza de que o órgão chamado coração era nele apenas um veículo circulatório. Blindado contra qualquer sentimento de piedade, era de absoluta confiança. Em resumo, um produto ideal do Partido Comunista, pronto para múltiplas funções, esse era Antônio Tryk, que vinha prendê-lo.

O medo do início do encontro cedia a um sentimento de responsabilidade paroquial impreterível para o padre. Daí a pouco, a Missa da meia-noite não poderia ser celebrada. As pessoas na fila do confessionário esperariam em vão! "Rainha de Yasna Gora, vem em meu auxílio!", rezou o padre.

O policial abria portas e janelas, uma após outra. Revistava as gavetas, jogando no chão, confusamente, registros de Batismo, pães ázimos amarrados com fitas rosas e azuis, pedaços de vela, papéis de carta. Depois de ter tirado cuidadosamente toda a correspondência pessoal, que enfiou em grande pasta, Antônio Tryk deteve-se, indeciso:

 

"Onde o Sr. dorme?"

A pergunta se impunha, de fato. No único cômodo do Presbitério (casa paroquial), uma péssima barraca de madeira, não havia cama. Noutra ocasião, Tryk não deixaria de fazer alguma alusão obscena, com aquele riso licencioso e lúbrico que era o terror dos seus "clientes", mas com o Padre Paulo, considerado asceta, isso não seria adequado. Tryk estava realmente intrigado.

"Onde o Sr. dorme?", repetiu.

Padre Paulo deu de ombros.

"Depende! No sofá ou no chão. Não tive ainda tempo de pensar numa cama..."

 

Enquanto falava, continuava a importunar a corte celeste com suas mudas preces: "Ainda essa Missa, a última talvez! Concedei-me essa Missa!"

Tryk sentou-se no sofá para experimentar se era confortável. O gemido das molas gastas sobressaltou-o:

 

"Diabo!", sussurrou entre os dentes, "ele é duro!"

 

"Deseja uma xícara de chá?", perguntou Padre Paulo com voz suave.

Tryk hesitou um momento. Estava de serviço e o regulamento proibia aceitar alimentos em casa de futuros acusados. Mas fazia tanto frio, e depois... aquela não era uma noite como as outras! Nem mesmo um policial graduado gostaria de estar de serviço em uma noite de Natal.

 

"Sim!", resmungou.

Padre Paulo ligou o fogão, preparou as xícaras, o açúcar, tirou uns biscoitos de uma caixa.

"O Sr. gosta de chá forte?", perguntou.

"Prefiro forte," disse o policial rudemente.

Seguia cada gesto do padre com desconfiança. Subitamente viu no chão, quase a seus pés, um pacote de pães ázimos. Pegou-o maquinalmente e sentiu, em sua memória atrofiada, como que um clique.

Sua mãe, a única pessoa que o tinha amado realmente... Aquele tempo em que era apenas um menino... A ceia da véspera do Natal, esse pão que era partido, os guisos do trenó no caminho da igreja, antes da Missa do Natal... Ele fazia parte do coral, com sua voz bonita... Tinha dificuldade para se desembaraçar de todos os agazalhos e lençóis com os quais as ternas mãos de sua mãe o agazalhavam... "Cuidado, não tome friagem!" dizia ela na saída da igreja.

 

Padre Paulo observava discretamente o visitante.

 

"O Sr. quer que o parta?", perguntou à queima-roupa([1]).

Tryk assustou-se como se o houvessem desmascarado.

"Vá para o inferno com as suas superstições!", sussurrou entre os dentes.

Depois, pegando a xícara que o padre lhe dava sorrindo:

"O Sr. me acha um monstro, como todos me acham?".

Padre Paulo refletiu um momento:

Monstro? Não. Mas um infeliz, que pensa que ninguém o estima.

 O policial deu uma gargalhada. "Mas então, velho corvo, queres que eu acredite que sou digno de ser amado?"

 

Sentado sobre um banco, diante dele, o padre mexia pensativamente o açúcar na xícara com as bordas lascadas.

"Sim", disse, "e é aí precisamente que Deus nos causa admiração e nos choca. Amar um bandido como o Sr., o Sr., o Sr.! E no entanto, é verdade, não há o que dizer. Ele o ama. Digo até que Ele o ama de modo muito especial".

 

-"O Sr. está zombando de mim!", gritou o policial, erguendo-se bruscamente.

"Cuidado com a sua xícara", disse o Padre Paulo. "Claro que não: estou falando sério. Ninguém o obriga a acreditar, mas eu o sei. É por causa de sujeitos horríveis como o Sr. e eu que há uma noite de Natal. Deus não veio até nós por sermos puros como crianças do coral, mas porque somos sórdidos e devassos. Posso até dizer que, quanto mais devassos, mais temos direito à sua misericórdia".

Maldito clique, que abre as comportas! Pela brecha aberta outras lembranças vêm à tona. Antônio Tryk sente-se subitamente muito embaraçado.

"Em resumo: o Sr. me toma por um criminoso. Mas só cumpro o meu dever,... e creio nisso. Enquanto não tivermos extirpado todos os "resistentes" e todos os fetichistas - dos quais o Sr. é um -, a Polônia popular não poderá desenvolver-se. Eu não sou um ladrão, isso não..."

Padre Paulo escutava, movendo os lábios. Seus olhos azuis brilharam com um súbito clarão.

"Sim, o Sr. é um ladrão", disse ele. "E esse é mesmo o seu maior crime".

De um salto, o esbirro ficou de pé, pálido de cólera.

"Como ousa", gritava,"... o Sr. tem a ousadia..."

Depois, olhando nos olhos do padre:

"Roubei de quem?"

-"De Deus".

Com a mão crispada sobre o punho do revólver, o policial voltou-se em estado de choque. Seus traços exprimiam uma total estupefação. Caiu novamente no sofá, deixando apavorado o padre:

 

"De Deus?", murmurou. "Roubei de Deus? Mas quê, se me faz o favor?"

 

- "Os seus pecados!", exclamou o padre, em pé, diante dele, como um juiz diante do acusado. "Não foi por um nada que Ele desceu a esta Terra sórdida, mas para recolher, com a pá, nossos pobres pecados! Os meus, os seus, os do mundo inteiro! Se nós lhos recusamos, nós os roubamos dele e tornamos o Natal sem sentido. O Sr. nunca se sente tão sórdido, que desejaria dar uma surra em si mesmo, de desgosto? Nunca lhe aconteceu sentir desprezo por si mesmo, devasso como é? Pois bem; Deus quis carregar nos ombros essa imundície, tomou sobre si os seus pecados. Mas é preciso consentir nisso. O Sr. é livre para dizer Sim ou Não. E o Sr. sabe o que é dizer Sim? É o Natal no coração e na terra, meu filho! O Sr. teve uma mãe? O Sr. não foi, também, uma criança feliz? É isso que o Natal lhe traz. Basta dizer Sim".

Desarmado, com o rosto desfeito, Antônio Tryk fixava espantado a figura magra do padre.

 

"Se eu disser Sim, que vai acontecer?"

 

-"Meu Deus! O Sr. vai-se confessar!"

 

Afundadas nas pregas e dobras de suas consciências delicadas, as paroquianas começavam seriamente a se impacientar, quando, por volta das 11 horas, Padre Paulo abriu ruidosamente a porta da sacristia e dirigiu-se com grandes passos para o seu confessionário.

 

"De novo, uma dessas audiências particulares", sussurrou D. Z...., com um semblante magoado e acabrunhado. "De tanto socorrer a gentalha, ele se descuida dos fiéis".

Seu espanto transformou-se em escândalo, quando o Padre emergiu do confessionário e clamou com voz forte:

"Dêem lugar aos publicanos! Numa noite como esta, os grandes pecadores têm prioridade!".

 

Com um amplo gesto de mão ele dividiu seus inúmeros penitentes.

 

"E nós agora?" sussurrou D. Z. com ar irritado. "Vou falar com o Bispo!".

 

Louco de alegria, Padre Paulo abismava-se em ação de graças. Pouco lhe importava que tivesse havido um atraso... Tinha conseguido seu "grande peixe", que estava então escondido na sombra, perto do adro, bem coberto com o seu casacão e chorando de alegria como um novilho.

"Senhor Jesus, tu fizeste muito bem ao vir até nós", murmurou ele, fechando um postigo para se inclinar para o outro." Sem Ti, estaríamos perdidos!".


 

II. UMA CONFISSÃO PÚBLICA

 

"Sr. Vigário, alguns homens estão procurando o Sr.".

De ombros largos, rosto redondo e brilhando de suor, Eufrosina enxugava as mãos vermelhas na ponta do seu avental de pregas fundas. Tudo nela respirava ordem e organização. Filha de Eva, parecia intrigada.

Padre Matias assustou-se:

"Quem são?"

- "Deus o sabe! Parecem pessoas da cidade".

Na boca de Eufrosina, isso não era um elogio. Ela continuava no seu lugar, obstruindo a soleira da porta com a sua enorme figura. O relógio da parede começou a gemer e ranger antes de, com esforço visível, bater estridente as sete horas.

"Se eles permanecerem aqui muito tempo, minhas panquecas ficarão perdidas", suspirou Eufrosina.

O silêncio do Pe. Matias a impressionava:

"Diga, Sr. Vigário; é preciso avisar o Filipe?"

O padre dominou-se:

"Pode deixar, Eufrosina! Faça-os entrar".

Ela se afastou, dando passagem a dois senhores, de rostos imberbes e indefinidos.

 

De pé, atrás da mesa que lhe servia de escrivaninha, Pe. Matias fixava com um olhar que procurava ser firme. Sua mão, posta sobre o Breviário, tremia.

Os desconhecidos não esperaram seu convite para se pôr à vontade. O mais velho, que parecia dirigir a operação, instalou-se num sofá, bem diante do padre, estendeu as pernas, acendeu um cigarro e disse:

 

"Então, o Sr. refletiu?"

 

Seu companheiro, empoleirado num banco diante da biblioteca, pôs-se a assobiar baixinho. Uma brusca rajada de chuva caiu sobre a laje. Fechada em seu quarto, Eufrosina cantava com voz fanhosa um canto à Virgem. "É para se encorajar", pensou Pe. Matias. Mas ele permanecia calado.

 

"E então?", insistiu o desconhecido.

 

Seu tom tornou-se persuasivo:

 

"Veja bem, Sr. Vigário. O negócio é simples, e o que lhe propomos é vantajoso para o Sr. . Afinal, que é que lhe é solicitado? Uma pequena assinatura em baixo de uma folha, onde o sr. estará em boa companhia. Fazer parte da Frente Nacional não é vergonha. Todos nós lutamos pela paz, de acordo com nossos meios. Seu evangelho não diz: 'Paz aos homens de boa vontade'? É tão simples. Ao passo que, se o senhor recusar..."

 

Deteve-se um instante, saboreando o efeito de suas palavras. O rosto do Pe. Matias não traía nenhuma emoção, mas sua mão, que ele não controlava, tremia cada vez mais.

 

"Se o Sr. recusar", prosseguiu o visitante noturno, "será um escândalo. Sei muito bem que há vinte e cinco anos o Sr. é irrepreensível e seus paroquianos o adoram. Mas eles não conhecem certos pormenores da sua turbulenta juventude. Imagine se alguém resolver informá-los... Rapidamente, eles o derrubarão do seu pedestal! O santo Vigário, o asceta incorrupto, o defensor das viúvas e dos órfãos, vejam em que lamaçal se envolveu, em que sanções eclesiásticas incorreu. Sei muito bem que sua Igreja procura passar uma esponja sobre certos pecados da carne tão frágil! Mas o povo não pensa assim. O povo exige a verdade. Quando a conhece, julga. O povo não gosta de sepulcros caiados nem de fachadas que ocultam a lama..."

Pálido como papel, com os olhos baixos, o Pe. Matias continuava calado. O mais jovem de seus interlocutores interrompeu a inspeção da biblioteca para ajudar seu camarada, já visivelmente sem argumentos:

"Não percamos tempo", disse sublinhando cada palavra. "Colocamos o negócio em suas mãos. Ou o Sr. assina e a sua reputação estará salva, ou então apresentaremos aos seus paroquianos a mulher que o sr. seduziu e o fruto, aliás fracassado, de seus amores. Está claro? O sr. decide".

Grossas gotas de suor escorriam na fronte do padre. O tremor de suas mãos comunicou-se a todo o seu corpo, que parecia estar com a doença de S. Guido. Abriu a boca, mas um nó na garganta não permitiu a passagem de uma só palavra. Em sua cabeça borbulhava uma tempestade de pensamentos contraditórios. Como um animal encurralado, recuou um pouco, encostou-se à parede. Do fundo do seu subconsciente subiu um desejo selvagem: "Antes a morte! Que eles me matem!". Uma dor lancinante oprimiu seu coração como uma prensa, cortando-lhe a respiração. Mas teve uma iluminação íntima: "Meu Deus, tende piedade de mim!" A maré crescente começou a baixar, quebrando-se sobre recifes inesperados. Tomado pelo redemoinho de uma onda infinitamente terna e protetora, ele se sentiu emergir do abismo e, com voz rouca, disse:

"Amanhã, após a Missa cantada, os Srs. receberão minha resposta".

Os desconhecidos se entreolharam.

"Certo. Aguardaremos".

Em vão, Eufrosina passeava de um para outro lado diante da porta do escritório onde fizera entrar "esses senhores". Sua dignidade não lhe permitia escutar na fechadura, mas sua curiosidade era muito forte para que não desse oportunidades à Providência para fazer ouvir "por acaso" algumas migalhas reveladoras do encontro. Mas foi inútil. Teve que acompanhar os visitantes até a porta sem haver penetrado em seu segredo.

 

"Até amanhã", disseram.

 

Então ainda não tinham terminado!

O Vigário não fez jus às panquecas, que, entretanto, estavam ótimas. Mais do que nunca distraído e ausente, ele só tomou uma xícara de chá e alegou uma súbita fadiga para logo se retirar. Após a refeição, Eufrosina se agasalhou com um grosso lenço de lã e partiu para informar os homens importantes da cidade. "Seu nariz raramente a enganava", dizia ela, e poria sua mão no fogo se não se tratava de agentes de polícia vindos para deter o Vigário.

No fim de uma hora, toda a cidade de 1.500 habitantes estava em estado de alerta. Na manhã seguinte, salvo os doentes gravemente enfermos e os mais fracos, todos os moradores da cidade acorreram à igreja: homens, mulheres e crianças. Logo a casa de Deus se encheu inteiramente e os últimos a chegar tiveram de se amontoar nos degraus da tribuna e do púlpito. Empoleirados nas cornijas, garotos cheios de vida equilibravam-se perigosamente. Os homens tinham um semblante sério e decidido. Todos os olhares se dirigiam furtivamente para dois desconhecidos com impermeáveis, que se achavam sob o pilar, diante do púlpito. As comadres entoaram as Horas Menores da Virgem SS., enquanto o Vigário acabava de confessar a longa fila de penitentes.

Afinal a Missa começou. A plenos pulmões os fiéis começaram a cantar canções de Natal. À presença de desconhecidos, redobravam seu ardor. "Isso os ensinará a perseguir nosso pároco!", pensavam em uníssono. Porque não havia um só dos paroquianos que não estimasse muito o Pe. Matias, e havia até os que se deixariam cortar em pedacinhos por ele.

Após a leitura do Evangelho, o padre retirou a casula e subiu ao púlpito. Conforme o costume, houve um momento de agitação em que uns procuravam sentar-se, outros tossiam, assoavam o nariz, fungavam e se remexiam antes da hora. Primeiro as mulheres, depois os homens perceberam, comovidos, que seu caro vigário tinha os olhos vermelhos de insônia e uma expressão de grande cansaço. Ainda alguma movimentação e fez-se um tal silêncio que se poderia ouvir uma mosca voar. Pe. Matias passou um olhar pelo seu povo, percebeu os policiais de pé sob o pilar, fez um grande sinal da cruz e começou:

"Meus caros filhos! Hoje não farei um sermão como de costume. Esta noite, tomei uma grande resolução. Sou pároco de vocês, isto é, pai. Eu os amo como a meus filhos e vocês me retribuem, tratando-me como pai. Ora é justo que saibam toda a verdade a meu respeito. Asseguro-lhes que é muito duro para mim falar sobre esse assunto, e por isto diremos todos juntos uma Ave-Maria".

Intrigado, agitado, o povo inclinou-se como uma onda de trigo vergada pelo vento. Jamais nas abóbadas da velha igreja havia soado prece mais ardente! Depois, o silêncio voltou com todo o seu peso. Com as mãos apoiadas na balaustrada do púlpito, Pe. Matias continuou:

"Meus filhos, vocês me honram e estimam como um santo, mas não sou santo. Penso que, se vocês me vissem como eu mesmo me vejo neste momento, recuariam de horror. Não sou um santo. Sou um grande, um enorme pecador. O que digo, não são frases feitas, nem uma confissão pública..."

 

Um súbito soluço quebrou o silêncio, depois um outro. "Senhor Jesus!", exclamou alguém. A onda viva se voltou para o púlpito, como para abraçá-lo. Todos os olhares estavam fixos no padre, que acabava de se ajoelhar:

 

"Meus filhos, nos primeiros séculos da Igreja, tinha-se o hábito de fazer confissões públicas. Depois, esse costume caiu em desuso. Entretanto, em certas circunstâncias especiais, nem Deus nem a Igreja o proíbem. Tenho motivos graves para lhes falar como o faço esta manhã. Escutem-me".

 

A voz do padre, embargada por um instante, tornou-se firme. Lentamente elevou seu olhar para o crucifixo suspenso diante do púlpito:

 

"Gostaria, meus filhos, de que vocês me vissem neste momento como Deus me vê e como Ele me faz ver a minha alma. No dia do julgamento, tudo virá à luz. Falando hoje a vocês, eu antecipo o dia do julgamento.

Vocês me respeitam como padre. Meus filhos, outrora pequei gravemente contra a graça e as obrigações do meu sacerdócio. Infringi as promessas do meu subdiaconato. Pequei e fui causa de pecado, talvez mesmo causa de desespero. Do meu perjúrio nasceu uma criança, um pobre inocente. Essa vertigem, essa loucura duraram apenas algumas semanas - o suficiente para me fazer chorar até o fim dos meus dias lágrimas de sangue. Foi meu bispo que me salvou, a mim e ao meu sacerdócio. Foi ele que se responsabilizou pela mãe e pela criança, pobres criaturas. Nesse tempo, ele foi para mim misericórdia viva. Graças a ele, compreendi um pouco melhor a misericórdia de Deus. No início queria eu encerrar-me num convento, mas tinha uma tal nostalgia do ministério que o bispo acabou por me confiar uma paróquia, esta paróquia. Há vinte e cinco anos vivo com vocês, sofro, choro e me alegro com vocês, trabalho o melhor que posso para servir-lhes; entretanto até hoje vocês não me conheciam. Eu tinha vergonha de lhes dizer a verdade. Era orgulhoso demais para renunciar ao respeito, à estima que vocês me prodigalizam. Mas a Providência dispôs de outro modo. Estão vendo esses senhores ali, sob a pilastra? Eles me propuseram uma alternativa: assinar um papel que é contrário à minha vocação sacerdotal ou então fazer explodir o escândalo. Eles me encostaram à parede. Confesso que, no início, fui tentado a assinar. Mas depois rezei, e Deus teve piedade de mim. É inteiramente livre que eu lhes confesso o meu pecado e a minha abjeção. Durante vinte e cinco anos estive entre vocês como um sepulcro caiado. Agora vocês sabem tudo. Sou velho e o bispo não se recusará, se eu o pedir, a me chamar de volta. Gostaria de passar o resto da minha vida chorando meus pecados e fazendo penitência. Mas antes peço que me perdoem."

Foi preciso parar, porque os soluços cada vez mais ruidosos acabaram por abafar a sua voz. Toda a igreja chorava. As mulheres abertamente, os homens enxugando furtivamente os olhos na manga do paletó. As crianças choravam com todas as suas forças, sem compreender muito do que estava em jogo, mas encantadas por se unirem ao alarido. De repente uma voz grave gritou: "Detenham os patifes!". Aproveitando-se da emoção geral, os dois desconhecidos abriam caminho para a porta, à sombra das pilastras. "Hipócritas! Espiões! Policiais patifes!". As injúrias choviam abundantes e, se não fosse a santidade do lugar, o incidente teria acabado em tumulto. Com voz forte o Pe. Matias pôs fim a essas tentativas de represália:

"Meus filhos, então vocês não têm Deus no coração? (ditado polonês). Foi para uma vingança ignóbil que eu me confessei? Vocês não vêem que esses dois senhores são meus benfeitores? Sem a intervenção deles eu nunca me teria desembaraçado desse peso. nunca teria tido a força de falar disso a vocês!".

"Dobrodzieyou! ([2])", exclamou uma voz forte, "não nos abandones!"

Toda a comunidade repetiu essas palavras, fazendo estremecer os vitrais.

"Nós lhe pedimos, Dobrodzieyou, não nos abandones!"

O Prefeito se assoou ruidosamente e ergueu a cabeça para o padre:

"Não o deixaremos partir! Iremos todos juntos explicar as coisas ao bispo. E, se o Sr. pensa que agora nós o amamos menos, está muito enganado. Agora nós o amamos mais do que antes. E teremos ainda mais confiança no Sr.. A carne é fraca, mas a Misericórdia de Deus é mais forte".

Filipe não era um orador, e era a primeira vez que ousava falar numa igreja em voz alta. O suor lhe caia em gotas. Mas seu sucesso foi total e sem réplica. Como um rebanho ao redor de seu pastor, o povo se comprimia em torno do Pe. Matias, que acabava de descer do púlpito e se dirigia ao altar. Cada qual tentava beijar-lhe as mãos, abraçá-lo, beijar sua batina. Moído, mas feliz e lépido, Pe. Matias subiu os degraus do altar. Antes de colocar a casula, voltou-se para o povo e exclamou com voz trêmula:

"Agora a Missa continua. De joelhos!".



[1] Na Polônia, por ocasião da ceia de Natal, as pessoas partem o pão ázimo bento, em sinal de paz e caridade fraterna.

[2] Palavra polonesa que significa "Benfeitor" (N.d.R.).


GoNet - PR
Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
6 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL

Ver N artigos +procurados:
TÓPICO  ASSUNTO  ARTIGO (leituras: 8471407)/DIA
PeR  Escrituras  1355 Jesus jamais condenou o homossexualismo?31.11
Diversos  Mundo Atual  4134 Karl Marx, de cristão a satanista21.32
Orações  Comuns  2773 Oração de Libertação14.64
Aulas  Doutrina  1497 Ser comunista é motivo de excomunhão?13.19
PeR  O Que É?  0516 O Que é a ADHONEP?12.64
PeR  O Que É?  2142 Quiromancia e Quirologia11.19
Diversos  História  4042 R.R. Soares e Edir Macedo11.13
PeR  História  0515 O Recenseamento sob César Augusto e Quirino10.93
Diversos  Protestantismo  1652 Desafio aos Evangélicos: 32 Perguntas10.51
Diversos  Prática Cristã  3780 Os pecados mortais mais comuns10.09
Diversos  Prática Cristã  3185 Anticonceptivos são Abortivos?8.50
Diversos  Testemunhos  3922 Como o estudo da fé católica levou-me ao catolicismo8.49
PeR  História  2571 Via Sacra, qual a origem e o significado?8.20
Diversos  Ética e Moral  2832 Consequências médicas da homossexualidade7.87
PeR  O Que É?  0565 Lei Natural, o que é? Existe mesmo?7.49
PeR  Prática Cristã  1122 As 14 estações da Via Sacra7.48
Diversos  Anjos  3911 Confissões do demônio a um exorcista7.43
Diversos  Testemunhos  3465 Ex-pastor conta como fazia para converter católicos7.12
PeR  Testemunhos  0450 Eu Fui Testemunha de Jeová7.03
PeR  Escrituras  2389 O Pai Nosso dos Católicos e dos Protestantes6.81
PeR  Ciência e Fé  0558 Coma Reversível e Coma Irreversível6.64
Diversos  Protestantismo  3970 A prostituição da alma6.45
PeR  Filosofia  0085 De Onde Viemos? Onde Estamos? Para Onde Vamos?6.43
PeR  O Que É?  1372 Eubiose, que é?6.34
A maior prova do erro protestante está na cara de todos: DIVIDIR o cristianismo. O Espírito Santo não habita em divisões.
Claudio Maria

Católicos Online