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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 59 - novembro 1962

 

OS PADRES OPERÁRIOS

SOCIOLOGIA

SEMANÁRIO (RJ): «O caso dos 'chamados 'padres-operários' continua muito em foco. Não será a prova de que a Igreja nada pode ou nada quer fazer em prol dos operários? Que há de certo a tal propósito?»

 

Importa, antes do mais, delinear a origem e o histórico do movimento dos «padres-operários». A seguir, exporemos a atitude da Igreja frente ao mesmo; donde se evidenciará o que as críticas têm e não tem de autêntico neste setor.

 

1. Padres-operários: surto e atividades

 

1. Conscientes da dolorosa descristianização do mundo operário, alguns sacerdotes, durante a última guerra mundial (1939-1945), resolveram empreender nova tática de apostolado: penetrando nas fábricas, usinas e minas, procuraram identificar-se cada vez mais com a vida e os costumes dos proletários, a fim de lhes dar imediato e eloquente testemunho de Cristo.

 

O primeiro caso registrado foi o do Padre Loew, que em 1941 se tornou trabalhador das docas de Marselha.

 

Meses mais tarde, alguns sacerdotes seguiam para a Alemanha como trabalhadores voluntários a acompanhar jovens franceses recrutados para o serviço de trabalho («Arbeitsdiensts) que o governo nazista lhes impunha. Fizeram destarte as vezes de capelães clandestinos, correndo riscos e perigos que não eram desprezíveis (o Pe. Dillard, entre outros, morreu no campo de concentração de Dachau); foi assim que conheceram de perto o ateísmo que dominava a juventude francesa, alcançando proporções surpreendentes. Essa experiência concorreu para desencadear a etapa seguinte:

 

A 1o de julho de 1943, o Cardeal Suhard, de Paris, houve por bem dar caráter oficial a tais esforços até então entregues à iniciativa particular: com a colaboração dos Padres Godin e Daniel, fundou a chamada «Missão de Paris». O ideal dessa obra era a identificação total dos sacerdotes com os proletários; adotariam o regime de ganha-pão destes (8 h de trabalho manual), compartilhariam sua morada e seu modo de vida dia e noite, visando assim aos poucos impregnar de Cristianismo o ambiente materializado das fábricas e oficinas, ou, em outros termos, dar um sinal concreto da presença de Cristo, capaz de arrancar ao indiferentismo a classe trabalhadora.

 

O padre-operário despertou a atenção simpática de amplos círculos do público francês; tornou-se como que um símbolo ou o «apóstolo dos tempos modernos», feito pequenino com os pequeninos, oprimido com os oprimidos. Não há dúvida, tal programa supunha grande fervor, notável abnegação e heroísmo.

 

O número desses novos missionários foi crescendo, até chegar em 1953 ao total de 103, dos quais cerca de vinte eram Religiosos (jesuítas, dominicanos, capuchinhos...). Vinte e cinco estavam localizados em Paris, os demais se achavam distribuídos por onze dioceses da França; em 1953, o mais jovem contava trinta anos de idade, enquanto o mais idoso tinha cinquenta anos.

 

A formação de certos seminaristas foi sendo orientada para tal gênero de apostolado; nas férias escolares dedicavam-se à aprendizagem de determinada técnica operária, que eles haviam de exercer como sacerdotes.

 

2. Como se terá desenvolvido esse novo empreendimento?

 

A reação comunista, a princípio, foi fortemente contraria a tal espécie de intrusão dos sacerdotes no ambiente proletário. Aos poucos, porém, em vez de se opor aos padres-operários, os marxistas resolveram neutralizar a sua ação, ou melhor, resolveram utilizá-los no serviço da causa marxista: por suas palavras e seus artifícios bem premeditados e extremamente sagazes, colocavam-nos mais e mais diante do dilema:

- ou imergir-se totalmente nas campanhas de reivindicações dos operários, participando em todos os movimentos sindicais,
- ou restringir-se a atividades meramente religiosas entre os trabalhadores.

 

Ora esta última opção significaria simplesmente o abandono da tática que era característica do padre-operário e que constituía o seu ideal de apostolado. Sendo assim, os sacerdotes, em grande número, optaram pela primeira solução (evitariam destarte qualquer acusação de covardia ou de procura de interesses pessoais). Isto, porém, concorria igualmente para o sucesso e a propaganda da causa comunista, pois os companheiros marxistas em suas campanhas de reivindicações, se puseram a clamar: «Mesmo os padres estão conosco».

 

As consequências desse estado de coisas foram-se manifestando aos poucos. Os resultados não correspondiam às expectativas: em vez de cristianizar o seu ambiente, os sacerdotes-operários é que sofriam a descristianização sugerida pelos seus companheiros de jornada; em graus diversos (sem dúvida), bom número deles ia-se deixando impregnar por um modo de ver materialista, marxista; a sua linguagem se tornava cada vez mais linguagem partidária, a inspirar a luta de classe e as divisões, antes que a caridade cristã.

 

O ritmo da vida cotidiana induzia-os mais e mais a negligenciar a oração. A princípio, ainda realizavam as suas funções sacerdotais: celebravam a S. Missa todos os dias, geralmente à noitinha, pois de manhã era necessário apressar-se em demanda das oficinas. Os operários que frequentavam essas Missas eram poucos, como se compreende, e totalmente alheios ao rito. Ora, a fim de fazer que este se lhes tornasse mais compreensível, os sacerdotes tomavam a liberdade de introduzir inovações na S. Liturgia, passando por cima das prescrições canônicas e assim celebravam em quartos de dormir, alegando que os operários na igreja paroquial se sentiriam desambientados; celebravam sobre uma mesa de cozinha (às vezes, a única de que podiam dispor);... em francês, para se tornar inteligíveis;... intercalando reflexões em alta voz, por ocasião da epístola, do Evangelho, dos «Mementos». Chegaram a compor orações «litúrgicas» novas, entre as quais a seguinte: «Oremos. Livrai-nos, Senhor, da escravidão do capitalismo...».

 

Quanto à recitação do Breviário, que seria obrigação da vida sacerdotal, muitos padres-operários, após oito horas de penoso trabalho, julgavam-se dispensados de a cumprir. Destarte a oração mais e mais se ia reduzindo na sua vida.

 

Com o tempo, muitos padres-operários já não se encontravam em condições físicas e psicológicas para celebrar a S. Missa todos os dias. Tal rito lhes parecia fora de propósito no ambiente em que viviam. Para justificar então o seu alheamento às funções sagradas, alguns começaram a distinguir dois tipos de ministério: o «sacerdócio do culto», dirigido para a Eucaristia, e o «sacerdócio do testemunho» ou «da presença», que sem atividade propriamente litúrgica devia tornar o Cristo presente no meio operário.

 

Aconteceu mesmo que certa vez na solenidade de Natal os estivadores do porto de Marselha, tendo consigo alguns padres-operários, pediram que um deles celebrasse a S. Missa de Natal. Eis, porém, que, com grande surpresa para os trabalhadores, os sacerdotes lhes responderam que, para esse fim, deviam procurar outros padres: a Missa pública de Natal, eles não a poderiam celebrar, já que o seu sacerdócio entre os trabalhadores era um sacerdócio de presença, e não de funções rituais!

 

Em outros termos: propagou-se entre os padres-operários a idéia de que a tarefa primária do sacerdote é de índole temporal, social ou econômica; consistiria, antes do mais, em estabelecer uma sociedade sem classes, libertando os que hoje são oprimidos ou explorados. Somente após essa libertação ou «redenção» o padre daria ao mundo a Redenção propriamente religiosa ou cristã, exercendo o seu ministério sagrado ou estritamente sacerdotal. Havia quem julgasse que só depois de conseguir essa redenção temporal é que o operário se poderia interessar pelas verdades religiosas e pela Redenção sobrenatural. Por conseguinte, o padre-operário, enquanto atendesse à sua primeira tarefa (de índole meramente social), não pensaria em evangelizar.

 

Como se vê, tais proposições coincidem exatamente com a posição marxista, segundo a qual a Religião é apenas uma superestrutura ou um elemento relativo na vida do homem, elemento que vacila de acordo com as vacilações da produção material e do bem-estar temporal. Tal apreciação se opõe frontalmente ao ponto de vista cristão.

 

O fato é que, seguindo a ideologia inovadora, certos órgãos da imprensa, assim como grupos de cristãos, se puseram a preparar, de maneira mais ou menos dissimulada, a entrada do comunismo dentro do Catolicismo, como se a fusão fosse possível. Alguns padres-operários se tornavam vítimas ou instrumentos de tais atividades.

 

A experiência comprovou que uma posição religiosa tão diluída ou apagada como a que os padres-operários iam adotando, ficava totalmente estéril para o apostolado. Os trabalhadores, em particular os militantes marxistas, consideravam o padre-operário como qualquer outro operário a quem eles estendiam a mão num gesto meramente humanitário; julgavam existir um vínculo de solidariedade entre todos aqueles que são explorados, independentemente do credo ou do modo de pensar de cada um; por conseguinte, não lhes seria lícito excluir dessa solidariedade alguns trabalhadores pelo fato de serem outrossim sacerdotes.

 

Em Bordéus, por exemplo, no ano de 1952 faleceu, vítima de acidente no cais, um sacerdote que trabalhava nas docas; ora ao seu enterro compareceu a maioria dos companheiros, não porque se tratava de um padre, mas porque tinham em vista uma vítima, semelhante a eles, da dita exploração «patronal» (veja-se «II Lavoro» de 6/XII/1953, órgão da Confederação Italiana do Trabalho).

 

Um dos padres-operários, Bernard Chauveau, trabalhador das usinas Renault, chegou mesmo a escrever o seguinte depoimento:

 

«Pessoalmente, vivo há vários anos com militantes revolucionários, cristãos e não-cristãos, comunistas e não-comunistas. Caso lhes proclamemos ser cristãos ou sacerdotes, mostram-se totalmente desinteressados; poderíamos do mesmo modo dizer-lhes que somos budistas ou partidários da objeção de consciências» («Documentation Catholique», 18/X/ 1953, 1300s).

 

Entende-se que, vivendo em tais condições, mais de um padre-operário tenha finalmente deixado o hábito clerical e a profissão de sacerdote, tomando esposa e constituindo família. Houve também quem chegasse a professar e propugnar veementemente o comunismo; entraram decididamente na luta de classes, dando inteira colaboração a entidades revolucionárias da esquerda; participaram ativamente de greves, combateram os sindicatos livres, desaconselhando aos colegas a matrícula nestes.

 

Observava o Cardeal Feltin aos 27 de setembro de 1953:

 

«Há mesmo, por vezes, sacerdotes que querem, sob pretexto de justiça, tomar parte na luta de classes... Para eles, o mal e o pecado se resumem no regime capitalista; derrubá-lo, portanto, vem a ser um ato bom; a luta de classes então se destina a apagar o pecado coletivo» («Documentation Catholique», 18/X/1953, 1304).

 

O rumo dos acontecimentos, o mal-estar e os escândalos assim suscitados não podiam deixar de provocar

 

2. A intervenção da Igreja

 

As autoridades eclesiásticas, diante dos desvios do movimento, foram tomando atitudes mais e mais restritivas, as quais finalmente se concretizaram em uma série de normas práticas.

 

Aos 20 de junho de 1951, a Santa Sé baixava uma determinação que proibia fossem admitidos novos membros no grupo dos sacerdotes-operários; ao mesmo tempo exigia a retirada de todos aqueles que aí houvessem entrado sem a devida autorização da hierarquia. Quanto aos sacerdotes que ficavam nesse setor de apostolado, foi-lhes dado um regulamento próprio e um horário de vida que incluíam, além do trabalho manual, o exercício de atividades propriamente sacerdotais. Tais disposições encontraram certa resistência por parte dos interessados: estes pleitearam de vários modos a revogação da limitação do número de padres-operários; o regulamento e o horário não chegaram a ser aplicados; tornou-se mesmo difícil chamar à antiga vida sacerdotal os padres que se haviam imbuído de idéias subversivas ou se tinham engajado em movimento para comunistas.

 

Os bispos da França insistiram no cumprimento das leis restritivas. Em vão, porém... Por conseguinte, foi preciso que de novo a Santa Sé interviesse.

 

Em julho de 1953, a S. Congregação dos Estudos dispôs que os seminaristas da França não seriam mandados, durante as férias, a fazer estágio nas usinas. Levantou-se, em consequência, uma celeuma através da imprensa : rumores, previsões e criticas tomavam o ambiente carregado. Entrementes bispos e teólogos da França se reuniam para estudar a problemática. Finalmente, em novembro de 1953 os Cardeais Feltin, de Paris, Gerlier, de Lião, e Liénart, de Lille, foram a Roma; tendo-se entretido com o Santo Padre Pio XII sobre o assunto, houveram por bem redigir um estatuto definitivo, o qual, aprovado por Pio XII, foi publicado aos 16 de novembro de 1953. Pouco mais tarde, aos 19 de janeiro de 1954, os bispos da França, dando aplicação a essas normas, elaboraram mais um comunicado, que completou a nova legislação referente aos padres-operários.

 

Eis os grandes princípios então estabelecidos pela autoridade da Igreja:

 

1)      a Igreja, mais do que nunca solicita pelo bem espiritual da classe operária, não somente não a abandona, mas Insiste em que o clero das paróquias e os diversos ramos da Ação Católica mais e mais se dediquem a esse apostolado.

 

2)      Contudo a Igreja afirma, mais uma vez e solenemente, a transcendência da missão de seus sacerdotes. Estes foram consagrados a Deus para se tornarem,

- junto aos homens, os mediadores e dispensadores dos dons celestes

- junto a Deus, os representantes de todos os fiéis indistintamente, e não apenas de uma classe de homens.

 

3)      O movimento dos sacerdotes-operárlos, quanto aos seus moldes, métodos e quanto ao seu nome, deve ser tido como definitivamente encerrado.

 

4)      O apostolado sacerdotal entre os trabalhadores prosseguir-se-á no movimento dito «dos Padres da Missão operária» («Prêtres de la Mission ouvrière»). Visando o mesmo objetivo, essa nova Instituição aplicará métodos estipulados pela Santa Igreja e pautados pelas seguintes normas:

 

a)     os sacerdotes-operários serão pessoalmente escolhidos pelos bispos e dotados de formação específica tanto do ponto de vista religioso como do ponto de vista doutrinário;

b)     não viverão isolados, mas incorporados a uma comunidade de sacerdotes ou a uma paróquia;

c)      prestarão sua colaboração ao ministério paroquial, ficando também em contato com o apostolado do clero diocesano e da Ação Católica;

d)     o trabalho manual, cuja dignidade a Igreja reconhece plenamente, não ocupará os padres-operários por mais de três horas do dia, a fim de que não fiquem absorvidos por ele, mas possam satisfazer à oração e a outras obrigações de apostolado estritamente sacerdotal;

e) os padres-operários renunciarão a todo e qualquer compromisso de índole meramente temporal ou profana, como são os que se contraem em sindicatos, campanhas, movimentos de reivindicações, etc. Tais compromissos ficarão reservados ao laicato católico.

 

Estas normas eram inegàvelmente ditadas por prudência e sabedoria, que, se, de um lado, tinham caráter restritivo, nada apresentavam de mesquinho; inspirava-as uma visão sobrenatural, mas bem realista, da situação. Contudo a imprensa tendenciosa (principalmente os jornais comunistas «Franc-Tireur» e «L'Humanité») derramou sobre elas uma série de comentários sarcásticos, que muito contribuíram para aumentar a confusão de idéias.

 

Em breve, ou seja, aos 4 de fevereiro de 1954, apareceu um manifesto assinado por 73 padres-operários e eivado de espírito partidário; entre outras coisas, sugeria ser inevitável, até mesmo para os sacerdotes, engajar-se numa violenta luta de classes.

 

Os bispos da França e a Santa Sé ouviram os padres-operários com muita paciência e com espírito profundamente paterno; em cartas e alocuções sucessivas procuraram mostrar-lhes o verdadeiro sentido das restrições promulgadas pela Igreja: de modo nenhum implicavam em abandono do apostolado entre os trabalhadores, mas apenas visavam garantir o bom êxito desse mesmo apostolado, que fôra até então efetuado segundo métodos de todo inoportunos; não havia, pois, motivo para indignação ou revolta, de mais a mais que a Santa Igreja, ao cercear um tanto a liberdade de seus sacerdotes nesse terreno, mobilizava outras forças católicas (as do laicato ou da Ação Católica), mais afeitas à luta operária, a fim de suprirem aquilo que doravante os sacerdotes não dariam.

 

A ação do tempo se encarregou de apaziguar os ânimos: serenaram-se as paixões. As novas formas de evangelização entre os trabalhadores se foram exercendo com resultado; em março de 1957 o Episcopado francês instituiu o Secretariado dito «da Missão Operária» («Mission Ouvrière»), incumbido de coordenar tudo que diz respeito ao apostolado operário (empreendimentos do clero e dos leigos) — o que bem revela a crescente penetração da Igreja no mundo proletário da França.

 

Importa-nos agora analisar de perto as razões pelas quais a Igreja em 1953/1954 se opôs às táticas aplicadas pelos padres operários.

 

3. Um juízo sobre a questão

 

1. Reduzem-se a duas as razões que justificam a intervenção da Santa Sé na obra dos padres-operários:

 

a) a mentalidade desses sacerdotes ia sendo insensivelmente transformada pelo ambiente, em vez de exercer a desejada transformação do meio proletário. O perigo da situação era especialmente agudo pelo fato de que os órgãos mais populares da opinião pública (como a imprensa, o rádio, o cinema, a televisão. ..) exaltavam o ideal do padre-operário a ponto de incutir falsa noção do sacerdócio. Em lugar de descrever o padre como o homem de Deus (cheio de valores sobrenaturais e eternos), que, vivendo em meio ao mundo, procura dar aos homens o que ele recebe de Deus, descreviam o sacerdote como o emissário dos homens que procura dar aos seus semelhantes o que os homens possam conceber de melhor; embora o sobrenatural não fosse frontalmente renegado, era removido para plano tão longínquo e apagado que praticamente ele nada significava.

 

Cancelava-se assim o caráter transcendental ou religioso da própria religião e do sacerdócio, a fim de dar lugar ao naturalismo que, de maneira elegante e sedutora, desvirtua o sobrenatural.

 

Mais precisamente: esse naturalismo era a ideologia marxista, que os padres-operários, ora mais, ora menos conscientemente, respiravam no seu ambiente de vida; estavam tão enlaçados por este que não conseguiam mais emergir ou vir à tona. Sim; oito horas diárias de duro trabalho manual eram suficientes para extenuar a resistência física, reduzindo ao mínimo (ou extinguindo) as possibilidades de reflexão, estudo e oração; os sacerdotes eram assim arrastados pela onda (sem talvez o saber nem querer).

 

Na verdade, como se poderia conservar nos sacerdotes a consciência da sua missão sobrenatural ou religiosa, dado que não exerciam mais as suas funções sacerdotais propriamente ditas: Missa, Breviário, oração, estudos sagrados? Inevitável era assim o esvaecimento dos valores que o sacerdote como sacerdote tem que dar ao mundo. Em consequência, advertia sabiamente o Cardeal Liénart:

 

«Ser sacerdote e ser operário são duas funções, dois estados de vida diferentes; não é possível associá-los na mesma pessoa sem alterar a noção mesma de sacerdócio. O padre é chamado a consagrar a sua vida a Deus e ao serviço das almas, ao passo que o operário desempenha uma tarefa temporal; não é possível fundir entre si essas duas funções. Ainda que os métodos de apostolado aplicados pelos sacerdotes-operários tenham dado alguns resultados, ninguém tem o direito de tocar no sacerdócio tal como Cristo o instituiu. Doutro lado, o longo espaço de tempo consagrado ao trabalho manual já não deixa margem ao sacerdote para preencher suas funções essenciais; assim arrisca-se ele a se comprometer no plano dos afazeres temporais; ora o sacerdote deve ficar fora desse plano, sem contudo se separar do mundo. Essas razões são tão evidentes que só nos resta inclinar-nos diante delas» (alocução do Card. Liénart, proferida aos 28 de dezembro de 1953; cf. «Documentation Catholique» 1954, col. 137).

 

Em outras palavras: «ser sacerdote» e «ser operário» são duas vocações muito dignas que Deus dá aos homens, vocações, porém, diferentes uma da outra, de tal modo que o Senhor não dá simultaneamente as duas à mesma pessoa.

 

Recorrendo à figura do Corpo Místico, dir-se-á : é preciso que haja, até o fim dos tempos, na Igreja funções e tarefas diversas entre si, embora convirjam todas para uma só finalidade suprema. Sim; para que o olho auxilie eficazmente a mão, não é necessário que se tome ele mesmo mão; ao contrário, ... Analogamente, para que o sacerdote seja útil ao operário, não é necessário que se transforme totalmente em operário, mas bastar-lhe-á ter contato íntimo e assíduo com o operário; em caso de identificação total, o próprio operário seria prejudicado (como prejudicada seria a mão que não pudesse mais contar com a função especifica do olho).

 

b) Além de assimilar a ideologia marxista, os padres-operários não puderam evitar na prática a colaboração com o comunismo (geralmente, na qualidade de inocentes úteis; em poucos casos, na de líderes conscientes).

 

Não se podendo subtrair às solicitações de seus camaradas operários, não restava margem aos padres-operários para escapar a compromissos de sindicatos e campanhas de classe, que eram geralmente inspirados e alimentados por comunistas. O perigo era tanto maior quanto mais os sacerdotes viam que a sua popularidade muito dependia da sua intervenção em tais tarefas. Seria utopia julgar que os padres-operários se poderiam desembaraçar de semelhantes compromissos no momento em que a hierarquia da Igreja os quisesse aplicar a outro setor de apostolado.

 

2. Positivamente, a questão dos padres-operários deu ocasião a que fossem reafirmados certos princípios fundamentais que devem nortear o sacerdócio católico e que se poderiam assim resumir:

 

a) A obra do sacerdote é obra essencialmente sobrenatural.

 

Isto quer dizer: a salvação das almas (que o sacerdote visa) é fruto da graça divina; a atividade humana, neste setor, fica sendo mero instrumento ou meio, nunca é em si mesma um fim. Por conseguinte, não há organização ou tática de apostolado que seja por si necessária e insubstituível.

 

A atividade exterior só tem valor e resultado na medida em que o apóstolo, principalmente o sacerdote, a vivifica pelo emprego dos meios sobrenaturais indispensáveis (Santa Missa, Breviário, meditação cotidiana, exame de consciência, etc.). O trabalho nunca pode substituir a oração e o cultivo da vida interior; ao contrário, ele só se torna fecundo caso seja um influxo da íntima união da alma com Deus. Ora, já que a união com Deus se obtém normalmente dentro do Corpo Místico de Cristo, segue-se que:

 

b) A obra do sacerdote se exerce em estrita união com a Igreja.

 

Em outros termos: o verdadeiro apóstolo cristão, máxime o sacerdote, é humilde, submisso aos seus superiores; esforça-se por «sentire cum Ecclesia» (pensar e vibrar com a Igreja), consciente de que somente assim estará pensando e vibrando com Cristo.

 

Caso o padre deva sacrificar algo dos seus pontos de vista e das suas atividades para atender às diretivas da Sta. Igreja, recorde-se de que foi justamente pela obediência, a renúncia e a cruz que Cristo resgatou o mundo. O paradoxo ou o absurdo da cruz que salva — já apregoado por São Paulo em 1 Cor 1,22-25 — conserva toda a sua validade no século XX; constitui elemento capital na mensagem cristã.

 

Inegavelmente, certo espírito de aversão à obediência e procura da autonomia é nota marcante da mentalidade moderna. Tem-se infiltrado até mesmo entre os católicos, sugerindo a alguns a idéia de que os imperativos da consciência subjetiva gozam de primazia absoluta, mesmo sobre os preceitos da autoridade eclesiástica.

 

É o que deu ensejo à seguinte observação do Cardeal Feltin, concernente aos padres-operários em particular:

 

«Houve quem repetisse incessantemente através do rádio que não é necessário obedecer às exigências das legítimas autoridades, mas basta que cada um siga a sua consciência... Esta disposição, que pode ter dolorosas consequências na ordem social, não deixa de as ter, e mais graves ainda, no setor religioso e principalmente no sacerdotal. Ela dá origem a um neoprotestantismo, que o Sto. Padre lastima tão profundamente; não se quer reconhecer como lei senão o modo de julgar do próprio indivíduo. Tal disposição, em certas almas, produz rebordosas que chegam a alterar o sentido da fé; é o que se dá com alguns jovens sacerdotes, que dizem perder a fé e a confiança, porque a Igreja, movida por legitimas razões, julga não poder corresponder, nem hoje nem amanhã, aos pontos de vista ou aos desejos desses jovens» (alocução proferida aos 27/IX/53; cf. «Documentation Catholique» 1158, de 18 de outubro de 1953, col. 1306).

 

c) O sacerdote, com seu duplo aspecto (natural e sobrenatural), será figura intangível e duradoura na Igreja até o fim dos séculos.

 

Diga-o o famoso escritor francês François Mauriac em um artigo do jornal «Le Figaro» de 12 de janeiro de 1954:

 

«O proletariado evolui. A 'desproletarização', já iniciada nos Estados Unidos, não prosseguirá alhures? As usinas eletrônicas (tipo 'robôs') da Inglaterra e dos Estados Unidos não anunciam uma renovação total das condições de vida dos operários nos próximos cinquenta anos?..

 

Ao contrário, as condições de autenticidade do sacerdote não mudarão: até o fim dos tempos ficarão sendo essencialmente as mesmas... O homem que recebeu do Filho do Homem o poder de perdoar os pecados, o homem que consagra e eleva o cálice em nome de todo o povo, jamais será um homem igual aos outros...».

 

A seguir, observa Mauriac que, «num mundo entregue à idolatria como o nosso, num mundo em que ninguém mais parece precisar do padre, num mundo em que o padre mesmo se pode sentir desambientado», facilmente o sacerdote é tentado a crer que melhor é tornar-se um homem igual aos demais homens, adaptando-se aos outros cidadãos por seu modo de pensar e viver.

 

Neste caso, o sacerdote baixaria de plano, deixando de se guiar pela fé e pela consciência do sobrenatural, para adotar pontos de vista meramente humanos ou naturais. Seria menos paradoxal, mas — diga-se também — seria menos útil e valioso para o mundo. Sim; embora o mundo profira sátiras a respeito de Deus e dos valores espirituais, em última análise o mundo precisa justamente de Deus. Nestas circunstâncias, deixar de lhe falar de Deus, silenciar a respeito do sobrenatural, seria verdadeira calamidade, seria expor a sociedade à miséria e à ruína totais. Ou o sacerdote prega abertamente os valores religiosos sobrenaturais (segundo a capacidade de compreensão do seu auditório, é claro) ou então carece simplesmente da sua razão de ser.

 

Conclui Mauriac que, se o sacerdote-operário crê realmente naquilo que ele é, o maior serviço que ele pode prestar aos seus irmãos é o de renunciar a pontos de vista meramente humanos para abraçar integralmente as normas da obediência e da submissão à Igreja; doutro lado, o pior serviço seria o de não salvaguardar em sua conduta a figura do sacerdote (homem de Deus e da Igreja), pois é desta figura que os homens, sem o saber, necessitam; caso não dê os valores de Deus e da Igreja, o sacerdote dará o que é seu pessoalmente, dará o humano e o próprio «eu», elementos estes de que o mundo está saturado até o tédio.

 

As sábias ponderações de Mauriac constituem ótimo epílogo para quanto acaba de ser dito sobre os padres-operários. Conviria apenas frisar ainda que, encerrando em 1954 a iniciativa dos padres-operários em seus moldes iniciais, a Santa Igreja só fez aprimorá-la em moldes novos, a partir dessa mesma data. A Santa Igreja não intencionou de modo algum desinteressar-se ou separar-se das classes proletárias.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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