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O Mal

“os homens melhores não têm convicção; e os piores estão tomados pela intensa paixão do mal”.

William B. Yeats (1865 – 1939)

Poeta e Intelectual Irlandês

 

Boa parte dos 80 anos do psicólogo americano Philip Zimbardo foi dedicada a buscar resposta a uma questão ao mesmo tempo fascinante e assustadora: o que leva as pessoas a praticar o mal? Seu ponto de partida foi uma revolucionária pesquisa realizada nos anos 70, na Universidade Stanford: ao isolar e dividir um grupo de jovens entre guardas e prisioneiros no ambiente imaginário de uma prisão, ele constatou que os maus tratos de uns e a submissão de outros extrapolaram todos os limites. Hoje, o psicólogo tem críticas ao próprio experimento. “Foi antiético porque causou sofrimento aos participantes”, diz. No livro O Efeito Lúcifer (Ed. Record).

 

Diz Dr. Zimbardo: “Nossa mente possui uma capacidade infinita de racionalizar e justificar nossas ações. Para os nazistas, essa justificativa era a crença de que aqueles atos se faziam necessários em prol de uma causa, um “bem maior”. Outros, menos idealistas, diziam apenas estar realizando seu trabalho, e isso, para eles, tornava qualquer ação razoável. O fato é que havia milhões de pessoas em cumplicidade, prontas para exercer o mal em sua pior forma dentro de um sistema muito bem engendrado. O ditador Adolf Hitler corrompeu todas as esferas da sociedade – da educação ao judiciário – criando mecanismos de controle e dominação que o tornaram a si próprio dispensável. A meu ver, a história não mudaria seu curso se um dos planos para assassinar Hitler tivesse prosperado. A máquina para fazer o mal já estava montada, e a maioria se juntaria a ela, como sempre faz. Repare que um ingrediente essencial dessa engrenagem foi à desumanização das vítimas – no caso, os judeus. Quando isso acontece, a disseminação do mal se trivializa”. “As pessoas são, sim, responsáveis por suas ações e devem responder por elas perante as instituições de direito, mesmo que o sistema as tenha empurrado para a direção errada”.  O julgamento de Nuremberg trouxe essa questão à tona ao tratar da carnificina nazista. Os oficiais de Hitler alegavam no tribunal: “Eu estava apenas seguindo ordens, não tinha como fazer diferente”. Queriam banalizar o mal, como a filósofa alemã Hannah Arendt bem pontuou. Mas a justiça condenou a todos, enfatizando uma ideia essencial: se você prejudicou o próximo, ceifou vidas, disseminou o mal, as razões são absolutamente irrelevantes. “Você é culpado da mesma forma”, afirma Dr. Zimbardo (1).

 

“Adolf Hitler não iludiu os alemães: seus seguidores compartilhavam de suas convicções”, esclarece o remorado historiador, documentarista e escritor especialista em nazismo Laurence Reis (2).

 

Faz parte da natureza humana haver convicções maléficas, desordem e manipulação das massas a carnificina.

 

O Mal e o Perdão

 

“Hoje são muito evidentes as armadilhas do mal, que só perde sua força quando se bate com testemunhos de fé e santidade. Está provado, em toda a vigência da história, que o ser humano não consegue derrotar a violência com a agressividade nem vencer a maldade com o coração fechado à compaixão e ao perdão”.

Dom Geraldo Majella Agnelo

Cardeal Arcebispo Emérito de Salvador (3)

 

Flagelado, humilhado, pregado à cruz, Jesus Cristo ainda encontra forças, segundo conta o Evangelho de Lucas, para interceder por seus algozes: “Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem”. A beleza literária do perdão in extremis arrebata até os nãos cristãos. Mas considere-se, ao lado do Cristo de São Lucas, o Próspero de William Shakespeare. Ancião, mais ainda lúcido e vigoroso, e do alto dos poderes que tem sobre as forças da natureza, o monarca deposto de Milão encontra oportunidade de vingar-se daqueles que o traíram e se exilou acompanhado da filha pequena, Miranda, em uma ilha perdida do Mediterrâneo – e que, mais grave, assim agiram sabendo muito bem o que faziam. No entanto, Próspero perdoa até o irmão conspirador, Antônio, e o usurpador Alonso, rei de Nápoles.

 

“Próspero não é Shakespeare, mas a possibilidade de identificação é mais forte que com outros personagens”, diz o crítico A. D. Nuttall, em Shakespeare the Thinker (Shakespeare, O Pensador). Nuttall descobre uma nota de desilusão nessa peça outonal: as motivações de Próspero são obscuras, seu perdão é reticente, e a visão do mundo como um teatro de ilusões é, no limite, niilista. Esta seria, diz Nuttall, a peça de um autor que se aposenta com certa vergonha de ter dedicado a vida ao palco. Pode ser ao mesmo tempo – tal é a multiplicidade de Shakespeare – a peça também é uma celebração da humanidade. (Não do ser humano redimido pela religião, nem da criatura quase angelical que povoa os sonhos de utopistas (como Gonzalo), o nobre amigo de Próspero que, ao chegar à ilha, projeta no ar uma comunidade selvagem e idílica), mas do ser humano tal como é contingente, mesquinho – até monstruoso, como o deformado Caliban, capaz de uma poesia encantadora em suas falas.

 

Mal e Privação

Santo Agostinho constata que o mal não é um ser, não tem caráter ontológico, não tem nada de positivo, enfim ele é um não-ser. “O mal não tem natureza alguma; pois a perda do ser é que tomou o nome de mal”. Se todo o bem fosse retirado das coisas, nada sobraria, pois o mal não é uma substância como queriam os maniqueístas, é privação ou imperfeição. Portanto é impossível que o mal tenha se originado de Deus, pois Deus é aquele que dá o ser as coisas. (Cidade de Deus, IX, p. 29) (4).

Segundo Santo Tomás de Aquino, não existe maior mal, para a natureza humana, do que se privar, voluntária e conscientemente, da companhia de Deus. Este é o mal moral que se dá no contexto da liberdade e da responsabilidade humanas, como consequência de ações assentadas nos juízos da razão e na anuência da vontade. Para Santo Tomás, “mal e privação” são sinônimos. (Suma Teológica, primeira parte, questão 48, artigo 1, “ad primum”.

 

Conclusão

Sócrates via Platão (A República, Livro IX), defende que o homem que pratica o mal é o mais infeliz e escravizado de todos, pois está em conflito interno, em desarmonia consigo mesmo, perenemente acossado e paralisado por medos, remorsos e apetites incontroláveis, tendo uma existência desprezível, para sempre amarrado a alguém (sua própria consciência!) onisciente que o condena.

 

Jean Pierre Dupuy, filósofo da Escola Politécnica de Paris e da Universidade de Stanford escreveu em seu livro Por um Catastrofismo Esclarecido: “Sempre o Mal esteve relacionado com as intenções de quem o comete. Os horrores do século XX deviam nos ter ensinado que isso é uma ilusão. O absurdo é que um mal imenso possa ser causado por uma completa ausência de malignidade, que uma responsabilidade monstruosa possa caminhar junto com uma total ausência de más intenções. (...) a catástrofe ecológica maior com que nos deparamos e que põe em perigo toda a humanidade será menos o resultado de um mal dos homens ou mesmo de sua estupidez. Terá sido mais por uma ausência de pensamento (‘thougthlessness’) (...)”.

O mal toma muito espaço na sociedade devido o esquema projetado pela crise e sofrimento. A maldade é efetuada via a perturbação e componentes que desvirtuam os seres humanos do bem comum.

 

O mal tem táticas incompreensíveis e seu abismo é silencioso. O mal é praticado sem culpados visíveis. A indústria do mal é bastante lucrativa, sua discussão filosófica é interminável, sua parte na teologia é complexa e diabólica, nas ciências políticas propõem soluções ditatoriais, liberais e democráticas, na psicologia e psiquiatria lançam mão da etiologia e epistemologia para estudos do autoentendimento.

 

No alto teor da racionalidade humana, atingir a fortaleza do bem é a nossa meta. Radicalizar a bondade e extrair o mal pela raiz.

 

Já houve época em que a solução para os problemas sociais e afins era a religião, assim pensava a casta sacerdotal; para os impérios, era a dominação dos vencidos; na idade medieval, as cruzadas; no período moderno e contemporâneo, a monarquia, o protestantismo, a oligarquia, capitalismo, comunismo, democracia, fascismo, nazismo, e hoje, a ciência e a tecnologia. No entanto, no cerne de tudo isso, a maldade continua!

 

O mal silencioso não faz mártires, heróis e nem vilões. No passado, como no presente, tantas religiões, igrejas, seitas, sábios e generais, e quantos escravos, perseguições, crueldades, fome e crimes.

 

Pe. Inácio José do Vale

Pesquisador de Seitas

Professor de História da Igreja

Instituto de Teologia Bento XVI

Sociólogo em Ciência da Religião

E-mail: [email protected]

 

Notas:

 

(1)     Veja, 21/08/2014, pp. 15 e 18.

(2)      BBC-Históry Brasil, ano 1, nº 1, 2014, pp. 17 e 18.

(3)     Liturgia Diária, ano XIX, nº 227, novembro de 2010.

(4)     AGOSTINHO, Confissões. São Paulo: Paulus, 2006.

 


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