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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 57 – setembro 1962

 

OS CRISTÃOS PERANTE A QUESTÃO SOCIAL

SOCIOLOGIA HESITANTE (Porto Alegre): «Qual o papel do Cristianismo e dos cristãos diante dos problemas sociais contemporâneos? Há quem deseje que os cristãos e a Igreja atuem mais, como há também quem ache que as questões profanas não são da alçada da Igreja. Que pensar a propósito?»

 

Nas crises sociais em que se debate o mundo de hoje, propõem-se as mais diversas atitudes a ser tomadas pela Igreja.

 

1)   Alguns homens públicos desejariam por si sós, ou seja, apenas com recursos de ciência e técnica, resolver os problemas da humanidade; a Religião seria assunto de foro meramente privado; ela se desenvolveria e consumaria no fundo da consciência de cada individuo; quando muito, poderia exteriorizar-se nos templos e sacristias; mas nunca transpareceria na esfera pública.

 

2)   Outros pensadores, ao contrário, julgam que a Religião, e em particular a Igreja Católica, devem tomar parte muito íntima nas tarefas de reconstrução do mundo atual. Chegam mesmo a equiparar a Igreja às demais sociedades beneficentes e humanitárias; relegam para um plano secundário as tarefas religiosas do culto e do santuário, como se fossem coisas de séculos passados, coisas que hoje em dia só fazem subtrair tempo e energia às tarefas urgentes de distribuição de pão, veste, teto, emprego, etc.; em poucas palavras: opõem à administração dos sacramentos a «pastoral da justiça social» (como dizem), dando a esta o máximo de importância. Assim falam, por exemplo, os católicos ditos «da esquerda». A sua atitude, aliás, parece fazer eco fiel às palavras que já o líder socialista Saint-Simon, em 1825, dirigia a S. Santidade o Papa:

 

«O verdadeiro Cristianismo deve tornar os homens felizes não somente no céu, mas sobre a terra... É preciso que useis franca e energicamente de todos os meios da Igreja militante para melhorar prontamente o estado moral e físico da classe mais numerosa» (Novo Cristianismo).

 

Um discípulo de Saint-Simon, o israelita Isaac Péreire, cinquenta anos mais tarde, pedia instantemente ao Papa prestasse eficaz colaboração para resolver «o terrível problema do pauperismo e do trabalho»: «Não é a Igreja... a mãe de todos os humildes, a protetora de todos os oprimidos? ... Após haver destruído a escravidão antiga e o regime servil do feudalismo, ela deve agora melhorar a sorte do trabalhador moderno» (citado por L. Garriguet, Question Sociale et Écoles Sociales. Paris 1922,13« ed.).

 

Enfim, algumas correntes socialistas recentes, professando idéias religiosas, repetiram semelhantes apelos; quiseram substituir o credo religioso por um credo social e transformar a missão espiritual da Igreja em missão temporal. — Este programa, como dizíamos, ainda atrai a muitos dos nossos contemporâneos, que desejam ser católicos e ao mesmo tempo colaborar com a ação social dos esquerdistas.

 

É lógico, pois, que, em meio a tão diversos pareceres, se indague qual deva ser a genuína atitude do cristão e da Igreja diante dos problemas sociais contemporâneos.

 

Procuraremos elucidar a questão percorrendo três etapas:

 

1) A missão do Cristianismo neste mundo é, antes do mais, religiosa e sobrenatural.

 

Isto está longe de significar que o Evangelho e a Igreja passam ao lado dos problemas reais e cotidianos do homem e dos povos, ficando no plano do invisível e abstrato. Muito ao contrário; isso significa que o Cristianismo faz eco justamente à mais íntima aspiração que todo e qualquer ser humano (seja primitivo, seja civilizado) traz em si: a aspiração ao Infinito, ao Transcendente. Sim; o Cristianismo veio explicitamente dizer que há uma resposta a esse apelo; há uma realidade correspondente a esse anelo; há uma vida eterna,... de modo que o homem não foi feito simplesmente para este mundo; a matéria e o tempo são valores exíguos demais para a alma humana.

 

Consequentemente, o Cristianismo veio excitar nos homens a sede da consumação dos tempos e a consciência de que são peregrinos sobre a terra, peregrinos cujo olhar deve estar constantemente voltado para a eternidade, donde provém a verdadeira luz a fim de avaliarem os afazeres temporais. Os primeiros cristãos exprimiam bem essa consciência, terminando as suas reuniões litúrgicas com a exclamação: «Passe o mundo e venha a graça!» (Didaqué 10,6).

 

Seja lícito frisar: a aspiração ao invisível ou a intuição de que há um Mistério que os sentidos não conseguem abarcar, não é algo de artificial ou incutido ao homem por determinada época ou cultura, mas está arraigada da natureza humana como tal: mesmo o não cristão, como seriam o hinduísta, o yógui, o muçulmano e o próprio ateu dão, cada qual do seu modo, expressão a esse anelo (o ateu moderno, marxista, por exemplo, o faz aspirando a um paraíso futuro, que ele quer preparar mediante nova distribuição dos bens materiais e o progresso da ciência).

 

Ora, essa aspiração fundamental, bem ou mal orientada pelas diversas correntes ideológicas da humanidade, o Cristianismo a aguça e lhe dá a autêntica resposta. Daí se vê que a missão primária do Cristianismo está longe de ser alheia à realidade íntima dos homens.

 

Consciente disto, a Igreja não pode deixar de anunciar ao mundo, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua missão religiosa, embora Ela assim se arrisque a sofrer incompreensão e críticas. O Episcopado Francês o declarava solenemente ainda em abril de 1954:

 

«Restituir aos homens o sentido de Deus, da sua santidade, da sua transcendência, da sua bondade — eis a primeira das tarefas missionárias. A crença em um Deus Soberano e Criador constitui o âmago mesmo da Religião, a condição da salvação, o fundamento da moralidade, o vínculo da sociedade humana» (Documentation Catholique n» 1173 [1954] col. 608).

 

Pio XI, por sua vez, o asseverava categoricamente:

 

«Não foi, por certo, confiada à Igreja a missão de encaminhar os homens para a conquista da felicidade transitória e deficiente, mas da eterna» (enc. «Quadragésimo anno»). Antes, «a Igreja crê não dever intrometer-se sem motivo nos afazeres terrestres» (ene. «Ubi Arcano»).

 

Isto equivale a dizer que a Igreja não interfere, por exemplo, em questões de forma de governo (monarquia, república, presidencialismo, parlamentarismo...), ou de escolha de partido político, a não ser que estejam em causa valores religiosos e morais. Vê-se também que não se pode nem deve esperar que a Igreja, nas circunstâncias normais (excetuam-se naturalmente situações extraordinárias), funde partidos políticos, dite normas para o orçamento nacional ou empreenda obras de caráter profano...

 

Aliás, é fato comprovado que, justamente a atitude da Igreja voltada primariamente para os valores eternos, por muito que à primeira vista desconcerte os homens, é o que dá fascinação e encanto à Esposa de Cristo; sim, aquilo de que os homens têm sede nos nossos dias é, em última análise, o Mistério, o Invisível, ou, em outros termos, Deus.

 

Para ilustrar esta afirmação, lembramos aqui o tópico já consignado em «P. R.» 56/1962, qu. 1: perguntaram ao ex-líder comunista britânico Douglas Hyde se julgava inevitável a vitória do comunismo no mundo. Douglas respondeu que o perigo é realmente grande, pois o esquerdismo está desenvolvendo uma ação possante para dominar os povos, e chamava a atenção para o fenômeno seguinte: Moscou procura atrair as nações mediante palavras, promessas e propaganda, enquanto Washington tenta contrabalançar esta ação levando dinheiro e auxílios materiais aos povos necessitados; não obstante, as palavras de Moscou (que não enchem a bolsa nem o ventre) atraem mais do que os subsídios financeiros norte-americanos. Como explicar o paradoxo? Prosseguia Hyde: os técnicos norte-americanos são «meros técnicos, espiritualmente vazios, não preparados para a sua missão social» (palavras textuais); ao contrário, os emissários soviéticos vêm como portadores de idéias ou mesmo de uma mística: creem em algo de futuro e invisível, que apregoam com entusiasmo; daí o seu sucesso (cf. a revista «Orizzonti» de 8/III/1962). — A explicação de Hyde parece adequada. O fenômeno bem mostra que, apesar das campanhas de reivindicações materiais de nossos tempos, os homens, em seu fundo íntimo, desejam valores maiores do que os materiais,... desejam os valores do espírito, desejam a Deus. E estão certamente fadados ao êxito a ideologia e a sociedade que revelem o verdadeiro Deus ou a autêntica face de Deus aos homens.

 

Parece oportuno mencionar também uma passagem do famoso escritor francês Saint-Exupéry (o qual, de resto, nunca chegou a ser propriamente católico):

 

«Há um só problema, um só no mundo inteiro: restaurar nos homens o senso do espiritual e as inquietudes espirituais. Não podemos mais viver de refrigeradores, de política, de balanços e de palavras cruzadas. Não o podemos mais!... Há um só problema, um só : descobrir de novo que existe uma vida do espírito mais elevada ainda do que a vida da inteligência, a única vida que satisfaça ao homem» (transcrito do livro de L. Becqué, Faut-il réformer les sermons? Paris 1957, 21).

 

À guisa de comentário, acrescenta Becqué:

 

«Ainda que não tenham sempre muito viva consciência disto, os homens geralmente estão sufocados, sentindo que lhes falta ar; experimentam fome e sede de algo que não sejam os interesses imediatos, ou que não sejam os objetos materiais, utilitários, fabricados, técnicos, inventados; algo que esteja acima de tudo isso, que seja anterior a tudo isso, que viva mais do que tudo isso; algo que não saia nem de uma usina, nem de um cérebro; algo que não se perca, nem se quebre, nem se discuta nem se termine, e que jamais possa vir a faltar. Que seria? Quem seria ? Em todos os tempos, tal ser foi chamado Deus» (1. c. 22s).

 

Precisamente a essa fome e sede é que a Igreja deve, antes do mais, responder; não lhe será licito, em caso algum, renunciar a essa tarefa primária. Não obstante, faz-se mister acrescentar:

 

2) O Cristianismo sabe que lhe tocam outrossim uma missão e uma responsabilidade temporais, ou seja, o dever da presença e do testemunho no tempo e no espaço.

 

1. O mistério central da fé cristã é, sim, o mistério do Verbo Encarnado ou de Deus feito homem ou, ainda, de Deus que interveio sob formas sensíveis no tempo e no espaço. Donde se vê que o Cristianismo deve também atuar sensivelmente no tempo e no espaço. Por conseguinte, apregoar existência cristã desencarnada ou «angelismo» vem a ser atraiçoar o próprio Cristo. Um Cristianismo tristonho que se fechasse na pura contemplação ou no pranto, esquecendo a vida terrestre, seria deturpação do Evangelho. O discípulo de Cristo tem que tomar parte nos empreendimentos temporais que beneficiam a humanidade, porque tais empreendimentos, em última análise, tocam o substrato sobre o qual se desenvolve a vida espiritual e eterna dos homens. Aos cristãos que, sob o pretexto de uma espiritualidade mais pura, se recusassem a prestar colaboração à sociedade, poder-se-iam aplicar as palavras, tão irônicas como graciosas, de Charles Péguy:

 

«Eles têm as mãos puras, mas não têm mãos».

 

O que quer dizer: a pureza da espiritualidade de tais cristãos seria pureza artificial, pureza sem vida, que certamente não agradaria a Deus. Praticamente estariam mutilados, porque não teriam as mãos do Cristo.

 

2. Pode-se mesmo dizer: o cristão ama as criaturas materiais e temporais mais ainda do que o seu concidadão materialista, precisamente pelo fato de as amar em Deus e por causa de Deus. Dedica-lhes estima religiosa, porque sabe que tudo no mundo foi consagrado pelo mistério da Encarnação e, por conseguinte, tem valor religioso. Não é, pois, com pessimismo, mas com otimismo, que o discípulo de Cristo olha para o mundo, prolongando o olhar que ele lança para Deus. É São Paulo quem o diz:

 

«Tudo é vosso :... o mundo, a vida, a morte, as coisas presentes, as futuras, Tudo é vosso. Vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus» (1 Cor 3,22s).

 

Na verdade, não é o Cristianismo, mas por vezes é a negação de Deus, que leva o homem a negar o próprio homem ou a desprezar a miséria e as situações angustiosas da sociedade.

 

Com efeito; tenha-se em vista o existencialismo em sua forma ateia, que, no dizer de Jean-Paul Sartre, é a forma mais lógica da irreligião: tal filosofia anuncia o absurdo das criaturas, até mesmo da vida humana, é a náusea em relação a tudo. Interpretando bem tal mentalidade, a revista «Temps présent», em estilo humorista inglês, assim caracteriza o existencialismo:

 

«O existencialismo se resume em duas proposições muito simples: 1) é uma teoria negra, que proclama ser muito lamentável, termos nós vindo a este mundo: 2) dá provas de comportamento genuinamente existencialista o indivíduo que se encontra a bordo de uma nave prestes a ir a pique... : no tombadilho, tripulação e passageiros se esforçam denodadamente por salvar-se; entrementes o existencialista desce calmamente ao seu camarote, a fim de colocar ao pescoço uma gravata negra...» (transcrito da obra «Les grands appels de l'homme contemporain». Paris 1947, 209).

 

A náusea que o existencialismo professa frente a este mundo, chega ao ponto do sarcasmo... Quanto ao cristão, por mais desejoso que seja de outra vida (melhor do que a presente), nunca lhe será lícito reproduzir tal atitude. Justamente por ser portador da Redenção de Cristo, ele procurará estendê-la ao mundo com otimismo, removendo as injustiças e os males sociais que afligem os homens; procurará ser sal da terra..., luz do mundo..., bom odor de Cristo (cf. Mt 5,13s; 2 Cor 2,15).

 

3. Eis, porém, que, ao se tratar de ação social do cristão, surge a grande questão, que muito agita os nossos contemporâneos: não será então oportuno que o discípulo de Cristo una os seus esforços aos do marxismo, prestando-lhe colaboração no que diz respeito à melhora das atuais condições de vida? O cristão assim daria a mão ao marxista, sem compromisso ideológico.

 

A solução pode parecer bela, mas é de todo impossível.

 

Na verdade, a ação social do cristão e a do marxista são inseparáveis de sua respectiva ideologia. Sim; o marxista visa reformar o mundo para reformar o homem, ao passo que o cristão intenciona reformar o homem para reformar o mundo.

 

Expliquemo-nos melhor:

 

Para o marxista, o cerne do problema social é a produção de bens materiais; esta constitui o valor básico da história dos indivíduos e das sociedades. Os demais valores (filosofia, consciência, moral,, direito, religião, arte...) são funções da produção material (são superestrutura) e variam com ela, de modo que os homens são bons e honestos se há suficiência de bens materiais, e são maus, caso haja penúria.

 

Para o cristão, dá-se justamente o contrário: o valor básico está dentro do homem, é a consciência moral. Esta é que possibilitará ao cidadão e à sociedade melhor aproveitamento e distribuição dos bens materiais. Sem reforma ética, não se resolve o problema social. Os homens não dependem tanto do seu tempo e ambiente, como o tempo e os ambientes dependem do homem. É de dentro da criatura, e não de fora, que se derivam as grandes injustiças sociais e as calamidades dai decorrentes. Sim; são palavras do Senhor no Evangelho:

 

«Do coração do homem procedem os maus pensamentos, o adultério, a fornicação, o homicídio, o furto, a avareza, a iniquidade, a fraude, a concupiscência, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a estupidez. Todos estes males se derivam do intimo do homem» (Mc 7,21-23).

 

Em vista disto, compreende-se que é utópica ou inexequível qualquer forma de colaboração entre comunismo e marxismo; na prática, um dos dois absorverá o outro, sendo que geralmente a vantagem redunda para o marxismo, pois este tem por lícito o emprego de qualquer meio violento. São vãos, portanto, e ilusórios os planos de católicos que em seu idealismo apregoam pactuar com o comunismo. — O católico há de desenvolver, sim, intensa ação social, mas independente da ação marxista.

 

Uma terceira proposição ainda se deve formular a respeito da atitude da Igreja diante dos problemas temporais.

 

3) No exercício da sua missão temporal, o cristão não se ilude : sabe de antemão que será impossível atingir a ordem perfeita neste mundo antes da consumação dos séculos.

 

E qual o motivo desta ressalva?

 

— Enquanto os homens forem peregrinos na terra, trarão sempre em si as consequências do primeiro pecado, entre as quais é relevante o egoísmo ou egocentrismo. Esta desordem arraigada dentro de todo individuo, por mais que seja combatida, constituirá sempre grave ameaça aos sentimentos de justiça e altruísmo. — Levem-se em conta também as doenças, os flagelos periódicos da natureza e outros males físicos que o primeiro pecado desencadeou no mundo e que o homem terá sempre que suportar dolorosamente. Perceber-se-á então que é preciso, de antemão, renunciar a instaurar o paraíso neste mundo.

 

Somente quando Cristo voltar glorioso no fim dos tempos para consumar a obra da Redenção, cancelando as últimas consequências do pecado e instaurando céus novos e terra nova, haverá perfeita harmonia entre as criaturas.

 

Por isto, dizia o próprio Jesus : «Pobres, sempre os tereis convosco» (Mt 26,11). Estas palavras, longe de decepcionar ou desanimar o cristão, lhe incutem uma visão muito sadia da realidade: ele procurará, de um lado, com todos os meios combater a miséria e o pauperismo; mas, de outro lado, não se entregará a ilusões utopistas. As palavras de Cristo lembrarão sempre aos homens que é preciso tender para a plenitude da Redenção, mantendo o olhar constantemente voltado para a eternidade.

 

Dizia o Episcopado Francês na sua citada Declaração:

 

«É necessário evitar o risco de confundir a esperança do reino de Deus com um ideal meramente terrestre; é preciso, não nos iludamos com um messianismo puramente temporal... A história do gênero humano toma então todo o seu sentido e todo o seu valor, quando vista na perspectiva grandiosa do desígnio de Deus e da construção da Jerusalém celeste» (1. c. 604).

 

De resto, o Evangelho ensina (e este é o grande absurdo para o homem que não tem fé) que nem o sofrimento e a cruz deixam de ser algo de bom e valioso. Aqueles que carregam a cruz (e não há quem não a tenha que carregar do seu modo: pela doença, pela fome, pelo luto, pelo desemprego...) podem ter certeza de que também a cruz é graça; é instrumento de Redenção; a ela se prende uma bem-aventurança especial:

 

«Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o reino de Deus.

Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis saciados.

Bem-aventurados vós que agora chorais, porque haveis de rir».

(Lc 6, 20s).

 

Sim; valioso é o sofrimento, porque educa o homem, emancipando-o do egoísmo e do amor próprio; faz-lhe compreender melhor o próximo e mantém o seu olhar aberto para Deus e a eternidade. Ao contrário, os afagos deste mundo (que Cristo caracteriza como dinheiro, saciedade e gozo) acarretam o grande perigo de embotar o homem, de o fechar em si mesmo e no reino da matéria, fazendo-lhe correr o risco de perder os verdadeiros bens, que são os da vida eterna.

 

Conscientes disto, já os sábios gregos pagãos repetiam o trocadilho spathos-mathos», ou seja, «padecimento é aprendizagem, é burilamento». Geralmente acontece que, para que os homens se tornem mais amigos dos homens e de Deus, é mister que sofram; o sofrimento ensina...

 

À luz destas idéias, vê-se muito bem que a presença de pobres no mundo até o dia de hoje está longe de significar que o Cristianismo tenha falhado a sua missão. A própria pobreza, para o cristão, é Redenção, purificação, santificação. O cristão tem que procurar debelá-la, não há dúvida; mas, se a Providência Divina julga que ela deve perdurar cá e lá por toda a história deste mundo, essa pobreza não é simplesmente absurda ou destituída de sentido.

 

Conclusão

 

Hoje, talvez mais do que nunca, importa que os cristãos tenham consciência dos seus genuínos valores e os estimem profundamente, tanto em teoria como na prática. O que faz que os ateus tomem dianteira no mundo de hoje, é justamente o fato de usurparem valores religiosos (fé e esperança no Invisível, mística daí decorrente), colocando-os a serviço de sua causa materialista, que, em última análise, não é senão outra forma da procura de Deus (é a religião do Anti-Deus). Se os ateus conseguem vencer os cristãos com as próprias armas dos cristãos, não se deverá isto ao fato de que os cristãos não têm sabido utilizar conscientemente os seus recursos? Não terão os cristãos deixado de dar o testemunho que deveriam dar, de tal sorte que, por ironia, os adversários dos cristãos se sentem impelidos a dar tal testemunho, mas o dão às avessas, matando e destruindo em vez de construir?

 

Possam estas questões servir de breve roteiro para uma revisão de vida, na medida em que esta seja necessária!

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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