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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 56 – agosto 1962

 

USO DE REMÉDIOS E CONSCIÊNCIA CRISTÃ

MORAL

FARMACÊUTICO (Vitória): «Ouvem-se vozes de autoridade que fazem restrições ao uso de medicamentos como se por vezes fossem nocivos ao paciente. Haverá algum fundamento para isto? Que diz a Moral cristã a propósito?»

 

Em resposta, será oportuno recordar primeiramente qual a missão do médico e da medicina junto aos enfermos. A seguir, consideraremos o aspecto moral do uso de medicamentos.

 

1. O ideal do médico

 

O ser humano não consta apenas de carne e ossos, mas possui também uma alma espiritual (cf. PR 5/1958, qu 1). Donde se segue que o médico não pode limitar seus horizontes à consideração da matéria humana; faz-se mister, leve em conta também o psíquico do paciente com todas as aspirações (aspirações ao Bem Infinito) que este traz em si. Com outras palavras: é preciso que o médico trate o enfermo de tal modo que este não sofra detrimento em seus interesses superiores, mas, ao contrário, seja, se possível, corroborado e excitado a procurar com mais afinco a perfeição espiritual e a vida eterna. O médico procurará curar não somente para a existência terrestre e temporal, mas indiretamente (na medida em que depender dele também para a vida eterna. É o que o Dr. V. von Weizsäcker assim exprime:

 

«Compreendemos que a finalidade da Medicina não consiste simplesmente em restaurar a saúde do corpo; trata-se de coisa bem diferente: o tratamento médico há de ser incluído, como parte de uma grande tarefa, entre os serviços que se devem prestar a um ser humano que se encaminha para o seu Fim Supremo; a doença é, em relação a este, um mero meio ou uma ocasião posta na estrada» (Diesseits und Jenseits der Medizin 124).

 

Destas considerações emanam algumas consequências para o uso de medicamentos, como se evidenciará nos parágrafos abaixo.

 

2. Males decorrentes de... remédios

 

A título de honestidade, observamos antes do mais: os dados de Medicina ocorrentes no presente artigo devem-se todos ao artigo do Dr. Georges Dupont intitulado «Alerte aux Médicaments», publicado na revista «Science et Vie» no. 534, mars 1962, págs. 37-42. 134.

 

Os cientistas e profissionais têm chamado a atenção, nos últimos anos, para os abusos de medicamentos a que a sociedade moderna se vai entregando, de tal modo que o cidadão contemporâneo não raro é vitima de seus próprios tratamentos ou remédios.

 

A população da França, por exemplo, consome diariamente uma média de 400 toneladas de remédios, quantidade enorme da qual apenas pequena parte é ingerida por prescrição médica; a maioria dos medicamentos é aplicada por iniciativa pessoal dos pacientes, os quais, para o fazer, se deixam guiar por suas impressões subjetivas e ilusórias ou por propaganda comercial ou ainda por conhecimentos médicos superficiais de «práticos», «amadores», etc.

 

Tão rica é a produção contemporânea de remédios (em pílulas, comprimidos, pomadas, xaropes, granulados, ampolas...) e tão sugestiva ou penetrante é a propaganda dos mesmos (em bulas farmacêuticas, anúncios comerciais de jornais, revistas, rádio, em mata-borrões, amostras grátis, na palavra insinuante de caixeiros viajantes, etc.) que facilmente se apodera do homem moderno uma espécie de fascinação pelos medicamentos ou uma quase fé cega em remédios, fé cega que tende naturalmente a produzir um «delírio» de medicação, ... mormente de auto- -medicação.

 

Esse estado de ânimos é nocivo ao verdadeiro bem dos enfermos e da própria sociedade. E isto, por dois motivos: por um motivo de índole diretamente moral e por outro motivo de índole fisiológica (indiretamente moral).

 

3. Os inconvenientes de índole (diretamente) moral

 

3.1) Da parte da pessoa enferma:

 

O doente que se entrega à sedução dos remédios, facilmente passa a depositar nos mesmos toda a esperança da sua cura; tende a julgar, consciente ou inconscientemente, que a saúde lhe virá pela aplicação de drogas. Frequentemente deixa-se sugestionar de tal modo que já não leva em conta outros meios que poderiam ser ainda mais importantes para a cura: a disciplina de vida, a coibição das paixões, o fortalecimento da vontade, enfim o domínio da razão sobre o corpo (sabemos que toda doença tem índole psicossomática). Usando de remédios, o enfermo (talvez sem ter consciência disto) não raro se julga dispensado de fazer alguma violência a si mesmo; torna-se pessoa de vontade fraca, que «descarrega» sobre os remédios ou sobre agentes físico-químicos toda a responsabilidade da sua cura. O subterfúgio é cômodo; para levar vida mais frouxa, o indivíduo gosta de se recobrir do título de paciente, necessitado de tratamento, dispensas e exceções...; passa assim por vítima de enfermidades, à qual não se pode atribuir culpa moral de espécie alguma.

 

Claro é que não se podem negar os casos em que realmente o paciente é mera vítima de fatores patológicos; doutro lado, não se pode deixar de reconhecer o abuso e o exagero desta explicação dos males da vida moderna; tal exagero equivale a menosprezo da personalidade humana, a qual não foi feita para capitular de pronto, mas, sim, para lutar com garbo e heroísmo.

 

Em outros termos, poder-se-ia dizer: o homem moderno muitas vezes julga (erradamente) que não precisa da absolvição de Deus, mas, sim, da absolvição do psiquiatra, «... do psiquiatra para quem não existe pecado que precise de ser perdoado, porque não existe liberdade que possa escolher entre obediência e desobediência a Deus» (cf. G. von Le Fort, Le voile de Véronique. Munique 1938, pág. 349).

 

Assim se vai vilipendiando a dignidade humana...

 

À guisa de ilustração, vão aqui citados alguns casos em que o indiscriminado recurso a medicamentos é claramente estimulante ou cobertura de males morais ou de males que deveriam ser remediados por um sincero exame de consciência e uma reação da vontade, antes que por produtos de farmácia.

 

Tenha-se em vista, por exemplo, o paciente N. , que procura melhorar o seu estado geral de saúde mediante um tônico ou um fortificante. O médico interpelado lhe aconselha, antes do mais, um regime de vida mais regrada, menos entregue ao fumo e ao álcool... O cliente, porém, não está disposto a isto; quer um tratamento mais «científico» ou condizente com a vida moderna..., tratamento de efeitos imediatos... O clínico então lhe propõe injeções de cálcio na veia ou um complexo de vitaminas...

 

Esses remédios, apesar do seu aparato moderno, de pouco ou nada valerão no caso... O cliente, porém, julgará estar resolvendo a sua situação. Entrementes, a sua vontade continuará fraca e apaixonada. Quanto às injeções endovenosas, poderão prejudicar mais ainda a saúde do paciente, pois há pessoas cujas veias vão sendo assim esclerosadas, de modo que no dia em que realmente o médico tiver que as perfurar ou precisar de fazer uma transfusão de sangue, encontrará as veias deterioradas.

 

Outro exemplo é o de quem programou «divertir-se bem» no domingo, mas na sexta-feira anterior se vê acometido de forte resfriado. .. Longe de se sujeitar às consequências disto, renunciando às imprudências previstas para o domingo, entende promover um «Blitzkrieg» ou um tratamento fulminante para se recolocar em forma... Toma antibióticos e penicilina em milhões de unidades. Isto não somente se torna vão, mas acarreta resultados nocivos em escala variável: alergia, urticária, eczemas, náuseas, vômitos, diarreia; a flora intestinal vai sendo devastada e, em consequência, germens virulentos proliferam... Dentre os antibióticos, a estreptomicina pode atacar o nervo coclear e provocar a surdez.

 

Em 1959, os antibióticos nos Estados Unidos produziram 1-200 casos de morte por alergia. — A penicilina e 400 outros antibióticos representam a metade da fabricação farmacêutica mundial de nossos dias... Ora, dizem os estudiosos, proporcionalmente não são tantos os casos de infecções graves tais que exijam o emprego de medicamentos tão violentos.

 

E que dizer de gotas no nariz para tal pessoa resfriada? — Os remédios desse tipo constam de uma substância vasoconstritiva, a eferina, a qual exerce ação nociva sobre a mucosa; devasta os cílios das narinas que filtram o ar respirado... Tais gotas contêm também antibióticos. Estes são geralmente inúteis, pois 90% das infecções do nariz se devem a vírus, sobre os quais os antibióticos não têm ação alguma; não obstante, os mesmos medicamentos vão atacando a mucosa... Há quem associe a essa medicação alguma substância oleosa ou um bálsamo, donde pode decorrer, principalmente nas crianças, moléstia pulmonar. — Ora tudo isso fica sendo estéril para a cura do resfriado, afirmam os entendidos, pois contra este não existem propriamente remédios; a paciência e o decurso do tempo não deixarão de ser a medicação eficaz no caso.

 

Também é típico o seguinte episódio... O paciente N.N. sofre de prisão de ventre. Um belo dia pede a seu médico um tratamento farmacêutico de efeitos rápidos. O clinico prescreveria, antes do mais, adequado regime de alimentação, exercícios físicos ou ginásticos, além do que N.N. deveria deixar de se preocupar obsessivamente com o seu metabolismo. O médico, porém, sabe que o enfermo nada disso aceitará, pois espera ansiosamente um remédio drástico. «Está bem, responde; se assim é, tome seus laxantes na base de fenolftaleína!». Daí podem decorrer desgaste da mucosa, diarreia, colite irredutível, enfim a ruína dos intestinos. Isso tudo, porque? — Não seria por falta de disciplina ou de padrão ético do paciente?

 

Tornou-se, de resto, assaz frequente na vida moderna a figura do cidadão que, a breves intervalos no decorrer do dia, é consumidor de drogas (excitantes ou calmantes, euforizantes, analgésicos, sedativos, fortificantes, psicotônicos, etc.): às 7 h, levantando-se, toma anfetamina; às 10 h, um psicotônico; ao meio-dia, um aperitivo de farmácia; às 15 h, um analgésico com aspirina; às 22/23 h, um soporífero para passar bem a noite.

 

3.2) Da parte do médico:

 

Não há dúvida, a maioria dos casos de abusos de remédios se deve à iniciativa dos pacientes, que, guiados por conhecimentos vagos ou simplesmente por propaganda, tentam medicar a si mesmos.

 

Pode acontecer, porém, que também o médico incorra em abuso de medicamentos; e isto, em virtude de mais de um fator:

 

a) propaganda dos fabricantes, vendedores, órgãos publicitários. .. de remédios e drogas.

 

"Segundo o Dr. Georges Dupont, cada médico de França recebe por dia aproximadamente quarenta prospectos ou bulas de remédios, apresentados com todos os requintes da fascinação publicitária, a fim de forçar o profissional a ler o anúncio comercial: trata-se, em aparência, de uma carta pessoal ou de uma fatura, ou tem-se a reprodução de uma obra de arte em cores e papel de luxo, ou ainda discos, mata-borrões, amostras grátis... O consultório e a residência do médico são invadidos por caixeiros viajantes das fábricas de medicamentos.

 

E Dupont cita o testemunho de famoso colega seu:

 

A publicidade médica «se apresenta sob forma de uma campanha de intoxicação que muitas vezes tem por fim substituir ao raciocínio e à reflexão o automatismo mais primário».

 

A isto acrescenta Dupont:

 

«Felizmente nem todos os médicos são robôs teleguiados pelos fabricantes de produtos farmacêuticos. Mas requer-se admirável medida de senso critico, de independência de espírito, de honestidade e de inteligência científica para que não nos deixemos arrastar pela máquina publicitária dos laboratórios e não capitulemos diante dos remédios» («Science et Vie» n' 534, mars 1962, pág. 38).

 

b) Há, por vezes, excesso de condescendência ou benignidade do médico para com os pacientes.

 

Desejando não contrariar a estes, certos profissionais indiscriminadamente atendem à expectativa de receitas e remédios; deixam-se às vezes levar a isso por leviandade ou falta de ponderação.

 

Dupont cita o seguinte exemplo: um clínico se depara com uma criança febril; examina-a, sem poder chegar a diagnóstico seguro. Entrementes a mãe do pequenino se mostra inquieta e perturbada; então, a fim de acalmá-la e mostrar-lhe que «está fazendo alguma coisa», prescreve um antibiótico. A dose recomendada é fraca demais para curar, mas suficientemente forte para dissimular o mal existente na criança: uma meningite cérebro-espinhal. Esta vai evoluindo na surdina. Quando mais tarde a descobrem, já não é possível impedir suas consequências: surdez, perturbações da vista, deficiência mental (cf. art. cit. pág. 38).

 

O mesmo Dr. Dupont observa que, por imperícia ou inabilidade, alguns médicos recorrem logo à grossa artilharia de farmácia contra males de pequena envergadura: um tratamento fulminante lhes parece mais eficaz do que uma lenta terapêutica.

 

À guisa de exemplo, seja recordado aqui o emprego da cloromicetina: é agente muito eficaz contra a febre tifoide; num caso entre mil, pode provocar aplasia, ou seja, ausência da glóbulos brancos no sangue; o risco não é tão grave, e pode ser contornado se o médico acompanha o paciente, examinando-lhe periodicamente o sangue, a fim de debelar sem demora qualquer crise. — Fora, porém, do caso de tifo, o risco seria desnecessário: portanto revelaria inépcia o médico que, mediante tão forte tratamento, quisesse debelar uma otite, uma angina ou uma pneumonia (não obstante, dizem os peritos, há quem o queira...).

 

Embora cause vertigem e por vezes surdez, a estreptomicina é indicada no combate à tuberculose. Os riscos, porém, que ela ocasiona, não seriam compensados em se tratando de bacilos de moléstias menos graves. Acontece, porém, que contra esses a estreptomicina é por vezes receitada...

 

Destes e de outros exemplos deduz Dupont a seguinte advertência:

 

«O arsenal da medicina comporta, em nossos dias, armas tremendamente poderosas. Como a 'arma total' da guerra moderna, os remédios ameaçam as pessoas mesmas que deles se servem. Por conseguinte, se o uso de medicamentos em todos os tempos acarretou seus riscos, em nossos dias principalmente acarreta o risco terapêutico, que constitui problema grave. Os bons médicos sabem que é preciso dar atenção crescente a fim de se equilibrarem as vantagens a esperar e os perigos a temer mediante o emprego de tal ou tal terapêutica... O símbolo da medicina moderna deveria ser o da Justiça com a sua balança, mas sem véu sobre os olhos» (art. cit. 38.134).

 

Com vistas à propaganda comercial de remédios, Dupont observa:

 

«A sã medicina exige outrossim, seja mais rigorosamente regrada a produção de artigos de farmácia, cuja difusão é geralmente norteada por critérios de concorrência comercial mais do que por genuínas necessidades terapêuticas» (art. cit. 134).

 

Eis o que havia a dizer, do ponto de vista diretamente moral, sobre o uso de medicamentos, hoje em dia tão facilitado e propagado. Em uma palavra: vê-se que a consciência cristã encontra reais motivos para formular restrições a tal propósito.

 

O que abaixo se segue, servirá apenas para corroborar tal conclusão.

 

4. Os inconvenientes fisiológicos

 

Vão aqui salientados mais alguns casos que evidenciam como o uso indiscriminado de remédios pode ser nocivo à saúde. Apontamo-los não porque pretendamos dar instruções de medicina, mas porque o detrimento assim causado à saúde pode acarretar culpa moral (pode, sim, deixar de ser mero erro de ciência ou de técnica). Com efeito; ninguém é senhor da sua vida ou da sua saúde; mas vida e saúde são dons de Deus, que a criatura humana tem o dever de administrar para a glória do Criador; donde se segue que o esbanjamento leviano ou irrefletido das forças do corpo pode vir a ser ofensa ao Soberano Senhor, desde que atinja proporções de certo relevo.

 

Sirvam de advertência introdutória as sábias palavras de Dupont:

 

«Segundo as concepções do comum dos homens, os medicamentos produzem efeito num sentido único; julga-se que realizam a cura. Ora, na verdade, todo medicamento é uma substância estranha introduzida no organismo do paciente, de tal modo que nunca deixa de haver o risco de inconvenientes, mesmo quando se trata dos produtos mais brandos da farmacopeia» (art. cit. 38).

 

Continua, pouco depois, o articulista:

 

«Em breve, quando todas as antigas moléstias da humanidade tiverem sido profligadas, a medicina terá como única tarefa a de curar as doenças que os remédios tiverem causado. As pesquisas dos médicos então esmerar-se-ão por descobrir remédios para os remédios. Tornar-se-á assim verídica a palavra de Molière: 'Quase todos os homens morrem dos seus remédios, e não das suas doenças'.

 

A inquietude cresce entre os médicos. Os acidentes terapêuticos contam-se aos milhares. Os remédios que fazem mal ou que matam, não são apenas os produtos francamente homicidas como o «Stalinon», nem mesmo os que se tomam por indicação errada (veem-se nos hospitais casos surpreendentes de vítimas de medicação falha); são os bons remédios, normalmente prescritos, que hoje em dia chegam a fazer mal.

 

Num serviço hospitalar de Paris, dá-se hoje tratamento aos males decorrentes da terapêutica dos reumatismos: são úlceras de estômago, acne, asteólise, perturbações dos nervos, do equilíbrio, da tensão, causadas pelo uso maciço e prolongado da cortisona, da aspirina, do fenilbutazônio. Apesar de tudo, não se poderiam subtrair tais medicamentos a um reumático, sem o risco de o tornar totalmente inválido.

 

Em outro pavilhão de hospital, são medicadas as nevrites decorrentes de diuréticos mercuriais... Alhures, as consequências de tratamentos de glândulas mal orientados... Mais adiante,... tumores cancerosos provocados pelo tório X quando era utilizado como substância opaca em radiografias... Muitas vezes requerem-se anos de estudos para se descobrir o produto responsável por tal 'doença terapêutica'. Dez anos foram necessários para se averiguar qual o elemento responsável por certas hemorragias gástricas: percebeu-se finalmente que pode ser a aspirina ingerida em doses fortes e prolongadas» (art. cit. pág. 39s).

 

Há fases de tratamentos em que se verifica que a aplicação de remédios causa desordens piores do que a própria moléstia em suas fases iniciais. Só resta então um alvitre a tomar: decretar a «paz terapêutica» (expressão devida a dois médicos de Lião, na França : os Drs. Brun e Pozetto); suspendendo-se por completo a medicação, a enfermidade entra em fases de melhora. Vê-se então que mais vale a doença do que o remédio.

 

Tem ainda a palavra o Dr. Dupont, que focaliza em particular alguns dos remédios mais caseiros:

 

«Os antibióticos aparecem em lugar de destaque na lista negra dos remédios perigosos... Médicos e pacientes se entregam a verdadeira ofensiva de antibióticos. Estes produtos frequentemente são utilizados em virtude de comodismo, automatismo, a torto e a direito por motivos fúteis, muitas vezes sem propósito, se não contra todo propósito... Antibióticos são aplicados a casos de resfriados, dores de garganta, chagas, reações meramente alérgicas sem a mínima origem infecciosa. Injetam-se milhões de unidades contra um gérmen notoriamente insensível à ação dos antibióticos...

 

Os efeitos dessa terapêutica de antibióticos anárquica... e desregrada vão desde as leves perturbações até os grandes dramas e os desastres mortais: são alergia, urticária, eczemas, náuseas, vômitos, diarreia...; são também estados anêmicos graves e, por vezes, mortais, devidos ao cloranfenicol, mobilizado por médicos irresponsáveis e mães ignorantes contra um resfriado ou uma otite...

 

Até mesmo a aspirina comporta seus riscos terapêuticos; os franceses a consomem numa média de quatro milhões de comprimidos por ano, sob algumas dezenas de formas diferentes, combinadas com cafeína, açúcar, bicarbonato de sódio, fenergã — combinações estas que nada acrescentam à ação do ácido acetilsalicílico, como também nada diminuem dos seus possíveis inconvenientes. A aspirina provoca (raramente, é verdade) reações alérgicas... São os tratamentos prolongados com doses maciças de aspirina (há pessoas reumáticas que tomam 60 ou mesmo 80 comprimidos de aspirina por semana) que provocam acidentes terapêuticos : lesões do aparelho digestivo, ulcerações da mucosa Intestinal.

 

Levando em conta a ação da aspirina sobre as glândulas endócrinas, a policia de Nova Iorque pôde recentemente atribuir ao ácido acetilsalicílico um crime juvenil, cometido após forte dosagem de aspirina que suscitou desequilíbrio mental momentâneo...

 

É preciso mencionar também as vitaminas sob forma medicinal. Serão elas inofensivas? Sem dúvida, o perigo financeiro que elas acarretam, é maior do que o perigo terapêutico. As toneladas de produtos vitaminados com todas as letras do alfabeto que os franceses consomem, ameaçam as carteiras dos cidadãos e a tesouraria da Segurança Social mais do que a saúde pública... Fora os casos de carências de vitaminas caracterizados, o consumo de vitaminas constitui principalmente um ato de fé da parte do paciente...

 

Na verdade, para quem se alimenta normalmente, as vitaminas artificiais são totalmente supérfluas... Os tratamentos maciços na base de vitaminas vêm a ser desperdiço de dinheiro. Os excessos podem mesmo tornar-se nocivos. A genitora que diariamente dá a seu filho doses violentas de vitamina D, expõe-no a perder o apetite, a sofrer de náuseas, dores de cabeça e, possivelmente, perturbações dos rins e do metabolismo do cálcio... Em todo e qualquer caso, quem confia demais nas vitaminas, arrisca-se a frustrar o objetivo destas, descuidando-se de se alimentar devidamente» (art. cit. 41s. 134).

 

As afirmações de Georges Dupont talvez sejam, neste ou naquele tópico, postas em dúvida por outros cientistas de autoridade. Não deixam, porém, de merecer a atenção do leitor. Tomamos a liberdade de as transcrever, como dissemos, não para propor alguma tese de índole médica, mas por causa da questão moral que nelas está implicada. Vê-se que o uso de remédios vem a ser realmente um caso de consciência: não se torne — o que tantas vezes se verifica — evasiva e cobertura para as pessoas que não tenham a coragem de enfrentar seus verdadeiros problemas — problemas de disciplina dos costumes e de domínio do individuo sobre si mesmo!

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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