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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 55 – julho 1962

 

VISÕES E SEGREDO DE LA SALETTE

ESTRANHADO (Rio de Janeiro) e SEBASTIÃO (Cruzeiro, SP): «Que há de verdadeiro na apregoada aparição de Nossa Senhora em La Salette? E que pensar do famoso segredo comunicado pela Virgem à vidente Melânia? O Santo Ofício chegou a proibir as discussões sobre o assunto, sob pena de excomunhão».

 

O caso «La Salette» constituiu durante decênios objeto de árduas controvérsias, em grande parte inspiradas pela fantasia ou a paixão de pessoas pouco criteriosas. Foi o que motivou solene intervenção da Santa Sé, desejosa de apaziguar os ânimos.

 

A fim de formular um juízo adequado sobre o assunto, esboçaremos em primeiro lugar o trâmite dos episódios; a seguir, analisaremos o que diz respeito ao segredo e a outras dificuldades debatidas em torno de La Salette.

 

1. O episódio de La Salette

 

1.1. Na tarde de 19 de setembro de 1846, por volta das três horas, dois pastorezinhos guardavam seus rebanhos na região montanhosa de La Salette, perto da aldeia de Corps, no Dauphiné (França); eram eles Maximino Giraud, de onze anos de idade, e Melânia Calvet, de quinze anos, ambos muito simples e rudes (mal entendiam outra língua que não o seu dialeto), retos e cândidos (embora não se distinguissem por especial fervor religioso). De repente viram grande clarão junto a uma fonte estancada (que desde então não deixou mais de dar água); em meio à luz apareceu-lhes uma senhora sentada, que, com os cotovelos sobre os joelhos e a cabeça nas mãos, chorava amargamente.

 

As crianças encheram-se de pavor; a dama, porém, levantou-se, tranquilizou-as e pôs-se a falar-lhes em tom materno. A causa de sua tristeza, dizia ela, era a iniquidade dos homens, manifestada principalmente na violação do dia do Senhor ou domingo (negligência da S. Missa, realização de obras servis), nas blasfêmias, no desprezo do jejum e da oração, assim como na generalizada depravação dos costumes: «Se meu povo não se quiser emendar, acrescentava ela, ver-me-ei obrigada a deixar abater-se sobre ele o braço de meu Filho; está tão pesado e premente que já não o posso deter». A seguir, previa duros castigos para o caso de impenitência: colheitas prejudicadas, epidemias nas crianças e no gado, etc. Recomendava muito a oração e a mudança de vida; comunicou também um segredo a cada um dos dois videntes e concluiu, referindo-se às suas exortações: «Transmitireis isto (esta mensagem) a todo o meu povo». Dito isto, desapareceu nos céus.

 

Uma das impressões imediatamente colhidas pelas crianças era a de que «parecia tratar-se de uma mãezinha espancada por seus filhos, a qual tivesse procurado refúgio nas montanhas».

 

Não sabendo como julgar tão estranha aventura, os dois pastorezinhos a narraram aos respectivos patrões (Pedro Selme e Baptiste Pra) quando voltaram à casa ao pôr do sol da mesma data. Logo no dia seguinte, por ordem de Baptiste Pra, foram ter com o pároco e com o prefeito de La Salette, aos quais de novo tudo contaram. A notícia se propagou com rapidez, naturalmente correndo o perigo de sofrer alterações: em alguns ouvintes suscitava temor; em outros, surpresa; em terceiros, alegria; em mais outros, zombarias; poucos lhe permaneciam indiferentes.

 

1.2. O bispo de Grenoble, sob cuja jurisdição estava La Salette, era então um ancião de oitenta e um anos: D. Filiberto de Bruillard. Informado de quanto se ia propalando, mandou logo proceder a um inquérito para investigar a possível realidade dos episódios narrados. Foram então repetidas vezes interrogados os dois videntes, cada qual isoladamente. O teste mais rigoroso foi-lhes imposto em fevereiro de 1947 pelo Pe. Francisco Lagier, nativo de Corps, o qual usou do dialeto mesmo dos dois pastorezinhos e, já que não acreditava na propalada aparição, não poupou questões sagazes a fim de colher (se fosse o caso) alguma resposta inverossímil ou contraditória dos lábios das crianças; nada conseguindo apurar nesta linha, o Pe. Lagier teve que abandonar seu ceticismo frente aos episódios — o que calou profundamente na opinião pública. A coerência dos videntes consigo mesmos no decorrer dos interrogatórios reiterados durante mais de um ano sob a direção dos mais diversos peritos era o argumento que aliciava número crescente de adeptos da visão' de La Salette.

 

Em dezembro de 1847 estava encerrado o processo diocesano; o Sr. Bispo D. de Bruillard se achava pronto a se pronunciar em favor da autenticidade da aparição, quando resolveu recuar em atenção ao Arcebispo metropolitano de Lião, o Cardeal de Bonald, o qual lhe fizera saber a sua opinião contrária aos pretensos fatos. Em consequência, novos inquéritos foram levados a efeito; os sinais de genuinidade foram-se acumulando (eram principalmente conversões religiosas e curas de doenças obtidas em La Salette). Diante disto, aos 19 de setembro de 1851 (cinco anos após a aparição), Dom Filiberto de Bruillnrd, contando com o apoio do Cardeal Lambruschini, Prefeito da Congregação dos Ritos em Roma, resolveu dar em carta pastoral sua aprovação ao relato dos videntes, declarando insuficiente qualquer explicação dos fenômenos de La Salette que não fosse a de uma intervenção sobrenatural da Virgem Ssma. (é claro que esta aprovação nada tinha de dogmático e não obrigava os fiéis a dar o seu consentimento de fé).

 

Aos 25 de maio de 1852, foi lançada a pedra fundamental do santuário de La Salette. Constituiu-se por essa época a Congregação dos Missionários destinados a atender às caravanas de peregrinos que, com muito fervor e grande sacrifício, afluíam cada vez mais numerosos ao local. À Virgem de La Salette foi sendo tributado o titulo de «Reconciliadora dos Pecadores».

 

O Bispo sucessor em Grenoble, Dom Ginoulhiac, em mais de uma carta pastoral, confirmou a declaração de seu antecessor em favor da aparição de La Salette. Ainda houve, até o fim do século passado, quem se lhe opusesse, sendo que os dois mais ferrenhos adversários, os sacerdotes Cartellier e Déléon, acabaram por reconhecê-la sem reservas, respectivamente em 1855 e 1885. O próprio Cardeal de Bonald, cético a principio, não hesitou em modificar sua atitude com o decorrer dos anos. Hoje em dia, é de uso comum a expressão «O fato de La Salette (Le fait de la Salette)», titulo de importante estudo crítico publicado em 1955 por Lóuis Bassette (Éditions du Cerf).

 

Os Sumos Pontífices têm favorecido a devoção à Virgem «Reconciliadora dos Pecadores», concedendo indulgências e outros favores espirituais aos fiéis que a invoquem ou que vão a La Salette; em 1879 Leão XIII elevava à dignidade de basílica menor o respectivo santuário e patrocinava a coroação da estátua da Virgem lá existente; em 1927 era Pio XI quem enriquecia com indulgências a invocação de «Nossa Senhora de La Salette, Reconciliadora dos pecadores». Em 1900 já se contavam mais de mil santuários no orbe católico dedicados a este título da Virgem Santíssima.

 

Não se pode deixar de acentuar que estes pronunciamentos não constituem definições dogmáticas em prol da realidade da aparição de La Salette. A autoridade da Igreja de modo nenhum intenciona proferir algum juízo sobre este aspecto da questão; apenas reconhece que a devoção que nasceu e se desenvolve junto ao santuário de La Salette tem dado frutos bons, fomentando sadiamente a piedade e as virtudes do povo cristão; merece, pois, ser incentivada. Implicitamente, é claro, a Igreja assim parece reconhecer a genuinidade da aparição, mas não a impõe à fé de seus filhos (as repetidas declarações de prelados e teólogos católicos em favor de La Salette não envolvem o magistério infalível da Igreja; cf. «P. R.» 19/1959, qu. 4).

 

1.3. Quanto ao posterior currículo de vida dos videntes, sabe-se que Melânia, depois de vários ensaios de vida em convento, se retirou para a Itália, onde morreu piedosamente. — Maximino teve existência muito instável: entrou num Seminário, onde verificou que não tinha capacidade para os estudos; voltou então para o mundo, dedicando-se a diversos afazeres, até alistar-se na milícia dos zuavos (soldados) pontifícios; no fim de seus anos trabalhou em comércio de licores — o que deu pretexto a que o acusassem de alcoolismo; em vão, porém,... pois levou conduta de vida irrepreensível até a morte, a qual foi piedosa, como a de Melânia.

 

Faz-se mister considerar agora as principais dificuldades que a história de La Salette encontrou na sua propagação. Dentre todas sobressai a que toca

 

2. Os segredos de La Salette

 

2.1 Consta dos relatos dos dois pastorezinhos, devidamente crivados pela critica, que a Virgem Santíssima no decorrer da sua alocução confiou a cada qual um segredo...

 

Maximino e Melânia guardaram ciosamente estes dizeres particulares da bela Dama até 1851. Aos 20 de junho deste ano, o Cardeal de Bonald, usando de sua autoridade, mandava que os dois jovens consignassem por escrito o respectivo segredo, a fim de serem comunicados ao Santo Padre. Os videntes obedeceram; em dois envelopes lacrados os seus depoimentos foram levados ao Santo Padre Pio IX por dois sacerdotes de Grenoble (PP. Rousselot e Gerin), que os entregaram pessoalmente a S. Santidade aos 18 de julho de 1851. O papa leu as duas missivas deu-as a conhecer unicamente ao Cardeal Lambruschini, Prefeito da S. Congregação dos Ritos, e a Mons. Frattini, Promotor da Fé e «advogado do diabo» (encarregado de impugnar qualquer ponto vulnerável do processo) referente a La Salette. A Santa Sé jamais publicou o texto de tais documentos; apenas fez saber que continham a mensagem geralmente proposta pelas aparições da Virgem Santíssima ou dos Santos: «Fazei oração e penitência».

 

Os dois sacerdotes Rousselot e Gerin, portadores dos envelopes lacrados a Pio IX, relatam o seguinte: «Sua Santidade abriu em nossa presença as cartas, leu-as, e, comentando a de Maximino, disse: «Aqui se veem a simplicidade e a candura de uma criança...». Depois de ter lido a missiva de Melânia, Sua Santidade nos falou : «É preciso que eu releia esta carta com a cabeça mais repousada... Trata-se de flagelos que ameaçam a França. Esta não é a única culpada. A Alemanha, a Itália, a Europa inteira o são também e merecem castigos» (cf. Bassette, ob. cit. pág. 227).

 

Alguns anos mais tarde, asseverava Pio IX ao Pe. Silvano Giraud, da Congregação de La Salette: «Quer conhecer os segredos de La Salette? Pois bem; ei-los: «Se não fizerdes penitência, perecereis todos»» (cf. Jaouen, La grâce de La Salette. Paris 1946, pág. 206).

 

2.1 Após haver assim comunicado a sua mensagem ao Santo Padre, os dois videntes parecem ter continuado a observar estrito silêncio em torno do respectivo segredo; não consta de outra revelação diretamente feita por eles. O fato, porém, é que em 1879 veio a lume um opúsculo atribuído a Melânia, opúsculo no qual esta aparece manifestando, sem reservas, ao público o segredo que a Virgem lhe confiou... Tal opúsculo deu ocasião a árdua controvérsia, pois, ao lado dos que aceitavam a sua autenticidade (entre os quais o famoso escritor francês Leon Bloy), havia os que a negavam categoricamente. A posição negativa se apoiava (e se apoia ainda hoje) nas seguintes observações:

 

O estilo, o tom e a mentalidade que inspiram esse opúsculo diferem notoriamente das características da alocução da Virgem referida nas anteriores narrativas da aparição de La Salette (parecer de um dos mais recentes e abalizados estudiosos dos debates: Pe. Jaouen, no livro «La grâce de La Salette», ed. du Cerf. Paris 1946, pág. 210).

 

Em 1879 trinta e três anos haviam decorrido desde o episódio focalizado (1846); dir-se-ia que já então era uma outra Melânia quem falava, atribuindo à Virgem Ssma. expressões um tanto destoantes das que lhe eram originariamente atribuídas. Os dizeres da nova «Melânia» estão perpassados por uma tonalidade de critica,... crítica apaixonada dirigida ao clero e a certas instituições tanto da Igreja como da sociedade civil da época. «Importa absolutamente distinguir duas Melânias: a jovem vidente de 1846 e a visionária de 1878» (cf. J. Verdunoy, La Salette. Paris 1906, pág. 104).

 

Os adeptos da genuinidade da «revelação» costumam explicar a mudança de tom e estilo pelas leituras que Melânia terá feito no longo intervalo de trinta anos: efetivamente, dizem, após a aparição, a donzela esteve em diversas casas religiosas, tentando consagrar-se a Deus na vida regular; deve então ter lido variadas obras de espiritualidade; terá, a seguir, reproduzido o estilo e o vocabulário dessas obras, quando empreendeu consignar por escrito o seu segredo; assim estariam justificados, na revelação do segredo, os traços do Apocalipse de São João, as fases de Sta. Catarina de Sena, de São Grignion de Montfort, até mesmo de Nostradamus..., tudo posto a serviço de um espírito de crítica exacerbada.

 

Os adversários da revelação, porém, replicam com razão:

 

«Certos tópicos (no relato público do segredo) são manifestamente fabricados segundo as receitas mais clássicas do gênero: descrições assustadoras de anos calamitosos ou previsões idílicas de uma idade de ouro conforme todos os modelos convencionais. Mesmo que esse documento esteja assinado por Melânia, e apesar de toda a veneração que se possa ter para com ela, quem não vê que esse escrito foi fabricado artificialmente?

 

São evidentes principalmente os empréstimos feitos ao Apocalipse de São João: assim as alusões ao Anticristo, aos seus dez reis, a São Miguel, a Enoque, a Elias,... às pragas que se deverão expandir sobre a terra,... aos sacerdotes que são os candelabros da Igreja prestes a ser derrubados... Napoleão III, em particular, é apresentado como Anticristo e caracterizado com uma série de epítetos que se inspiram dos que São João atribui à besta do Apocalipse» (Pierre Herbin, Léon Bloy et La Salette, em «La Vie Spirituclle» 310 [19461 213).

 

Em apêndice encontrar-se-ão algumas das principais passagens do documento assim caracterizado.

 

2.3. Quanto a Léon Bloy, tornou-se, pela sua obra «Celie qui pleure», o grande arauto do segredo de La Salette «revelado» em 1879. Com toda a veemência do seu estilo, o autor francês desenvolveu as críticas e invectivas contidas no opúsculo atribuído a Melânia; fê-lo, porém, com ânimo preconcebido, sem exercer o necessário senso crítico, proferindo consequentemente sentenças unilaterais e obcecadas:

 

«Bloy era realmente o homem mais destituído de senso critico.

Nisso consiste o nó do problema. Toda a tese de Bloy..., a razão de ser do seu livro «Celle qui pleure» está em tentar provar a identidade absoluta... da mensagem pública (colhida diretamente dos lábios de Melânia) e do segredo (manifestado no referido documento). Para o conseguir, recorreu a interpretações estapafúrdias («tirées par les cheveux) e a intuições «fulgurantes»» (P. Herbin, 1. c. 214).

 

Em consequência, julgam os historiadores e literatos que o livro «Celle qui pleure», «apesar da beleza de certas paginas, carece de propósito (livre manqué)» (cf. H. Engelmann, Pèlerinages. Paris 1959, 77). Tem-se falado mesmo do «Melanismo» de Léon Bloy, ou seja, do exagerado apreço que este escritor dedicou à Melânia reveladora do segredo (cf. Stanislas Fumet, Mission de Léon Bloy. Paris 1945). As melhores páginas de Bloy a respeito de La Salette encontram-se em outro opúsculo do autor, não suficientemente conhecido : «Symbolisme de l'Apparition».

 

Ora verifica-se que muitos dos nossos contemporâneos só conhecem o episódio de La Salette através de Léon Bloy e «Celie qui pleure». A mensagem da Virgem torna-se para esses leitores o alimento de crítica unilateral às instituições da Igreja e ao clero, crítica tanto mais capciosa quanto mais elegante é o estilo de Bloy e quanto mais puritano parece ser o pensamento do autor.

 

2.4. Compreende-se que, diante da celeuma despertada pelo opúsculo de 1879, a Santa Sé tenha julgado oportuno intervir solenemente.

 

Com efeito, aos 21 de dezembro de 1915 o Santo Ofício publicava severo decreto sobre o assunto: lembrava, em primeiro lugar, os anteriores e repetidos pronunciamentos da Santa Sé contrários ao opúsculo tido como revelador do «Secret de La Salette». Verificando, porém, que tais declarações eram continuamente violadas, o Santo Ofício «mandava a todos os fiéis, de toda e qualquer nacionalidade, que se abstivessem de tratar ou discutir o assunto, sob qualquer pretexto ou forma que fosse (livros, opúsculos, artigos assinados ou anônimos, ou outro veiculo de publicidade)». Os transgressores desta proibição, «se fossem sacerdotes, perderiam qualquer título honorífico ou dignitário que tivessem na Igreja, e seriam suspensos tanto da celebração da S. Missa como do ministério das confissões; se fossem leigos, ficariam privados dos sacramentos até mudarem de conduta». Mais ainda: estariam todos sujeitos às sanções pelo Direito infligidas aos que editam livros religiosos sem legítima licença do Superior e aos que divulgam pretensas revelações sem permissão do Prelado diocesano. O decreto, porém, se encerrava com importante cláusula: tais medidas não proibiam a devoção à Virgem Ssma. invocada sob o título de «Reconciliadora de La Salette».

 

Os «devotos» ainda se mostraram renitentes... Em 1922 editavam uma brochura que apresentava o texto do pretenso segredo de Melânia acompanhado de «peças justificativas» sob o título: «L'apparition de la très Sainte Vierge sur la sainte montagne de La Salette le samedi 19 septembre 1845. — Simple réimpression du texte intégral publié par Mélanie, etc. Société Saint-Augustin. Paris-Rome-Bruges 1922». Esta obra foi colocada no índice dos livros proibidos aos 10 de maio de 1923.

 

Tais atitudes da Santa Sé se explicam bem pelo fato de que o pretenso texto do segredo de La Salette, em vez de produzir edificação e virtude entre os fiéis, só contribuía para disseminar animosidade e rixas (frutos da ação do demônio, e não de Deus). Donde deduzia sabiamente o Pe. Jaouen : «A Igreja julga que o mencionado segredo é nocivo à piedade cristã, e quer que seus filhos se comportem em relação a ele como se não existisse» (ob. cit. 16).

 

Seja esta advertência a conclusão prática de quanto acaba de ser exposto com referência ao segredo de La Salette. Não queiram os fiéis nutrir a sua devoção em fontes espúrias, apesar da autoridade que a estas possa ter conferido o grande vulto de Léon Bloy.

 

A controvérsia em torno do segredo de Melânia constituiu um entrave para a autenticidade da aparição. Hoje em dia, este se dissipa sem detrimento para a autenticidade da aparição. Houve tempos, porém, em que o entrave ainda foi aumentado por outros incidentes, de menor importância, que vão abaixo mencionados.

 

3. Outros incidentes

 

a) O episódio de Ars

 

Em Ars era pároco, na época da aparição de La Salette, o santo sacerdote João-Maria Vianney. Informado do que se relatava, deu imediatamente crédito à mensagem de La Salette. Eis, porém, que aos 24 de setembro de 1850 um dós videntes, Maximino, foi levado a Ars por homens curiosos, que desejavam conhecer o segredo revelado ao jovem; no decorrer de dois dias passados nessa aldeia, Maximino teve duas breves conversas com o santo cura, após as quais este se mostrou repentinamente incrédulo para com a narrativa de La Salette. As dúvidas do santo se conservaram até o outono de 1858 (menos de um ano antes da sua morte), quando, tendo pedido e obtido sinais do céu, Vianney voltou a professar fé nos relatos de Maximino e Melânia. «Pode-se e deve-se crer em La Salette», dizia ele em seus últimos meses (cf. Bassette, ob cit. 187).

 

Ora o ceticismo do cura d'Ars impressionou a opinião pública, junto à qual o mencionado sacerdote gozava de inegável autoridade; o Cardeal de Bonald, de Lião, por exemplo, firmou-se nas suas reservas por influência do santo pároco.

 

Pergunta-se por conseguinte: que se terá dado entre João-Maria Vianney e Maximino para motivar a descrença do cura?

 

Julgam alguns críticos que Maximino se retratou, declarando sinceramente ao seu interlocutor que ele nada vira em La Salette: «Se Maximino me disse a verdade, ele não viu a Virgem Ssma.» (palavras atribuídas a Vianney). Maximino, porém, submetido a novos interrogatórios, asseverava com juramento que ele nada retratara. Melânia, por sua vez, informada da pretensa desdita de Maximino, exclamava: «Ó infeliz Maximino! Quanto a mim, sempre afirmarei que vi...!».

 

Levando em conta os diversos elementos desta situação, os melhores críticos julgam que houve apenas um equívoco entre Maximino e o cura d'Ars. Este, em sua espontaneidade, talvez haja, logo na primeira conversa, interrogado: «Então foste tu que viste a Ssma. Virgem?». A pergunta tão incisiva terá assoberbado o tímido pastor Maximino, o qual então haverá respondido (fazendo eco ao que propalavam os adversários da aparição): «Não disse que vi a Ssma. Virgem, mas, sim, uma bela Senhora». Verificando a identidade desta resposta com o que asseveravam os céticos, o cura d'Ars terá intimado a Maximino: «Então é preciso que faças a tua retratação...». E, desse momento em diante, a opinião do sacerdote se terá fixado no descrédito frente a La Salette.

 

Esta explicação, que apela para os matizes próprios da psicologia de duas almas muito simples, não carece de verossimilhança.

 

Como quer que seja, os historiadores mais abalizados não creem que Maximino jamais tenha tido a intenção de negar a visão de La Salette. Um mal-entendido explica o incidente com o cura d'Ars, incidente que, dentro do clima de incertezas a respeito de La Salette, tomou proporções extraordinárias.

 

b) A carta proveniente do céu...

 

Outro episódio — insignificante em si mesmo — foi o que se deu em época relativamente recente. Com efeito, no seu número de fevereiro-abril de 1928, a revista «Recherches de Science Religieuse» publicou uma coletânea de artigos intitulada «Mélanges Grandmaison»; entre outras coisas, esta miscelânea editava o texto de um manuscrito recém-descoberto, manuscrito que se apresentava como «carta caída do céu». Comentando-o, o famoso historiador Delahaye o aproximava da alocução da Senhora de La Salette, e concluía que a pretensa mensagem da Virgem a Maximino e Melânia não era senão uma das formas de tal fantástica missiva «caída do céu»; a aparição de La Salette, por conseguinte, careceria de todo fundamento histórico!

 

Tão estranha sentença não prevaleceu.

 

Não foi difícil mostrar que a dita «carta celeste» evitava alusões a pormenores históricos controláveis, ao passo que o relato de La Salette mencionava uma série de acontecimentos reais, assim como um conjunto de pessoas ou testemunhas, que os historiadores haviam podido interrogar devidamente. Ademais sabe-se que a mensagem de La Salette foi primeiramente proclamada por via meramente oral mediante duas crianças que não sabiam ler e que jamais se haviam referido a alguma «carta ditada pelo céu» (a primeira redação escrita da alocução da Virgem de La Salette se deve a Baptiste Pra, patrão de Melânia, o qual só aos 20 de setembro de 1846, 24 h após o primeiro relato oral, consignou por escrito o que a jovem vidente lhe havia narrado).

 

Estas observações, trazidas a lume, bastaram para evidenciar quão vã era a hipótese de Delahaye; ficavam incólumes a originalidade e a autenticidade da mensagem de La Salette.

 

Inútil seria demorar-nos aqui em considerações sobre a fábula «Lamerlière», que Déléon, em março de 1853, tentou identificar com o episódio de Maximino e Melânia. Desde 1854 o bispo de Grenoble, Dom Ginoulhiac, refutava definitivamente a falsa hipótese.

 

Em nossos dias, o caso de La Salette já não é objeto de discussão por parte dos estudiosos. Prevalece na maioria destes, assim como no povo católico, a crença (a qual, porém, não constitui dogma de fé) de que se trata de genuína aparição da Virgem. Esta, em termos sóbrios e por permissão do próprio Deus, se terá assim dignado admoestar os homens à oração e à penitência.

 

Apêndice

 

A fim de facilitar o juízo do leitor sobre os debates referidos, publicamos abaixo algumas das principais passagens do relato primitivo de Maximino e Melânia, assim como secções do pretenso texto do segredo revelado por Melânia.

 

a) Palavras da Ssma. Virgem extraídas do relato primitivo

Note-se a maneira simples, acomodada à compreensão de crianças, pela qual se exprime a Virgem.

 

«Se meu povo não se quiser emendar, ver-me-ei obrigada a deixar abater-se sobre ele o braço de meu Filho. Está tão pesado e premente que já não o posso deter.

 

Desejosa de que meu Filho não vos abandone, estou obrigada a suplicá-Lo incessantemente; vós, porém, não fazeis caso disto. Por muito que oreis e vos esforceis, jamais podereis recompensar o empenho que tenho para vos salvar...

 

Os carroceiros não sabem jurar sem proferir (irreverentemente) o nome de meu Filho...»

 

Pouco depois, a bela Senhora interrogou os dois pastores:

 

«Sois diligentes na oração, filhos meus?

 

          Não muito, Senhora .

           

          Ah, filhos, é preciso rezar bem tanto à noite como de manhã, ainda que, impedidos de rezar outra coisa, digais apenas um «Pai- Nosso» e uma «Ave Maria»... Se puderdes rezar mais do que isto, rezai...

           

No verão, apenas algumas mulheres idosas vão à Missa. As outras pessoas trabalham no domingo durante todo o verão; no inverno, quando não têm outra ocupação, vão à Missa, mas apenas para caçoar da Religião.

 

Na Quaresma, frequentam o açougue como cães».

 

Depois de anunciar severos castigos para os impenitentes, a Ssma. Virgem se despediu com as palavras:

 

«Pois bem, filhos; transmitireis isto (esta mensagem) a todo o meu povo».

 

Como se vê, o estilo deste relato é todo inspirado nos episódios da vida campestre que Maximino e Melânia levavam. Em contraste com tal modo de falar está o que caracteriza

 

b) O segredo publicado em 1879

 

Eis alguns trechos salientes :

 

«1. Melânia, o que estou para te dizer não ficará sempre oculto; poderás divulgá-lo em 1858.

 

6. A sociedade está diante dos mais tremendos flagelos e dos mais retumbantes acontecimentos; aguardem todos o dia em que serão governados por um cetro de ferro e beberão o cálice da cólera de Deus.

 

12. Os livros maus se multiplicarão sobre a terra, e os espíritos de trevas provocarão por toda a parte uma indiferença geral para com tudo que diz respeito ao serviço de Deus; gozarão de grande poder sobre a natureza; haverá igrejas para lhes prestar culto. Esses espíritos maus transportarão de um lugar a outro certas pessoas, até mesmo sacerdotes, porque não se terão comportado segundo o bom espírito do Evangelho, que é espírito de humildade, de caridade e de zelo pela glória de Deus. Mortos e justos serão ressuscitados. Haverá em toda parte prodígios extraordinários, porque a verdadeira fé se extinguiu e a falsa luz ilumina o mundo. Ai dos príncipes da Igreja que só se tiverem empenhado por acumular riquezas, salvaguardar a sua autoridade e dominar com orgulho!

 

14. A santa fé de Deus estando obliterada, cada individuo fará questão de se guiar a si mesmo e de ser superior aos seus semelhantes. Os homens declararão abolidos os poderes civis e eclesiásticos; toda ordem e toda justiça serão calcadas aos pés; não se verão senão homicídios, façanhas de ódio, inveja, mentira e discórdia, falta de amor à pátria e à família.

 

27. As estações do ano serão transformadas, a terra só dará frutos maus, os astros se desviarão das suas órbitas regulares, a lua só refletirá fraca luz avermelhada; a água e o fogo imprimirão ao globo terrestre movimentos convulsivos e terríveis terremotos, que tragarão montanhas, cidades, etc.» (textos extraídos do livro de Léon Bloy, Celie qui pleure, 211. 213s. 218).

 

Descrições tão pormenorizadas e tão próximas do fantástico dispensam comentários.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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Diversos  Protestantismo  3970 A prostituição da alma6.41
PeR  O Que É?  1372 Eubiose, que é?6.36
Ao príncipe deste mundo foi ocultada a virgindade de Maria, seu parto e também a morte do Senhor.
Sto. Inácio de Antioquia (35-110)

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