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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 53 – maio de 1962

 

OS SONHOS E A PSICANÁLISE

P.R. (Rio de Janeiro): "Que há de verdade na doutrina freudiana sobre a interpretação dos sonhos? Poderia apresentar alguns exemplos?"

 

A respeito do freudismo e da psicanálise já saiu um artigo em "P.R." 8/1958, qu. 1. Por conseguinte, aqui limitar-nos-emos à consideração dos sonhos no sistema de Freud.

 

Segundo este autor, a associação de imagens verificada nos sonhos indica as tendências que se acham latentes dentro da pessoa que dorme. Sim, durante o sono, diz Freud, cessa a rígida censura que cada um impõe a si mesmo em estado de vigília; manifestam-se então os instintos habitualmente recalcados no íntimo do indivíduo; esses instintos são de caráter sexual ou erótico; recobrem-se de símbolos, que são os personagens e as coisas vistas em sonho.

 

Partindo deste pressuposto, o médico austríaco julgou ter descoberto um sistema (que o espaço não nos permite desenvolver aqui) para decifrar o sentido de tais símbolos; consequentemente, atribuiu grande importância aos sonhos, que seriam a "via régia" para se penetrar no subconsciente dos indivíduos.

Que dizer a respeito?

 

A crítica sadia, embora reconheça a verossimilhança de certas conclusões do sistema, não deixa de lhe fazer sérias reservas, que se podem resumir em dois itens:

 

1) A interpretação dada por Freud aos diversos símbolos é frequentemente arbitrária ou pouco fundada. O analista, partindo do pressuposto de que o homem é um conjunto de tendências sexuais que se manifestam livremente através dos sonhos, vê-se de antemão induzido a dar interpretação sexual às principais figuras ocorrentes em sonho, Mas como se provaria tal pressuposto? — Pelos sonhos mesmos e seu simbolismo? — Tal resposta levaria a um círculo vicioso: os sonhos seriam então uma consequência e, ao mesmo tempo, uma das premissas da tese pansexualista de Freud.

 

Replicarão os freudianos: a interpretação que o analista dá a determinado sonho, depende também de muitas outras expressões e atitudes do paciente registradas em sucessivas sessões de análise; acha-se, portanto, solidamente fundamentada. — Em verdade, tal recurso a experiências anteriores não liberta do círculo vicioso; apenas alarga-o, pois o analista supõe que tais atitudes anteriores sejam outras tantas expressões de pansexualismo; e continua a supô-lo gratuitamente; não o prova. Aliás, sabemos que, segundo Freud, para aceitar a psicanálise, a pessoa tem que se submeter diretamente ao tratamento psicanalítico, se não o fizer, não quebrará a resistência que ela inconscientemente opõe a essa disciplina !...

 

As reservas assim feitas ao sistema de Freud podem ser ilustradas pelo seguinte exemplo: conforme o freudismo, as flores, em sonho, têm sentido sexual, sentido que o analista geralmente julga poder comprovar pela observação de atitudes que o paciente toma fora dos sonhos. Baseado neste princípio, Freud mesmo citava o caso de uma senhora inglesa que sonhou com violetas (violet, em inglês) e, após haver contado o sonho, falou de "violar" (violate, palavra que em inglês tem praticamente a mesma pronúncia que a anterior). Desta associação deduzia Freud a confirmação de que a violeta ocorrente em sonho tem significado sexual (cf. Traumdeutung, Gesummelte Werke II 378-382). — Ora tal conclusão só se impõe a quem de antemão professa o pansexualismo, pois a mencionada associação de violeta (viotet) e violar (violate) é suscetível de outra explicação ainda mais óbvia ou menos rebuscada: é sugerida, sim, pela simples assonância dos vocábulos "violet" e "violate".

 

2) Dado que em determinados casos as associações de imagens tenham realmente origem sexual, pergunta-se se elas se devem a instintos sexuais inconscientes e recalcados (como admite o freudismo) ou se não são apenas o produto do interesse sexual que vai invadindo o paciente no decorrer da análise. Verifica-se, com efeito, que o tratamento psicanalítico incute ao paciente preocupações e tendências sexuais que ele anteriormente não demonstrava e que não parecem constituir o genuíno fundo de sua personalidade.

 

Deve-se, aliás, acrescentar aqui que Freud mesmo reconhecia as limitações do seu sistema de interpretação dos sonhos, limitações "provenientes em parte de nossa ciência incompleta"; admitia que "numerosos sonhos se pudessem referir a outras necessidades nossas que não as eróticas...; há sonhos de fome, de sede, de comodidade, etc.". Na prática, porém, Freud afirmava que "quase todos os sonhos dos adultos, submetidos à análise, se relacionam com desejos eróticos" e, apesar de fazer restrições teóricas, atribuía significado sexual a todos os símbolos ocorrentes nos sonhos.

 

Os críticos hodiernas não negam que as imagens apresentadas pelos sonhos tenham índole simbólica. Contudo asseveram que os critérios de interpretação não se podem reduzir à vida sexual, mas que se devem levar em conta outrossim as circunstâncias de temperamento, educação e grau de civilização da pessoa que sonha; onde haja significado sexual, concluem, este é apenas um componente de um conjunto de manifestações tão ricas quanto rica é a vida.

 

Para ilustrar esta proposição, o Dr. Raymond de Becker (Les Songes. Paris 1958, pág. 57-59) refere os dois seguintes casos:

 

Um deputado do Parlamento francês redigira um discurso, que ele havia de proferir em reunião do Congresso. A seguir, viu em sonho o grande estadista francês Briand... — este aparecimento tinha Índole complexa: devia-se, em parte, ao fato de que o referido deputado se identificara de certo modo com Briand, do qual ele admirava profundamente a eloquência e as idéias generosas; em parte, devia-se também (como revelou a análise) ao fato de que a palavra Briand tinha assonância com uma qualidade que o parlamentar muito desejava para o seu discurso: ser brilhante!

 

Doutra feita, o Dr. de Becker, após haver escrito um artigo, viu em sonho uma bela salada verde. Esta lhe lembrava várias coisas, entre as quais certamente a impressão que ele tinha, de que seu artigo era realmente uma salada.

 

Em conclusão: também o estudo dos sonhos leva a ver que a técnica analítica de Freud é instrumento útil para a penetração do subconsciente. A filosofia pansexualista, porém, que Freud associava a essa técnica, é falha e não resiste a graves observações feitas pela crítica contemporânea.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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Sto. Inácio de Antioquia (35-110)

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