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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 53 – maio de 1962

 

RASPUTIN, o ‘MONGE LOUCO’ da RÚSSIA

CIÊNCIA E RELIGIÃO

A. F. P. (Belo Horizonte): «Que pensar de Rasputin, o chamado 'monge louco da Rússia'? Trata-se de um verdadeiro santo, de um possesso diabólico ou talvez de um mistificador? Como afinal distinguir do falso milagre o autêntico?»

 

Recentemente apareceu nos Estados Unidos da América um livro intitulado «Rasputin and the Fali of Imperial Rússia» (Rasputin e a queda da Rússia Imperial), da autoria de Heinz Liepman (Copyright de Robert M. McBride Co., Inc. New York 3, N. Y., U. S. A.). A obra despertou grande interesse porque trata de um personagem cheio de contrastes, cujas atitudes nem a Religião nem a ciência parecem poder explicar: de fato, Rasputin (assim se chamava o herói) era camponês rude, mas dotado de portentoso poder curativo, que lhe granjeava ascendência até mesmo sobre o casal imperial da Rússia. Passava por um homem de Deus, monge familiarizado com a oração e com comunicações do Céu, mas dava-se apaixonadamente ao vinho e às mulheres... Não ocupava cargo oficial no governo russo, mas tornou-se o homem mais poderoso do país. Cf. a revista «Seleções», dezembro de 1961, pág. 218.

 

A obra de Liepman foi escrita na base de documentos da polícia secreta czarista franqueados ao público em 1957. Este novo material revelou traços e episódios da vida de Rasputin até nossa época desconhecidos; contudo não altera decisivamente o conceito que já anteriormente se podia formular sobre Rasputin e sua atuação na história.

 

Para avaliar devidamente o caso, vamos no presente artigo apresentar, em primeiro lugar, breve esboço da vida e da mentalidade de Rasputin; a seguir, procuraremos julgar serenamente o papel do «monge louco».

 

1. Esboço biográfico e mentalidade de Rasputin

 

1. Gregório Efimovitch Novy nasceu em 1871 na aldeia de Pokrovskoe (província de Tobolsk, Sibéria), como filho de humilde camponês. Passou a infância e a adolescência em sua terra natal, levando vida ociosa e dissoluta, em consequência da qual lhe impuseram o cognome de «Rasputin» ( = debochado); exercia ora as ocupações de jardineiro, ora as de estafeta do correio, ora as de ladrão de cavalos (!), sempre amigo de bebida e mulheres, de tal modo que chegou ao fim da vida sem instrução, não sabendo sequer escrever convenientemente. Em 1895 casou-se, vindo a ter duas meninas e um menino. Finalmente em 1904, com 33 anos de idade, resolveu mudar de vida: deixou a família, cingiu-se com uma corda e, dizendo-se inspirado por Deus, passou a se entregar a severos exercícios de piedade, na qualidade de monge.

 

De passagem, seja lícito notar que o quadro religioso é o da Rússia chamada «ortodoxa» ou «cismática». O Cristianismo aí está separado da de Pedro ou de Roma desde a Alta Idade Média (ef. «P. R.» 10/1958, qu. 10). Contudo conserva muitas instituições tradicionais, entre as quais o monarquismo (entregue geralmente a rigorosas práticas de oração e mortificação), o sacerdócio hierárquico (bispos, presbíteros, diáconos, etc.), a veneração aos santos, etc.

A alma russa sempre se mostrou profundamente religiosa, ou seja. aberta para todos os valores da espiritualidade e da mística.

 

A transformação da conduta de Rasputin deve-se, conforme parece, a uma visita que fez ao mosteiro ortodoxo de Verkhotouré, para onde o levou certo dia um sacerdote de sua religião. Contava Rasputin:

 

«Na véspera, como tivesse adormecido no campo, tive uma visão. O santo taumaturgo Simeão estava diante de mim e ordenava-me que abandonasse a minha má conduta, que me recolhesse em um mosteiro e orasse durante dois anos; a seguir, a glória recairia sobre mim».

 

Dotado de natureza muito afetiva e vibrátil assim como de notável robustez física, Rasputin conheceu então uma fase de intensa exaltação religiosa. Adotou as ideias da seita dita «dos Khlysty», segundo a qual a salvação pode e deve ser obtida unicamente pelo arrependimento do homem. Esta doutrina havia de sugerir à mente extremista de Rasputin algumas conclusões, como, por exemplo: «Comete o pecado, a fim de que possas obter perdão». Dizia também aos seus ouvintes: «Está encarnada em mim uma partícula do Ser Supremo... Somente por mim podeis esperar ser salvos. O modo como vos salvareis é o seguinte: permanecei unidos a mim em alma e corpo; o poder que emana de mim é a fonte da luz, a destruição do pecado» (cf. E. J. Dillon, The Eclipse of Rússia).

 

Tão ousados ensinamentos granjearam para Rasputin ampla popularidade, até mesmo a fama de «homem de Deus» ou «santo homem». Possuía, de resto, como reconheciam seus adversários mesmos, extraordinário poder de fascinar os seus concidadãos, conseguindo assim penetrar nos mais elevados setores da vida pública russa, entrando outrossim nas casas e nos salões dos nobres da nação, a fim de exercer sobre todos uma acentuada influencia, embora fosse iletrado. Acobertado por seu prestígio, Rasputin infelizmente se entregava à orgia e ao libertinismo; estas práticas lhe eram facilitadas pelo gênero de vida nômade que abraçou, indo ter a vários santuários da Rússia, ao mosteiro do Monte Atos (Grécia) e a Jerusalém. Nos mosteiros pelos quais passou, aplicou-se à leitura dos códigos sagrados, mas quase sem resultado, dada a sua falta de preparo. Conseguiu, porém, decorar algumas frases de livros religiosos, frases obscuras e desarticuladas, que ele repetia frequentemente em seus oráculos.

 

Na corte imperial, Rasputin teve acesso por mediação do arquimandrita Teófanes, Reitor da Academia Teológica de S. Petersburgo. Uma vez apresentado ao Czar Nicolau II e à sua esposa Alexandra Feodorovna, o monge «místico» começou a exercer extraordinária influência sobre esses fracos monarcas, principalmente sobre a Imperatriz; esta se entregava quase incondicionalmente à orientação de Rasputin, a quem atribuía um poder infalível de curar os achaques de saúde do jovem príncipe herdeiro (tzarevitch») Aléxis.

 

Rasputin chegou a instaurar num estabelecimento balneário de S. Petersburgo uma terapêutica nova, que se tornou escandalosa; informados disto, o arcebispo Teófanes, o bispo Hermógenes, de Saratov, e o monge Heliodoro denunciaram o taumaturgo ao Santo Sínodo (suprema autoridade religiosa da Rússia) em 1912; Rasputin defendeu-se então, alegando: “É certo que conduzi ao banho pobres doentes de corpo e alma e que permaneci junto deles, mas assim provei de modo concludente o meu poder de curar e o meu domínio sobre a minha própria pessoa”. Diante desta declaração, exclamou o deputado Goutchov: “A santidade do altar e o prestígio do trono estão em perigo. O caso de Rasputin é uma úlcera que devora o coração do povo!”. Em consequência do escândalo, o monge teve que se afastar. Contudo, já que a saúde do príncipe herdeiro sofria novos perigos, a Imperatriz obteve a sua volta e a consequente punição dos adversários do «místico» médico: os dois bispos caíram em desgraça e Heliodoro foi exilado. Leigo e iletrado como era, Rasputin suplantava qualquer autoridade eclesiástica, provocando a deposição ou a promoção dos membros da hierarquia ortodoxa na Rússia; assim conseguiu fosse nomeado arcebispo de Tobolsk o jardineiro Varnada que mal sabia ler e escrever; até mesmo na nomeação de oficiais e maiorais do governo Imperial, o fascinante personagem exercia papel decisivo, de modo que a gente mais desqualificada subia aos postos de maior relevo e nada de importante se fazia sem a sua aprovação; contra a onda de oposição que se alastrava por todas as classes da sociedade, o Czar o defendia sem reservas.

 

Os adversários resolveram então eliminar Rasputin: um primeiro ensaio foi empreendido em julho de 1914 por uma mulher chamada Guseva, que o feriu gravemente no ventre a tiros de revólver; contudo a robusta constituição física do taumaturgo salvou-o. Isto lhe granjeou ainda maior renome. Em questões políticas, Rasputin era demasiado inculto para ter opiniões formadas; por ocasião da primeira guerra mundial veio a ser um dos melhores instrumentos do partido germanófilo do seu país. Em tal conjuntura, um grupo de cinco patriotas russos houve por bem eliminar peremptoriamente tão nocivo cidadão: a custo, conseguiram, aos 17 de dezembro de 1916, aceitasse um convite para cear à meia-noite em casa do príncipe Yusupoff, marido de uma sobrinha do Imperador; serviram-lhe primeiramente uma forte dose de vinho envenenado, a qual não surtiu o efeito previsto; em consequência, burlando habilmente a vigilância da policia, recorreram às balas, que acabaram por feri-lo mortalmente. O seu corpo foi encontrado debaixo do gelo dois dias depois; a Imperatriz mandou transferi-lo para o parque de Tsarskoe Selo, onde lhe foi erguido um mausoléu, junto ao qual a soberana ia rezar todas as noites.

 

É este o esboço da vida de um dos mais famosos vultos da história russa das últimas décadas. Faz-se mister examinar agora as relações entre

 

2. Portentos de Rasputin e milagres propriamente ditos

 

Os arquivos da polícia czarista revelam em Rasputin notória faculdade de realizar curas mediante a oração e de predizer o futuro. Ora estas notícias não podem deixar de impressionar o público e sugerir na mente dos leitores uma série de hipóteses e dúvidas...

A fim de aclarar o horizonte, procuraremos abaixo julgar por etapas sucessivas e seguras.

 

2.1) Seria preciso, antes do mais, analisar até que ponto são verídicas as narrativas de prodígios atribuídos a Rasputin. A figura deste personagem foi envolvida numa aura de mistério tal que facilmente traços exagerados e lendários podem ter sido utilizados pelos pósteros para mais frisar o caráter fascinante do ‘monge louco’.

 

Uma vez vencida esta primeira etapa, isto é. dado que seja realmente histórico tudo que os biógrafos (em particular, o mais recente. H. Liepman) narram a respeito de Rasputin, deve-se fazer a seguinte advertência:

 

2.2) Muitos fenômenos reais outrora eram tidos como inexplicáveis ou simplesmente milagrosos; hoje já não são, nem podem ser, considerados tais. Os estudiosos os têm pesquisado, encontrando elucidação natural (fisiológica e psicológica) para fatos que os antigos julgavam só poder justificar por intervenção direta de Deus ou de algum espírito do Além. Em particular, o curandeirismo ou as curas efetuadas sem medicina científica, mas por meio de visitas, olhares, preces, ritos, num ambiente de alta tensão e expectativa, entendem-se perfeitamente como reações nervosas, capazes, sim, de produzir efeitos surpreendentes, mas efeitos contidos dentro das potencialidades da própria natureza humana. A religião e os pretensos poderes sobrenaturais em tais casos são apenas motivo psicológico para desencadear o processo nervoso; dão unicamente um rótulo ou um «verniz» a esses fenômenos naturais. Cf. «P. R.» 32/1960, qu. 2.

 

Para ilustrar um pouco os mistérios da percepção humana, vão aqui registrados alguns casos de hiperestesia ou supersensibilidade registrados pela moderna parapsicologia. Dão a ver com clareza como, sem o saber, muitas pessoas percebem coisas invisíveis, realmente presentes ao percipiente; nestes casos, vão seria falar de «revelação» ou «intervenção sobrenatural», embora a imaginação popular logo tenda a apelar para esta explicação.

 

Numa fita de cinema gravaram-se em fotograma as palavras: «Fome? Coma pipoca!».

Estes dizeres foram, a seguir, exibidos a uma plateia numerosa, em velocidade tal que se tornavam imperceptíveis para o consciente dos observadores. Após a sessão cinematográfica ninguém diria ter visto tais palavras; contudo haviam sido inconscientemente percebidas, ficavam na memória dos espectadores e em breve iam dar seus frutos... Com efeito, registrou-se que o consumo de pipoca no bar do cinema aumentou de 50% naquele dia!

Por se ter feito a propaganda ao inconsciente, todos julgavam que o seu apetite de pipoca era espontâneo; ninguém suspeitou ter captado pela vista o letreiro de propaganda.

 

O aumento de 50% ainda é relativamente pequeno. Explica-se, desde que se leve em conta que entre os espectadores havia analfabetos, para os quais aquelas palavras não passaram de garranchos sem sentido; havia a petizada, que não sabia onde ficava o bar, e havia os que iam ao cinema com o dinheiro contado...

 

O treino, consciente ou inconsciente, pode obter graus desconcertantes de hiperestesia: os marinheiros chegam a enxergar objetos a distâncias muito superiores às que pessoas de outras profissões atingem. Os pintores chegam a distinguir matizes nas cores que o comum dos homens tem por indiferenciáveis. Certos selvagens possuem, pelo exercício, um ouvido que supera a sensibilidade do mais sensível microfone e um olfato que se assemelha ao dos cães de caça. Os cegos e os surdos-mudos frequentemente apresentam algum sentido notavelmente aguçado, por serem obrigados a exercitar uns sentidos com acuidade tanto maior quanto é deficiente nos outros. Assim muitos surdos-mudos podem compreender a linguagem falada somente pelo movimento dos lábios do interlocutor; para se avaliar quanto isto é difícil basta desligar o alto-falante de um aparelho de televisão, deixando-se acesa apenas a película da imagem).

 

Uma das experiências favoritas de Charcot, fundador da escola hipnótica de Salpêtrière, era a seguinte:

 

Escolhia dentre os doentes do hospital alguns histéricos. Primeiramente colocava-os em estado hipnótico de sonambulismo, e neste estado lhes mostrava um papel branco, sugerindo-lhes que era uma fotografia. Feito isto, misturava o papel com uma dúzia de outras folhas, todas igualmente brancas e iguais entre si. Selecionava intencionalmente folhas de papel nas quais parecia impossível descobrir algum sinal que as diferenciasse entre si.

 

Antes de acordar os pacientes, sugeria-lhes que, uma vez despertados, continuariam a ver a tal fotografia no papel. Depois então de os acordar, mostrava a cada paciente a série de folhas misturadas; o percipiente as ia observando com indiferença, sem fazer grande caso... De repente, quando passava a folha sobre a qual devia estar o imaginário retrato sugerido o paciente se detinha com surpresa por notar que um dos tais papéis era uma fotografia!

 

Pelo lugar em que tinha sido colocado o papel em questão, Charcot se assegurava do êxito da experiência...

Que se poderia daí deduzir?

 

Precisamente o que Charcot pretendia demonstrar, isto é, que, apesar de parecerem inteiramente iguais, na realidade tais folhas não eram iguais entre si. O paciente percebia, por hiperestesia, algum sinal característico e por ele diferenciava dos demais o papel assinalado pelo médico como fotografia.

 

Note-se que, depois de haver recorrido ao estado hipnótico para obter tais resultados, Charcot conseguiu obtê-los também em estado de vigília dos seus pacientes. Donde se depreende que, mesmo em estado de vigília, pode alguém gozar de extraordinária hiperestesia ou faculdade de percepção.

 

Ora, a menos que conste evidentemente o contrário, é de crer que os portentos atribuídos a Rasputin não são senão tais fenômenos naturais que a crença popular pré-científica atribui espontaneamente a poderes sobrenaturais, dando assim ampla expansão à fantasia e à veia mística. — Os autênticos milagres têm que ser devidamente provados, não podem ser simplesmente (ou simploriamente) pressupostos.

 

Está bem, dir-se-á. Todavia, caso se adote esta perspectiva, podem ficar burlados não somente os portentos e milagres atribuídos a Rasputin, mas também os que a Sagrada Escritura narra a respeito dos homens de Deus. Em particular, as curas e profecias de Jesus no Evangelho não ficarão destituídas de valor e autoridade? Com que base se poderá ainda falar de fenômenos milagrosos no Cristianismo?

 

Responder-se-á: a explicação dada não tira aos milagres do Evangelho sua genuinidade e sua autoridade.

Como não ?

 

2.3) Um autêntico milagre, no sentido religioso, não é apenas um fato prodigioso como tal, mas é tal fato prodigioso que tem ao mesmo tempo a índole ou a função de SINAL; em outros termos: o verdadeiro milagre religioso está sempre em relação com a doutrina ou a virtude do taumaturgo, de modo que apareça como selo comprovante ou testemunho concedido por Deus à pessoa que faz ou obtém o milagre.

 

Em consequência, para que se possa falar de verdadeiro milagre no sentido religioso, requer-se o cumprimento de três condições (cf. «P. R.» 6/1958, qu. 1; 11/1958, qu. 1):

a)  o fenômeno em questão seja fato histórico indubitável, nada tendo de lendário (não raro dá-se crédito leviano às narrativas de portentos);

b) o fato histórico seja absolutamente inexplicável pelos conhecimentos da ciência moderna;

c) esse fato histórico inexplicável tenha relação com os ensinamentos e as virtudes de determinada pessoa, de modo a aparecer como sinal dado por Deus em confirmação da doutrina ou do gênero de vida de tal individuo.

 

Em consequência, escapam à qualificação de “milagre” certos fatos que, embora sejam maravilhosos (algumas curas repentinas, visões destituídas de conteúdo doutrinário, um ou outro caso de estigmatização...), não têm significado religioso, não elevam à Deus. Mas, ao contrário, só servem para satisfazer ao capricho ou à vaidade de alguém. Quando Deus efetua prodígios, nunca o faz por capricho ou ostentação de sua Onipotência, mas sempre a fim de chamar a atenção do homem para algum dos atributos divinos.

 

Seja lícito repetir: a função de sinal é inerente ao genuíno milagre. O caráter maravilhoso de um fenômeno não interessa, por si mesmo, ao teólogo ou ao apologeta (pois nem todo fato que nos surpreenda pode, por isto mesmo, ser tomado como obra direta de Deus). O que dá valor religioso ou teológico a algum portento, habilitando-nos a falar de verdadeiro milagre, é o quadro histórico dentro do qual o portento se realiza: tal prodígio pode ser tido corno testemunho dado por Deus à vida virtuosa ou à doutrina de tal ou tal pessoa? — Se não existir esta relação, o prodígio não será utilizado como argumento na teologia ou na apologética; já não será objeto de estudo do apologista como tal, mas, sim, do médico e do psicólogo.

 

Ora acontece que essa relação de selo ou confirmação da parte de Deus falta, por completo, aos prodígios efetuados por Rasputin. Sem querer julgar a consciência deste homem, deveremos reconhecer que o seu gênero de vida destoava totalmente da lei de Deus (não há quem não perceba que as orgias se opõem aos preceitos do Criador). De antemão, portanto, se deve asseverar que Deus não se pode contradizer, de um lado ordenando (mediante a lei natural) sobriedade e reserva, e,de  outro lado, confirmando, com autênticos prodígios, os excessos e abusos...

 

Será preciso então concluir que Rasputin, pelos fenômenos extraordinários que realizou, manifestou faculdades naturais riquíssimas ou uma sensibilidade extremamente aguçada e vibrátil; eram estes dons naturais, não possuídos em tal grau por outras pessoas, que lhe granjeavam prestígio junto às autoridades e aos demais concidadãos. Algo de desequilibrado ou doentio se revela já na brusca mudança de vida que o camponês da Sibéria realizou aos 33 anos de idade; uma visão (produto da excitação sensível de Rasputin mesmo) a terá motivado; doravante o conflito entre o bem e o mal levou o «homem do Deus» a tomar as atitudes mais desconexas possíveis.

 

Ao contrário do que no caso de Rasputin se verifica, na vida de Jesus os prodígios narrados aparecem como sinais (Cristo mais de uma vez apelou para o valor de argumento ou prova que tinham os seus milagres; cf. Mt 16,4; Mc 2, 10-12), e — frisemo-lo bem — sinais relacionados com uma vida santa e uma doutrina pura, como eram a vida e a doutrina de Cristo. É desta relação que se deduz a diferença essencial entre os portentos de Rasputin (fenômenos naturais, psíquicos) e os prodígios de Cristo (autênticos testemunhos que Deus Pai dava em favor da pregação e da conduta do Messias).

 

2.4) Contudo, ainda uma objeção se poderia levantar contra o argumento dos milagres, mesmo quando entendidos no sentido restrito que acabamos de expor. Com efeito, dificilmente podemos ter certeza de que determinado fenômeno não está contido dentro das possibilidades da natureza; se hoje a ciência não o consegue elucidar, é possível (dado o progresso contínuo dos estudos) que dentro de alguns decênios já o consiga; verificar-se-á então que em vão se terá tomado como sobrenatural o que na verdade era natural.

— Ninguém nega tal possibilidade. Contudo, não interessa ao teólogo ou apologeta saber se dentro de algumas décadas a ciência explicará racionalmente determinado prodígio que hoje não seja explicável; o que importa, do ponto de vista religioso, é que um fenômeno hoje inexplicável (acentuemos bem: inexplicável à luz da ciência de hoje, ou seja, para os homens de hoje) tenha sido produzido precisamente como resposta a uma questão religiosa ou a uma prece humilde ou ainda como sinete de uma vida santa ou de um ensinamento verídico. Pode-se admitir que dentro de cinquenta anos o Senhor Deus tenha que produzir outro tipo de fenômeno inexplicável (porque os inexplicáveis de hoje já não o serão então); o que importará é que, para a ciência daquela época futura, algo de inexplicável se tenha registrado... e se tenha registrado em um quadro genuinamente religioso.

 

Eis, em síntese, as observações que sugere o famoso caso de Rasputin.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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