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PERGUNTE e RESPONDEREMOS – novembro de 1961

 

MARIANA ALCOFORADO E JUNQUEIRA FREIRE

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

CLIO (Rio de Janeiro): «Entre os casos escabrosos da história, mencionam-se os de Soror Mariana Alcoforado, freira tida como autora de famosas cartas de amor, e Junqueira Freire, monge poeta ímpio. Que há de certo a propósito de tão ambíguas figuras?»

 

Analisaremos abaixo com serenidade o que os documentos mais seguros atestam nos dois citados casos.

 

As pesquisas históricas de modo nenhum abalam o conceito de santidade da Igreja, pois, como repetidamente temos observado, a Igreja não se identifica com algum de seus filhos, nem mesmo com clérigos e Religiosas. Embora todos procurem aproximar-se do ideal da «Esposa de Cristo sem mancha nem ruga» (cf. Ef 5.27), cada qual, em grau maior ou menor, fica aquém desse Exemplar; a Igreja mesma é a primeira a reconhecer e repudiar as faltas de seus filhos, pronta a corrigi-las com solicitude materna. Em consequência, vê-se que as destoantes atitudes dos católicos não afetam a autenticidade da Igreja, a qual continua a ser, para o mundo, a depositária e administradora dos meios de Redenção; é Cristo, e não são os homens, quem garante a genuinidade das manifestações oficiais da Igreja.

 

Ao lado disso, deve-se observar que vão sendo transmitidas narrativas tendenciosas, baseadas em mal-entendidos ou mesmo na má fé de escritores que se querem servir da história para desprestigiar a Igreja.

 

Estas breves premissas já sugerem a atitude de ânimo oportuna para considerarmos devidamente os dois citados nomes de Religiosos literatos.

 

1. A escritora apaixonada...

1.        Mariana Alcoforado nasceu em Beja (Portugal), onde foi batizada aos 22 de abril de 1640, como filha de Francisco da Costa Alcoforado e Leonor Mendes. O pai exercia naquela cidade as funções de executor do almoxarifado. Muito jovem, Mariana entrou no Convento de Nossa Senhora da Conceição em Beja, onde morreu aos 28 de julho de 1723, com 83 anos de idade.

 

É a essa Religiosa que se atribuem cartas de amor publicadas em francês no ano de 1669 sob o título de «Lettres portugaises» (a primeira edição não saiu nem em Portugal nem na França, mas em Amsterdam na Holanda, o que não deixa de ser estranho).

 

As cartas foram traduzidas para numerosas línguas modernas e amplamente comentadas, dando lugar a que se falasse do «masoquismo psíquico de Soror Mariana Alcoforado» (Asdrúbal de Aguiar, Separata do «Arquivo de Medicina Legal», 1« volume em 1922).

 

Essas missivas teriam sido dirigidas pela Religiosa portuguesa ao capitão francês Noel Bouton, conde de Saint-Léger, depois marquês de Chamilly (1636-1715), o qual fazia parte das tropas francesas enviadas a Portugal em auxílio contra a Espanha. Bouton, permanecendo em Portugal de 1665 a 1667, terá conhecido Mariana no seu convento. Esta, quando soube que se concluíra a paz e que o oficial estava para voltar à França, ter-lhe-á escrito sucessivamente por meio de intermediários militares, pedindo-lhe instantemente que a levasse consigo. A quanto parece, Bouton se mostrou assaz indiferente às súplicas, só enviando uma carta em resposta... Tendo ele regressado à França, partiu de novo em expedição militar para Cândia (Creta) no ano de 1669; gravemente ferido, ainda participou de vários combates, falecendo em 1715.

2.        Que dizer de tais cartas?

Assemelham-se a apaixonados brados de desespero, nos quais a crítica tem observado certos traços típicos do estilo francês.

 

Por isto, julgam os comentadores mais benignos que ao menos certos trechos de tal epistolário não são da autoria de Mariana. Bouton, que não concebeu escrúpulos em publicar as cartas, ter-lhes-á acrescentado frases que, entre outras coisas, visavam lisonjear a sua vaidade.

 

Outros estudiosos vão mais longe, chegando a denegar a Mariana ou a alguma mulher a autoria das cartas. Estas terão sido redigidas originariamente em francês, e não em português. O fato é que, se foram escritas em lusitano, o texto original se perdeu por completo, só existindo hoje em retroversões ou simplesmente em traduções do francês para o português.

 

Antes da morte de Mariana, conheciam-se mais de cinquenta edições francesas, além de uma tradução para o inglês e outra para o italiano (para só falar de Londres, registraram-se ai edições das missivas em 1678, 1693, 1701, 1808, 1893, 1897 e 1903). O assunto entrou até no teatro, principalmente por obra de Júlio Dantas, que o dramatizou em versos na peça «Soror Mariana».

 

Como se vê, seria vão conceber escândalo ou criticar a Religião sobre base tão incerta como é o tal epistolário amoroso de Mariana Alcoforado. Que o leitor sincero volte sua atenção para outros assuntos sobre os quais seja possível formular um juízo mais seguro e construtivo!

 

2. E Junqueira Freire ?

 

Luís José Junqueira Freire nasceu na Bahia aos 31 de dezembro de 1832. Em 1851, com menos de vinte anos de idade, entrou no Mosteiro de São Bento da cidade do Salvador, onde emitiu os votos religiosos no ano seguinte (1852), com o nome de Frei Luís de Santa Escolástica. Em 1854, os Superiores queriam mandá-lo para o Rio de Janeiro; então sua mãe, que ficaria a sós na Bahia, pediu ao filho obtivesse a dispensa dos votos e com ela permanecesse. Junqueira Freire obteve essa licença dita de «secularização», passando a residir com sua genitora e sua irmã, numa existência que em breve se deveria extinguir por efeito de moléstia cardíaca, aos 24 de junho de 1855; faleceu com pouco mais de 22 anos de idade.

 

A situação de Junqueira Freire perante o Direito Canônico era legal; saiu do Mosteiro com a devida dispensa dos votos. Não chegou a ser ordenado sacerdote, pois a ordenação, além do Noviciado (que se conclui com os votos), supõe anos de estudo de filosofia e teologia. Ora o dito monge se deteve dois anos (ao máximo) no mosteiro após a profissão religiosa. Por conseguinte, seria injusto ter esse personagem na conta de apóstata da vida religiosa ou sacerdotal. O que nele há a lamentar é a brusca mudança de mentalidade e de gênero de vida, pois o ex monge se tornou veementemente sarcástico contra a Religião. Aliás, de maneira geral nas suas produções literárias, ele se manifesta inquieto, desalentado e revoltado- Analisando de mais perto os escritos e o currículo de vida (tão breve e tão pouco amadurecida) do poeta, os críticos julgam que a entrada de Junqueira para a vida monástica não foi motivada por autêntica vocação, mas por decepções sentimentais e conselhos de pessoas estranhas; além disto, a mudança ideológica do poeta se deve à sorrateira influência que ele foi lentamente sofrendo por parte da filosofia e da literatura da sua época. Ora está claro que concepções vacilantes, motivos negativos e traumas afetivos não bastam para sustentar uma vida monástica.

 

Assaz ilustrativas são as seguintes declarações do próprio autor:

"Uma educação cristã, porém livre, que minha mãe soube dar-me, imprimiu-me entre seus ósculos maternos o sentimento religioso lá bem no âmago de meu coração. As minhas poesias ortodoxas, portanto, pertencem a minha mãe. São sua inspiração.

O ardor da juventude, a ambição da ciência, a sociedade corrompida, degeneraram em mim o homem feito por minha mãe. À proporção que estudava, ia-me tornando mais philosopho, isto é, mais valioso, mais ignorante, mais incrédulo.

As minhas poesias filosóficas pertencem a esses acessos de loucura.

Entrou-me quase n'esse tempo essa visão encantada, essa alucinação febril, que mata o coração e o espírito, depois de tê-los bem gasto. O amor!

As minhas poesias eróticas pertencem a esses segundos acessos de loucura" (Contradicções poéticas, prólogo).

 

Em suma, as considerações acima bem mostram que o caso de Junqueira Freire não tem o significado religioso ou antirreligioso que alguns historiadores lhe querem atribuir- É, antes, a história da fraqueza de um homem (cuja consciência não nos compete julgar), história que está longe de esvaziar ou desvirtuar o imenso valor do conceito de Deus e de prática religiosa: Deus, Cristo e a sua Igreja ainda pairam por cima da tragédia e lhe sobrevivem.

 

Note-se apenas que a Igreja pode conceder a dispensa de obrigações monásticas e sacerdotais, pois essas obrigações são de instituição eclesiástica; dependem de leis positivas, não de leis naturais. E quem é legitimamente dispensado, está habilitado a viver em paz com Deus dentro da Igreja,... caso não tenha voluntariamente abandonado a fé!

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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Dom Estêvão Bettencourt

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