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SANTA IGREJA CATÓLICA DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

 

O Papa Francisco afirma: “A Igreja seja lugar da misericórdia e da esperança de Deus, onde cada qual possa sentir-se acolhido, amado, perdoado e encorajado a viver em conformidade com a vida boa do Evangelho. E para fazer com que o outro se sinta acolhido, amado, perdoado e encorajado, a Igreja deve manter as suas portas abertas, a fim de que todos possam entrar. E nós temos que sair através de tais portas e anunciar o Evangelho”. (Audiência Geral, 12/06/2013).

 

De acordo com o ensino de São Paulo Apóstolo, há na Santa Igreja uma íntima relação entre os seus membros: “Embora sejamos muitos, formados um só corpo em Cristo”. E, como todo corpo bem constituído, ele tem uma cabeça “da qual todo corpo, pela união das junturas e articulações, se alimenta e cresce conforme um crescimento disposto por Deus” (Cl 2,19). De Jesus Cristo, “cabeça do Corpo da Igreja” (Rm 12, 4-5), dimana a vida, a força e a vitalidade para o resto do organismo. É em Cristo que se faz comunhão e evangelização.

 

Ensina-nos São Paulo: “Nenhum de nós vive pra si, e ninguém morre pra si” (Rm 14,7). E especifica: “Se um membro sofre, todos os membros padecem com ele; e se um membro é tratado com carinho, todos os outros se congratulam por ele” (I Cor 12,26).

 

O relacionamento entre os membros do Corpo Místico, muito diferentes entre si, regia-se pela caridade e pelo espírito de comunhão. Todos eles, desde os sucessores dos Apóstolos até a mais humilde viúva, articulavam-se numa harmônica convivência que não visava de nenhum modo a destruir os carismas ou a superioridade dos mais dotados, nem permitia o menosprezo dos inferiores, pois, como diz o Apóstolo dos gentios: “Em um só Espírito formos batizados todos nós, para formar um só corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres; e todos fomos impregnados do mesmo Espírito. Assim o corpo não consiste em um só membro, mas em muitos. [...] Deus dispôs no corpo cada um dos membros como Lhe aprouve.

 

Conforme explicou o renomado Papa teólogo Bento XVI, este título de “Cabeça” tem dois significados. Primeiro: Cristo é “o governante, o dirigente, o responsável que guia a comunidade cristã como seu chefe e Senhor”. Segundo: Ele é “como a cabeça que alimenta e une todos os membros do corpo” governado por ela. Ou seja, “não é só alguém que dá ordens, mas alguém que organicamente está unido a nós, do qual vem também a força de agir de modo reto” (cf. Audiência Geral, de 14/01/2009).

 

Os Três Estados da Única e Indivisível Igreja

 

Esse Corpo Místico, porém, não é constituído apenas da Igreja visível, peregrina na Terra. Como nos explica o teólogo Padre Jacques M.L. Monsabré, OP, esta “não é senão uma porção da vasta assembléia na qual se aplicam diversamente os efeitos da Redenção; ela engloba também a Igreja Triunfante e a Igreja Padecente”. A Igreja Triunfante é a porção do Corpo Místico que já se encontra na eterna bem-aventurança, termo final de nossa caminhada. Por estar junto do trono de Deus, essa assembléia de Eleitos roga constantemente pelos seus irmãos que ainda peregrinam no mundo.

 

Denomina-se Igreja Padecente o conjunto de fieis que sofrem no Purgatório, expiando seus defeitos e purificando suas vistas espirituais para encontrar-se com o bom Deus.

 

E nós que, neste vale de lágrimas, lutamos para, pelos méritos infinitos de Nosso Senhor Jesus Cristo, conquistar a coroa de glória, constituímos a Igreja Militante (Ecclesia Militans), segundo o termo clássico, que põe em realce a necessidade de combater nesta vida o pecado e as más inclinações.

 

Estes três estados da única e indivisível Igreja Católica estão estreitamente unidos entre si, como bem acentua o Concílio Vaticano II: “Enquanto o Senhor não vier na sua majestade e todos os seus Anjos com Ele (cf. Mt 25,314) e, vencida a morte, tudo Lhe for submetido (cf. I Cor 15, 26-27), dos seus discípulos uns peregrinam sobre a Terra, outros, passada esta vida, são purificados, outros, finalmente, são glorificados e contemplam claramente Deus trino e uno, como Ele é”; todos, porém, comungamos, embora em modo e grau diversos, no mesmo amor de Deus e do próximo, e todos entoamos ao nosso Deus o mesmo hino de louvor. Com efeito, todos os que são de Cristo e tem o seu Espírito, estão unidos numa só Igreja e ligados uns aos outros n’Ele (cf. Ef 4,16)”. (LG n.49).

 

“A Igreja cresce e caminha, portanto, “no temor do Senhor, cheia da consolação do Espírito Santo” (At 9,31). Essa permanente atualização da presença ativa de Nosso Senhor Jesus Cristo em seu povo – operado pelo Espírito Santo e expressa na Igreja através do ministério apostólico e a comunhão fraterna – é o que em sentido teológico se entende pela palavra Tradição: não é a mera transmissão material daquilo que no inicio foi dado aos Apóstolos, mas sim a presença eficaz do Senhor Jesus, crucificado e ressuscitado, que acompanha e guia mediante o Espírito Santo a comunidade reunida por Ele”, diz Dom Braulio Rodríguez Plaza, arcebispo de Toledo- Primaz da Espanha.

 

VITÓRIA DA IGREJA

 

Nosso Senhor Jesus Cristo nunca perde batalhas: No mundo tereis tribulações; mas confiai, Eu venci o mundo (Jo 16,23), declarava o Senhor às vésperas da sua aparente derrota na Cruz. E a sua promessa estende-se à Igreja que fundou: "As portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt 16,18). De todas as perseguições a Igreja saiu purificada e engrandecida, de todas as falsidades ela triunfou. Enquanto os anticristos ruíam por si mesmos ao longo destes vinte séculos, a Igreja lhes sobrevivia. Porque, se os homens morrem, a Igreja, tal como o seu Fundador e Cabeça, ressuscita incessantemente.

 

Georges Chevrot, na sua obra Simão Pedro, tem palavras que merecem reproduzir-se aqui: “Já em tempos de Santo Agostinho de Hipona os inimigos da Igreja declaravam: "A Igreja vai morrer, os cristãos tiveram a sua época”. Ao que o bispo de Hipona respondia: "No entanto, são eles que morrem todos os dias e a Igreja continua de pé, anunciando o poder de Deus às gerações que se sucedem".

 

Vinte anos mais – dizia o infeliz filósofo francês Voltaire -, e a Igreja Católica terá acabado... . Vinte anos depois, Voltaire morria e a Igreja católica continuava. [...]

 

“Assim, desde Celso, no século III, não houve uma única geração em que os coveiros não se preparassem para sepultar a Igreja; e a Igreja vive. O notável escritor Charles Forbes René de Tryon, conde de Montalember dizia-o magnificamente, em 1845, na Câmara dos Pares: "Apesar de todos os que a caluniam, subjugam ou atraiçoam, a Igreja Católica tem há dezoito séculos uma vitória e uma vingança asseguradas: a sua vingança é orar por eles; a sua vitória, sobreviver-lhe)”.

 

Mesmo o doloroso espetáculo dos mártires não deve desanimar-nos, antes o seu exemplo deve servir-nos de estímulo e orientação. Martírio significa “testemunho”, e, na verdade, trata-se do máximo testemunho da fé; e por isso o Senhor associou a ele as mais sentidas promessas de glorificação e fecundidade. Referindo-se aos mártires deste século que acaba de passar, João Paulo II dizia: “A Igreja encontrou sempre, nos seus mártires, uma semente de vida”. Sanguis martyrum, sêmen Christiano-rum (Tertuliano, Apologeticum 50, 13: PL 1, 534): esta célebre (lei) enunciada por Tertuliano, sujeita à prova da História, sempre se mostrou verdadeira. Por que não haveria de sê-lo também no século e milênio que começamos? Talvez estivéssemos um pouco habituados a ver os mártires de longe, como se tratasse de uma categoria do passado associado especialmente com os primeiros séculos da era cristã. A comemoração jubilar descerrou-nos um cenário surpreendente, mostrando o nosso tempo particularmente rico de testemunhas, que souberam, ora de um modo, ora de outro, viver o Evangelho em situações de hostilidade e perseguição, até darem muitas vezes a prova suprema do sangue.

 

 

Transcendência Divina

 

Percorrendo as vicissitudes históricas da Santa Igreja, apontamos as linhas gerais do governo de Deus. Mas, são quatro os pontos que melhor caracterizam a História da Igreja e manifestam a sua transcendência divina.

 

1. Invicta estabilidade.

É uma lei inexorável que todas as coisas tendem para a sua decomposição. Este princípio é aplicado por Santo Agostinho à história com a profundidade e poder do seu gênio. Nota que qualquer instituição conhece três períodos: o início, ao qual sucede quase sempre um triunfo relativo, e depois a decadência até à extinção. E aduz, como exemplos, os grandes impérios da Babilônia, da Pérsia, da Macedônia. Também o intelectual Jacques-Bénigne Bossuet, na Historia Universal, e o erudito Henri Lacordaire, na Conferencia sobre as leis da história, põem em evidência esta verdade.

 

De fato, nenhuma instituição humana resistiu à erosão do tempo: empresas industriais, comerciais e econômicas, associações filantrópicas, artísticas, literárias, poderosas famílias aristocráticas, cidades, ditaduras implacáveis, monarquias absolutistas, reinos e impérios, tudo acabou no rápido turbilhão dos anos.

 

Mas, há uma instituição que resistiu às provas mais difíceis e renova continuamente a sua perene juventude: a Igreja Católica de Cristo. Depois de vinte séculos de existência, mantém os mesmos elementos essenciais, a mesma hierarquia, o mesmo Credo, os mesmos sacramentos, o mesmo sacrifício. As mudanças efetuadas são simplesmente acidentais. Como se explica tão poderosa vitalidade? Muito mais se pensarmos na guerra encarniçada que sempre teve de suportar.

 

Quantas vezes foram anunciadas o seu fim! Plínio, no tempo de Trajano, escrevia: “Dentro em breve a Igreja desaparecerá”. Mais tarde, Juliano apóstata gloriava-se de ter preparado “o caixão para o Carpinteiro de Nazaré”. Martinho Lutero, reformador alemão e inimigo de Roma, lançava o grito: “Ó Papa, eu serei a tua morte”. Também Voltaire afirmava que estava iminente o fim do Papado. Napoleão Bonaparte, recebendo a noticia da morte de Pio IV, exclamou: “Morreu o último Papa!” E, contudo o papa e a Igreja continuam hoje mais vivos do que nunca. Nem se creia poder explicar o fenômeno afirmando que a Igreja encontrou caminho favorável para a sua expansão. Pelo contrário. Já vimos que nenhuma outra instituição teve tanto que sofrer como a Igreja. A única explicação conveniente é que a Igreja não é uma instituição humana. Como diz o Papa Francisco: “A Igreja não é uma ONG piedosa”. Teve origem na vontade de Deus; por isso, nem o diabo, nem o tempo, nem as vicissitudes humanas poderão destruí-la.

 

2- Unidade católica.

Outro fenômeno singular é a unidade da Igreja de Cristo. Munida do magistério infalível e da autoridade suprema, goza duma ordem perfeita, donde deriva a indefectível coesão de todos os seus elementos. Tal unidade manifesta-se visivelmente na doutrina, no culto, e no governo. Os mais diversos povos por origem, por ação, por língua, por caráter, por costumes e por civilização fazem parte da Igreja Católica Apostólica Romana. Apesar disso, todos professam o mesmo Credo, participam dos mesmos sacramentos, assistem ao mesmo sacrifício e praticam a mesma moral. E a unidade também aparece perfeita no governo. Em toda a parte a hierarquia é composta de párocos, sujeitos aos seus bispos e todos conjuntamente ao Papa.

 

Esta unidade, glória e grandeza da Igreja Católica, são tanto mais admirável se a comparamos com as infinitas divisões das "igrejas" dissidentes, cada uma das quais tem uma doutrina, um culto e um governos próprios.

 

Existe na Igreja Romana, além da unidade, a catolicidade. Universal é a sua fisionomia e abrange, acima das divisões nacionalistas e raciais, povos de todas as cores e civilizações. Aqui está, em parte, o segredo da sua força expansionista. Não tem preconceitos que a impeçam ou barreiras que a detenham no seu caminho. A sua missão é a plena obediência ao Seu Senhor de anunciar o Seu Santo Evangelho no mundo inteiro.

 

Nos três primeiros séculos, embora no seio das mais tremendas dificuldades, conquista a maior parte do mundo greco-romano. Depois, expande-se por toda a Europa. Descobertas novas terras pelos navegadores e exploradores intrépidos, espalham os seus valentes missionários por todos os cantos do mundo. Hoje conta milhões de católicos na Ásia, na África, nas Américas e na Oceania e, enquanto os missionários pacientes, mas continuamente estendem o seu reino entre os cismáticos, muitos são os que voltam do cisma e do protestantismo para unidade católica.

 

3- Santidade admirável.

Outra característica da Igreja de Cristo, refulgente ainda hoje de luz admirável, é sua santidade. Santa é a doutrina da Igreja. Ela ensinou sempre as mais belas virtudes individuais e sociais: a caridade, a humildade, a justiça, o amor para com os inimigos. Deu à família uma vida nova, repudiando a poligamia, impondo a indissolubilidade do matrimônio, defendendo os direitos da mulher, da criança e do idoso.

 

No campo social, primeiro suavizou e, a seguir, trabalhou contra a escravatura, condenou sempre o despotismo absoluto, limitando as funções do Estado, inculcou aos súbditos a submissão que não deriva do terror servil, mas da convicção religiosa que toda a autoridade vem de Deus. Deus é amor e justiça, daí as autoridades têm que praticar esses valores para o bem comum.

 

Doutrina tão sublime não podia deixar de produzir frutos admiráveis de santidade, e eis que ao lado dos mártires que deram a vida com heroísmo sobre-humano para defender esta mesma doutrina, germinaram no seio da Igreja falanges escolhidas de virgens, de confessores, de ermitãs, monges, frades e de apóstolos. Forjas de santidade souberam serem as famílias espirituais – as ordens religiosas – no seio das quais desabrocham os mais ilustres campeões do catolicismo.

 

Tal floração maravilhosa de santidade não impede que na Igreja Romana se tenham manifestado fraquezas. Não devemos exagerar como fazem os nossos adversários. A luz excede em muito as sombras e as próprias sombras contribuem para salientar mais a ação da assistência divina a uma instituição onde entra o elemento humano com as suas inevitáveis deficiências.

 

4- Fecundidade inesgotável.

Com a santidade admirável está intimamente ligada a fecundidade prodigiosa que se manifesta, sobretudo na conservação do patrimônio de fé através das provas mais árduas e do pulular continuo das mais diversas heresias.

 

A este propósito escreve o célebre historiador G. Kurtb, autor das Origens da civilização moderna: “Sozinha no meio do turbilhão, que agitava os espíritos com todos os ventos de doutrina, a Igreja de Roma, semelhante a um farol sublime na noite tempestuosa, fez sempre brilhar a chama da ortodoxia. Sempre fez ouvir a voz da mais pura tradição apostólica. O apóstolo que tinha recebido a gloriosa missão de confirmar os seus irmãos na fé, não cessou de denunciar o erro e de proclamar a verdade e tal foi a vigor desta palavra invicta e invencível no meio de todas as revoluções dogmáticas que deteve todas as heresias e Roma, sozinha, salvou a unidade da sociedade cristã e a integridade da sua fé”.

 

E a Igreja aumenta e desenvolve esta fé assimilando, entretanto tudo o que de verdade, de belo e de bom encontra nas outras doutrinas. Aos poucos e simples escritos dos tempos apostólicos seguem-se as grandes obras dos Santos Padres, as imensas coleções conciliares, as Sumas Teológicas. A mestra da fé tornou-se a mestra da ciência. Das escolas de Alexandrina e de Antioquia às Universidades medievais, aos Seminários, às faculdades filosóficas, teológicas, às universidades católicas, dos últimos tempos, é um gigantesco caminho percorrido pela Igreja no campo científico e da cultura em beneficio da civilização cristã.

 

 

A Igreja é de Natureza Divina

Diz o Papa Francisco: “A Igreja não é de natureza política, mas essencialmente espiritual” (Audiência aos representantes dos meios de comunicação social, 16/03/2013).

 

A Santa Igreja Católica de Cristo é uma realidade viva, renovada, reavivada, indestrutível, eterna, visível, espiritual, tradicional, presente, atuante e futurista; sem nunca perder a fidelidade do projeto do Reino de Deus. Guiada em toda verdade de Jesus Cristo, na beleza da santidade do Espírito Santo e no infinito amor de Deus Pai.

 

Dizia o Papa Gregório XVI: “É mais fácil destruir o Sol do que destruir a Igreja e o papado”.

 

O Espírito Santo leva a Igreja continuamente a abrir espaço para a vinda do reino, a ser fiel à sua identidade e coerente com sua missão. Por causa dessa sua fidelidade e coerência a Igreja encontra rejeições e perseguições, como Cristo as encontrou.

 

Mas a Igreja não passa apenas por provações externas. Seus próprios membros, às vezes, se comportam como se ela fosse uma instituição puramente humana. Nos dois mil anos de sua história, o povo de Deus sofreu repetidamente a tentação de construir para si fortalezas, com o risco de confundi-las com o reino de Deus, ou de identificar-se com estruturas sociais e políticas.

 

Não é de pouca monta o julgamento que continuamente vitaliza sua história, ainda que a presença do espírito é garantia de que jamais será destituída da sua primogenitura e da sua vocação católica. Ela é, todavia sempre a arca que consegue navegar entre as ondas da história. Os dons do Espírito Santo lhe garantem que não naufragará: “As portas do inferno nada poderão contra ela” (Mt 16,18).

 

A Igreja é certamente santa, isto é, inteiramente de Deus, pela fé que ensina e professa, pela graça que recebe e doa, e principalmente pelo Espirito que nela está. Como tal, permanece unida a Cristo, sua cabeça, e é sacramento universal de salvação. Todavia se reconhece “sempre necessitada de purificação” (LG 8), no tocante à fidelidade a Cristo e, portanto, a si mesma. Reconhece assim que o julgamento de Deus está sobre ela, e que a história pode ser seu lugar e instrumento.

 

O antigo Israel, nas desventuras e no exílio, crescia graças á voz ora ameaçadora ora encorajadora dos profetas. A Igreja cresce e se renova também através do sofrimento e das derrotas. “A Igreja confessa que progrediu muito, e pode progredir com a própria oposição daqueles que lhe são adversários ou que a perseguem” (GS 44).

 

A narrativa dos Atos dos Apóstolos mostra que a Igreja cresce em qualidade quando, deixando-se interpelar pela palavra de Deus, vive de modo mais evangélico. Cresce quantitativamente quando, aumentado o número de crentes, fundam-se novas comunidades locais, alargam-se seus limites visíveis, melhoram suas estruturas pastorais. Mas, um aspecto não deve prevalecer sobre o outro. Isto acontece quando nos contentamos com uma minoria de eleitos, ou damos crédito demasiado às estatísticas.

 

Há uma alternação nas situações que acompanha este duplo crescimento: sucessos e fracassos, rupturas e recuperações da comunhão. Na história da Igreja não existem épocas inteiramente de ouro ou inteiramente de ferro. O bem e o mal se entrelaçam sempre, e os olhos de Deus julgam os acontecimentos e situações com medidas diferentes das nossas. O que nos parece prosperidade satisfatória, pode na realidade ser aparência estéril; onde vemos desolação, pode estar em preparação um fecundo progresso.

 

Não é por acaso que épocas particularmente difíceis foram marcadas por grandes figuras de santos, e seguidas de desenvolvimentos nunca imaginados.

 

A vida da Igreja se desenvolve com contínua tensão: entre memória, celebração dos fatos salvíficos do passado, e empenho pelo futuro do reino. Deus quis condividir este empenho com os homens: explicitamente, com os crentes convocados na Igreja; implicitamente, com quantos, sem saber ou querer, mesmo combatendo e perseguindo a Igreja, possam colaborar com o seu desígnio.

 

 

Um Tesouro Em Vasos de Barro

São passados mais de vinte séculos desde que Cristo instituiu a Igreja e com o seu Espírito lhe deu vida. Os não-crentes veem no seu caminhar bimilenar o nascimento e o percurso de uma instituição humana, e o julgamento que fazem dela depende de seus diferentes pontos de vista ideológicos e práticos. Mas ninguém pode ignorar sua capacidade de resistência ante os adversários e de renovar-se internamente, o que não acontece com nenhuma outra instituição.

 

À Igreja foi confiada a tarefa de “tornar conhecida a ciência da glória de Deus, que se reflete na face de Cristo” (2 Cor 4,6). Mas esse tesouro ela o guarda “em vasos de barro, para que apareça claramente que este extraordinário poder provém de Deus” (2 Cor 4,7). Os vasos de barro são os homens, do papa ao último dos crentes.

 

Como todos os homens, eles podem mostrar-se fracos, por vezes incapazes de resistir ao mal, ao desgaste do tempo, à persistência das tribulações, aos compromissos. Não, porém, ao ponto de a Igreja perecer, porque a presença do Espírito a mantém. Esta ininterrupta ação do Espírito é a primeira e fundamental chave de leitura para interpretar autenticamente a história da Igreja.

 

A grande experiência do Concílio Vaticano II confirma essa autêntica historicidade eclesiástica. Sob a ação do Espírito Santo, o Concílio libertou a Igreja de muitos vínculos que a prendiam ao passado e, ao mesmo tempo, reafirmou que serão sempre válidos.

 

Nesta sua liberdade, centrada na missão de continuar a obra de Cristo, a Igreja anuncia ao mundo o mistério de salvação, que deve ser encarnado na história. Não uma Igreja que foge do mundo, mas age no mundo e para a salvação do mundo.

 

Por isso se coloca religiosamente à escuta da palavra de Deus, e se faz atenta também à palavra dos homens – com os seus problemas, experiências, aspirações – para discernir a voz do Espírito, que a chama para modos novos de exprimir e testemunhar o mistério de Jesus Cristo.

 

Na época difícil após o Vaticano II, mesmo em meio a dificuldades, já está, todavia aparecendo uma nova imagem da Igreja renovada. É uma mudança análoga àquela vivida pela comunidade primitiva, quando o Espírito a impulsionou ao encontro dos pagãos, para abri-los à fé no único Salvador, sem lhes impor pesos inúteis.

 

A Igreja contempla confiante o futuro, porque segue as pegadas de cristo que é a verdade. O “depósito da fé”, a ela confiado e por ela guardado com a assistência do Espírito, está destinado a fermentar o mundo. A vida nova de Cristo move o caminhar da Igreja ao longo da história, em direção à perfeição última do reino. Dizia o sábio escritor francês Félicité de Lamennais: “A Igreja olha o futuro com coragem”.

 

Não podemos prever as etapas precisas que ela deverá percorrer em meio aos homens e às vicissitudes do mundo. Sabemos, porém, que o Espírito a conduz como e para onde quer, e lhe dá força: “entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus avança, peregrina, a Igreja, anunciando a cruz e a morte do Senhor até que venha (Cf. 1 Cor 11,26). Mas é fortalecida pela força do Senhor ressuscitado, a fim de vencer pela paciência e pela caridade suas aflições e dificuldades tanto internas quanto externas, para poder revelar ao mundo o mistério dele, embora sob as vestes da sombra, porém com fidelidade, até que no fim seja manifestado em plena luz” (LG 8).

 

“Ainda que a Igreja, por virtude do Espírito Santo, permaneça a fiel esposa de seu Senhor e não cesse jamais de ser um sinal de salvação para o mundo, ela, contudo não ignora de modo algum que não faltaram entre seus membros, clérigos e leigos, na série ininterrupta de tantos séculos, os que foram infiéis ao espírito de Deus. Também em nossos tempos não escapa à Igreja perceber quanto se distanciam entre si a mensagem que ela profere e a fraqueza humana daqueles aos quais o Evangelho foi confiado. Seja qual for o juízo que a história pronunciar sobre estes defeitos, devemos estar conscientes deles, combatê-los ativamente, para que eles não tragam prejuízo à difusão do Evangelho.” (Gaudium Et Spes, 43).

 

 

Conclusão

 

A Igreja prossegue sua peregrinação entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus, sinal vivo do Cristo que anuncia. As provações a que é exposta são coparticipação na paixão de Cristo, que a purifica. Do Senhor ressuscitado e do Espírito Santo a Igreja consegue força para a sua fidelidade que não poderá falhar. Sua obra é abissal no mais importante projeto da dignidade da pessoa humana. Amar a Cristo e tê-lo como seu Salvador é viver para a Igreja como verdadeiro discípulo da Boa Nova do Reino de Deus.

 

A Santa Igreja Católica do Senhor Jesus é de natureza divina. Ela é o Corpo Místico de Cristo, povo escolhido de Deus, coluna e sustentáculo da verdade. Ela é o que há de mais belo na face da terra. É algo que vai além da intelectualidade humana; muito mais além do que qualquer corporação bem administrada; sua missão tem o decreto de vencedora pela justiça e caridade. Ela é um grande mistério, como o da Santa Eucaristia e da Santíssima Trindade.

 

Pe. Inácio José do vale

Professor de História da Igreja - Instituto de teologia Bento XVI - Sociólogo em Ciência da Religião

E-mail: [email protected]

 

Fontes:

MONSABRÉ, OP, Jacques Marie-Louis. La Communion des Saints. In: Exposition du Dogme Catholique. Gouvernemant de Jésus-Christ. Carême 1882. 9. Edição. Paris: P. Lethielleux, 1882, p.294-295.

Arautos do Evangelho, agosto de 2013, pp. 38 e 39.

Dolz, Michele. O anticristo: mito ou profeta? São Paulo: Quadrante, 2001, pp.71 e 72.

Galli, A. Grandi, D. História da Igreja. São Paulo: Edições Paulinas, 1964, 2 edição, pp. 406 e 409.

Zagheni, Guido. A idade moderna: curso de História da Igreja. São Paulo: Paulus, 1999, p.352.

O Caminho do Senhor. Catecismo para adulto. Aparecida–SP: Editora Santuário, 1985, pp. 179 e 180.

 


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