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PERGUNTE e RESPONDEREMOS – novembro de 1961

 

PADRE SURIN, MÍSTICO OU POSSESSO?

«Que dizer do caso do Pe. Surin S. J.? Terá sido um místico ou um possesso do demônio?... Ou, ao mesmo tempo, uma e outra coisa? Poder-se-ia daí concluir algo sobre a apregoada afinidade entre doença e genialidade ?»

 

O Pe. João José Surin constitui uma figura, sem dúvida, surpreendente na história da espiritualidade cristã e mesmo nos anais da Medicina e da Psicologia. Apresenta inegáveis aspectos de profunda união com Deus e de ricas graças sobrenaturais, ao lado de certas expressões de alma que outrora foram classificadas como indícios de possessão diabólica e, atualmente, são tidas como fenômenos decorrentes de um psiquismo desequilibrado ou doentio.

 

Abaixo procuraremos reconstituir brevemente o currículo de vida e delinear as principais manifestações de alma do Pe. Surin; a seguir, tentaremos proferir um juízo sobre o estranho caso.

 

1. O Pe. Surin : sua vida e suas expressões características

 

João José Surin nasceu aos 9 de fevereiro de 1600 em Bordéus (Bordeux, França) como filho de um conselheiro do Parlamento da cidade.

 

Foi aluno dos Padres jesuítas, e esteve sob a influência das carmelitas de Bordéus, que cultivavam intensamente a espiritualidade de Santa Teresa.

 

Aos 12 de julho de 1616, entrou no Noviciado da Companhia de Jesus. Deu logo provas de inteligência lúcida e penetrante, que o distinguia nos cursos de Filosofia e Teologia; teve, porém, de interromper repetidas vezes os seus estudos em consequência de saúde precária.

 

Ordenado sacerdote aos 11 de abril de 1626, foi-se ressentindo cada vez mais de debilidade de saúde. Desde o início do seu ministério sacerdotal, dedicou-se à direção das almas, logrando notável êxito — o que não surpreende, pois o Pe. Surin possuía profunda vida interior e ardente amor à oração perfeita ou mística.

 

Em 1632, deu-se um acontecimento que havia de ter extraordinária repercussão na vida de Surin: no convento das Religiosas Ursulinas de Loudun, a Superiora, Madre Joana dos Anjos, e em geral as Irmãs da comunidade, começaram a manifestar sintomas muito estranhos (convulsões, ranger de dentes, lamúrias...), que a opinião comum, sem hesitar, passou a atribuir ao demônio, do qual todas as Religiosas coletivamente estariam possessas.

 

Não interessa aqui discutir a verdadeira natureza desses fenômenos; os historiadores, mesmo católicos, admitem que se tratava predominantemente de casos psicopáticos e neuróticos (delírio contagioso, histeria, sugestionismo, etc.); naquela época os conhecimentos de psicologia e fisiologia ainda não eram suficientes para dar explicação racional a tais manifestações extraordinárias; por conseguinte, tanto os eclesiásticos como os médicos julgavam que a causa dos estranhos males devia necessariamente ser uma força oculta, ou seja, o poder diabólico.

 

Já havia dois anos que tal situação se prolongava em Loudun e não havia prognósticos de melhoras, apesar dos múltiplos exorcismos já aplicados à comunidade; esta chamava a atenção das mais altas personalidades da nação. Foi então que os Superiores religiosos, a pedido do Cardeal Richelieu (não, porém, sem hesitação prévia), resolveram mandar para lá o Pe. Surin, sacerdote muito conceituado por seu zelo, no encargo de exorcista. Mediante preces e ritos assiduamente aplicados em público às Religiosas e, de modo especial, à Madre Priora, o Pe. Surin devia tentar fazer voltar a tranquilidade ao convento, daí expulsando o demônio. Como se compreende, o encargo, embora parecesse acertado para solucionar o caso de Loudun, era assaz perigoso para quem, como o Pe. Surin, já sofria dos nervos; a atmosfera do convento de Ursulinas era de pessoas sugestionadas e sugestionantes; o apelo ao demônio só servia, no caso, para excitar ainda mais os ânimos e a tensão nervosa de quantos estavam envolvidos nos fenômenos lá registrados.

 

Aos 15 de dezembro de 1634, Surin chegou a Loudun, onde permaneceu até novembro de 1637, excetuando-se o período de outubro de 1636 a junho de 1637, que ele passou em Bordéus. Já afetado de neurose, com 34 anos de idade, o piedoso jesuíta não estava em condições de resistir aos choques psicológicos que as suas atividades lhe acarretariam.

 

Eis como um dos biógrafos descreve o estado de saúde do Pe.Surin por ocasião de sua chegada a Loudun:

 

«Já havia alguns anos, estava prostrado sob penosos sofrimentos de corpo e de espírito, que o tornavam quase inábil para qualquer espécie de trabalho. Ressentia-se de tanta fraqueza de corpo que não se podia aplicar a tarefa alguma sem experimentar muitas dores; tampouco conseguia fazer a mínima leitura, por causa de continuas enxaquecas; seu espírito, aliás, estava imerso em sofrimentos e achaques tais que ele não podia prever qual o seu futuro... Essas angústias o afligiam de modo especial havia dois anos, de sorte que sua alma estava tão anuviada, aflita e oprimida, e seu corpo tão afetado... que ele julgava não poder viver ainda muito tempo nesse estado» (Manuscr. do Pe. Surin, citado por Legué, Jeanne des Anges, pág. 31; veja H. Brémont, Histoire littéraire du sentiment religleux en France V. Paris 1933, pág. 197).

 

O Pe. Surin compartilhou candidamente a crença em possessão diabólica que dominava as Religiosas de Loudun; em consequência, empenhou-se desde o início generosamente pela libertação da comunidade «possessa» e, em particular, da Madre Joana dos Anjos, que lhe estava especialmente confiada (por parecer ser a maior vítima de todas); em vista do bom êxito de sua missão, achava-se disposto aos piores sacrifícios, mesmo ao de tomar sobre si os males que afetavam a Madre Joana dos Anjos e assim humilhar-se, passando por louco aos olhos dos seus contemporâneos.

 

Eis o que escreveu o próprio Padre:

«Um dia, enquanto eu rezava, não me pude impedir de me oferecer à Divina Majestade para ser portador da moléstia dessa Religiosa (Joana dos Anjos) e experimentar tudo que ela experimentava, até mesmo vir a ser possesso do demônio, contanto que aprouvesse à Divina Bondade dar-lhe a graça de entrar solidamente na prática da virtude; eu nada desejava com tanta veemência como a libertação dessa alma cativa do demônio».

 

Em outra passagem acrescentava:

«Há muito tempo que me entreguei a Nosso Senhor... em consequência de uma meditação de nossas regras, em que nosso Pai S. Inácio quer estejamos dispostos a ser tidos como loucos, sem que todavia demos ocasião a isto mediante alguma falta. Tendo concebido tal desejo no mais íntimo do meu coração, passei a considerar esse estado como grande felicidade que me devia tornar semelhante a Jesus Cristo diante de Herodes. A ocasião para isso se apresentou; então Nosso Senhor me concedeu a graça de tomar a mim o desprezo e o opróbrio públicos com um certo prazer; eu não nutria desejo mais ardente do que o de libertar essa alma cativa do demônio» (Le triomphe de l'amour divin, pág. 106.223).

 

Com efeito. Quatro meses após ter chegado a Loudun, na semana santa de 1635, o Pe. Surin começou a ser vitima de ataques convulsivos e de fenômenos anormais, que pareciam autênticos efeitos de possessão diabólica. Assim descreve ele as suas impressões:

 

«Jamais se vira que os demônios se apossassem de um ministro da Igreja durante os exorcismos. Já, porém, que eu os atormentava de maneira nova... e não me rendia a algum dos seus rogos, Leviatã recebeu de Deus a permissão de se apossar de mim publicamente».

 

O demônio (segundo se dizia) deixava o corpo de Madre Joana dos Anjos para entrar no do Pe. Surin:

 

«O que causava admiração a todos, é que o demônio deixava repentinamente o corpo da Madre, para entrar no meu; então a Madre entrava no gozo de grande tranquilidade e eu... (ao contrário). Um dia... quando era assim atormentado, uma das pessoas presentes falava à Madre, que estava muito calma. O exorcista então mandou ao demônio que me abandonasse; logo o semblante da Madre se alterou... Vendo-me aliviado, levantei-me para ir ao encalço do meu inimigo, que infestava a Madre; tendo conseguido expulsá-lo por algum tempo, permanecemos ambos em paz».

 

Em consequência de tais fenômenos, o teor de vida do Pe. Surin, a partir de 1635, tomou-se de todo anormal, associando em si aspectos aparentemente contraditórios. Entre outros tormentos, Surin, desde 1636 ou 1637, durante dez ou onze anos foi continuamente assaltado pela tentação de suicídio. Ele mesmo assim descreve os seus estados de alma:

 

«Não posso exprimir o que se dá dentro de mim. Nem sei dizer como esse espírito (o demônio) se une a mim, sem me tirar a liberdade ou o conhecimento de minha alma. O maligno se torna como que um outro Eu dentro de mim, de modo que existo como se tivesse duas almas, das quais uma... fica ao largo, considerando a outra, que tomou posse do seu corpo; esta age no corpo como se fôra a proprietária. Sinto que o espírito de Deus e o espírito do demônio fazem do meu corpo e da minha alma o seu campo de batalha e que cada um ai deixa suas impressões. Da parte do demônio, experimento movimentos de raiva e de aversão a Deus, que me levam a desejar impetuosamente separar-me d'Ele para sempre. Ao mesmo tempo, porém, experimento grande suavidade, paz profunda, alegria celeste. De um lado, parece-me que sofro a condenação e que estou ferido pelas pontas de eterno desespero; ao mesmo tempo, porém, sinto-me cheio de confiança na bondade de Jesus Cristo...» (Le triomphe..., pág. 337-9).

 

O restante dos anos de Surin é abaixo caracterizado pelo Pe. Cavallera no seu prefácio à edição dos «Fondements de la vie spirituelle» (1930, pág. 9s):

 

«Exteriormente o Pe. Surin perdeu como que todo o controle sobre si mesmo; viu-se reduzido a não poder agir livremente e a se entregar, sem conseguir resistir, a uma série de atos insensatos e extravagantes. Contudo, o homem interior conservava admirável acume e lucidez de consciência. Em consequência, pôde ele na sua autobiografia, redigida em 1663, descrever, com surpreendente abundância de pormenores, as provações extraordinárias, as graças de escol e também — é preciso reconhecê-lo — as ilusões espirituais das quais a sua alma foi o teatro durante aqueles dolorosos anos. Experimentou assomos de desespero que o levaram em 1645 a uma tentativa de suicídio, a qual o deixou manco para o resto da vida. Teve a persuasão de que era o objeto de implacável cólera divina e de que nenhuma esperança lhe ficava de escapar à condenação. Todavia, por vezes também experimentou graças de união que num instante o levavam a esquecer todas as suas misérias, proporcionando-lhe um antegozo do céu (é preciso ler nos.originais essas narrativas extraordinárias, às quais poucas se poderiam comparar em toda a literatura mística). Por fim, após melhoras lentas e contínuas, a saúde lhe voltou em condições satisfatórias, principalmente a partir de 1656; com a saúde, retomou a vida normal, ficando apenas de tempos em tempos alguns atos anômalos a lembrar o seu passado. Durante os nove anos em que sobreviveu (1656-1665), o Pe. Surin se dedicou com o mesmo entusiasmo que outrora (embora não com as mesmas forças) ao serviço de Deus e do apostolado místico».

 

Os Superiores religiosos não retiravam de Loudun o Pe. Surin, porque este alegava que era o demônio quem sugeria tal medida; sim, o Maligno o queria ver longe do convento das Ursulinas, porque Surin ali o atormentava deveras. Dai a conveniência de se insistir na permanência do infeliz exorcista em seu posto... Contudo em 1637, tendo-se tornado evidente que o estado de saúde do Pe. Surin só se agravaria, caso ainda ficasse em Loudun, houveram por bem transferi-lo. Para o futuro, durante quase vinte anos, teve que ser vigiado como criança, devendo as janelas de seu quarto estar munidas de grades. Os próprias Padres da Companhia de Jesus e, em geral, os seus contemporâneos o tinham na conta de possesso; apenas hesitavam a respeito da causa da possessão: teriam sido os pecados do Pe. Surin que o haveriam tornado vítima do demônio ? Ou tratar-se-ia de mera provação a que Deus queria submeter o seu fiel servo? Quem não chegava a admitir possessão diabólica no caso de Surin, julgava ao menos que estava louco; conjeturavam que Deus assim quisesse humilhar um servo que Ele outrora agraciara e que se ensoberbecera pelas graças do Senhor.

 

Uma vez passada a pior fase da crise, o Pe. Surin lançava um olhar retrospectivo sobre a mesma, concebido nestes termos:

«Um sacerdote de grande autoridade (o célebre e virtuoso Pe. Jacquinot) aceitou ouvir toda a minha confissão. Quebrei-me a cabeça examinando e bisbilhotando a minha consciência; eu não era capaz de grande esforço naquela época, por causa da fraqueza de meu cérebro. O mais doloroso é que eu só tinha confiança naqueles que interpretavam as coisas da pior maneira. Realmente essas situações são terríveis, pois a alma, assim enfraquecida, fala como se dissesse as coisas mais sérias do mundo e o confessor... não pode distinguir o princípio que a leva a agir assim...

Só havia um Padre que conhecesse adequadamente o meu estado durante todo o tempo da minha tribulação (o Pe. Bastidio): zombando do que diziam os outros, ele fazia todo o possível para me fortalecer. Eu, porém, julgava que ele estivesse enganado, fugia dele... e dele desconfiava como de um ilusor...

Um homem ponderado e muito provecto sustentava que se exercia sobre mim um secreto julgamento de Deus, o qual me quisera rebaixar, porque eu tentara subir demais. Outros acrescentavam que... tendo eu desejado tomar as asas da contemplação, Deus permitira que eu fosse humilhado nesse caminho espiritual, em que tanta gente se perde. O único sacerdote que reconhecia meu verdadeiro estado, não merecia crédito da minha parte, de modo que meus males ficavam sem remédio humano, a fim de que tudo dependesse da misericórdia divina» (Le triomphe... 257-259).

 

Finalmente aos 22 de abril de 1665 o Pe. Surin faleceu em Bordéus.

 

Antes de passar a uma apreciação objetiva do caso, importa-nos aqui pôr em evidência mais alguns textos em que o ardente amor do Pe. Surin a Deus e sua profunda têmpera mística bem se podem apreciar.

 

Assim escrevia ele num de seus dias mais acabrunhados:

«Todos os nossos interesses estão perdidos; nada mais há quê fazer. Contudo, o interesse de Deus subsiste; é preciso trabalhar pela causa de Deus. Meus pecados mereceram-me a condenação ao inferno, onde já não há amor... Todavia isto em nada diminui o serviço que devo prestar ao meu grande Senhor» (Boudon-Bouix, pág. 119s, citado por Brémont, Histoire... V 258s).

 

«Basta que Deus seja Deus para que seja digno dos nossos serviços» (Bouix, prefácio do «Traité inédit»; cf. Brémont, ob. cit. 258s).

 

Referindo-se aos escritos intitulados «Dialogues Spirituels», Surin observa o seguinte:

«Ditei o primeiro volume... meu espírito se dilatava cada vez mais. Fui ditando ulteriormente. Um dia eu sentia em mim ardente desejo de comunicar os meus pensamentos; sofria, porém, porque o secretário estava tardando a chegar. Tomei então a pena com impetuosidade e, embora já houvesse dezoito anos que eu nada escrevia, redigi duas ou três páginas, com tais caracteres que não me pareciam formados por mão humana, de tão confusos que eram. Por essa época, um de meus amigos levou-me consigo para a sua casa de campo; tomei então uma pena que se achava sobre a mesa na qual havíamos almoçado e, continuando a obra, escrevi sem interrupção até a ceia. Assim foram terminados os quatro volumes de «Diálogos Espirituais», que se tornarão o que Deus quiser» (Le triomphe... 284.287).

 

2. Como julgar os fatos

 

O caso do Pe. Surin foi tido até época recente como fenômeno de possessão diabólica. Hoje em dia, com o progresso dos estudos de Psicologia, percebe-se que a explicação por recurso ao demônio é supérflua, pois se trata de sintomas ocorrentes em situações de desequilíbrio nervoso ou de alienação mental. Por conseguinte, os estudiosos modernos, mesmo católicos, já não falam de possessão no caso de Surin, embora os observadores do séc. XVII e o próprio Pe. Surin fizessem uso desta explicação (enganaram-se porque, como dissemos, a ciência humana ainda não estava habilitada a esclarecer a estranheza dos acontecimentos; o engano não envolve o magistério infalível da Igreja, que não se manifestou sobre o assunto).

 

Quais seriam então os fenômenos psíquicos anômalos registrados na história do Pe. Surin?

Seriam aproximadamente os que apontamos ao abordar a escrita automática (psicografia) em «P. R.» 43/1961, qu. 1.

1)       Em primeiro lugar, verifica-se elevado grau de sugestionabilidade, a qual leva facilmente a estados de delírio, alienação ou histeria ( cf. artigo anterior do presente fascículo).

 

Com efeito. No caso de Loudun, a opinião pública, de acordo com o modo de pensar da época, admitia, sem discutir, que se tratava de possessão diabólica coletiva; em consequência, travava contra o Maligno o mais aparatoso combate, levando para as igrejas da cidade as Ursulinas tidas como possessas a fim de serem exorcizadas em público. É o Pe. Surin quem atesta:

 

«Todas as igrejas de Loudun estavam ocupadas pelos exorcistas, e a afluência do povo era prodigiosa, para ver o que acontecia: não houve um só exorcista que não fosse tomado em possessão pelo demônio; eu mesmo fiquei possesso em primeiro lugar».

 

Como se vê, a sugestão era contagiosa. Naturalmente ela afetou o Pe. Surin, que foi para Loudun com os nervos já abalados e a saúde notoriamente debilitada. Nisso nada há de misterioso.

2)       O segundo fenômeno psicológico a registrar no caso é o de desdobramento ou reduplicação da personalidade.

 

Horrorizado pelas sugestões que pretensamente o Maligno lhe incutia (sugestões a pecados de luxúria e ao suicídio), o Pe. Surin não as podia assimilar a si; atribuía-lhes então um sujeito próprio, um «Eu» diferente do seu próprio «Eu», instalado no seu íntimo, como se fosse uma segunda alma ou uma segunda personalidade de Surin. Esse novo «Eu» seria o «Eu» diabólico, do qual o Padre se julgava possesso.

Também é Surin quem declara:

 

«Quando quero fazer, por movimento de uma dessas duas almas, um sinal da cruz sobre a minha boca, a outra me desvia a mão com grande rapidez e me agarra o dedo com os dentes a fim de me morder de raiva».

 

Aliás, como sabemos, a reduplicação da personalidade não é característica exclusiva dos pretensos possessos diabólicos, mas se verifica também nas manifestações de psicografia ou escrita automática, na «descida de um espírito evocado» sobre o respectivo médium e em fenômenos congêneres.

 

Os casos de dupla personalidade têm sido mais e mais estudados pelos psicólogos e médicos, que já os conseguem explicar satisfatoriamente; em última análise, não são mais do que conflitos entre o consciente e o subconsciente de determinado individuo. A personalidade dita «primeira» (Primus) é a personalidade social, que o individuo forjou conscientemente por seu regime de educação e instrução; a personalidade dita «segunda» (Secundus) é a que sobrevém,derivando-se da atividade subconsciente do mesmo sujeito, atividade que costuma ser muito mais rica e complexa do que a consciente; dado um choque nervoso qualquer, essa atividade reúne alguns dados contidos na subconsciência e sugeridos pelas circunstâncias do momento; projeta-os então na consciência do indivíduo, vindo a manifestar-se como um segundo «eu» frente ao primeiro. Em geral, verifica-se que entre os dois «eu» há tendências antagônicas (o segundo é muitas vezes megalomaníaco, perverso, sexual,...) — o que dá a impressão de que a pessoa está realmente dividida, dilacerada ou possuída por outrem.

 

3) Ao contrário do que se dava e dá em muitos outros casos de obcecação nervosa, a ideia fixa de que sofria o Pe. Surin não lhe tirava a lucidez da mente para tratar de assuntos de espiritualidade. Sendo assim, ainda que se julgasse possesso e condenado, o Padre não deixava de exprimir seus ardentes anelos de união com Deus: concatenava ideias e doutrinas referentes à vida de oração e à experiência mística de Deus; estava mesmo em condições de expor tais ideias, elucidando as almas a respeito. Para tanto, bastava-lhe conservar o amor reto e puro ao Senhor, que ele desde cedo na sua vida havia começado a cultivar.

 

Os escritos de Surin são numerosos, versando todos eles sobre ascética e mística. Junto com os do Pe. Lallemant S. J., pertencem ao genuíno patrimônio da espiritualidade cristã do séc. XVII; notável foi a sua influência sobre posteriores escritores, como os PP. de Caussade, Grou, de Cloriviêres (séc. XVIII); Bossuet e Fénelon, no séc. XVII, muito os estimaram. Ainda hoje as obras de Surin são lidas e saboreadas com grande proveito para as almas.

 

O caso desse famoso jesuíta é altamente significativo para mostrar que os achaques de saúde, mesmo quando acometem o psíquico (o que não é raro em nossos dias, cuja doença característica dizem ser a neurose), não fecham ao cristão o caminho da progressiva união com Deus. Surin, sofrendo de deficiências nervosas em grau extremo, sujeito a depressões e angústias cruciantes, se elevou pelas veredas da experiência mística de Deus. O segredo de seu êxito consistia simplesmente em ser dócil à vontade do Senhor, aceitando humildemente as disposições da Providência a seu respeito; sempre que gozou de lucidez de mente e domínio sobre si, procurou unir-se a Deus, esquecendo-se ou perdendo-se a si mesmo numa total entrega ao Pai Celeste. Este não pede o que a criatura não está habilitada a dar; Ele julga a cada um exclusivamente na base das suas respectivas aptidões. Por conseguinte, nenhum cristão cederá à sugestão de que está condenado à mediocridade ou ao inferno; nem mesmo as debilidades físicas e psíquicas lhe farão perder a esperança de crescente união com Deus. O que se lhe pode e deve recomendar, é que nunca desanime (já o desânimo é vitória parcial de Satanás), mas, ao contrário, empregue os esforços necessários para bem utilizar os seus períodos de lucidez mental; entregue-se então generosamente ao serviço do Senhor segundo as suas possibilidades. Vivendo assim, tal cristão permanecerá sob o influxo contínuo da graça de Deus, que não deixará de o santificar.

 

3. Doença e genialidade

 

Em complemento de quanto até aqui foi dito, os psicólogos observariam — e com razão — que genialidade e doença são valores intimamente associados entre si na vida dos homens. Em outros termos: frequentes são os casos de grandes heróis ou gênios da humanidade que tiveram suas manifestações de desequilíbrio ou anormalidade psíquica.

 

Entre outros, podem-se citar os casos seguintes:

 

O poeta francês Vítor Hugo (+1885) pertencia a uma família profundamente marcada por anomalias nervosas: seu irmão Eugênio e sua filha Adélia foram alienados mentais. O próprio Vítor, principalmente depois dos seus cinquenta anos, cedeu a obsessões, alucinações; não obstante, gozou de excepcional poder criador em literatura; as imagens jorravam na sua mente com facilidade extraordinária e eram expressas num estilo poético ainda hoje admirável.

 

Algo de semelhante se deu na família do filósofo alemão Ludwig Feuerbach (+1872). Essa família produziu três gerações de homens particularmente prendados: Anselm, famoso perito em criminologia, seus cinco filhos (dos quais Ludwig foi filósofo) e seu neto Anselm, pintor. Contudo as taras hereditárias dessa linhagem são notórias.

 

Podem-se citar outrossim as palavras do artista francês Proust (+1932), que aos 24 anos de idade assim escrevia:

«Quando eu era criança, nenhuma personagem da história sagrada me parecia ter sofrido sorte tão miserável quanto Noé, por causa do dilúvio, que o manteve detido na arca durante quarenta dias. Mais tarde, estive muitas vezes doente, e por longos dias a fio também tive que permanecer na arca. Compreendi então que nunca pôde Noé ver melhor o mundo do que quando estava na arca, embora esta se achasse fechada e houvesse noite sobre a terra» (citado por P:-H. Simon, em «Les désordres de l'homme». Paris 1961, 195).

 

Com estas palavras, Proust exaltava o valor da doença para aguçar a intuição que o homem tem habitualmente sobre o mundo e a vida. Tal valor se compreende bem: pondo em xeque a vida do paciente, a doença é apta a excitar a emotividade e a imaginação do enfermo que tenha temperamento mais vibrátil: ela lhe proporciona uma experiência inédita, um «arrepio» estranho; comunica-lhe, como se diz, «um novo índice de retração», ou seja, uma visão original do mundo, desvendando-lhe aspectos despercebidos em condições normais. Em consequência, o doente particularmente emotivo tenderá a exprimir essa experiência inédita em atitudes de conduta ou em peças de arte que são ditas geniais; a sua genialidade assim se terá desencadeado e manifestado por ocasião da doença. Esta vem a ser o elemento que catalisa o gênio. Para o escritor contemporâneo Tomaz Mann, o gênio se manifesta em consequência de equilíbrio precário entre vitalidade e enfermidade.

 

O mesmo Tomaz Mann conclui numa linguagem talvez ousada, mas não destituída de veracidade:

 

«Há conquistas da alma... que são impossíveis sem a doença, sem a loucura...: os grandes enfermos são pessoas crucificadas, são vítimas imoladas à humanidade e ao desenvolvimento desta... em poucas palavras:... imoladas à melhora de saúde do gênero humano. Daí a auréola religiosa que cerca tão evidentemente a vida desses homens doentes... Daí também decorre nessas vítimas a consciência de levarem uma vida monstruosamente exaltada em meio a todos os sofrimentos» (citado por P.-H. Simon 201).

 

Apraz ainda lembrar as palavras de Sêneca (+66 d. C.), que, por sua vez, se referia a Aristóteles:

«Nullum magnum ingenium sine mixtura dementiae. — Não há grande gênio sem mistura de demência» (De tranquillitate animae).

 

Note-se que nesta frase a loucura é tida como uma das componentes do gênio, não, porém, como equivalente ao mesmo.

 

Os depoimentos acima bem parecem corresponder à realidade. A sua mensagem valiosa e altamente construtiva merece toda a atenção do leitor.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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