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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 045 – setembro 1961

 

DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO

PEDAGOGIA

MAE DE FAMÍLIA (São Paulo): «Como julgar a celeuma suscitada pelo Plano de Diretrizes e Bases da Educação Nacional'? Diz-se, entre outras coisas, que esse projeto equivale a um golpe contra a Escola Pública, democrática, em favor de interesses particulares, aristocráticos!»

 

O Plano de Diretrizes e Bases da Educação Nacional tem provocado um alarde muitas vezes injusto, pois a experiência vem mostrando que bom número dos que o discutem não o conhecem exatamente. De outro lado, acontece que os opositores do projeto frequentemente o apresentam desfigurado, como se fosse obstáculo à escola pública ou instrumento de interesses financeiros de cidadãos e entidades particulares.

 

Na verdade, o debate em torno do famoso projeto está longe de ser questão de distribuição de verbas ou de administração do ensino. Em última análise, o alcance do projeto ultrapassa a esfera dos especialistas; afeta diretamente a família brasileira ou mesmo cada cidadão em particular. Com efeito, «Diretrizes e Bases» representa toda uma filosofia ou uma concepção geral do homem e da vida, de tal modo que os adversários do projeto, consciente ou inconscientemente, representam outra filosofia, radicalmente diversa da anterior. Em consequência, o «Sim» ou o «Não» dito ao projeto significa, em última análise (talvez nem todos tenham consciência disto), uma tomada de posição geral perante o homem, a família e o Estado.

 

É o que a exposição abaixo tentará evidenciar, analisando sucessivamente as linhas características e a oportunidade do Plano de Diretrizes e Bases.

 

1. As características do Projeto

 

1.A. Família e Estado diante do direito de educar

 

Distinguimos duas maneiras de apreciar o homem, frontalmente opostas uma à outra.

 

1) Pode-se considerar o homem como personalidade, isto é,

como ser dotado de inteligência e liberdade, responsável portanto por seus atos e, consequentemente, portador de direitos e deveres Indevassáveis.

 

A personalidade está imediatamente relacionada com a família, onde ela nasce e se desenvolve normalmente.

 

As famílias unidas entre si dão a nação. Esta é dirigida por um governo civil (o Estado), cuja tarefa vem a ser «pro- mover o bem comum das famílias e dos indivíduos», respeitando a responsabilidade, a liberdade e os direitos de cada qual, sem os absorver. Ao Estado compete estabelecer os princípios necessários para que as iniciativas livres dos membros da sociedade não redundem em dispersão, esfacelamento ou injustiça, mas, ao contrário, haja colaboração harmoniosa em prol do bem comum. A atuação do Estado assim concebida nunca chegará a ser tal ou tão íntima que equivalha a padronização ou a sufocação do direito que a cada cidadão compete, de desenvolver livremente a sua personalidade.

 

Dentro desta ideologia, EDUCAÇÃO vem a ser direito e dever dos genitores, pois a prole (como quase continuação de seus pais) pertence a estes e com eles integra a família. Ao Estado toca o papel de secundar e favorecer a função dos pais, sem tomar dianteira sobre eles, antes garantindo-lhes a liberdade de escolher o tipo de educação e a escola que quiserem destinar a seus filhos. Às famílias, portanto, o Estado há de fornecer ou suas escolas (escolas ditas «públicas») ou os necessários subsídios financeiros para que, após livre opção, as famílias pobres possam, não obstante a sua pobreza, exercer o direito de educar seus filhos no educandário particular que lhes satisfaça, sem estarem obrigadas a seguir a escola do Estado.

 

É a esse modo de ver que se chama «pensamento democrático» ou simplesmente «democracia». Numa palavra: estima o homem como algo mais do que um ser material, destinado a produzir e consumir bens materiais; respeita no homem valores morais, que o relacionam diretamente com Deus, fazendo que a personalidade humana não seja toda e exclusivamente voltada para a sociedade visível e para Este mundo terrestre.

 

2) Doutro lado, deve-se registrar a ideologia do totalitarismo, seja direitista (fascista), seja esquerdista (marxista). Pode-se dizer que o totalitarismo transfere para o Estado todos os direitos, de modo que o individuo na sociedade só goza dos direitos que o governo se digne de conferir-lhe. O ser humano é assim reduzido à categoria de mera unidade dentro de uma massa padronizada, que tem que pensar e querer como o Estado ou o governo pensa e quer.

 

Em consequência, entende-se que a EDUCAÇÃO venha a ser considerada tarefa da alçada exclusiva do Estado. Sim; nessa ideologia a criança não pertence aos pais ou à família, mas ao Estado. Este, subtraindo-a desde cedo à orientação dos genitores, se encarrega, mediante rijo plano de educação, de lhe incutir o modo de pensar e querer que o governo deseje. Aos pais e às entidades particulares só pode caber alguma tarefa educacional na medida em que o Estado, por mero beneplácito, a queira conceder e dentro das condições que ele estipule. — Há então escola única, padronizada, em que todos os cidadãos desde cedo são exercitados a julgar e agir do mesmo modo, sem liberdade para expandir sua própria personalidade. Um dos testemunhos mais eloquentes que a tal propósito se possam ler, é o de Benito Mussolini, o mentor do fascismo italiano, que assim falava a um jornal estrangeiro:

 

«Não admitirei que ninguém, absolutamente ninguém, ouse tocar no que pertence ao Estado. Minha fórmula é bem clara: tudo com o Estado, nada contra o Estado. A criança, assim que atinge a idade de aprender, pertence ao Estado e só a ele... e não há partilha possível» (citado por André Saint-Denis, em «Pio XI contra os Ídolos», 220).

 

O mesmo Mussolini voltava a afirmar:

 

«O Estado fascista assume todas as formas da vida moral e intelectual do homem. Ele é forma e norma interior que disciplina toda a pessoa, e penetra a vontade assim como a inteligência («Dottrina», citado por Jules-Bernard Gingras, Initation à la science politique, pág. 47).

 

Como se vê, no Estado totalitário fascista é o governo quem dita o modo único de pensar, querer e agir de todos os cidadãos, e o dita a começar da idade mais tenra dos indivíduos, desde a escola primária. O mesmo se dá nos regimes totalitários da extrema esquerda, os quais costumam ser veementes implantadores de suas ideias:

 

Haja vista, por exemplo, o que se deu em Cuba, onde uma das primeiras medidas de Fidel Castro foi o fechamento das escolas particulares (cf. «Diário de Notícias» do Rio de Janeiro, de ll/VI/61, 2» clichê, dorso).

 

Levem-se em conta as Constituições dos governos marxistas modernos, como a da Alemanha Oriental, datada de 7 de outubro de 1949 : nos artigos 34-40 declara não admitir a escola particular.

 

A Constituição da Tcheco-eslováquia, de 9 de junho de 1948, no seu § 13,2, prescreve: «A instrução básica é única, obrigatória e gratuita.». No § 14,2: «O Estado controlará todo o ensino e toda a educação, que se hão de ministrar de tal maneira que sejam conformes com os resultados das pesquisas científicas e não estejam em desacordo com o regime popular democrático».

 

A Constituição da Bulgária, de 4 de dezembro de 1947, determina que «a Instrução é leiga e marcada pelo espírito democrático e progressivo» (art. 70, alínea 1«); «a lei pode autorizar escolas particulares sob o controle do Estado» (art. 70, alínea 3a).

 

A Constituição da Iugoslávia, de 31 de janeiro de 1946, reconhece possa a lei autorizar escolas particulares, desde que controladas pelo Estado (art. 38, alínea 3).

 

2. Estabelecidas estas duas maneiras de conceituar o homem e a sociedade, pergunta-se qual a posição de «Diretrizes e Bases» em relação a elas?

 

O Plano de Diretrizes e Bases se situa precisamente sob a inspiração da ideologia democrática: proclama ser a educação um direito dos genitores e da família, cabendo ao Estado a obrigação de respeitar e fomentar tal direito, sem possibilidade de jamais o sufocar.

 

Eis como se abre o referido Plano :

 

«Titulo I

 

Art. 1». A educação nacional, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por fim:

 

a)   a compreensão dos direitos e deveres da pessoa humana do cidadão, do Estado, da família e demais grupos que compõem a comunidade;

b)   o respeito à dignidade e às liberdades fundamentais do homem;

 

d) o desenvolvimento integral da personalidade humana e a sua participação na obra do bem comum.

 

Art. 2®. A educação é direito de todos e será dada no lar e na escola.

 

Parágrafo único. A família cabe escolher, com prioridade, o gênero de educação que deve dar a seus filhos.

 

Art. 3*. O direito à educação é assegurado:

 

I)   pela obrigação do Poder Público e pela liberdade de iniciativa particular de ministrarem o ensino em todos os graus,, na forma da lei em vigor;

 

II)  pela obrigação do Estado de fornecer recursos indispensáveis para que a família e, na falta desta, os demais membros da sociedade se desobriguem dos encargos da educação, quando provada a insuficiência de meios, de modo que sejam asseguradas iguais oportunidades a todos.

 

Título II

 

Art. 2o. É assegurado a todos na forma da lei o direito de transmitir seus conhecimentos, não podendo o Estado favorecer o monopólio do ensino».

 

Analisemos sumariamente o significado destas declarações básicas:

 

Como se vê, o projeto coloca no centro de toda a atividade educacional a pessoa humana (art. 1»), o que quer dizer : reconhece a todo cidadão liberdade de pensamento, direitos e deveres, em função dos quais são concebidos os direitos e deveres do Estado (e não vice-versa).

 

Consequentemente, afirma o projeto que a educação começa no lar, seguindo (é óbvio) a orientação que os genitores e familiares lhe queiram dar; continuando na escola, a educação deverá naturalmente estar em harmonia com os princípios ministrados no lar; o que implica (como, aliás, o projeto explicitamente declara no § único do art. 2') em liberdade dos pais na escolha do sistema educacional pelo qual hão de encaminhar seus filhos. Não se tolera, portanto, que o Estado monopolize a escola de modo a só deixar subsistir um tipo de educandário ao qual as famílias (concordem ou não) se devam conformar. Ao contrário, aos pais será fornecida ampla escala de educandários, que compreenderá tanto os de iniciativa particular (inspirados pela orientação filosófica e religiosa que os respectivos diretores lhes quiserem dar) como os de iniciativa do Estado (orientados pelas normas que o governo houver por bem ditar, dentro dos termos do respeito à personalidade) .

 

Está claro que dentro dessa variegada escala de educandários há de se observar um mínimo de legislação comum. Por conseguinte, o Estado terá o inegável direito, e mesmo a obrigação, de formular os estatutos necessários para que as iniciativas dos educadores particulares não redundem em dispersão de forças e confusão, mas, antes, convirjam harmoniosamente para a consecução do bem comum. Tais estatutos poderão ser tão minuciosos quanto isto for necessário para o bem da nação, nunca, porém, a ponto de padronizar a educação.

 

3. De duas maneiras preenche o Estado o seu papel de Auxiliar as famílias no esforço educacional:

 

3.1) Criando escolas públicas para todos os graus de ensino.

 

Contudo, se o Estado apenas cuidasse de abrir escolas públicas, obrigaria os particulares pobres (impossibilitados de pagar a escola particular) a renunciar ao seu direito de escolha: a posição do pobre seria de avassalamento a escola publica ou ao ensino ministrado pelo Estado, o que é antidemocrático. Por conseguinte, a fim de evitar Este mal, o Estado, além de criar suas escolas, deverá auxiliar a família também.

 

3.2) fornecendo os meios financeiros indispensáveis para que os genitores necessitados possam, caso o desejem, recorrer à escola particular.

 

Destarte o governo fará que a pobreza não seja motivo para que a família renuncie a direitos legítimos, caindo, em certo grau, no servilismo ao governo.

 

Donde se vê que não é justo preconizar, sejam os recursos públicos aplicados Cinicamente na fundação e manutenção de escolas públicas. Este adágio que, à primeira vista, parece sumamente equitativo, em última instância equivale a suma iniquidade; redunda, sim, em exploração do pobre por parte do Estado, pois Este, deixando de subvencionar os particulares na tarefa educacional, os estará privando simplesmente do exercício de um de seus mais legítimos direitos. A liberdade seria então privilégio dos ricos, enquanto os pobres ficariam reduzidos a servir.

 

Vêm multo a propósito aqui algumas frases do Papa Pio XI, que resumem quanto acaba de ser dito :

 

«É certo que o Estado não pode nem deve desinteressar-se da educação dos cidadãos, mas hã de contribuir sòmente com aquilo que o Individuo e a família não podem fazer por sl mesmos. O papel do Estado não é, pois, absorver, devorar ou aniquilar o Indivíduo e a família, o que seria um absurdo, contrário à natureza, pois a família existe antes da sociedade, antes do Estado. O Estado não pode portanto, desinteressar-se da educação, mas sua parte de contribuição é uma colaboração destinada a prover o que é necessário e suficiente para ajudar e aperfeiçoar a ação da família; deve corresponder plenamente aos desejos do pai. e da mãe e, acima de tudo, respeitar o direito divino da Igreja» (Pio XI, alocução aos alunos de Mondragone, de 14 de maio de 1929. Atos de S.S. Pio XI, t. 5, pág. 116-120).

 

1.B. Escola pública ou escola única?

 

Afirmando a liberdade de educação, o Projeto de Diretrizes e Bases de modo nenhum se opõe à escola pública, como tantas vezes se diz; apenas preconiza a coexistência pacifica de escola pública e escola particular, a fim de que os cidadãos não sejam avassalados pelo Estado. A experiência bem ensina que se o Estado hão subvenciona os educandários particulares e as famílias, a escola particular dificilmente subsiste: ela baixa de nível e tende a desaparecer.

 

O projeto, portanto, não é contrário à escola pública, mas à escola única, de tal modo que aqueles que o combatem em nome da escola pública, como se esta fosse lesada por tal lei, parecem, em última análise, ter em mira defender a escola única, a escola totalitária e, consequentemente, um regime de governo totalitário em lugar de governo democrático.

 

Pará confirmar esta conclusão, pode-se citar o fato de que as ordens de comando do Partido Comunista Internacional para seus delegados na América Latina visam explorar as campanhas em prol da escola pública como instrumentos em prol da escola totalitária ou única. Estas ordens não estariam sendo executadas pelos adversários do Projeto de Diretrizes e Bases, que, na verdade, não teriam motivo para protestar em favor da escola pública, se em última análise não estivessem servindo à escola única?

 

Com efeito, sabe-se que, de acordo com instruções emanadas de Pequim (centro de propaganda encarregado de prover à campanha comunista na América Latina), os marxistas elaboraram um programa de ação, que o escritor C. Godoy, em seu livro «Plano para a América Latina», comenta minuciosamente, referindo nos seguintes termos algumas das normas oriundas de Pequim:

 

«A titulo de centros ativos da luta, será necessário implantar em todas as partes Comitês de Ajuda à Escola Pública, que servirão para o recrutamento de simpatizantes não comunistas. Nessa luta, os comunistas devem preocupar-se em conquistar a direção. Para isso deverão ser recrutados especialmente professores filiados à Federação Internacional dos Sindicatos de Ensino.

 

Além disso, o plano (comunista) trata da preparação de um Congresso de Apoio à Escola Pública, que serviria para mobilizar todas as forças laicas e anticlericais disponíveis e articular a ofensiva cultural e antirreligiosa comunista no plano internacional latino-americano».

 

Sumariamente : o reconhecimento da personalidade humana, de sua liberdade, de seus direitos e deveres em geral e, de modo especial, no tocante à educação, eis a nota mais marcante do Projeto de Diretrizes e Bases.

Devem-se agora salientar alguns outros traços, que se deduzem naturalmente do que acabamos de enunciar.

 

1.C. Distribuição de recursos para a educação

 

O art. 94 do Plano leva explicitamente em consideração a distribuição de auxílios financeiros às famílias para que estas possam escolher livremente a escola que desejarem :

 

«Art. 94. A União proporcionará recursos a educandos que demonstrem necessidade e aptidão para estudos, sob duas modalidades:

 

a)   bolsas gratuitas para custeio total ou parcial dos estudos;

b)   financiamento para reembolso dentro de prazo variável, nunca superior a quinze anos,

 

§ 1o  Os recursos a serem concedidos sob a forma de bolsa de estudos... poderão ser aplicados pelo candidato em estabelecimento de ensino de sua livre escolha».

 

Este artigo, que alguns julgam nocivo à escola pública, está longe de ser tal. O Projeto não cria nem amplia subvenções à escola particular; apenas mantém o que está sendo concedido, visando assegurar ainda melhores resultados, sem detrimento para o ensino público. De resto, todo vestígio de dúvida se dissipa desde que se leia o art. 93 do Projeto, em que é professada uma certa preferência em favor da escola pública:

 

«Art. 93. Os recursos a que se refere o artigo 169 da Constituição Federal, serão aplicados preferencialmente na manutenção e desenvolvimento do sistema público de ensino de acordo com os planos estabelecidos pelo Conselho Federal e pelos conselhos estaduais de educação, de sorte que se assegurem:

 

1.    o acesso à escola do maior número possível de educandos;

2.    a melhoria progressiva do ensino e o aperfeiçoamento dos serviços de educação...»

 

E que estipula o art. 169 da Constituição Federal?

 

— Ei-lo:

 

«Anualmente a União aplicará nunca menos de dez por cento, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios nunca menos de vinte por cento da renda resultante dos impostos, na manutenção e desenvolvimento do ensino».

 

Falando-se de custeio da educação, não se poderia deixar de lembrar aqui que o ensino particular resulta consideravelmente mais barato do que o ensino oficial.

 

«Estabelecido o custo médio por aluno, no curso de um ano, verifica-se que o custo do ensino secundário ministrado por estabelecimentos particulares é quatro vezes menor do que o fornecido por estabelecimentos oficiais; com relação ao custo do ensino superior, a diferença é de seis vezes menor em favor, dos estabelecimentos particulares; face ao ensino normal, dez vezes mais barato é o ensino ministrado nos estabelecimentos privados.

 

Interessante será conhecer as conclusões a que chegou a Comissão Parlamentar de Inquérito, constituída em 1957 para 'investigar o alto custo do ensino particular no Brasil". Após ouvirem os mais destacados educadores do país e examinar anuidades e salários vigentes nestes últimos anos em cerca de 2.200 estabelecimentos de ensino médio, a Comissão Parlamentar apurou não haver exagero nos preços atualmente cobrados pelos estabelecimentos de ensino particular, desde que satisfeitas as exigências de ordem material e pedagógica d0 Ministério da Educação'. O encarecimento do ensino nesta última década, em média de 150 %. nem foi proporcional à alta geral do custo de vida, que chegou a 300 %. Mais ainda, verificou a ilustre Comissão que os estabelecimentos oficiais gastam per capita,

 

com seus alunos, muito mais do que cobram os educandários particulares mais caros. Fosse a verba que se aplica na manutenção desses educandários oficiais empregada em abonos escolares, poderia estudar, gratuitamente, em escolas particulares um número bem mais elevado de alunos necessitados (Sérvulo Master, O Estado e a escola particular, pág. 11).»

 

O texto acima foi-transcrito do estudo «Diretrizes e Bases da Educação Nacional» da autoria do Prof. José Sanseverino. Porto Alegre 1960, pág. 67s.

 

Note-se que, sendo cara e dispendiosa para o Estado, a escola pública vem a ser naturalmente cara e dispendiosa para o povo.

 

Replica-se, porém: têm-se verificado abusos dos particulares na aplicação das verbas que o Estado lhes enviai

 

— O abuso não extingue o uso. Dado que se registrem tais abusos, o remédio não há de ser a extinção das subvenções, mas, sim, o controle por parte do Estado, a fim de assegurar o emprêgo legítimo dos dinheiros públicos; sem dúvida, o governo tem o direito de fiscalizar o destino dado às contribuições que ele outorga.

 

Seja licito, aliás, chamar a atenção para o seguinte particular (ao lado do qual muitos outros semelhantes se poderiam citar): em 1958, dentre 472.819 alunos matriculados em educandários católicos, 137.273 receberam instrução gratuita, enquanto 30.238 gozavam de mais de 50 % de redução da respectiva anuidade. Isto bem mostra que as escolas particulares podem desempenhar um serviço público não desprezível.

 

1.D. Flexibilidade dos programas de ensino

 

O Plano de Diretrizes e Bases reconhece aos estabelecimentos de ensino a possibilidade de adaptar seus currículos às exigências da população que os frequenta. Desta forma a instrução se torna muito mais viva e penetrante, perdendo a nota de artificialidade estéril que muitas vezes tem, desde que se queiram seguir os mesmos programas de ensino em diversas regiões do pais.

 

No Brasil entende-se que as populações do Norte, do Nordeste, do Centro è do Sul tenham seu nível cultural próprio e, por conseguinte, suas indigências especificas no setor dos programas escolares. Essas exigências tornam necessária a flexibilidade dos programas de ensino, cabendo ao Estado estipular o mínimo de matérias e princípios a ser observados na organização dos currículos, a fim de que não haja prejuízo do bem comum nos esforços educacionais dos particulares.

 

1.E. Certa descentralização da administração do ensino

 

Em vez de concentrar a administração do ensino numa única entidade como é o Ministério da Educação e Cultura, o Projeto desmembra-a, confiando-a a três órgãos: o Ministério da Educação, o Conselho Federal e os Conselhos Estaduais de Educação.

 

Os Conselhos Estaduais constituem Inovação na matéria, inovação porém, oportuna, pois seu papel principal consiste precisamente em adaptar as leis gerais do ensino às circunstâncias particulares de cada Estado, tornando assim o sistema geral de educação mais significativo e eficaz. Esses Conselhos serão integrados tanto por técnicos do governo como por representantes do ensino particular, de acordo com o art. 10 do Projeto.

 

1.F. Reconhecimento de estudos e diplomas

 

O Plano estipula que os estudos efetuados nos educandários públicos e particulares serão igualmente reconhecidos para todos os fins:

 

«Não haverá distinção de direitos, para qualquer fim, entre os estudos realizados em estabelecimentos oficiais e os realizados em estabelecimentos particulares reconhecidos» (art. 19).

 

Este artigo (ao qual fazem eco os art. 5 e 58) decorre logicamente da existência da escola particular. Teve grande repercussão principalmente entre as normalistas do Estado da Guanabara, onde somente as alunas diplomadas pelo Instituto de Educação, mantido pelo governo, podem ingressar no magistério oficial.

 

Ora evidentemente Este dispositivo da Guanabara, além de ser pouco justo em si, fere frontalmente a Constituição Federal Brasileira, que no seu art. 184 reza:

 

«Os cargos públicos são acessíveis a todos os brasileiros, observados os requisitos que a lei estabelecer».

 

Donde se vê que não se pode vedar a um grupo de brasileiros o acesso a cargo público pelo simples motivo de não possuir diploma fornecido por estabelecimento oficial, quando a existência dos estabelecimentos particulares é reconhecida pela própria Constituição Federal no seu art. 167. Fora da Guanabara, qualquer jovem diplomada por escola normal pode pleitear colocação no magistério oficial.

 

2. Um confronto...

 

Finalmente, para a orientação de quem deseje proferir um juízo objetivo sobre a Lei de Diretrizes e Bases, parece oportuno oferecer um confronto entre esse Plano e dois outros documentos que norteiam a democracia no Brasil: a Constituição Nacional de 1946 e a Declaração Internacional dos Direitos do Homem, promulgada pela Organização das Nações Unidas (ONU) aos 10 de dezembro de 1948.

 

 

A folha anexa apresenta esse confronto, transcrito (após adaptação necessária) da revista «Presença» n» 6, marco de 1961 (Rua Miguel Lemos 97, Rio de Janeiro, GB).

 

A guisa de complemento da tabela anexa, pode-se observar ainda o seguinte:

 

O Protocolo Adicional da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, firmado em 1952 pelo Conselho da Europa, estipula :

 

«Art. 2. O Estado, no exercício das funções que assumir nos domínios da educação e do ensino, respeitará o direito dos pais de assegurar essa educação e esse ensino de acordo com suas convicções religiosas e filosóficas».

 

A XVIII Conferência Internacional de Instrução Pública promovida pela UNESCO e pelo Bureau Internacional de Educação em Genebra (julho de 1955) dispôs :

 

«Convém coordenar esforços para outorgar todo o auxilio ao ensino particular, quer se trate de subvenções ou subsídios de doação de equipamento ou de material escolar, de cessão de pessoal de ensino público, de auxilio social a cargo dos poderes públicos, etc.».

 

Estes poucos dados contribuirão para evidenciar a orientação sadia que inspirou o projeto de «Diretrizes e Bases da Educação». Na hora atual pode-se dizer que representa o pensamento democrático e cristão da nação brasileira.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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#0•A2865•C522   2014-02-27 14:58:50 - Convidado/Janislei
Essa é mais uma guerra cultura em que os cristãos precisam estarem lutando.

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