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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 044 – agosto 1961

 

A RELIGIÃO BAHAI

HISTÓRIA DAS RELIGIÕES

TITO (Salvador): «Que dizer da Fé Bahá’i, que recentemente realizou uma de suas convenções no Rio de Janeiro?

O Evangelho mesmo, em Jo 14,25s e 16,12s, não prediz novas revelações públicas de Deus no decorrer dos tempos?»

 

A Fé Bahá’i constitui uma modalidade nova de Religião, que procuraremos explanar, propondo os respectivos precedentes históricos, as suas principais linhas doutrinárias e, por fim, um juízo sobre o assunto.

 

1. Preliminares históricos

 

A religião de Baha se prende a algumas tendências do Islamismo tal como ele era vivido na Pérsia do século passado.

Havia com efeito, uma corrente de piedade muçulmana, dita «dos Xiitas», que aguardava a vinda de um Messias (Qa'im) à terra, desde o séc. IX d.C. (isto é, desde o ano 260 da era muçulmana tal como esta era calculada pelos Xiitas).

 

Ora, 1000 anos após o início desta expectativa, isto é, em 1844 D.C. (1260 da era muçulmana), surgiu na Pérsia um arauto de Deus que dizia ser o «Aguardado» ou o Bab (= Porta da Verdade, em árabe), incumbido de transmitir aos homens a nova e definitiva revelação de Deus.

 

O Bab nascera em Chiraz (Pérsia) no ano de 1812, tendo o nome civil de Mirza 'Ali Mohamed. Dotado de índole profundamente mística, abandonou o comércio, ao qual seus pais o destinavam, e foi para o Iraque ouvir os ensinamentos do famoso mestre muçulmano Sayid Kassem. Depois de visitar os santuários mais venerados do Islamismo, voltou a Chiraz e entregou-se à pregação. Para os maometanos em geral Maomé fora o selo dos profetas, a consumação das revelações divinas, de modo que ao aguardado Arauto dos Xiitas só podia caber a missão de purificar a religião mesma do Corão e difundi-la pelo mundo inteiro. Não foi, porém, este o encargo que Bab atribuiu a si: aos 23 de maio de 1844, apresentou-se como portador de nova revelação, baseada em novo Código sagrado; quebrando assim as tradições muçulmanas da Pérsia (onde o Islamismo era a religião oficial desde o séc. XVI), Bab aguçou contra si o ânimo infenso tanto das castas religiosas como das governamentais. Anexou-se-lhe, porém, um grupo de 17 varões e uma mulher, grupo cognominado «Epístola do Vivente», o qual o tinha na conta de Ser Divino; com o Mestre sofreram violentas perseguições. No fim de sua vida Mirza 'Ali Mohamed transferiu o título de Bab («Porta da Verdade») para um de seus seguidores, e veio a morrer executado em praça pública de Chiraz, aos 9 de julho de 1850, por um pelotão de soldados. Uma vez desaparecido o fundador da comunidade, os discípulos de Bab foram entretendo as idéias do Mestre, até que um deles, Mirza Husain 'Ali Nuri Bahá'u'llah (1817-1892) no ano de 1863 proclamou ser a Manifestação por excelência da Divindade ou também o Grande Manifestante da Divindade prometido para «os últimos dias» ou ainda «Aquele que Deus haveria de manifestar». Bab teria sido apenas seu Precursor.

 

Aceito como Chefe Supremo por seus correligionários, Bahá'u'llah remodelou por completo as doutrinas e práticas legadas por Bab; um dos sinais mais evidentes dessa mudança é a troca do nome «Babis», com que se designavam os discípulos de Bab, pelo de «Bahá'is». Os ensinamentos de Bahá'u'llah tendiam a dar à religião um caráter menos árabe e muçulmano, mais universalista ou patente a todos os homens; menos se importavam com metafísica e mística, mais se voltavam para a ética; conseguiram destarte que a sua nova sociedade não ficasse sendo insignificante seita muçulmana. Na esperança de congregar a humanidade inteira sob uma única religião, Bahá'u'llah dirigiu mensagens escritas ao xá da Pérsia, Nasiru'd-Din Shah, à Rainha Vitória, da Inglaterra, ao Czar da Rússia, ao Imperador Napoleão III, da França, assim como a Sua Santidade o Papa!

 

Bahá'u'llah e seus adeptos, considerados como revolucionários religiosos, não deixaram de sofrer perseguição por parte das autoridades civis e do povo da Pérsia, vindo o novo Mestre a falecer exilado em Acca na Palestina aos 29 de maio de 1892. Ao morrer, Bahá'u'llah confiou a seu filho Abbas Efendi (também chamado 'Abdu'l-Bahá, o servo de Bahá) a missão de difundir as suas crenças e manter contato com os Baha'is do mundo inteiro. Por conseguinte, hoje encontram-se comunidades da Fé Bahá'i espalhadas por quarenta nações e territórios, tanto orientais como ocidentais, congregando cerca de dois milhões de membros; mais de 500 comunidades se acham situadas na Pérsia mesma; nos Estados Unidos da América do Norte, contam-se aproximadamente 90 núcleos. No Brasil, a Fé Bahá'i reúne perto de 200 adeptos. Um dos grandes centros mundiais da nova religião é o Monte Carmelo, para onde foram transferidos os despojos mortais de Bab; nos EE.UU. existe outro notável templo bahá'i em forma octogonal (para significar a universalidade da crença; oito simboliza plenitude, segundo a mística dos números!).

Analisemos agora as principais linhas doutrinárias do bahaismo.

 

2. Os característicos da mensagem Bahá'i

 

2.1 A Fé Bahá'i, como se depreende dos precedentes históricos, se deriva do Islamismo. Ora, já que este aproveitou muitos temas do Judaísmo e do Cristianismo, não nos surpreendemos por encontrar na religião bahá'i alguns traços das Escrituras do Antigo e do Novo Testamento.

 

Os bahais professam a existência de um só Deus, distinto do mundo, portanto não identificado com a natureza ou com o homem; abraçam assim um credo monoteísta, não panteísta ou monista (nisto divergem das religiões da Índia e do Extremo-Oriente, que são panteístas). O Deus Único, conforme os bahais, se dá a conhecer por seus profetas: Moisés, Daniel, Cristo, Maomé... (nesta linha, Cristo vem a ser apenas «um sábio educador da humanidade, assistido e confirmado por um poder divino»). Com Bahá'u'llah as manifestações da Divindade chegaram finalmente à consumação, de sorte que para a Fé Bahá'i convergem todas as demais crenças religiosas da humanidade: Judaísmo, Cristianismo, Islamismo, Budismo, Hinduísmo, etc. A religião de Bahá está consequentemente fadada a ser a religião universal, na qual todos os homens se aproximarão e unirão entre si; em vista deste objetivo, a nova religião muito se ocupa com a paz do mundo a ser obtida mediante instituições internacionais assim discriminadas:

 

«O bahá'i almeja estabelecer uma nova civilização. Trabalha em prol da paz entre as nações; ainda mais, esforça-se por promover harmonia entre todas as raças, religiões e classes. O Guardião da Fé dá-nos uma descrição adequada do «padrão para a sociedade futura», o qual inclui um sistema federal mundial, com uma legislatura mundial para formular as leis necessárias; um executivo mundial que tenha o apoio de uma força internacional, a fim de levar a efeito as decisões tomadas por essa legislatura; um tribunal mundial que pronuncie seu veredicto compulsório e final em qualquer disputa surgida entre os vários elementos constituintes desse sistema universal; um idioma mundial a ser ensinado nas escolas de todas as nações federadas como auxiliar às línguas nativas. Segundo seu conceito os recursos econômicos do mundo seriam de tal modo organizados que nenhum povo se achasse desprovido» (A. Honnold, Introdução a edição brasileira do livro de Abdu'l-Bahá, Respostas a algumas perguntas. Rio de Janeiro 1959, pág. 14).

 

Na sua antropologia, a Fé Bahá'i admite a existência, no homem, de um princípio espiritual ou de uma alma imortal. Esta vive uma só vez na terra; não se reencarna; contudo após a morte, separada do corpo, ainda pode evoluir e aperfeiçoar-se. De resto, assaz vagas e, por vezes, pouco coerentes entre si são as afirmações do bahaísmo a respeito da vida póstuma. Tal religião não possui nem ritual nem cerimonial nem sacerdócio hierárquico. Muito mais se ocupa com preceitos de ética do que com proposições de filosofia e metafísica.

 

2.2. A despeito da sua sobriedade em questões de doutrina, os ensinamentos baháis são explícitos e extravagantes no tocante à mística dos números, dos nomes e das letras!

 

O número sagrado, por excelência, é 19, pois a expressão «Em nome de Deus benigno e misericordioso», em árabe se escreve com 19 letras; estas, portanto, são consideradas como a «Manifestação» da Divindade. Acontece outrossim que o conceito de Unidade é muito caro aos muçulmanos, pois exprime a essência da Divindade; ora a palavra Wahid (= Um) compõe-se de quatro letras que representam respectivamente os algarismos 6, 1, 8 e 4 e que, somadas, dão o total 19. Este número, portanto, também a tal título, é símbolo da Divindade. Em terceiro lugar, observam os bahá'is que o. atributo o «Vivente» (Hayy), característico da Divindade, se escreve com letras cuja soma é 8 + 10 = 18; adicionando-se a isto a unidade (base de toda a multiplicidade), chega-se mais uma vez ao total 19. Consequentemente, Bab escolheu 18 discípulos, que com ele integravam um grupo de 19 pessoas, constituindo «a Epístola Vivente» ou a Primeira Unidade».

 

Mais ainda: o produto 19 X 19 (= 192), ou seja, o número 361, também é santo, pois representa o mundo inteiro; com efeito, as palavras Kullu shay (= todas as coisas) constam de letras árabes cujo valor numérico é respectivamente 20, 30, 300 e 10; a estes números acrescentando-se a unidade (que é o fundamento pressuposto pela pluralidade), atinge-se o total 361 (=19 x 19 ou 192). Em resumo: o número 19 é o símbolo de Deus, ao passo que 192 é o do Universo, segundo a mística que os baháis construíram recorrendo ao vocabulário árabe.

 

Dada a importância do número 19, a religião de Bahá tende a tomá-lo como base dos seus sistemas cronológico e monetário. Assim o ano bahá'i compreende 19 meses de 19 dias cada qual; a esses 361 dias acrescentam-se mais 4, a fim de haver correspondência com o ano solar, adotado pelo calendário internacional dos povos; os mesmos nomes (Baha, Jalal, Jamal...) que designam os meses, designam também um dos dias de cada mês, de modo que uma vez por mês o dia e o mês são indicados pelo mesmo nome; tal dia é sempre festivo para os baháis. — A cunhagem de moedas que tomava por base o número 19, teve de ser abandonada por se evidenciar pouco prática.

 

A mística bahá'i dos números tem aplicação na maneira cifrada de aludir às cidades que desempenharam papel importante na história da propagação da nova fé: assim Adrianopla, chamada Edirne em turco, é pelos baháis cognominada Arzu’s-Sirr (a terra do mistério), visto que os nomes Edirne e Sirr são equivalentes à cifra 200, portanto equivalentes entre si. A cidade de Zanjan (=111) também é dita Arzul’-A’la (-111). Neste setor, prepondera como critério a intuição subjetiva dos devotos, critério que nem todos os homens aceitam.

As noções acima já bastam para procurarmos formular

 

3. Um juízo sobre a Fé Bahá'i

 

Do sistema ideológico dos baháis focalizaremos apenas a respectiva posição fundamental. Se esta for comprovada vã, está claro que todo o edifício da nova fé se mostrará inconsistente.

 

3.1. A posição fundamental da nova religião é a de Manifestação suprema do Deus Uno, manifestação que deve consumar tudo quanto foi dito pelos profetas anteriores (Abraão, Moisés, Cristo, Maomé).

Ora tal esquema, relativista e eclético, é muito ilusório; não resiste a sereno exame da lógica.

 

Na verdade, Abraão, Moisés e Cristo se situam em linha homogênea, ascensional; são arautos progressivos da revelação divina, de sorte que as suas respectivas mensagens se concatenam entre si. Já em «P.R.» 25/1960, qu. 3 ficou explanado como Cristo corresponde exatamente às expectativas e profecias do Antigo Testamento (ou seja, de Abraão, Moisés e dos demais porta-vozes de Deus em Israel); entre as profecias de Israel e a obra de Cristo há nexo lógico resultante de sábia pedagogia divina, a qual, adaptando-se à capacidade de compreensão do homem, passou de ensinamentos mais rudimentares para doutrinas mais perfeitas. Destarte os profetas de Israel se relacionam com Cristo como o caule com seu fruto ou como etapas preparatórias com seu termo definitivo.

 

Entre o Cristianismo, porém, e o Islamismo (que lhe sobreveio no cenário da história seis séculos mais tarde), já não há continuidade, mas, antes, um hiato. Maomé herdou o monoteísmo e algumas sublimes proposições das Escrituras judaico-cristãs, mas fundiu-as com crenças pagãs grosseiras. Embora julgasse ser o consumador da Revelação Divina anterior, propôs um sincretismo, que significava desvio ou mesmo retrocesso doutrinário e moral correspondente ao ardor do temperamento árabe (como se acha exposto em «P.R.» 33/1960,, qu. 6). Numa palavra: a mentalidade da religião islâmica, embora tenha seus rasgos de ardente mística, fica aquém da mentalidade do Evangelho (tenham-se em vista, para não citar outros particulares, a permissão de poligamia e o conceito de «guerra santa»). Sendo assim, vê-se que não tem cabimento apresentar a Fé Bahá'i como consumação homogênea dos credos religiosos anteriores (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo). Não somente o Cristianismo, mas também o Islam, como vimos, não reconhece nessa nova religião o desabrochar homogêneo do seu patrimônio; é demais subjetiva e fantasista para poder ser tida como o fruto da maturidade da religião de Maomé. De resto, Bahá'u'llah, para tentar congregar todos os homens sob a sua religião, teve que deixar de lado muitos dos elementos característicos que o Islamismo lhe apresentava e que seu precursor Bab ainda adotava.

 

3.2 Eis, porém, que os discípulos de Bahá'u'llah apelam para o texto mesmo do Evangelho de Jesus Cristo, para tentar mostrar que este não constitui senão uma etapa provisória na história das revelações divinas.

 

Os trechos focalizados são as seguintes palavras de Jesus na última ceia:

Jo 14,25s: «Eu vos disse estas coisas, estando ainda convosco. O Paráclito, porém, o Espírito Santo, que o Pai mandará em meu nome, Ele vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo que Eu vos disse».

 

Jo 16,12s: «Tenho ainda muitas outras coisas a dizer-vos, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade Ele vos levará à verdade completa. Não falará por si mesmo, más vos dirá tudo que tiver ouvido e vos anunciará o que há de acontecer».

 

Estes textos não forneceriam base para a concepção bahá'i de Revelação progressiva?

 

A fim de se perceber o seu alcance, faz-se .mister considerá-los separadamente.

 

a) Em Jo 14,25s, Jesus dá por encerrada a sua missão doutrinária; está tão próximo da morte que as suas comunicações com os Apóstolos já lhe parecem pertencer ao passado. Não obstante, Ele sabe que seus ouvintes estão longe de haver compreendido tudo. Quem então prosseguirá a missão de Jesus? — Será o Espírito Santo, que o Pai celeste há de enviar em nome de Cristo, ou seja, para substituir Cristo e falar em nome de Cristo (cf. Jo 14,25s). A função do Espírito Santo, diz Jesus, consistirá não apenas em preservar do esquecimento os ensinamentos do Divino Mestre, mas também em ajudar a penetrar o sentido de tais ensinamentos. — Pergunta-se: esta promessa de Jesus visava os Apóstolos apenas ou também os seus sucessores, no corpo docente da Igreja até o fim dos séculos? Esta última sentença merece franca preferência, pois é claramente sugerida pelo contexto do capítulo 14; este consigna promessas várias referentes aos tempos de ausência do Senhor, extensivas portanto às gerações que se deviam seguir aos Apóstolos. Note-se, porém: a missão do Espírito Santo é determinada com precisão; limita-se àquilo que Jesus ensinou, não consiste em comunicar verdades novas ou em fazer ulteriores revelações, mas em ilustrar o sentido profundo das proposições ensinadas por Cristo. Justamente baseando-se na assistência do Espírito Santo, a Igreja tem sabido, no decorrer dos séculos, tirar do depósito revelado por Cristo modalidades doutrinárias antigas e novas; Ela está habilitada a dar, em todos os tempos, juventude e vigor à única mensagem do Evangelho, sem ter que aguardar nova revelação divina no curso da história.

 

b) Passemos agora aos dizeres de Jo 16,12s. Não são propriamente paralelos aos de 14,25s; supõem que os Apóstolos não estejam, no momento, devidamente capacitados para entender tudo que Jesus lhes quer ensinar; em consequência, promete o Senhor que, mais tarde, o Espírito Santo completará os ensinamentos de Cristo, não somente ilustrando e aprofundando, mas também estendendo a mesma, a fim de levar os ouvintes à plenitude da revelação cristã. Neste contexto, o Espírito Santo aparece, sim, como Portador de verdades novas, não comunicadas por Cristo, verdades que os Apóstolos, ainda comparáveis a criancinhas na ordem sobrenatural, não poderiam assimilar diretamente dos lábios de Jesus. Depois de Pentecostes, tal incapacidade já não se verificaria; os Apóstolos então estariam aptos a entender a plenitude da mensagem do Evangelho que o Espírito Santo lhes haveria de comunicar. Quanto aos sucessores dos Apóstolos, já não se ressentiriam da insuficiência momentânea em que se achavam os Apóstolos por ocasião da última ceia, pois começariam a conhecer o Cristo depois de Pentecostes, isto é, depois que o Espírito Santo tivesse derramado a sua presença e os seus dons sobre a Igreja. Por conseguinte, a comunicação de novas verdades anunciada por Jesus em Jo 16,12s se restringe aos Apóstolos apenas, não se estende aos seus sucessores; com a morte do último dos Apóstolos encerrou-se a revelação divina proposta por Cristo e pelo Espírito Santo. Não há dúvida, nos decênios que transcorreram entre a Ascensão do Senhor (a 33 ?) e a morte de São João (cerca do ano 100, fim da era apostólica), o Espírito Santo comunicou aos Apóstolos verdades que estes anteriormente não teriam compreendido (dai falar-se, na Igreja, de «tradições divino-apostólicas», válidas como regra de fé ao lado das tradições escritas ou do Evangelho). Jesus, de resto, frisava bem que esse ensinamento do Espírito Santo não seria estranho nem heterogêneo em relação ao de Cristo; antes, procederia da mesma fonte suprema, ou seja, do Pai Celeste...: «Não falará por si mesmo, mas vos dirá tudo que tiver ouvido e vos anunciará o que ha de acontecer... Receberá do que é meu, e vo-lo anunciará» (Jo 16,13s).

 

Os Apóstolos, por sua vez, tinham consciência de que a mensagem do Evangelho é a definitiva comunicação de Deus aos homens na história deste mundo. Era tal consciência que eles exprimiam quando afirmavam que «os últimos tempos ou a última hora haviam chegado» (cf. 1 Jo 2,18; 1 Pd 4,17). «último», no caso, não significa posição na ordem cronológica (não insinua portanto, proximidade do fim do mundo) mas designa a fase definitiva da história religiosa do gênero humano; após a vinda de Cristo não se espera mais nenhuma revelação oficial de Deus aos homens nem algum novo estatuto de salvação. A história do mundo poderá ainda protrair-se por milênios...; o Senhor Deus, porém, não mudará essencialmente os meios de salvação outorgados mediante a pregação e a cruz de Cristo.

 

Sobre revelações particulares feitas a almas justas e santas no decorrer dos séculos cristãos, cf. «P.R.» 19/1959, qu. 4 e 5.

 

3.3. Por fim, ainda uma observação parece oportuna. Pode-se verificar que os movimentos religiosos ou as «religiões novas», em nossos tempos, não raro se apresentam cada qual como «religião de cúpula» ou «consumação dos credos anteriores»; pretendem dar em plenitude aquilo que dizem estar esfacelado de maneira infantil nos demais sistemas religiosos. Para congregar todos os homens sob a sua égide, esses novos credos reduzem ao mínimo as suas proposições doutrinárias e insistem principalmente na ética natural, ou seja, na reta conduta de vida que a consciência por si mesma incute a todo indivíduo. Tal posição parece magnânima e generosa; na verdade, é capciosa: sob o rótulo de plenitude e maturidade religiosas, bajula, de um lado, o orgulho e, de outro lado, a tendência dos homens ao menor esforço. Sim; tais modalidades de religião, em que o subjetivo prepondera sobre o objetivo, são relativamente cômodas; na realidade, equivalem a apostasia religiosa camuflada; são, por parte do homem, o desvirtuamento ou o abandono do autêntico senso religioso... Em tais movimentos modernos, Religião deixa de constituir algo de absoluto; vem a ser considerada como sistema de morigeração e beneficência, que o homem é livre de fundar, fundir, refundir e desfazer, segundo o seu bom senso pessoal. Deus passa a ser praticamente tratado como projeção da mente humana, não como Criador e Absoluto Senhor, do qual o homem tenha que aprender, por meio de sinais objetivos e concretos, a pratica da Religião ou o caminho de volta ao seu Autor!

 

Com estes dizeres damos por caracterizada a posição fundamental da Fé Bahá'i. Se tal atitude se manifesta precária, precária ou errônea há de ser a nova Fé ou a pretensa «religião de cúpula».

 

A Divindade de Cristo já foi sumàriamente demonstrada em «P.R.» 8/1957, qu. 1.

Sobre a veracidade dos Evangelhos, cf. «P.R. 7/1958, qu. 4.

E a respeito da Igreja Católica como instituição divina, veja «P.R.» 39/1961, qu. 2.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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