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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 043 – junho 1961

CONCÍLIO ECUMÊNICO: PREPARATIVOS

DOGMÁTICA

ENGENHEIRO (São Paulo): «Poder-se-ia fazer um balanço de quanto até agora se disse e fez em vista do próximo Concílio Ecumênico?»

 

Em nossa resposta, supondo o que já foi dito em «P. R.» 18/1959, qu. 2 e 3 sobre a natureza, as funções e o histórico dos concílios ecumênicos, deter-nos-emos primeiramente sobre os passos principais já dados, e ainda por ser dados, para a realização do próximo Concilio Ecumênico (desde já, designado como «II Concílio do Vaticano»); a seguir, examinaremos o que se refere ao ternário ou aos assuntos a serem provavelmente abordados pelo mesmo.

 

1. As etapas do percurso

 

1. O Concilio do Vaticano (20º ecumênico) em 1870 foi prematuramente suspenso por irrupção da guerra franco-alemã, deixando inacabado o seu programa de estudos (que versavam, em grande parte, sobre a natureza da Igreja).

 

A necessidade de se prosseguir o grande certame fazia-se sentir na Igreja, quando o Santo Padre o Papa Pio XI em sua primeira encíclica («Ubi arcano Dei») no ano de 1922 houve por bem observar:

 

«Não ousamos decidir-Nos a proceder, sem mais, à reabertura do concílio ecumênico iniciado pelo Santo Pontífice Pio IX..., concílio que só levou a termo uma parte (muito importante, aliás) do seu programa. O motivo da nossa hesitação é que desejamos, como o célebre guia dos israelitas (Moisés), esperar, na atitude suplicante da oração, que Deus, bom e misericordioso, nos manifeste mais claramente a sua vontade».

 

Aguardando essa manifestação, Pio XI, pouco depois, mandava a uma comissão de teólogos que tomasse em mãos as Atas do Concílio I do Vaticano e se encarregasse de preparar o eventual reatamento dos trabalhos do mesmo concílio.

 

Terminado sem novidade, nesse setor, o governo de Pio XI, o Sto. Padre Pio XII também se mostrou solícito pelo assunto: sob as suas ordens, durante vários anos um grupo seleto de eclesiásticos trabalhou no planejamento de novo Concílio (conforme declaração feita pelo Cardeal Tardini após a morte de Pio XII, isto é, aos 20 de outubro de 1959); o mesmo Pontífice levou o Cardeal Constantini a redigir um esquema de estudos de 200 páginas, tendo em vista um concílio sobre a unidade dos cristãos no mundo.

 

2. Ora logo nos primórdios do seu Pontificado o Santo Padre João XXIII, aos 25 de janeiro de 1959, anunciou finalmente a convocação de um Concilio Ecumênico, obedecendo (como S. Santidade mais tarde explicou) a uma inspiração sobrenatural:

«Consideramos como inspiração de Deus o fato de que, pouco após a nossa elevação à Sé Apostólica, nos veio, qual flor espontânea de inesperada primavera, a idéia de celebrar um concílio ecumênico» («Motu próprio» de 5 de junho de 1960).

 

Sem delongas, ou seja, aos 18 de maio de 1959 (festa de Pentecostes), foi instituída oficialmente uma Comissão Antepreparatória do Concílio, presidida pelo Cardeal Domingos Tardini, a qual entrou em contato com os bispos do mundo inteiro, os núncios, os Superiores Maiores das Ordens e Congregações Religiosas, as Universidades e Faculdades Católicas, pedindo as sugestões de cada qual para a elaboração do programa de estudos do magno certame. As respostas foram chegando a Roma, as mais variadas possíveis, num conjunto de cerca de 3.000 (aproximadamente 80 % de correspondência às solicitações feitas), todas muito francas, algumas equivalentes a verdadeiras brochuras. A Comissão as classificou ordenadamente, fichou-as conforme a importância dos assuntos abordados e os países de sua origem; finalmente mandou-as para o prelo, donde saíram quinze volumes impressos.


Esta primeira etapa preparatória encerrou-se por volta de Páscoa de 1960. O seu significado merece ser realçado: ela manifesta a tendência do Santo Padre João XXIII a valorizar de modo especial a voz comum do episcopado, assim como dos fiéis do mundo inteiro; não há dúvida, o Papa conserva sua suprema autoridade, que ele pode exercer, em assuntos de fé e costumes, sem recorrer à contribuição doutrinária e visível dos bispos; a convocação, porém, e os preparativos imediatos do Concílio visam realçar que o ensinamento do Sumo Pontífice não é algo de heterogêneo na Igreja; nada tem de ditatorial ou arbitrário, mas em última análise não constitui senão a cristalização do senso comum de toda a Santa Igreja, a partir do mais humilde dos fiéis. Num concílio ecumênico o Santo Padre se pronuncia de comum acordo com os bispos do mundo inteiro, depois que cada um destes forneceu suas experiências e seu parecer (positivo ou negativo); assim se manifesta que aos bispos postos em comunhão com o Papa toca individualmente uma parcela do poder doutrinário e legislativo da Santa Igreja.

 

3. Na segunda etapa preparatória, que está atualmente em curso, foram instituídas, de acordo com os temas apontados nos depoimentos colhidos, dez Comissões e dois Secretariados, além de uma Comissão de cúpula ou central e dois Comitês laterais (um, encarregado do Cerimonial do Concílio, e o outro, do financiamento respectivo). Aos 14 de novembro de 1960, o Santo Padre, em solene sessão, inaugurou oficialmente os trabalhos dessas equipes, de sorte que atualmente cerca de 730 pessoas (teólogos e juristas) se acham, em Roma e fora de Roma, entregues a intensa atividade de estudos, redação de pareceres, reuniões deliberativas, etc.; já que vários desses estudiosos não residem na Cidade Eterna, é por correspondência postal que eles entram em contato com os colegas de trabalho.

 

A lista completa dos membros das Comissões e Secretariados abrange aproximadamente 50 Cardeais, 215 Patriarcas, arcebispos e bispos, 218 prelados e sacerdotes seculares, 239 Religiosos e 8 leigos, escolhidos através dos cinco continentes do mundo, entre as figuras de maior competência na Santa Igreja. O Santo Padre, após ouvir bispos, núncios, Superiores Gerais de Ordens Religiosas e especialistas, os designou oficialmente, podendo ampliar o quadro respectivo, conforme as exigências das futuras tarefas. Também os países da Cortina de Ferro estão representados nesse conjunto: a Polônia, com 11 nomes; a Iugoslávia, com 10; a Ucrânia, com 5; a Romênia, com 3; a Hungria, com 3; a China, com 3; a Lituânia, com 1; a Rússia, com 1 (emigrado, como bem se entende).

 

Das doze equipes mencionadas, três constituem órgãos de trabalho que até agora não tiveram similar na história da Igreja. São a Comissão do Apostolado dos Leigos, o Secretariados dos Meios modernos de Difusão (imprensa, rádio, televisão, cinema) e o Secretariado em prol da União dos Cristãos; constituem indicio (te quanto a Santa Igreja vai acompanhando a vida moderna e as novas questões que esta suscita hoje em dia.

 

4. Eis o catálogo completo das Comissões de Estudos do Concílio:

 

4.1 Comissão de Teologia

Presidente: S. Em. o Cardeal Alfredo Ottaviani.

Secretário: Pe. Sebastião Tromp S. J.

 

A Comissão é de importância particular. Dela se espera o estudo de certas doutrinas que requerem formulação mais precisa perante as necessidades e dúvidas do mundo atual: tais seriam principalmente as questões concernentes à S. Escritura e à sua interpretação, à estrutura da Igreja e às funções dos bispos, ao papel dos leigos no Corpo Místico. É de notar que nesta Comissão foram incluídos, como consultores, dois sacerdotes que nos últimos anos muito se salientaram por dar especial atenção à mentalidade moderna: o Pe. Yves Congar O.P. e o Pe. Henri de Lubac S.J.

 

4.2 Comissão dos Bispos e do Governo das Dioceses

Presidente: S. Em. o Cardeal Paulo Marella.

Secretário: Mons. José Gawlina.

 

A Comissão deve provavelmente estudar a concessão de mais amplos poderes aos bispos no regime de suas dioceses, assim como as relações entre o Prelado Diocesano e os Religiosos no exercício da cura de almas. Merecer-lhe-á também especial atenção o problema do fluxo e refluxo de populações em nossos dias, às quais a Sta. Igreja tem procurado dar assistência religiosa. A América Latina, com seus problemas, parece estar no centro dos horizontes desta Comissão.

 

4.3 Comissão da disciplina do clero e do povo cristão

Presidente: S. Em. o Cardeal P. Ciriaci.

Secretário: Pe. Cristóvão Berutti O.P.

 

No setor de atribuições desta Comissão, o termo «disciplina» tem sentido muito largo: abrange as necessidades de nova repartição do clero e de organização de paróquias, a fim de se assegurar a cura de almas em regiões desprovidas e melhorá-la onde ela já existe. A Comissão possivelmente interessar-se-á pela assistência aos sacerdotes idosos, pelo clero domiciliado dentro da Cortina de Ferro e pelos padres vítimas de grave queda moral; poderá considerar outrossim o uso do hábito talar hoje adotado. Não deixará de atender, por outro lado. ao que diz respeito à atualização da catequese e do ensino religioso do povo cristão,... ao desenvolvimento das associações e confrarias religiosas.

 

4.4 Comissão dos Religiosos

Presidente: S. Em. o Cardeal Valério Valeri.

Secretário: Pe. José Rousseau O.M.I.

 

Esta Comissão deve focalizar problemas de recrutamento das Ordens e Congregações Religiosas, multiplicação de instituições similares (que dispersam as forças, em vez de as concentrar), adaptação às circunstâncias da época atual (principalmente certas famílias religiosas femininas se ressentem de um gênero de vida pouco condizente com a realidade do séc. XX), trabalho e clausura das monjas; também merecerá especial carinho o agrupamento dos Religiosos em Conferências que possibilitem a melhor realização de tarefas comuns.

 

4.5 Comissão dos Sacramentos

Presidente: S. Em. o Cardeal Aloísio Masella.

Secretário: Pe. Raimundo Bidagor S.J.

 

Entre os temas a ser examinados por esta Comissão, assinalam-se vários de grande importância prática: assim, no tocante ao sacramento do matrimônio, uma nova formulação de certos impedimentos, entre os quais o de «honestidade pública» (impedimento existente entre um varão e as consanguíneas de sua concubina, e vice-versa); a ulterior determinação de outros impedimentos à luz dos progressos atuais da Medicina (tenha-se em vista principalmente a impotência; cf. «P. R.> 11/1958, qu. 6). — A propósito do sacramento da Ordem, presume-se venha a ser considerada a restauração das funções do diaconato e das ordens menores (ostiário, leitor, exorcista e acólito). No setor da Eucaristia, há quem muito deseje a restauração da S. Comunhão sob as duas espécies para todos os fiéis, assim como certas remodelações dos livros da S. Liturgia que tornem o culto católico mais claro e significativo. Também se julga possam ser estudadas novas concessões de jurisdição aos sacerdotes para administrarem mais fàcilmente os sacramentos da penitência e da crisma.

 

4.6 Comissão dos Estados e Seminários

Presidente: S. Em. o Cardeal Giuseppe Pizzardo.

Secretário : Pe. Agostinho Mayer O.S.B.

 

O objetivo principal deste setor será a atualização da: formação dos seminaristas; a S. Igreja tende cada vez mais a fazer de seus ministros os arautos de valores eternos na linguagem de um mundo paganizado ou convulsionado pelas ameaças de energias atômicas; em vista disto, dever-se-á dar especial atenção à atualização dos programas de estudos em Seminários, às questões de sociologia moderna, medicina pastoral, psicologia, técnica de apostolado, etc. Também nos currículos de Universidades e Faculdades Católicas, há de ser empreendida semelhante atualização.

 

4.7 Comissão das Missões

Presidente: S. Em. o Cardeal G. Pedro XV Agagianian.

Secretário: D. David Mathew, arcebispo titular.

 

O problema primário desta Comissão será o da formação missionária do próprio clero indígena que trabalha em terras pagãs. Verifica-se, com efeito, que também entre os povos pagãos a serem evangelizados a mentalidade religiosa como tal, mesmo pagã, se vai esvaecendo, para ceder cada vez mais ao materialismo e ao ateísmo.

 

4.8 Comissão dos Orientais

Presidente: S. Em. o Cardeal Amleto Cicognani.

Secretário: Pe. A. G. Welykyi, da Ordem de S. Basílio.

 

Desde julho de 1054, os cristãos de Bizâncio estão separados de Roma; ao cisma aderiram sucessivamente vários povos orientais; a estes se acrescentem os que, por motivo das discussões cristológicas, se apartaram do tronco comum da Cristandade nos séc. V/VII (nestorianos e monofisitas); cf. «P. R.» 10/1958, qu. 10 e 11.

 

No decorrer dos séculos, várias tentativas têm sido feitas no sentido de promover a unidade rompida, algumas das quais foram coroadas de êxito. Em 1951 Pio XII fazia observar que os monofisitas coptas, etíopes, sírios e armênios só estavam separados de Roma «por causa de certa ambiguidade de termos ocorrente nos inícios do cisma». Contudo a ruptura persiste... Julgam os observadores que o Papa atual, João XXIII, está especialmente credenciado para favorecer a união dos cristãos, pois conhece muito bem os orientais, cuja simpatia ele despertou e cultiva zelosamente. A função da Comissão dos Cristãos Orientais não é a de entrar diretamente em conversações com os irmãos separados (isto seria talvez prematuro e, por conseguinte, frustrado), mas a de reconsiderar as normas da Igreja disciplinares (não as dogmáticas, é claro) à luz da mentalidade e das veneráveis tradições dos povos orientais; assim as questões de Direito Eclesiástico e de Liturgia que forem estudadas pelas outras Comissões do Concilio, serão reexaminadas por esta Comissão «do ponto de vista do Oriente». As autoridades da Igreja não desejam «latinizar» os orientais, impondo-lhes observâncias que no Ocidente são espontâneas, mas no Oriente seriam sufocadoras; visam, portanto, a unidade entre os cristãos, não, porém, a uniformidade artificial. Deve-se mesmo reconhecer que nos ritos e usos dos orientais vive um rico patrimônio de espiritualidade que merecerá ser sempre guardado incólume e fomentado.

 

4.9 Comissão do Apostolado dos Leigos

Presidente: S. Em. o Cardeal Fernando Cento.

Secretário: Mons. Aquiles Glorieux.

 

Este órgão de trabalho, como já observamos, não tem precedentes na S. Igreja; deve-se justamente às exigências da vida moderna.

Três Subcomissões caracterizam as atribuições de tal setor: a de Ação Social, a de Obras Educativas e a de Ação Católica. Visam todas uma análise das necessidades do mundo moderno e da contribuição que o Católico leigo pode e deve dar para a solução de tais problemas; procurarão atualizar as iniciativas antigas e tornar cada vez mais eficaz a presença da Igreja nos setores tidos como profanos (oficinas, campos, escolas e lares domésticos).

 

4.10 Comissão de Liturgia

Presidente: S. Em. o Cardeal Gaetano Cicognani.

Secretário: Pe. Annibale Bugnini.

 

Tem por objeto vários assuntos que também a Comissão dos Sacramentos considera. O ponto de vista aqui é principalmente pastoral: trata-se de dar à Liturgia uma penetração cada vez mais viva e frutuosa no povo cristão, assim como, vice-versa, de dar ao povo cristão um acesso, cada vez mais oportuno, aos ritos que santificam as almas; vem em conta, portanto, uma revisão da S. Liturgia {língua, cerimônias, horários), de acordo com as possibilidades e necessidades do comum dos homens dos nossos dias.

 

4.11 Secretariado dos Meios Modernos de Difusão

Presidente: S. Exc. D. O Connor, arcebispo titular.

Secretário: Mons. A. M. Deskur.

 

Este Secretariado compõe-se de especialistas internacionais em imprensa, rádio, televisão e cinema; corresponde a uma Comissão de Rádio e Cinema criada há anos atrás por S. Santidade o Papa Pio XII, o qual, na sua encíclica «Miranda prorsus», lembrou ao mundo que, assim como a imprensa, o cinema, o rádio e a televisão podem concorrer para a ruína moral do homem, assim muito podem contribuir para a sua educação e sua volta a Deus. É de crer, portanto, que o Secretariado de Difusão estude normas práticas para se utilizarem tais meios de propaganda na disseminação do bem; questões técnicas e questões morais deverão ser simultaneamente levadas em conta.

 

4.12 Secretariado em prol da União dos Cristãos

Presidente: S. Em. o Cardeal Agostinho Bea.

Secretário: Mons. Willebrands.

 

Este Secretariado constitui uma das inovações de maior alcance dentre os preparativos do Concilio Ecumênico.

O seu Presidente é um jesuíta alemão, que se distingue pela humildade e a erudição, tendo sido durante vários anos Reitor do Pontifício Instituto Bíblico em Roma; já de há muito está em contato com os ambientes protestantes, com os quais dialoga na base da S. Escritura. Quanto à união com os Orientais «Ortodoxos», não constitui objeto direto da atenção deste Secretariado, pois supõe especialistas próprios já congregados na Comissão Oriental (cf. no 8 desta lista). É a este órgão que compete entreter contato com todos os cristãos do Oriente, separados ou não. Prevê-se a criação, no Secretariado em prol da União dos Cristãos, de uma Subcomissão dedicada em particular aos cristãos separados do Oriente, Subcomissão que se recrutará de membros tanto da Comissão Oriental como do Secretariado pro União, os quais assim porão em comum as suas experiências e perspectivas.

 

Afirma-se na imprensa católica que também é objeto de estudo da Santa Sé a criação de uma Subcomissão dedicada a dialogar com os judeus; nos círculos oficiais da Igreja guarda-se reserva sobre o assunto, a fim de não melindrar o mundo árabe; as atribuições de tal Subcomissão teriam caráter exclusivamente religioso e não interfeririam na posição internacional ou política do judaísmo.

 

O Secretariado em prol da União dos Cristãos tem trabalhado com entusiasmo todo especial; constitui a porta aberta ou o órgão oficial mediante o qual a Santa Igreja dialoga com os filhos que se acham fora de casa. O Cardeal Bea definiu nos seguintes termos as duas finalidades da sua tarefa:

 

«Um objetivo imediato consiste em ajudar os cristãos não católicos a seguir os trabalhos do Concílio. A outra, mais ampla e geral, é a de auxiliar esses mesmos cristãos a encontrar a unidade na comunhão da Igreja Católica Romana... Será preciso, por conseguinte, que o Secretariado tome consciência exata da situação nos diversos países ou grupos... Compete-lhe também examinar os desejos dos diversos grupos a respeito da união e a maneira de lhes facilitar o caminho da unidade».

 

A fim de preencher a primeira finalidade, o Secretariado fornece periodicamente aos irmãos separados informações sobre os rumos que os preparativos do Concílio vão tomando e sobre os problemas que estão preocupando a Sta. Igreja. Notícias mais minuciosas e de caráter um tanto confidencial são enviadas a círculos de pastores e teólogos protestantes mais conhecidos. O mesmo Secretariado mantém constante contato também com as demais Comissões do Concílio a fim de as pôr a par do que pensam e desejam os irmãos separados, os quais deste modo vão sendo ouvidos na série de estudos do grande certame. Não há dúvida de que a solene «revisão de vida», empreendida pela hierarquia da Igreja nestes anos preparatórios do Concilio não visa apenas corrigir falhas dos católicos, mas se propõe também, como objetivo remoto, facilitar a unidade dos cristãos; é esta que, em última análise, «telefinaliza» todos os trabalhos presentes e futuros da grande assembleia católica.

 

Além das Comissões de Estudos acima recenseadas, colaboram nos preliminares do Concilio, como dissemos,

- o Comitê do Cerimonial, tendo por Presidente S. Em. o Cardeal Eugênio Tisserant e por Secretário Mons. B. Nardone;

- o Comitê de Finanças e Administração, cujo Presidente é o Cardeal D. di Jorio e Secretário o Mons. Sérgio Gvjerri.

 

4. Os resultados das atividades das Comissões parciais que acabam de ser enumeradas, deverão ser finalmente reconsiderados e rematados por uma

 

Comissão Central, assim constituída:

 

Presidente: S. Santidade o Papa João XXIII

Secretário : D. Pericle Felici, arcebispo.

Membros efetivos: 49 Cardeais, 5 Patriarcas, 33 bispos, 4 Superiores Gerais de Ordens Religiosas (Beneditinos, Franciscanos, Dominicanos, Jesuítas).

Consultores : 1 Cardeal, 15 bispos, 6 Prelados, 6 Religiosos.

 

Dada a importância decisiva desta Comissão, entende-se seja recrutada nas mais diversas nações, entre as figuras mais relevantes da hierarquia, sob a presidência imediata do Sumo Pontífice. Tal órgão de trabalho ainda não começou propriamente suas atividades. Caber-lhe-á, primeiramente, selecionar, dentre os diversos temas apresentados pelas Comissões parciais, aqueles que de fato deverão ser transmitidos às sessões plenárias do Concílio; algumas das conclusões formuladas pelas Comissões parciais, depois de analisadas pelo Comitê Central, poderão ser devolvidas às respectivas Comissões, a fim de serem reexaminadas e de novo formuladas. Uma vez feita a seleção dos temas, a Comissão Central elaborará os respectivos esquemas de discussão a serem submetidos aos membros do Concílio reunidos em plenário.

 

Dado este passo, finalmente o Sto. Padre chamará a Roma os «Padres conciliares» (bispos e prelados que o Código de Direito Canônico, cân. 223, estipula para o caso; cf. «P.R.» 18/1959, qu. 3). Se a convocação se fizesse em nossos dias, atingiria aproximadamente 2.816 eclesiásticos. É de presumir, porém, que só se efetue dentro de um ano ou mais, pois, apesar da solicitude com que vão trabalhando as Comissões, as tarefas são vultuosas e exigem demorada atenção.

 

Os observadores têm-se detido em conjeturas sobre a possível configuração etnológica que o Concílio tomará. Calculam que venha a se compor aproximadamente do seguinte modo:

 

- a Europa (que abrange 47 % dos católicos do mundo inteiro) enviará 38 % dos membros da assembleia;

- as Américas, com 43 % dos católicos do mundo, enviarão 31,5% dos sinodais;

- a África, com 3 % dos católicos do mundo, contará com 10 % dos conciliares.

- a Ásia e a Oceania, com 7 % dos católicos do mundo, contribuirão com 20,5 % dos membros do Concilio.

 

Como se vê, as novas nações da África e do Oriente se distinguirão por um contingente de proporções notáveis no conjunto das sessões plenárias. Este fato, humanamente falando, muito poderá contribuir para que o Concílio adote as resoluções mais atualizadas e adequadas no mundo moderno.

 

Uma ou outra voz católica (em particular, a de D. Kampe, bispo auxiliar de Limburg, na Alemanha) se tem feito ouvir, sugerindo a admissão de não católicos no Concílio, a titulo de observadores. A proposta está sendo estudada.

Importa-nos agora fixar de mais perto os prognósticos concernentes ao

 

2. Temário do Concílio

 

Os principais assuntos postos em pauta de estudos já foram catalogados no parágrafo anterior. O Sto. Padre tem recusado limitar as possibilidades de se fazerem sugestões às Comissões estabelecidas; levam-se em consideração todas as propostas que possam servir para renovar a vida cristã em nossos dias; sendo assim, uma onda de opiniões e alvitres tem afluído a Roma, sem conhecer dique algum. É o que torna difícil prognosticar com muita precisão qual será o ternário ou a «ordem do dia» das assembleias do Concilio.

Em todo caso, algumas afirmações podem desde já ser assentadas.

 

a) Como resulta do § 1, dois são os tipos de assuntos, que estão na pauta dos estudos: os temas de índole doutrinária ou especulativa, e os de caráter mais prático ou pastoral. Ora as atenções dos teólogos atualmente convergem, antes do mais, para os assuntos pastorais, ou seja, atinentes à afirmação cada vez mais eficaz da vida da Igreja na época e no mundo de hoje. Em consequência, o mesmo se verificará nas sessões do Concílio.

 

Aliás, o próprio Sto. Padre João XXIII, em sua encíclica «Ad Petri Cathedram» de 29 de junho de 1959, enunciava como finalidade do Concilio a renovação da vida dos fiéis católicos. Sim; conforme S. Santidade, o Concilio procurará «fomentar o incremento da fé, renovar a prática cristã e adaptar a disciplina eclesiástica às necessidades do nosso tempo» (ed. Vozes no 36).

 

Compreende-se bem um tal programa; estamos vivendo numa época de transição para nova cultura, caracterizada pelo espírito da técnica e por mentalidade laicizada ou mesmo materialista; para muitas almas religiosas, o afrouxamento e a apostasia constituem verdadeira sedução; em não poucas nações, a Igreja se vê reduzida a condições de evangelização de massas paganizadas. Não se trata, é claro, de retocar o dogma ou a estrutura essencial da Igreja, mas de atingir aquilo que Mons. Baron assim propunha: «A eterna juventude da Igreja deve manifestar-se em sua face externa. Essa face externa, os acontecimentos da história a recobrem necessariamente de uma veste temporal, veste temporal que está sujeita ao envelhecimento e ao anacronismo» (Carta aos fiéis de St. Louis des Français, outubro de 1960).

 

Tem-se dito — com certa razão — que a hierarquia e os fiéis católicos se encontram todos atualmente numa fase de recolhimento para revisão de vida; procura-se dar o balanço das realizações que possam ser um tanto anacrônicas na disciplina da Igreja em nossos dias. Os resultados deste balanço é que inspirarão diretamente os pronunciamentos do Concílio. Dado o caráter de «revisão» ou «exame de vida» que tem o atual período, compreende-se que a sua protelação tenha certa importância: com efeito, as questões apontadas em tal revisão não poderão ser solucionadas «de qualquer modo», dando-se atenção unicamente às reivindicações da mentalidade moderna. Não; as soluções propostas pelas Comissões de Estudos e aprovadas pelos Padres conciliares deverão ser, de um lado, plenamente eficazes e atuais no mundo presente; de outro lado, porém, deverão estar em continuidade homogênea com a pura mensagem do Evangelho e com o Espírito da Igreja, que é o Espírito da tradição cristã. Eis a base indispensável de qualquer afirmação da Igreja nos tempos modernos; se não se respeitassem estes princípios, qualquer adaptação do Catolicismo, longe de ser motivo de atração para os que estão fora dele, seria desvirtuamento, causa de perplexidade e de ruína comum.

 

Dentre os aspectos de índole disciplinar ou prática que o Concílio provavelmente focalizará, destacam-se em poucas palavras: uma Liturgia mais compreendida e vivida pelo clero e pelos fiéis (através da língua, dos ritos, da reforma do Missal e do Breviário), o diaconato como função permanente na Igreja, a ampliação das faculdades de ação e jurisdição dos bispos e dos sacerdotes nas suas respectivas dioceses, paróquias e capelanias, o despertar da consciência dos leigos e do valor do seu apostolado.

 

b) Quanto aos temas de caráter doutrinário, parece que o Concílio não promulgará nenhuma definição dogmática. Bom número de propostas, porém, sugerem que apresente ao mundo uma síntese da antropologia e da sociologia cristãs, abordando principalmente as grandes dúvidas suscitadas pelas descobertas e os empreendimentos da vida moderna: questões de origem do mundo e do homem, liberdade e democracia, emancipação dos domínios coloniais, emprego de armas atômicas, defesa da verdade e tolerância de erros na convivência social. Muitos dos interessados preconizam um pronunciamento ainda mais enérgico da Igreja a respeito do comunismo e mais íntima colaboração das diversas confissões religiosas na repressão do inimigo comum, que é o marxismo.

 

Há também quem muito deseje sejam elucidadas com precisão algumas teses referentes à natureza e à constituição da Igreja, a fim de se completar a obra iniciada pelo Concílio do Vaticano em 1870 (as relações vigentes entre a jurisdição do Sumo Pontífice e a dos bispos, funções próprias dos membros do Corpo Místico de Cristo, clérigos e leigos, etc.).

 

Não há dúvida, é vastíssimo o panorama de questões religiosas e científicas que na hora presente podem solicitar a atenção de um estudioso católico ávido de precisão e clareza. Torna-se difícil, porém, dizer quais dessas questões serão diretamente enfrentadas pelos Padres conciliares e quais as que os mesmos entregarão à aplicação particular dos eruditos ou dos centros de estudos católicos.

 

c) O grande ideal da união dos cristãos (católicos, protestantes e orientais cismáticos) esteve muito em foco por ocasião da primeira proclamação do Concilio ecumênico em janeiro-fevereiro de 1959. Durante algum tempo, julgou-se que a assembleia abordaria diretamente o assunto, entrando em diálogo com os irmãos separados. Em breve, porém, percebeu-se que qualquer tentativa em tal sentido seria prematura e, por conseguinte, fadada ao insucesso. É preciso ter paciência nesse setor e esperar que o movimento de aproximação (o qual certamente já se iniciou) se vá processando segundo o seu ritmo natural, que é lento. Contudo os trabalhos do Concílio ficam sempre voltados para a perspectiva da união dos cristãos, ainda que isto só se venha a dar em escalas parceladas e sucessivas.

 

O Sto. Padre João XXIII, de resto, mais uma vez já lembrou que, antes de interpelar diretamente os seus irmãos separados, os fiéis católicos devem procurar revigorar ao máximo a sua vida cristã, dando-lhe a expressão mais autêntica possível, a fim de que, pelo seu comportamento prático antes que por suas palavras, possam atrair os que estão fora da casa paterna. Ora é justamente a este revigoramento da vida cristã nas fileiras católicas que o próximo Concílio se propõe atender sem delongas; o revigoramento equivalerá à apresentação da genuína face da Igreja, a qual não poderá deixar de ser por si mesma altamente convidativa. Eis como prosseguia S. Santidade na encíclica «Ad Petri Cathedram», após haver proposto a renovação da vida cristã mediante o Concílio: «Sem dúvida, isto constituirá maravilhoso espetáculo de verdade, unidade e caridade, espetáculo que, ao ser contemplado pelos que vivem separados desta Sé Apostólica, os convidará a buscar e conseguir a unidade pela qual Cristo dirigiu ao Pai do Céu a sua fervorosa oração» (ed. Vozes n» 36).

 

Em outra ocasião, dirigindo-se aos pioneiros da Ação Católica Italiana (9 de agosto de 1959), o Sto. Padre assim se exprimia:

 

«Temos em vista o que mais precisa de ser consolidado e revigorado nas fileiras da família católica, em conformidade com o desígnio de Nosso Senhor. Depois de ter realizado essa penosa tarefa, havendo eliminado o que, da parte dos homens, se poderia tornar obstáculo a um encaminhamento mais rápido, apresentaremos a Igreja em todo o seu esplendor... e diremos aos nossos irmãos separados, ortodoxos, protestantes, etc.: 'Vede, irmãos, tal é a Igreja de Cristo. Esforçamo-nos por Lhe ser fiéis... Vinde, vinde: este é o caminho do encontro, da volta; vinde tomar ou retomar o vosso lugar, que, para muitos de vós, é o lugar de vossos pais'».

 

Aos 14 de junho de 1959, dizia o Sto. Padre aos alunos do Colégio Grego de Roma:

«É preciso que a Igreja se adapte; tamanha é a evolução do mundo moderno, entre os fiéis e no gênero de vida que eles devem levar... Quando Ela tiver realizado isso, voltar-se-á para os irmãos separados e lhes dirá: 'Vede o que é a Igreja, o que Ela fez, como Ela se apresenta'. E, quando a Igreja aparecer assim sadiamente atualizada, rejuvenescida, poderá dizer aos irmãos separados: 'Vinde a nós'».

 

Como se compreende, estas palavras não implicam mudança de dogma ou estrutura da S. Igreja, mas apenas de disciplina contingente (não se pode conceber reforma da Igreja, mas, sim, reformas parciais na Igreja).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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Diversos  Prática Cristã  3780 Os pecados mortais mais comuns18.68
Orações  Comuns  2773 Oração de Libertação15.07
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PeR  O Que É?  0516 O Que é a ADHONEP?13.05
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Diversos  Ética e Moral  2832 Consequências médicas da homossexualidade7.80
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PeR  O Que É?  0565 Lei Natural, o que é? Existe mesmo?7.67
PeR  Escrituras  2389 O Pai Nosso dos Católicos e dos Protestantes7.59
PeR  Filosofia  0085 De Onde Viemos? Onde Estamos? Para Onde Vamos?7.26
PeR  O Que É?  1372 Eubiose, que é?7.13
Diversos  Testemunhos  3922 Como o estudo da fé católica levou-me ao catolicismo7.12
PeR  Testemunhos  0450 Eu Fui Testemunha de Jeová6.96
Diversos  Anjos  3911 Confissões do demônio a um exorcista6.77
Diversos  Testemunhos  3465 Ex-pastor conta como fazia para converter católicos6.60
PeR  Ciência e Fé  0558 Coma Reversível e Coma Irreversível6.40
Nós estamos substituindo a ética pela estética, mais preocupados com a nossa própria imagem do que com o bem de nosso irmão.
Padre Paulo Ricardo

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