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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 042 – junho 1961

 

CASTRAÇÃO DE CANTORES

MORAL

JOSÉ (Ilha do Governador): «Que se pode dizer de certo sobre a castração de meninos outrora efetuada a fim de se lhes conservar a voz infantil de soprano?»

 

1. Já na era pré-cristã conheciam-se os efeitos da castração (ou seja, da amputação dos órgãos genitais). A puberdade acarreta naturalmente alterações da voz do menino, tornando-a tipicamente varonil; verificou-se, porém, que a castração possibilita a colaboração de um tipo de laringe de criança com tórax e pulmões de varão, o que produz a beleza e o vigor da voz de soprano infantil no adulto.

Em consequência, a mutilação sexual de meninos em vista de fins musicais e artísticos era praticada desde os tempos anteriores a Cristo.

 

2. A Moral cristã e, por conseguinte, a legislação da Igreja sempre reprovaram a castração, fosse qual fosse o seu motivo, pois tal operação implica grave retoque infligido às leis da natureza, ou seja, intervenção do homem em setor que não é do seu alcance.

 

No decorrer da história, houve, por exemplo, ascetas cristãos que se castraram voluntariamente a fim de se isentarem das tentações da carne e, portanto, do pecado de incesto. Aplicavam literalmente a si as palavras do Senhor em Mt 19,12: «Há eunucos que se castraram por causa do reino dos céus», palavras que, como se depreende do contexto, visam apenas inculcar a vida celibatária e a consequente pureza de pensamentos e afetos. A Igreja reprovou esse tipo de «violentação piedosa», vedando aos que o praticavam o acesso às ordens sacerdotais: «Se alguém se castrar, desejando reprimir as concupiscências da carne, não pela disciplina da religião e da abstinência, mas pela mutilação do corpo que Deus criou, não poderá, por determinação nossa, ser admitido a exercer alguma função clerical» (can. 21 dito «de S. Martinho de Braga» [+580], que reproduzia o can. 1 do concilio ecumênico de Nicéia [325]).

 

Houve quem praticasse a castração por motivos menos elevados, como sejam os de eugenia e racismo. Também a esses se fez ouvir a palavra da Igreja, que vai aqui interpretada por S. S. o Papa Pio XII:

 

«Nosso predecessor Pio XI e Nós mesmos fomos levados a declarar contrária à lei natural... a esterilização direta de um inocente, seja definitiva, seja temporária, seja do sexo masculino, seja do sexo feminino. A nossa oposição à esterilização era e permanece firme, pois, embora o racismo tenha perdido a sua atualidade, os homens não deixam de procurar suprimir pela esterilidade qualquer possibilidade de descendência carregada de doenças hereditárias» (Pio XII, Directives... 1230).

 

«Nem mesmo a autoridade pública, sob qualquer pretexto que seja, tem o direito de permitir ou, muito menos ainda, de prescrever ou de mandar executar a esterilização em detrimento de inocentes» (Pio XII, Directives... 1130).

 

A castração também foi praticada entre cristãos por motivos artísticos, como no caso dos cantores com voz de soprano (que os documentos da época moderna designam como «eunucos», eunuchi). Foi principalmente o Renascimento do séc. XVI, com seu espírito naturalista e mais ou menos paganizante, que deu voga a esse costume; a praxe se alastrou largamente pelo século XVII até meados do século XVIII, não somente pela Itália, mas também nas grandes cortes e nos teatros da Europa em geral, atingindo tanto a música profana como a música religiosa (tenha-se em vista, como exemplo frisante, a capela da corte da Baviera); podia acontecer que os mesmos artistas executassem nos teatros as óperas clássicas e nas igrejas certas peças religiosas.

 

O público muito estimava os cantores eunucos, pois, como se entende, só era castrado quem possuísse boas credenciais para se tornar cantor de escol; além disto, o tirocínio praticado desde a infância com assiduidade muito concorria para que tais artistas desempenhassem de maneira esmerada as suas funções. O período de maior popularidade dos eunucos vai dos tempos de Händel (1685-1759) aos de Gluck (+1787) e Mozart (+1791). Foi notável a sua influência na história da ópera, para cuja decadência concorreram, pois a colaboração de cantores castrados não podia deixar de imprimir, cedo ou tarde, um caráter de «virtuosismo» ou «preciosismo» às representações artísticas (a técnica e os meios passaram a ter maior importância do que os fins da arte).

 

3. Como se compreende, as autoridades da Igreja nunca aprovaram a castração de cantores. Em fins do século XVII, o tráfego de meninos castrados, muitos dos quais nunca se tornaram sopranos de valor, tomou proporções vergonhosas nos ambientes comerciais e profanos. Consequentemente, em 1755 o Papa Bento XIV condenou explicitamente a castração de cantores. O fato, porém, é que o costume chegou a ser aplicado até mesmo a participantes do coro da Capela Sistina, onde as mais belas vozes eram muitas vezes devidas a varões castrados; o Papa Leão XIII (1878-1903) interveio, proibindo de maneira definitiva tal praxe no coro da Sistina. Os últimos cantores castrados que se exibiram em teatros profanos, foram Crescentini (+1846) e Velluti (+1861). Precederam-nos, gozando de grande fama: Baldassare Ferri (1610-1680), cujas representações foram disputadas por vários soberanos de corte à porfia; Francesco Bernardi, dito Senesino (1680-1750), um dos artistas mais admirados no séquito de Händel; Gaetano Maiorano, chamado Caffarelli (1703-1780), o qual tanto dinheiro ganhou que pleiteou a posse de um Ducado; Carlo Broschi, cognominado Farinelli, (1705-1782), cuja pureza de voz não pôde ser reproduzida nem por outra voz humana nem por algum instrumento musical...

 

Do ponto de vista moral, a castração de meninos cantores constitui não somente grave falta contra a natureza, mas também clamorosa injustiça, pois prejudica a evolução psicossomática de crianças, tornando-as ineptas para a vida conjugal. Mesmo que a criança consinta em sua castração, a operação fica sendo ilícita, pois o menino só a pode aceitar por efeito de um processo persuasivo que equivale a verdadeira sedução do inocente para o mal.

 

Na medida em que indivíduos cristãos cederam à praxe da castração infantil, merecem reprovação. Saiba, porém, o historiador distinguir entre aquilo que os cristãos praticaram e praticam, de um lado, e aquilo que, de outro lado, a Igreja oficialmente ensina e manda; os erros dos cristãos não recaem sobre a Igreja, que é a primeira a apontá-los aos seus filhos.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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